sábado, 30 de junho de 2007

Inventário


— Você mantém sua posição? - perguntou o diretor, o olhar duro e ausente.
— Sim - respondeu, firme, sem deixar que a voz a traísse.
— Então, vou ter de lhe pedir o cargo. Não se esqueça de transferir a carga patrimonial.
Com os olhos úmidos, deixou a sala e pegou o celular para contar ao namorado o que perdera... O que perdera mesmo?
Fez o inventário do acervo material do qual usufruíra:
- A pequena árvore que fazia sombra na vaga privativa;
- O jardim cheio de passarinhos visto da janela;
- O sol da tarde que brincava na parede;
- A chuva que acariciava o vidro;
- O quadro com a mulher azul;
- O vaso de cristal com flores renovadas toda semana;
- O café servido na xícara em vez do copinho de plástico.
Enumerou também o patrimônio imaterial que amealhara das pessoas à sua volta:
- A alma larga e o riso triste do colega na sala à direita;
- A solidão e o desespero mudos do ocupante do gabinete à esquerda;
- A voz macia da amiga que cultiva orquídeas-de-metro;
- A força da que conduziu caravanas pelo deserto;
- A gargalhada da que ainda está na primeira infância;
- A amargura da que morreu na juventude;
- A nobreza. A dignidade. A resistência.
Com um leve sorriso, despediu-se do posto e guardou o inventário. Impossível fazer a transferência.

(Imagem: Tudo Azul, Eliana Pereira. Museu da Câmara dos Deputados)



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domingo, 24 de junho de 2007

Suspeito moreno, alto e forte



A mulher olhava pela janela do apartamento quando o homem se aproximou devagar do Chevette. Ele andou em volta do carro, testando as portas para ver se estavam trancadas. Era moreno, alto e forte, usava bermuda, camiseta e chinelo. Tinha um jeito estranho. Com certeza, não morava na vizinhança.
Prestou atenção ao que o homem fazia. Depois de olhar em volta, desconfiado, ele tirou do bolso um objeto que parecia um canivete e abriu a porta do motorista. Após verificar novamente que o estacionamento estava vazio, entrou no carro.
O suspeito tentou dar a partida várias vezes. Ela tinha visto na TV que os ladrões usavam ligação direta. O que deveria fazer? Ninguém parecia notar o roubo. Após alguns minutos de hesitação, resolveu chamar a Polícia. Tomara não demorasse!
Ela voltou, correndo, para a janela. Agora que ligara o motor, o homem tentava sair da vaga. Claramente, não sabia dirigir — parecia bêbado, ou pior, drogado. Talvez pertencesse à gangue de puxadores de carro que atuava nas quadras vizinhas. Por fim, ele desistiu, e já ia embora quando os policiais o cercaram.
Surpreendido, ele mentiu que morava no prédio. Inventou também que estava aprendendo a dirigir e queria fazer uma surpresa à esposa, estacionando o carro deles mais próximo. Ninguém acreditou — nem a Polícia, nem os curiosos que se juntaram no local, nem a denunciante, que descera para acompanhar o desfecho do caso. Só para tirar a dúvida, um dos policiais interfonou para o apartamento no qual o homem dizia morar.
Em poucos instantes a esposa desceu, aflita, abraçou o marido e confirmou que o Chevette lhes pertencia. Moradora antiga do Plano Piloto, entendeu muito bem o que havia ocorrido. Todos entenderam.




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domingo, 17 de junho de 2007

Uma casa para Loíde



Foi vê-la logo cedo. Tinha que dar certo, era o preço que ela podia pagar. Subiu e dobrou algumas ruas, até dar de cara com o cemitério. Debaixo da placa, Corpo Santo, uns pássaros pretos pequenos. Pareciam filhotes de urubu, mas não tinha certeza. Nos muros rabiscados, ela gostou especialmente de algumas mensagens: “Vá com Deus, e fique por lá”; “A terra comeu seu cadáver, mas não vai engolir nosso amor”; “Querida, me espere: estou chegando”. Leu todas, por curiosidade.
Chegou ao endereço no jornal. A casa era verde-clara e também tinha um nome: Pensão das Margaridas. No jardim, canteiros com rosas miúdas, as suas preferidas. Teve um bom pressentimento. Abriu a porta com a chave da imobiliária e parou, surpresa: as paredes tinham tantos rabiscos quanto o muro do cemitério, só que mais desbotados. Começou a analisá-los.
As figuras pareciam as que enfeitavam as portas dos banheiros no ginásio, os quais, aliás, sempre fediam muito. Definitivamente, estava ali retratada a anatomia íntima masculina — membros de todos os tamanhos, alguns gigantescos, sempre eretos, ilustravam os diversos aposentos. Muitos desenhos eram simples traços. Outros, mais elaborados, representavam o órgão em detalhes. Havia também frases, mas com palavrões tão cabeludos que ela só teve coragem de lê-los silenciosamente. Notou que as lâmpadas eram vermelhas.
— Aqui moravam duas prostitutas - disse a moça que acabava de chegar à porta.
— Prostitutas?
— É, aqui é o fim da zona.
— O que aconteceu com elas?
— Mudaram de cidade.
— Por causa do cemitério?
— Não, ele nunca atrapalhou o movimento. Não gostavam muito da casa.
Desistiu do negócio. Partiu para a segunda opção, um terreno do cunhado, que ele estava muito interessado em lhe vender. Talvez até fizesse um preço melhor, já que eram parentes. A localização era boa, dava para ir à missa e à banca de revistas a pé. Foi vê-lo, animada.
Era uma casa muito, muito velha. A primeira coisa que notou foi o vira-lata no portão. Depois, a cerca desdentada, as paredes no reboco. O quintal era escurecido pela sombra de mangueiras enormes. O cachorro dormia, mas acordou com seus passos e, quando a viu, começou a rosnar e veio em sua direção. Ela tremeu, porque já havia sido mordida e se lembrava bem de como doía. Preparava-se para correr quando, ao ouvir um assobio vindo de dentro da casa, o animal disparou para o quintal, assustado.
Alguém a observava atrás de uma persiana caindo aos pedaços. A casa estava completamente silenciosa. Os passarinhos tinham parado de cantar nas mangueiras. Passaram-se alguns minutos até que o homem perguntou:
— O que você quer?
— Eu sou cunhada do Dr. Bené, dono da casa, e eu vim olhar...
— Dr. Bené? Não conheço ninguém com esse nome.
— Ele é dono dessa casa, e eu quero comprar...
— A casa é da minha mãe, Filomena.
— Pois é, sua mãe era cozinheira do Bené, e ele emprestou a casa para ela morar. Preciso falar com a Filomena. Cadê ela?
— Morreu. A casa é minha tem mais de dez anos, e eu também só saio daqui morto. Morto, ouviu? - e fechou a persiana.
Ela ia insistir quando lembrou que era esperada no cartório para assinar a escritura do pequeno apartamento que acabara de vender. No caminho, pegou a irmã mais velha, que a havia ajudado a fechar o negócio por telefone e que fazia questão de acompanhá-la para se certificar de que estava tudo certo. Era muito teimosa e desconfiada, e tinha o hábito de dizer o que pensava.
— Estamos atrasadas.
— O quê? - a outra só escutava um pouco do ouvido esquerdo.
— Atrasadas! - ela repetiu umas três vezes, a voz progressivamente mais alta.
— Precisamos ter cuidado, existe muito trambiqueiro por aí.
Já no cartório, a irmã achou que era falso o documento que o comprador apresentava:
— Tem muito trambiqueiro por aí - repetiu, baixinho, desta vez encarando o homem. - Vou ali na Caixa ver se é isso mesmo.
Pegou a escritura e foi. Demorou quase duas horas, e o corretor teve de ir atrás dela. Na volta, ela entregou os papéis e disse apenas, sem olhar para ninguém:
— É isso mesmo. Pode assinar.
Muito tarde — o homem, enfurecido, havia mudado de idéia e ido embora.
Só lhe restava colocar novo anúncio nos classificados e rezar. Deixou a irmã em casa e foi para a missa. Depois, passaria na banca para ver se chegara o novo número da Contigo. Estava ansiosa para ler sobre a surra na Nazaré, vilã da novela das oito.
— Amanhã é outro dia, pensava.


( Literatura de Câmara, vol. 1, 2004)
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Casas de infância

Nasci numa casinha humilde. Fotos em preto e branco mostram santos na parede, samambaias no armário, o jogo de porcelana pintado a mão, presente do casamento que logo acabou. Três degraus desciam para o banheiro escuro. À tarde, íamos com minha mãe comprar picolés de groselha, o sabor mais antigo na memória.
Havia perto uma fábrica de cerâmica, cercada de imensas chaminés de tijolos. Aos 30 anos, na única vez em que voltei à cidade, guiei-me pelas chaminés e encontrei o barraco ainda de pé. Não pude ou não quis entrar. Tirei uma fotografia de fora do portão, guardei-a por algum tempo e depois a perdi.
Papai teve êxito no comércio e alugou uma casa maior, em frente à vila dos bobinhos. Colméias se formavam nas árvores do quintal e taturanas amarelas queimavam nossos dedos em meio aos antúrios no jardim. Meu maior tesouro eram roupinhas de papel feitas com cola de polvilho e escondidas numa caixa debaixo da cama, longe de outras crianças. Ainda hoje procuro esse tesouro perdido.
A terceira casa de infância foi comprada na Rua São Vicente, a poucos passos da avó anjo da guarda. No primeiro dia, acordei no quarto claro, a camisola nova de cetim, e desejei: “Seremos muito felizes aqui”.
Fomos, por algum tempo. Brincávamos com as primas no quintal de terra enquanto Xodó, boneca loira de olhos azuis, quase do meu tamanho, assistia a tudo da janela para não se sujar. O bolo da tarde começava a cheirar no forno e tudo parecia perfeito.
Em noites de tempestade, ouvíamos casos de assombração ou perseguíamos sombras fugidias de animais na parede. Tremíamos de aconchego debaixo do cobertor, enquanto mamãe cantava baixinho para nos fazer dormir.
As casas de infância já não existem, mas eu sempre as visito em pensamento e saudade, um pouco antes de adormecer.

(Imagem: Cristina's World, Andrew Wyeth)
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A caneta verde






Meu tio era mascate de queijos e para anotar suas transações carregava blocos de recibo e canetas de diversas cores. Eu ainda não sabia escrever, mas desejava apaixonadamente a caneta verde. Um dia tomei coragem e a pedi emprestada.
- Para quê? - perguntou.
Eu não soube responder direito. Queria pegá-la, fazer traços verdes no papel. Ele me deixou segurá-la por alguns minutos. Ensaiei linhas, desenhei círculos tortos e a devolvi, trêmula de prazer. Nunca esqueci aquele momento: foi minha primeira crônica.
Desde menina, fui testemunha silente e amorosa de existências que entrecortaram a minha e cuja beleza recôndita se revelava a meus olhos atentos. Fosse eu poeta, lhes dedicaria versos. Cronista, só posso esboçar frases para exprimir meu assombro.
Começaria a falar da mãe de braços secos, que, hoje sei, derramava afeto em mil outros cuidados. Da avó adorada, que me segurava forte no colo enquanto assistia, impotente, à morte lenta do filho pelo álcool. Do pai que foi embora mas voltará na última crônica, escrita já de cabelos brancos, e cujo título provisório é: “Perdão”.
Não posso esquecer o primeiro amor de infância, o pequeno príncipe loiro que ainda cavalga meus sonhos no cavalo de prata; nem certo bailador andaluz, que ao primeiro sorriso anunciou o retorno definitivo à poesia.
Os amigos artistas, como iluminaram o caminho! Nenzinho, pobre, corcunda, quase-ninguém, à noite trazia contos escritos em caligrafia primorosa. Joaninha, franzina e gigante, nos transportava para reinos encantados à sombra do pé de jambo. Rosa fugia do pai violento para mostrar versos rabiscados atrás do muro.
Tantas e belíssimas vidas... Para cada uma guardei uma crônica escrita com a caneta verde.



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sábado, 16 de junho de 2007

Abram ALAS



A Semeadora conclama poetas de todos os cantos da cidade para o II Sarau da ALA, mais nova entidade cultural de Brasília. Eles atenderão prontamente ao chamado de paz, pois sabem que a poesia é a última trincheira contra a indiferença que ameaça a espécie.
Ao som do violão, um deles sonhará com uma manchete de jornal que celebre encontros como este, e não o último episódio de violência. Outros vão declarar sua paixão pela Capital e sua tristeza ao vê-la saqueada por bárbaros.
Uma criança-poema rabiscará palavras que ainda não tem coragem de dizer em voz alta, mas que vão crescer e fertilizar futuros vinhedos.
Testemunhos gravados em revoltos cadernos de espiral, o coro de vozes iguais e a intimidade do riso irmanarão almas. A Poetisa fecundará corações e mentes. As Gêmeas sobressaltarão os mais vividos com a ardorosa juventude.
No círculo infinito de amores e sensibilidades, surge uma comunhão só exprimível em versos. A Cronista experimenta uma completude que há tempos não sentia. Não saberia expressá-la num poema, mas humildemente saúda a beleza que pulsa à sua volta e agradece aos poetas-guerreiros o instante sublime.



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Equinócio








Manhã de sábado — a primeira cigarra.
Cristina passeia, distraída, na feirinha de artesanato. Está de mãos dadas com o novo namorado, que veio de longe para vê-la. Passear de mãos dadas é uma experiência quase esquecida. Acontece na Asa Norte de Brasília, mas poderia ser numa rua em Paris, numa praça em Manhattan ou num bosque cheio de sol.
Noite de sábado — as primeiras gotas de chuva.
Victor Hugo faz aniversário. Desejava viver 115 anos, mas anda triste. Ressuscita uma planta quase morta, leva casacos para meninos que dormem no frio do parque, procura algum calor à beira-mar. Tem planos de percorrer sozinho a Estrada Real de Minas. No caminho ao passado, espera reencontrar a si mesmo, que perdeu de vista há algum tempo.
Manhã de domingo — a primeira flor do ipê branco.
Loyse pegou catapora e ficou dez dias de cama. Durante a febre, mergulhou com Barbies-sereias e cavalgou pôneis mágicos. Sonhou todas as noites com as coleguinhas da escola. Amanhã calçará sapatos novos para ensaiar a dança das flores.
Noite de domingo.
Meu filho dorme em paz. Na penumbra do quarto, ausculto a esperança de tantos corações próximos ao meu e recolho, agradecida, as dádivas da nova estação.

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Antiginástica



— Você precisa fazer um trabalho mais forte com sua infância -, disse ele, virando-se na cama. Ela demorava duas horas para chegar ao orgasmo e chorava muito quando o atingia. Alguém estava com pressa? — Procure a Elza - ele continuou. — Ela acaba de chegar dos Estados Unidos com uma técnica nova. Uma amiga minha teve uma melhora im-pres-sio-nan-te. Você nunca mais será a mesma.
Tratava-se da antiginástica, método de autoconhecimento que propiciava o contato profundo com o corpo e a liberação das emoções impressas no tecido muscular desde o momento em que nascemos.
Elza atendia numa confortável casa no Lago Sul. A sala que servia de consultório quase não tinha móveis, apenas uma cadeira, um enorme tapete e um aquário sobre a mesinha de canto. Os peixes, grandes demais para o aquário, nadavam espremidos e, aparentemente, infelizes. — Seus peixes estão espremidos - pensou em dizer, mas se conteve. Ainda não tinha intimidade para fazer o comentário.
A terapeuta não falava muito. Na sessão preparatória, mandou que se despisse e deitasse no tapete. Apalpou seus músculos por um longo tempo e disse, com um leve sotaque:
— Sua musculatura está muito enrijecida, honey, precisamos ir devagar. Pode se vestir. Deixe o check com a secretária. - E acendeu o cigarro, sinalizando que a consulta terminara.
A terapia foi dividida em quatro etapas. Primeira: desbloqueio de tensões acumuladas na área genital. Novamente nua no tapete, recebeu ordens de se masturbar e de intercalar gritos com inspirações profundas, a intervalos regulares, até que atingisse o orgasmo, quando deveria gritar a plenos pulmões. O exercício também servia como preparação para o parto. Ela tentou chegar ao clímax sob o olhar atento da terapeuta, mas não conseguiu. Após três sessões, resolveu fingir um orgasmo para passar à etapa seguinte. Deu um grito dilacerante, retorceu-se no chão e simulou um choro convulsivo.
— Congratulations! Você acaba de despertar uma zona morta do seu corpo e agora vai sentir um grande fluxo de energia na pélvis. Pratique com seu namorado. - Ela praticou e, graças aos gritos e inspirações, reduziu pela metade o ciclo orgásmico.
Segunda etapa: recuperação da maleabilidade organomuscular. No questionário sobre sua infância, mencionara o trauma adquirido nas aulas de ginástica no grupo escolar. O terror a acompanhava até a idade adulta, e eram freqüentes os pesadelos em que se partia em duas ao tentar a cambalhota exigida pela professora.
Chegou receosa. — Hoje vamos dar a cambalhota, - avisou Elza, estendendo o colchão. Após diversas tentativas frustradas, tomou impulso, pediu força ao espírito da avó e completou o movimento. Não se partiu em duas, como temia, apenas ficou com um torcicolo que a impediu de trabalhar na semana seguinte. Mesmo assim, repetiu o feito, orgulhosa, para o namorado, que se excitou muito ao vê-la se contorcendo e passou a exigir a cambalhota nas preliminares.
Terceira etapa: contra-reação às agressões introjetadas no sistema neurovegetativo. Elza a fez relembrar as críticas que tinha ouvido calada, desde o útero, e lhe enfiou o dedo na garganta para que, literalmente, as vomitasse num balde trazido para esse propósito. O estômago lhe doeu muito com o exercício, mas ela se sentiu mais leve, mais autoconfiante.
— Você ultrapassou todas as barreiras até agora, darling. Só falta uma para que possa levar uma vida absolutamente normal.
Foi apreensiva para a última consulta, que tinha por objetivo a verbalização da causa primária da retração corporal inconsciente. Desta vez, Elza também se sentou no tapete e lhe segurou a cabeça com força.
— Repita: “Minha mãe é uma filha da puta” - mandou, enquanto lhe apertava o crânio.
— “Sua mãe é uma filha da puta” - ela repetiu, constrangida.
— A minha, não, a sua! Repita: “Minha mãe...”
— Minha mãe...
— “...É uma filha da puta!”
— É uma... É uma... Eu não consigo! - ela disse, soluçando, desta vez de verdade.
— É porque você é mole, - acusou Elza.
— Eu não sou mole, eu sou sensível! - respondeu, desafiadora.
— É a mesma coisa. É por isso que as pessoas moles me procuram: porque eu sou dura.
— É por isso também que os peixes no seu aquário vivem espremidos? - ela finalmente verbalizou.
A teraputa demorou alguns segundos para responder:
- O.K. Acabou. Goodbye. Deixe o check...
Ela não tinha certeza se o trabalho havia realmente sido concluído, mas num ponto o namorado tinha razão: nunca mais seria a mesma após ter se submetido à terapia da antiginástica.


(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)
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terça-feira, 12 de junho de 2007

Vaga privativa


O diretor me olha, desconfiado, se inclina um pouco e me diz em voz baixa:
— Quando você terminar, dê uma passadinha na minha sala. Quero dar uma palavrinha com você.
— Comigo?
— É.
— Está bem... - respondo, sem saída.
As palavras se embaralham na tela do computador. Começo a tremer, antecipando a bronca. Só se é chamado à sala do diretor quando se fez algo muito grave. Revejo mentalmente o trabalho da semana. Será que deixei passar um número errado de projeto de lei, uma frase sem sentido ou, pior, um xingamento, quer dizer, uma expressão anti-regimental?
Respiro fundo, tento me imaginar numa praia bem tranqüila com coqueiros, mas não consigo impedir as lágrimas, de início discretas, e logo depois caudalosas. Ainda bem que todos estão muito ocupados com a cota cheia de plenário para notar alguém chorando. Termino mal os discursos que faltam, deixando passar, agora sim, por falta de condições emocionais, números errados, frases sem sentido e expressões anti-regimentais. Devo também ter esquecido alguns itálicos e maiúsculas. Paciência! Esse há de ser o motivo de um futuro “convite”.
Levanto-me, decidida, arregalo os olhos para disfarçar o choro, prendo a respiração e me dirijo ao gabinete. Vou logo explicando:
— Desculpe-me, estou nervosa...
Ele se surpreende com o meu estado:
— Você está com algum problema?
— É que... Quando eu sei que vou receber uma bronca, eu começo a chorar... Não consigo me controlar, sou assim desde criança... - e lhe conto uma parte da minha vida.
Ele ouve, atencioso, mas não se desvia do assunto principal:
— Eu a chamei porque... bem, estou pensando em deixar a Coordenação e... gostaria de convidá-la para me substituir. Você aceita?- Na verdade, como fiquei sabendo depois, eu era a sua última esperança, pois ninguém queria o cargo.
— Eu? - pergunto, surpresa.
— Sim, - ele confirma, calmo, sem deixar transparecer o desespero. E passa a enumerar as vantagens da posição: sala própria, dispensa do ponto, convites para vernissages...
— Mais alguma? - eu o encorajo, enquanto analiso a proposta.
Ele pensa bem e o rosto se ilumina ao completar:
— Ah! E a vaga privativa, é claro.
— Privativa?
— É, só sua, a 100 metros da portaria do Anexo II, e com sombra à tarde. N° 99.
É o que falta para me convencer: não agüento mais esperar uma vaga na longa fila do Anexo IV e andar um quilômetro, ida e volta, de segunda a sexta. Além disso, 9 é o dia do meu aniversário e, por extensão, o meu número da sorte. Em dobro, então!...
— Aceito. - Sorrimos e apertamo-nos as mãos, ambos aliviados.
— Ainda bem que você chegou chorando, mas sai sorrindo! - ele diz, gentilmente.
— É mesmo, - eu concordo, com o pensamento longe, exatamente a 100 metros da portaria do Anexo II.
No dia seguinte, tem início o meu treinamento e, em duas semanas, assumo minha vaga pr..., quero dizer, meu cargo de Diretora de Coordenação.
No dia 1° de março de 2006, ao completar 21 anos de serviço público, é com grande emoção que vejo a cancela do estacionamento se abrir para mim e é com lágrimas de felicidade que estaciono pela primeira vez na minha, na totalmente-minha vaga privativa n° 99!


(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)
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Dente mole

— A senhora prefere o Eixão, né?
O Sr. José Maria, nosso taxista de confiança, foi chamado para me levar ao trabalho depois do almoço.
Antes que eu fechasse a porta do táxi, ele informou:
— A senhora imagina que eu perdi dois dentes de uma vez só? Fiquei com janelinha, igual menino - e abriu o sorriso desdentado.
— Que pena, - comentei.
Ele continuou, orgulhoso:
— A senhora acredita que eu nunca tinha ido ao dentista na minha vida?
— Nunca? - repeti, admirada. Eu tinha ido inúmeras vezes, sempre com grande sofrimento.
— Nunca! Mas, na semana passada, senti um dente mole e resolvi ir. O dentista puxou e saiu fácil, fácil. Parece que nem tinha raiz! Pior: puxou o do lado, também saiu. Dois, e logo na frente!
— Doeu? - Perguntei, solidária, lembrando as extrações que havia feito e a dor aguda que sentia depois de passado o efeito anestésico.
— Nada! Estavam soltinhos, como dentes de leite! Mas agora vou ter que fazer dois implantes. A senhora já fez? - Ele me observava atentamente pelo retrovisor.
Fingi não ouvir. Na verdade, eu precisaria ter feito, por causa de uma falha nos dentes, mas nunca tivera coragem.
Ele insistiu:
— Implante, a senhora já fez?
— Ainda não.
— Parece que fica muito bom. Eu tenho uma cliente que fez, ninguém diz.
— O senhor já viu como os ipês estão bonitos? Só faltam as cigarras.
— É mesmo... Ainda bem que esse dentista faz tudo: arranca, faz raspagem, faz implante. Só não tira radiografia. A senhora já fez raspagem?
— Como?
— Raspagem... da gengiva, a senhora já fez?
— Já.
— Dói?
— Um pouco. - A lembrança me trazia arrepios.
— Pois é, eu tenho que fazer antes do implante. A senhora acredita que eu posso perder todos os dentes? A minha sogra perdeu. Caíram... problema na gengiva. Agora, usa ponte móvel. Deus me livre! A senhora não usa ponte, né?
— Não.
— Já usou aparelho?
— Também não.
— Eu notei que a senhora tem um dente meio torto...
— O sinal está amarelo -, eu o alertei.
Ele freou e se distraiu com o trânsito por um minuto. Fez o balão da Rodoviária e pegou a Esplanada.
— Só tem um problema, - ele suspirou: a senhora acredita que vou pagar 6 mil pelos dois implantes?
Já estávamos no Itamaraty.
— Dava para comprar umas dez vacas pro meu sítio! Mas dentadura eu não uso, de jeito nenhum! Um amigo usa. Toda vez que espirra, ela sai. Da última vez, caiu e quebrou. Teve que fazer outra. A senhora...
— Chegamos - eu disse.
— É mesmo! São dezesseis reais. Boa-tarde. Quando precisar...
Um homem gordo de terno veio correndo até o táxi e perguntou se estava livre.
— O senhor imagina... - ouvi o taxista dizer ao passageiro, enquanto este afivelava o cinto de segurança.
Da próxima vez, decidi, chamaria o rádiotaxi.


(Revista da Casa, Câmara dos Deputados, nº 65)
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sexta-feira, 8 de junho de 2007

Boneca Melindrosa



O telefone tocou cedo no sábado de carnaval.

— Adivinhe em quanto está o meu PSA? - perguntou Boneca, entusiasmado.
— Quanto? - quis saber Isolda.
— 1,8! E a glicose?
...
— 100! E o HDL?
...
— 50!
— Parabéns! Os meus...
Bertoni e Nilson — Boneca e Isolda, na intimidade — conheciam-se há 40 anos, desde a transferência para Brasília. A amizade instantânea se consolidara com o tempo, apesar das diferenças de temperamento entre o boêmio inveterado e o camisolão. Quando jovens, trocavam diariamente confidências eróticas. Agora, porém, ambos apresentavam problemas de saúde e compartilhavam por telefone os resultados dos freqüentes exames de laboratório.
Boneca desligou antes que Isolda entrasse em detalhes infindáveis e preparou-se para sair. Acendeu lentamente o primeiro cigarro do dia e aplicou a insulina que se esquecera de usar no dia anterior. Pediu ao caseiro que preparasse o carro e, amparado pela esposa, entrou devagar no veículo adaptado para deficientes.
Sobrevivera a dois acidentes graves. No primeiro, embriagado, bateu a Kombi de frente com um caminhão e quase morreu. No segundo, ficou meses imobilizado e precisou implantar parafusos nas pernas que retardavam seus movimentos, mas não o impediam de visitar todo dia o Bar do Pavão, onde tinha mesa cativa e foto pendurada na parede principal, por ocasião da outorga do título de Cidadão Honorário de Brasília pela Assembléia Legislativa.
Os amigos o aguardavam para acertar os últimos detalhes da saída das Melindrosas de Sobradinho, bloco que ajudara a fundar. Hoje tomaria uma cerveja extra para comemorar os índices positivos.
Deixou instruções ao caseiro de que sob hipótese alguma apanhasse as jabuticabas que Isolda vinha buscar. Este é que deveria apanhá-las, para ter o prazer de subir na árvore e saborear a fruta no pé. Sempre fazia essa recomendação quando era época de jabuticaba, manga, jambo ou goiaba, que o amigo levava aos baldes para não precisar comprar. Também lhe fornecia o almoço de sábado e um queijo por semana, que ele carregava intacto depois de se fartar do que era servido à mesa.
Isolda passou pela chácara ao meio-dia, como de costume. Almoçou, espichou-se na rede e depois da sesta apanhou as jabuticabas que pôde carregar. Agradeceu pelo queijo e deixou recado ao amigo para que ligasse quando possível.
O telefone voltou a tocar cedo no domingo.
A esposa de Boneca, apavorada, dizia que ele estava nas últimas. Passara a noite bebendo e, de manhã, a aplicação da insulina baixara a pressão e acelerara o batimento cardíaco. Isolda chamou imediatamente o SAMU, que era gratuito, e correu para acudir o amigo. Chegou bem antes da ambulância e constatou que ele estava mesmo muito mal.
Diagnosticado o coma alcoólico, Boneca foi colocado à força na maca. Tinha pavor de hospital e sempre arrumava uma desculpa para adiar a visita ao médico:
— Hoje não estou me sentindo muito bem. Deixa pra outro dia.
Isolda seguiu na ambulância com o amigo, que não era de se preocupar à toa, mas que hoje tinha um mau pressentimento.
— A turma do Pavão... As Melindrosas... Meus filhos... quero ver todos... A Carminha, você avisa pra mim? A Bia... Eu queria tanto que tivesse sido diferente! - Lágrimas escorriam pelo rosto gordo e pálido.
— Pode deixar, aviso todas - prometeu Isolda, sem controlar a emoção. Passou as mãos pelos cabelos ralos do amigo e pensou como seria difícil viver sem ele. Não pelo almoço, pelas frutas ou pelo queijo, mas pela figura incomparável do antigo companheiro.
Chegando ao hospital, continuou ao seu lado enquanto fazia os exames de emergência. O médico comunicou à esposa a necessidade de internação imediata e recomendou também que avisasse a família, pois o caso era grave.
Durante a madrugada, amigos e parentes se sucederam na despedida. A turma do bar chegou por volta de meia-noite e quis puxar um samba em homenagem ao doente, mas foi impedida pelo segurança. Isolda ficou o quanto pôde, e ao amanhecer foi em casa tomar banho e descansar um pouco. Antes, olhou Boneca, agora inconsciente, pela última vez. Comovido, beijou a testa do velho amigo, enquanto os momentos passados juntos desfilavam diante de seus olhos úmidos.
— Daqui a pouco eu volto - disse à quase-viúva, apertando-lhe as mãos.
Não voltou. Depois do banho morno, deitou-se e acabou pegando no sono pesado. Sonhou que corria com Boneca num campo florido atrás de borboletas gigantes. Ia pegar uma quando o telefone o acordou.
Boneca tivera uma melhora súbita, despedira-se das enfermeiras gostosas e, no caminho para a chácara, pedira à esposa que o deixasse no Bar do Pavão. Ligara para avisar o amigo que estava tudo bem:
— Adivinha onde estou? - A voz era quase inaudível em meio ao grito de carnaval das Melindrosas de Sobradinho.



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Atendimento preferencial



Às 10h59min acomodou-se na cadeira, apertou o nó da gravata e dispôs as canetas azul, vermelha e preta à direita do bloco de anotações. Sua mesa era no meio do salão, onde a visão estratégica lhe permitia supervisionar todo o movimento.
Abriu-se a porta e a multidão entrou para disputar a fila. A pequena agência na entrequadra só dispunha de dois caixas — um deles destinado ao atendimento preferencial —, que davam conta tranqüilamente do fluxo normal de clientes, mas nesta sexta-feira, véspera de carnaval, era esperado um número maior.
— De onde sai tanto velho? - ele se perguntava toda manhã.
Os aposentados chegavam à média de um por minuto e reuniam-se em bandos na mesinha do café, falando alto, sem pressa. Depois de pôr as notícias em dia, dirigiam-se calmamente à fila. Antes de fazer o pagamento, transferência, saque ou o que fosse, perguntavam à caixa como ia a família, contavam que a saúde andava melhor, que o neto dera os primeiros passos, que a filha descobrira a traição do marido.
— Será que não têm mais nada para fazer? - revoltava-se.
Não bastasse a preferência em filas, uma nova lei distrital assegurava a velhos, deficientes de todos os tipos, gestantes etc. vagas especiais em estacionamentos. Era contrário a qualquer privilégio: se eram capazes de dirigir, podiam perfeitamente estacionar como qualquer cidadão; se conseguiam caminhar, deveriam esperar em filas comuns, sem tumultuar a vida dos outros. Uma vez implantado o sistema, porém, a principal tarefa era assegurar que ninguém se beneficiasse indevidamente. Para alcançar esse objetivo, desenvolvera ao longo dos meses uma observação rigorosa dos que se dirigiam à fila preferencial.
Era fácil perceber os verdadeiros idosos. Os homens eram carecas e usavam roupas ridículas; as mulheres exibiam pencas de bijuterias e a cabeleira tingida em tons intensos de preto, ruivo ou vermelho. Todos usavam óculos e, pelo que podia notar, dentaduras.
Quando havia um caso duvidoso, ele abordava a pessoa em questão ou pedia ao guarda que o fizesse. Se não comprovada a idosidade ou a deficiência, o espertinho era encaminhado à fila comum.
— Folgados! - resmungava, desfrutando de um secreto prazer.
Às vezes, no entanto, enganava-se, e respondia a processos por danos morais: o senhor bem-vestido, que aparentava ter uns cinqüenta anos, ao ser abordado, provou ter setenta e cinco; a gostosona de vestido justo que, vista por trás, parecia ter uns quarenta, pela frente ganhava vinte; e o homem jovem e forte, claramente na casa dos trinta, confrontado, sacou do casaco comprido, com grunhidos ameaçadores, uma enorme carteira plastificada que atestava deficiência mental.
Para sua surpresa, a sexta-feira transcorreu tranqüilamente. Não precisou interpelar ninguém e às 17h59min já trancava as gavetas e se dirigia para casa. A esposa o esperava de camisola e bóbis, com a janta quase pronta. Ele tomou o banho rápido e morno, enfiou-se no pijama xadrez, calçou meias e sandálias e sentou-se na cadeira do papai em frente à TV.
— Ainda bem que estou para me aposentar! - suspirou, antes de tirar o cochilo.

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Se precisar de mim...


— Se precisar de mim, não conte comigo – disse ele, encarando-a com o olhar opaco de vidro.
Ela pensou ter entendido mal:
— Como? – perguntou, enxugando as lágrimas.
— Se precisar de mim, não conte comigo. A não ser nos 50 minutos da sessão, é claro. Amanhã, às 10 em ponto.
Ela chegou um pouco antes e se acomodou na poltrona que ele indicava. Ficaram em silêncio por algum tempo. Ele usava um rabinho-de-cavalo no cabelo grisalho e uma bata estampada com pequenos elefantes de todas as cores.
— Que gracinhas esses elefantinhos! – ela comentou, para quebrar o gelo.
— Não são elefantinhos. São desenhos abstratos, mas se você quiser me convencer do contrário, pode tentar – desafiou ele.
Recusado o desafio, ele colocou os óculos e abriu o bloco de anotações.
— Você tem dificuldade nas relações interpessoais com pessoas? – Por hábito de ofício, ela corrigiu mentalmente a redundância antes de responder “sim”. Ele anotou, sem pressa: “dificuldade nas relações interpessoais com pessoas”. Ela observou que a mão dele tremia. Ficou curiosa, mas não se atreveu a perguntar por quê.
— Houveram grandes perdas em sua vida? – Novo aceno afirmativo, após retificada a conjugação verbal. A mão trêmula registrou: “Houveram grandes perdas”.
— Qual a sua pior lembrança da infância? – Ela conteve o riso ao lembrar que o Dr. Hannibal Lecter, psicopata canibal do filme O Silêncio dos Inocentes, fizera a mesma pergunta à detetive do FBI Clarice Sterling. Pensou em responder, como a detetive, “O grito das ovelhas”, mas não sabia se o terapeuta assistira ao filme nem como reagiria à brincadeira. Talvez pudesse fazê-la algumas sessões adiante, quando o conhecesse melhor. Fechou os olhos por alguns minutos, relaxou e tentou se recordar.
— Acho que foi...
— O tempo acabou, Bete. Vejo você na próxima quinta. – Desde o início ele a chamara assim. Seu nome em nada se parecia com “Bete”, mas desistira de corrigi-lo: a associação parecia profundamente entranhada no inconsciente dele e talvez fosse traumático tentar desfazê-la.
Na saída, topou com um homem de chapéu, óculos escuros e terno preto amarrotado. Não conseguiu ver seu rosto, voltado para o chão, mas percebeu que usava luvas também pretas.
— Pode entrar. – Disse o médico ao homem, e depois a encarou, contrariado:
— Esqueceu alguma coisa, Bete? – Aceno negativo e fuga para o corredor.
À noite, sonhou que ele a perseguia num campo cheio de ovelhas e tentava enlouquecê-la, chamando-a de Béééééte e cometendo seguidos erros de português. O pesadelo se repetiu durante a semana.
A manhã de quinta amanheceu fria e chuvosa e um acidente na L-2 fez com que ela se atrasasse para a terapia. Ao chegar, encontrou a porta do consultório aberta. Ele a aguardava com o bloco e a caneta em punho. As persianas fechadas ocultavam seu rosto, mas ela adivinhava o olhar atrás das lentes.
— Fale-me dos homens que traíram você. – Agora, sim, ela tinha muito assunto. Abriu a sombrinha num canto, tirou o casaco e deixou-se levar pelas recordações:
— Devo começar pelo primeiro ou pelo último? – Nenhum ruído além da chuva. — Bem, o último foi...
— Você alguma vez pensou em se vingar? – interrompeu ele. — Já quis... matar algum deles?
— Simbólica ou literalmente? O senhor sabe, sou escritora...
Nenhum movimento.
— Bem, como eu dizia, o último...
— Adeus, Bete. - Ele murmurou, com a voz cansada. — Não posso continuar a tratá-la. Encaminharei o caso a um colega.
Por que eles sempre faziam isso quando ela começava a se soltar? Frustrada, recolheu o casaco e a sombrinha.
— Acerte com a secretária. – Finalizou ele, dando-lhe as costas e encaminhando-se à janela para observar a chuva.
No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, ela notou que as pessoas paravam para olhá-la e faziam comentários discretos. Ao pegar o jornal, surpreendeu-se com a própria foto na manchete de primeira página: Assassinato na Asa Norte. Refeita do susto, constatou que a foto não era dela, mas de uma mulher parecidíssima.
Na página policial, a reportagem:

Foi assassinada numa quitinete da 308 Norte, por volta das 20 horas, Elisabete Ramos Duarte. O criminoso, pego em flagrante, era paciente psiquiátrico no HPAP e confessou ter seguido ordens do seu médico, que foi preso em seguida. A polícia suspeita de crime passional”.

Lado a lado, no centro da página, os dois homens: um de terno preto amarrotado, a cabeça baixa, o outro de bata estampada com elefantinhos coloridos, o olhar brilhante de vidro.



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quarta-feira, 6 de junho de 2007

Celebração




Você diz que não quer mais viver. Vamos nos sentar ali naquele banco enquanto nos aquecemos ao sol morno da manhã. Observe o dia que começa. Os bebês se deslumbram com a visão do céu, os velhinhos perambulam iguais, os cachorros cheiram o mundo. O homem que passa encolhido de frio mora longe. A mulher deixará o filho na creche enquanto cuida da casa alheia.
Segure um raio de sol na palma da mão. Agarre outro e mais outro. Preste atenção ao silêncio das árvores: elas saboreiam o orvalho e a visita dos pássaros. Ao meio-dia, darão sombra generosa a quem precisar.
Vou lhe contar uma estória. Era uma vez uma mulher que foi entristecendo até achar que não queria mais viver. Desfez-se de tudo o que possuía, despediu-se de cada amigo e saiu vagando. Jogou fora documentos para esquecer quem era. Lançou ao mar os pertences mais valiosos para que alguém os recolhesse numa praia distante. Desafiou a morte, ela não veio.
Quase sem forças, voltou à casa materna para convalescer em lençóis bordados e macios. Um dia acordou com um toque suave no rosto: era o sobrinho que ela conhecera bebê, que agora completava dois anos e que dali em diante viria sempre despertá-la. O menino a chamava de “Gui”, o som mais doce que ela ouvira até então. Ansiava por ele ao acordar e o guardava na memória antes de adormecer.
Gui e o sobrinho passavam o dia juntos. À tarde sentavam-se no quintal, onde ele desenhava e corria pela grama no corpo de arco-íris. Um dia caiu do balanço e quebrou a perna; a tia ficou ao seu lado. Outra vez, foi deixado sozinho na piscina e já se afogava quando ela o resgatou. Assim, foram se protegendo e se amando, enquanto ela se recuperava e ele crescia.
Você diz que não quer mais viver. Vou lhe mostrar meus bens mais preciosos, que guardo envoltos num xale de cetim. Veja este desenho: é a obra-prima de um pequeno artista que fez meu retrato e o chamou de “Fada”. Estes presentes de papel, você me deu no meu aniversário. Estas declarações de amor em letra miúda, quando aprendeu a escrever. Lembra-se desses corações e sóis recortados? Olhe estas fotos. Repare na alegria do menino que me fez desejar o filho que hoje tenho.
Há muitos anos, renasci pelas mãos de uma criança que hoje diz que não quer mais viver. Acredite: você ama profundamente a vida — sou fiel depositária desse amor. Dê-me de novo a mão. Juntos mergulharemos na noite escura e nela reencontraremos nosso diamante puríssimo.



(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)

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A Bênção


No meu aniversário, ao voltar do trabalho, encontro um recado sobre a mesa: “seu padrinho ligou”, seguido de dois números de telefone. Padrinho? Eu nem sabia que tinha um! Ainda por cima, nobre: chama-se Duque. Não poderia receber melhor presente.

Retorno a ligação e ouço um forte sotaque mineiro. Quer muito me ver. Já nos conhecemos: carregou-me no colo quando bebê. Dou-lhe meu endereço e combinamos um encontro para a semana que vem. Na breve conversa, descubro que mora na Asa Norte, é aposentado e passa muito tempo na roça. Era o melhor amigo de meu pai, hospedou-o na primeira vinda a Brasília e também sente saudades dele. Tem um baú de fotos antigas para me mostrar.

Meu padrinho ligou e quer muito me ver. Sinto-me já abençoada. Procuro mais informações sobre ele. Meu tio diz que é gente boa, mas não sabia que era meu padrinho. Minha mãe se lembra de que é baixinho e manco, mas padrinho só se for de crisma, porque os de batismo eram minha querida avó, já falecida, e o marido de uma tia, o qual nunca se importou comigo.
Meu padrinho ligou e quer muito me ver. Estou ansiosa como uma noiva. Sei que trará boas-novas. Pedirei que regue minhas raízes, que recomponha fragmentos extraviados da minha história. Que me conte quem era meu pai antes do álcool — se foi feliz na juventude, se realizou sonhos, se deu carinho à minha mãe, se pensou em mim antes de morrer.

Chega o dia da visita. Desço bem cedo para caminhar com Skipper, nosso novo cãozinho. A grama está molhada pela chuva da noite. O céu exibe um azul impossível e o ar é puro como num domingo de missa. Mandei encerar a casa, limpar as janelas, lavar as almofadas. Comprei quitandas e flores do campo para enfeitar a sala. Sinto cheiro de jambo, como na infância. Quando a campainha toca, abro a porta com o coração aos pulos e saúdo com os olhos já úmidos minha testemunha primitiva:

— A bênção, padrinho.



(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)

Fotomontagem: Chackal
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terça-feira, 5 de junho de 2007

Batismo



Escolhemos um domingo branco de maio para a cerimônia. Nossa roupa também é branca e nossos convidados são os poetas. Enfeito-me com colares de cristal transparente e ele, com uma flor no paletó. Vamos cumprir a antiga promessa.

Partimos cedo e despertamos a manhã com passos gentis. Não temos pressa. Caminhamos de braços dados e conversamos baixo para não perturbar as árvores. Eu me abandono ao seu braço como uma menina se deixa levar pelo pai.

Ao meio-dia, procuramos um lugar fresco para repousar. Estendemos na grama a toalha branca e celebramos com pão, frutas e vinho. A natureza se junta ao brinde:

Em meio à folhagem, desponta um trevo de quatro folhas. Uma borboleta azul pousa auspiciosa em meu seio. Ele a captura e a deposita em minhas mãos, cuidadoso como um menino que passa o anel e espera uma prenda. Colho um ramo de margaridas e faço uma coroa para seus cabelos morenos, enquanto o sol acende os enormes olhos castanhos do meu soberano.

É noite quando chegamos ao nosso destino. Os convidados aguardam em silêncio. Descalços entramos no riacho e desnudos nos ajoelhamos para a benção. Recebo na face a água pura e no ouvido as palavras secretas, que se misturam aos sons da mata. Meu peito se abre e liberta o grito aprisionado. O corpo soluça até o céu e retorna redimido. O útero se rompe num longo fio de cetim vermelho e escoa a culpa de não dar amor a quem amei. A boca confessa os últimos pecados, enquanto os lábios do meu padrinho lentamente se aproximam dos meus.

(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)
Fotomontagem: Chackal
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Parabéns pra você

Luci Afonso





Querida,


O bolo estava na geladeira, junto com os refrigerantes. As velinhas e a caixa de fósforos, na primeira gaveta do armário da cozinha. O forro bordado para a mesa estava na cristaleira.

Duzentos balões amarelos enfeitavam a sala e o jardim. Os fogos de artifício estavam prontos e eram iguais aos que vimos na praia no réveillon.

Meu amor,

Pendurei seu vestido na parte direita do guarda-roupa, junto com as sandálias novas e as jóias que sua avó te deixou. Espalhei margaridas pelo quarto, para que você acordasse num mundo branco e perfumado. Arrumei sua coleção de ursinhos e bonecas na estante.

Seu pai tinha uma surpresa escondida na garagem. O Léo ligou bem cedo para ser o primeiro a te dar os parabéns — o presente dele era uma lembrança do primeiro beijo. A viagem à Disney, eu tinha acertado com a mãe da Carol para as férias de julho.

Filhinha,

Estava tudo pronto para a festa, mas você não despertou na manhã de sol morno e vento suave. O bolo ficará esquecido na geladeira e as velinhas não serão acesas. O vestido perderá a cor. As bonecas e ursinhos não sorrirão mais.

Meu anjo,

Plantamos as margaridas ao seu lado, guardamos os fogos e soltamos os balões para que te acompanhassem entre as nuvens. Com os olhos secos e as mãos vazias, esperamos que você renasça noutra manhã inundada de luz.



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domingo, 3 de junho de 2007

Entrevista com o Poeta

Luci Afonso







(Para Marco Antunes)




O que é uma chave?
Uma chave é intenção, descendência, perpetuação, legado.

O que é uma pedra?
Uma pedra é diamante, armadilha, maldição, ofício.

O que é uma nuvem?
Uma nuvem é desejo, fuga, imaginação, delírio.

O que é um marco?
Um marco é sinal, anunciação, salto, destino.

Uma chave, uma pedra, uma nuvem, um marco têm algo em comum?
Sim. Tudo o que existe abriga a poesia.

Como encontrá-la?
Primeiro, capture uma borboleta amarela num jarro de vidro, ponha na janela ao primeiro sol da manhã e liberte-a em seguida. Observe o vôo.

Depois, escolha a sombra de uma árvore antiga, forre o chão com veludo vermelho e jogue nele algumas pedras preciosas. Note como elas deslizam.

Assim que puder, siga confiante, pelos olhos verde-musgo de um poeta já nascido, os vestígios deixados nessa busca pré-histórica.

Quando se aproximar, segure mais forte a mão do seu guia. A poesia só se deixará tocar em silêncio, mas, uma vez encontrada, se mostrará dócil e breve. Solte-a, deixe-a também alçar vôo e desfrute a beleza anunciada.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira