sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Escambo de Natal



— Você já estava acordada, pois não? - disse a agradável voz.
— Claro - ela respondeu, embora “acordada” não descrevesse bem a letargia que a dominava às 8 horas do chuvoso domingo. Seus olhos mal se abriam e um fragmento de sonho esperava ser terminado.
— Então, vamos lá? - convidou a amiga, totalmente desperta e pronta para os acontecimentos do dia.
— Está chovendo. Você acha que vale a pena?
— É só um chuvisco. Vamos à luta!

Compromissos são sagrados, em qualquer circunstância. Reuniu forças para levantar-se, tomou um rápido banho de olhos fechados e esquentou no microondas uma xícara de café do dia anterior. Comeria alguma coisa no clube.

Se o encontrasse. Era sócia, mas o visitara apenas uma vez, há cerca de três anos, e não se lembrava do caminho. O endereço não ajudava, pois, conforme descobriu, o Setor de Clubes Sul era um labirinto com ramificações inimagináveis, levando a lugares que ela nunca supôs existirem. A chuva dificultava a busca ao encobrir os letreiros das raras placas existentes. Após quarenta minutos de idas e voltas, chegou ao destino.

O porteiro não a deixou estacionar dentro da sede. Esquecera a carteirinha, sumida em alguma gaveta — inútil procurá-la. Teve de carregar as sacolas até o local do evento, que também demorou a achar: um canto escondido ao lado do salão de sinuca.

A amiga chegara antes e, muito bem disposta, já providenciara uma mesa e nela estendera a toalha vermelha. Eram oito mesas ao todo, com enorme variedade de produtos: cosméticos da Natura, biscoitos de nata, sandálias e bolsas customizadas, bonecas de feltro, caixas pintadas, incensos gigantes, camisas do Salgueiro e, por último, os livros de crônicas “Velhota, eu?” e “Minha avó botou um ovo”, caprichosamente embalados para presente. A expectativa de vendas era grande pela proximidade do Natal e pelo razoável poder aquisitivo dos freqüentadores, se resolvessem sair de casa no clima duvidoso.

Após arrumar os livros, ela foi em busca de café. No bar náutico, avistou Marilson, membro da diretoria, e graças à sua influência conseguiu uma garrafa do precioso líquido e um pacote de biscoitos de maizena. Levou o colega até o local do bazar, apresentou-o à amiga e mostrou-lhe os livros.
— Quanto é? - ele quis saber.
— Vinte reais - responderam ambas.

Além de servidor público e diretor social do clube, Marilson era iniciado nos mistérios de marketing multinível da Amway e sempre carregava uma pasta 007 com seus produtos. Atualmente, vendia o milagroso suco de Noni (60 reais a garrafa), de enorme sucesso entre as colegas pelo suposto combate aos radicais livres, e o popular sebo de carneiro (40 reais o pote), excelente para dores musculares e do qual era representante exclusivo.

Em breve haveria uma convenção nacional da Amway em Brasília. Quem sabe surpreenderia os diretores presenteando-os com... livros? Abriu a pasta sobre a mesa e propôs:
— Vamos trocar?

Ela era cliente antiga de Marilson. Usava o sebo de carneiro para dores no pescoço, além de recomendar o remédio a diversas pessoas. O pote que tinha em casa estava acabando.

— Troco pelo sebo - ela disse.
— Duas velhotas por um? - calculou ele.
— Feito.

A amiga não conhecia os produtos. Ele explicou em detalhes os benefícios, deu o preço e repetiu a oferta.

— Eu me interesso pelo suco de Noni, Sr. Marilson.
— Três avós por uma garrafa?
— Perfeitamente.

O movimento na mesa nº 8 atraiu os outros participantes. Marilson aproveitou para divulgar seus produtos e adquiriu dois presentes que faltavam: um par de sandálias para a esposa, por um sebo e um suco; e uma boneca de feltro para a filha, por dois sebos. Resolveu também se presentear e barganhou duas ampolas de óleo terapêutico por uma camisa do Salgueiro, que vestiu na hora.

A senhora dos incensos gigantes trocou três pacotes pelo livro da velhota; a revendedora da Natura negociou um refil de sabonete de erva doce pelo livro da avó; a moça dos biscoitos de nata deu dez caixas por uma bolsa customizada. A barganha intensificou-se a tal ponto que, quando o tempo abriu e os compradores começaram a chegar, o estoque dos feirantes acabara.

Ao final, ela convidou Marilson e a amiga para uma foto que pretendia postar no novo fotolog. Os três posaram sorridentes, satisfeitos com o resultado dos negócios.

À noite, depois de completar o sono que lhe faltara pela manhã, ela salvou a foto no computador para editá-la. Três figuras sem cabeça apareceram na tela: dois troncos femininos, um esbelto e outro mais robusto, mostravam artigos diversos, e um tronco masculino, vestindo a camisa do Salgueiro, segurava com firmeza uma pasta 007 recheada com o escambo de Natal.
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Mulheres e Atitudes

Liana Ferreira





Marlene caminhou com passos firmes em direção à cozinha. Decisão tomada. Olhava para o chão e via passar uma a uma as cerâmicas desgastadas, envolvidas por encardido rejunte. Àquela hora, o mundo parecia tranqüilo, apenas um cachorro vagabundo insistia em latir tristemente como se quisesse lembrá-la de que a paz era apenas aparente. Chegou à cozinha com sensações iguais às que experimentou ao chegar do Maranhão. Uma vida desconhecida descortinava-se à sua frente e ela tinha de vivê-la. Também, como há vinte anos, não estava preparada, ainda assim não tinha medo. Sabia o que tinha de fazer e o faria naquela madrugada fria de junho, porque não agüentava mais um único dia igual aos que vinham-se sucedendo.

Afastou o plástico que servia de porta para o armário de utensílios embaixo da pia e abaixou-se para pegar a panela. Não queria fazer barulho para não acordar as pessoas que dormiam naquela casa pequena . Encheu devagar a panela com água e a colocou sobre o fogão. Procurou a caixa de fósforos no lugar de costume mas não a encontrou. Enquanto voltava pelo corredor, olhou para dentro do quarto dos filhos. Quatro adolescentes amontoados num pequeno cubículo dormiam tranqüilamente e pareciam felizes, apesar das privações a que estavam expostos.

Quando saiu do Maranhão por iniciativa do marido, tinha 26 anos e três filhos. Largou família e amigos e todas as suas referências foram sendo deixadas para trás enquanto atravessava dois mil quilômetros de estradas emburacadas. Não voltou mais à sua cidade e em meio às atribulações em que sua vida estava mergulhada, isso não fazia mais a menor diferença, perdera o sentido.

Entrou em seu quarto pé ante pé, esgueirando-se até a cadeira ao lado da cama. João Henrique roncava alto e dormia o sono dos bêbados. Pegou o maço de cigarros do marido e tirou de dentro dele o isqueiro pequeno e azul. Olhou mais uma vez para aquele rosto tentando identificar algum traço do homem a quem acreditou amar no passado, mas não encontrou o mais remoto vestígio. Não saberia dizer em que profundezas foram enterrados os seus sonhos de então. Não encontrava mais prazer em nada, nem no trabalho, seu último refúgio. Pensava nisso enquanto caminhava de volta ao fogão. Faz várias tentativas para acender a chama do isqueiro sem sucesso, mas não desiste. A principal lição que aprendeu na vida foi a da persistência. Com perseverança e muito trabalho abriu um pequeno salão de beleza em sociedade com uma amiga também nordestina. Dali conseguia tirar o sustento da família. Há muito João Henrique deixara de trabalhar e ajudar nas despesas da casa.

A ponta do dedo polegar já estava ardendo quando conseguiu acender o isqueiro e transferir a chama para a boca do fogão. Sentou-se no banquinho de madeira junto à mesa e esperou que a água fervesse. Tinha esperado muito pela vida. Houve até um tempo em que esperava que o marido mudasse de atitude e chegou a acreditar que isso fosse possível. Mas a cada ano ele ficava mais velho e mais bruto. Bebia e tornava-se valente. Enquanto ele lhe dirigia todo tipo de agressão verbal uma raiva muda ia crescendo dentro do seu peito. Não mostrou a ninguém esse sentimento, manteve-o oculto na alma. Nutria um imenso desprezo por esse homem que foi incapaz de amá-la e que não demonstrava sentir por ela ao menos um pouco de respeito.

Apagou o fogo e retirou a panela com cuidado. O vapor d’água que saía da panela atingiu-lhe o rosto e fez com que aumentasse ainda mais a dor que sentia nos inúmeros hematomas causados pela surra que ela levara ao chegar do trabalho, enquanto, aos gritos, ele a chamava de vagabunda.

Marlene caminhou com passos firmes em direção ao quarto. Parou ao lado de João Henrique que roncava e dormia o sono dos bêbados, e sem titubear derramou quase toda a água fervente da panela em seu ouvido direito, cozinhando-lhe os miolos.

Voltou à cozinha com passos vacilantes, derramou o resto da água quente numa caneca, misturou um pouco de café solúvel e açúcar, e sentou-se novamente no banquinho para tomar seu café e esperar o dia amanhecer.
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sábado, 19 de janeiro de 2008

Ele & Elas










“O ESPAÇO CULTURAL CONVIDA PARA SARAU LITERÁRIO-MUSICAL A REALIZAR-SE QUINTA-FEIRA, ÀS 20H.”


Há uma semana ele não dormia direito. O ensaio dera muito trabalho: elas conversavam feito crianças, e teve de ameaçar atingi-las com o sapato para que ficassem quietas. Estava deprimido, como sempre acontecia antes dos saraus, ainda mais este, em que sua própria obra seria lida. O livro que ia lançar não ficara pronto.

Acordou cedo, fez ioga, meditação e tai-chi para enfrentar o longo dia. Faltavam mil acertos de última hora. Esperava ter atendido a todas. Será que esquecera alguma?

Às 8 horas, o telefone começou a tocar.

Eram elas.

Ela nº 1. Estava magoada porque ele não a chamara para a frente do palco. — O cenário deve estar uma droga, - pensou, prometendo a si mesma que pela última vez participava do maldito sarau. Chegou mais cedo, para ler os textos que ele só lhe enviara no último minuto. Planejou uma pequena vingança: não rir de nenhuma piada que ele contasse, nem comprar o livro que ele ia lançar em seguida no coquetel.

Ela nº 2. Seu telefone estava cortado, e o cheque da dentista ia entrar sem fundos. Pegou um vestido emprestado da irmã, pendurou a conta no salão e rezou para que o bolão da Mega-Sena desta vez desse resultado. Ele lhe dera o lugar central no palco. Será que estava interessado nela? — Preciso lhe dizer que jogo no outro time, - decidiu, enquanto se depilava. Pôs 10 reais de gasolina e enfrentou o engarrafamento do tratoraço.

Ela nº 3. Não conseguira decorar o texto. Masturbara-se muito na noite anterior para relaxar. Teve de fazê-lo manualmente, porque o vibrador estava sem pilhas. Não gozou, mas ficou tão cansada que pegou logo no sono e dormiu profundamente. Sonhou com ele: estavam numa cidade estranha, e ele não a reconhecia. Tinha o hábito de analisar os sonhos logo que acordava. — Acho que ele não gosta de mim, - deduziu, triste, e foi para a ginástica na quadra.

Ela nº 4. Estava apaixonada por ele, e acreditava ser correspondida. Ele lhe dirigia olhares meigos e parecia dizer o nome dela num tom diferente do que usava para as outras 49 participantes das oficinas. Ouviu dizer que ele era metrossexual e pesquisou a respeito na Internet. Na primeira oportunidade, demonstraria conhecimento do assunto.
...

Ela nº 50. Amanheceu com uma cólica horrorosa. Tinha de terminar a crônica sobre o papel socioeconômico das mulheres indígenas brasileiras no contexto da globalização e começar outra sobre as causas psicossociais da não-concessão de preferência no trânsito por 80% das motoristas brasilienses. Ele lhe dera um texto complexo sobre conflitos inerentes à dualidade alma/corpo em face do presencialismo. Não entendeu nada, mas parecia profundo. Sabia que ele confiava nela, e não o decepcionaria.

Faltam poucos minutos para as 20h. Ele faz uma prece, elas esquecem as dúvidas e as mágoas, e juntos eles sobem ao palco para mais uma noite de grande emoção.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Suelene e o Guapuruvu

Liana Ferreira












Caminhava tristemente pelas entrequadras. Ia sem rumo e sem pressa. Acostumou-se a perambular pelos jardins bem cuidados, à sombra de árvores forasteiras, tal qual ela própria. Olhava o céu ali tão próximo que quase podia alcançá-lo. Gostava dos grandes espaços urbanos, de andar pelas ruas sem esbarrar na multidão e apreciava, ainda mais, o trânsito de automóveis quase sem buzinas. Tudo tão diferente da São Paulo onde viveu até os 45 anos, daquele Jaraguá caótico, com poucas e empoeiradas árvores, onde tudo beirava ao cinzento.


Chegou a Brasília em um novembro qualquer e deparou-se com os flamboyans floridos.Muito rápido deixou de andar cabisbaixa, tantas e tão lindas eram as flores para admirar: patas-de-vaca, spatodias, guapuruvus, sibipirunas, mungubas, jacarandás e Ipês-roxos, rosas, brancos e amarelos. Achou que num lugar tão diferente poderia viver uma vida nova, longe dos problemas que fizeram dela essa mulher amarga, superalimentada de mágoas.


Casou-se pela terceira vez com um funcionário público que, se não a espancava como os maridos anteriores, também não a respeitava . Era infiel e desatencioso. Estavam juntos há 12 anos e esse casamento seria para sempre. Ela era a governanta e enfermeira de que ele tanto precisava e ele o provedor de suas necessidades materiais mais básicas. Não foi com uma relação assim que sonhou tanto. Queria amar e ser amada. Sempre achou que era possível viver um grande amor e saiu tentando.Pretendia caminhar com alguém cujo destino se cumprisse junto ao seu.


Quando casou pela primeira vez aos 15 anos, tinha, além de um exército de hormônios enlouquecidos, a certeza de ter encontrado o companheiro para uma vida. Logo viu que se enganara. E seguiu vivendo, acumulando tentativas e desenganos.


Não teve filhos, apesar de ter engravidado três vezes.


A cada aborto sentia-se menor, restrita, limitada. Queria ter filhos para conduzir pelas mãos, transmitir suas experiências, dividir alegrias e tristezas.Dar afeto. A falta de filhos fazia com que percebesse a banalidade de sua existência, uma forte sensação de que estava passando pela vida despercebida, sem deixar marcas ou rastros. Invejava as mulheres que percebia realizadas na maternidade.


Foram tantas as renúncias que perdeu a conta. Foram tantos os atos praticados sob coerção que desenvolveu uma apatia crônica. Não era alegre, nem era triste: não era nada.


Suelene sente sobremaneira o peso dos anos, está incomodada e abatida. Olha-se de frente e vê-se apodrecendo, sua seiva é escassa e suas raízes frágeis. Faltou-lhe poda e adubo. Ameaçando desabar, bom seria que seu fim fosse abreviado, tal qual o inadaptado guapuruvu derrubado em frente ao edifício amarelo da Câmara, cuja ausência, tão pouco reclamada, deixou o prédio mais amarelo e mais nu.










Liana Cristina de Oliveira Ferreira nasceu em Belém do Pará, em 1957. É Bacharel em Psicologia, formada pela Universidade Federal do Pará. Mora em Brasília desde 1983, ano em que começou a trabalhar na Câmara dos Deputados. Começou a escrever contos nas oficinas literárias do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, sob a orientação do Prof. Marco Antunes. Participou da primeira coletânea "Literatura de Câmara", em 2004. Foi jurada no 1° Desafio dos Contistas do Núcleo de Literatura e patronesse do prêmio Melhor Conto em Comédia ou Infantil. O texto "Suelene e o Guapuruvu" foi publicado em 2007 na Revista Vagalume (http://www.revistavagalume.com).



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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira