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Mostrando postagens de Janeiro, 2008

Escambo de Natal

— Você já estava acordada, pois não? - disse a agradável voz.
— Claro - ela respondeu, embora “acordada” não descrevesse bem a letargia que a dominava às 8 horas do chuvoso domingo. Seus olhos mal se abriam e um fragmento de sonho esperava ser terminado.
— Então, vamos lá? - convidou a amiga, totalmente desperta e pronta para os acontecimentos do dia.
— Está chovendo. Você acha que vale a pena?
— É só um chuvisco. Vamos à luta!
Compromissos são sagrados, em qualquer circunstância. Reuniu forças para levantar-se, tomou um rápido banho de olhos fechados e esquentou no microondas uma xícara de café do dia anterior. Comeria alguma coisa no clube.
Se o encontrasse. Era sócia, mas o visitara apenas uma vez, há cerca de três anos, e não se lembrava do caminho. O endereço não ajudava, pois, conforme descobriu, o Setor de Clubes Sul era um labirinto com ramificações inimagináveis, levando a lugares que ela nunca supôs existirem. A chuva dificultava a busca ao encobrir os letreiros das raras placas e…

Mulheres e Atitudes

Liana Ferreira




Marlene caminhou com passos firmes em direção à cozinha. Decisão tomada. Olhava para o chão e via passar uma a uma as cerâmicas desgastadas, envolvidas por encardido rejunte. Àquela hora, o mundo parecia tranqüilo, apenas um cachorro vagabundo insistia em latir tristemente como se quisesse lembrá-la de que a paz era apenas aparente. Chegou à cozinha com sensações iguais às que experimentou ao chegar do Maranhão. Uma vida desconhecida descortinava-se à sua frente e ela tinha de vivê-la. Também, como há vinte anos, não estava preparada, ainda assim não tinha medo. Sabia o que tinha de fazer e o faria naquela madrugada fria de junho, porque não agüentava mais um único dia igual aos que vinham-se sucedendo.

Afastou o plástico que servia de porta para o armário de utensílios embaixo da pia e abaixou-se para pegar a panela. Não queria fazer barulho para não acordar as pessoas que dormiam naquela casa pequena . Encheu devagar a panela com água e a colocou sobre o fogão. Procurou…

Ele & Elas

“O ESPAÇO CULTURAL CONVIDA PARA SARAU LITERÁRIO-MUSICAL A REALIZAR-SE QUINTA-FEIRA, ÀS 20H.”

Há uma semana ele não dormia direito. O ensaio dera muito trabalho: elas conversavam feito crianças, e teve de ameaçar atingi-las com o sapato para que ficassem quietas. Estava deprimido, como sempre acontecia antes dos saraus, ainda mais este, em que sua própria obra seria lida. O livro que ia lançar não ficara pronto.
Acordou cedo, fez ioga, meditação e tai-chi para enfrentar o longo dia. Faltavam mil acertos de última hora. Esperava ter atendido a todas. Será que esquecera alguma?
Às 8 horas, o telefone começou a tocar.
Eram elas.
Ela nº 1. Estava magoada porque ele não a chamara para a frente do palco. — O cenário deve estar uma droga, - pensou, prometendo a si mesma que pela última vez participava do maldito sarau. Chegou mais cedo, para ler os textos que ele só lhe enviara no último minuto. Planejou uma pequena vingança: não rir de nenhuma piada que ele contasse, nem comprar o livro que el…

Suelene e o Guapuruvu

Liana Ferreira












Caminhava tristemente pelas entrequadras. Ia sem rumo e sem pressa. Acostumou-se a perambular pelos jardins bem cuidados, à sombra de árvores forasteiras, tal qual ela própria. Olhava o céu ali tão próximo que quase podia alcançá-lo. Gostava dos grandes espaços urbanos, de andar pelas ruas sem esbarrar na multidão e apreciava, ainda mais, o trânsito de automóveis quase sem buzinas. Tudo tão diferente da São Paulo onde viveu até os 45 anos, daquele Jaraguá caótico, com poucas e empoeiradas árvores, onde tudo beirava ao cinzento.

Chegou a Brasília em um novembro qualquer e deparou-se com os flamboyans floridos.Muito rápido deixou de andar cabisbaixa, tantas e tão lindas eram as flores para admirar: patas-de-vaca, spatodias, guapuruvus, sibipirunas, mungubas, jacarandás e Ipês-roxos, rosas, brancos e amarelos. Achou que num lugar tão diferente poderia viver uma vida nova, longe dos problemas que fizeram dela essa mulher amarga, superalimentada de mágoas.

Casou-se pela tercei…