A Bênção


No meu aniversário, ao voltar do trabalho, encontro um recado sobre a mesa: “seu padrinho ligou”, seguido de dois números de telefone. Padrinho? Eu nem sabia que tinha um! Ainda por cima, nobre: chama-se Duque. Não poderia receber melhor presente.

Retorno a ligação e ouço um forte sotaque mineiro. Quer muito me ver. Já nos conhecemos: carregou-me no colo quando bebê. Dou-lhe meu endereço e combinamos um encontro para a semana que vem. Na breve conversa, descubro que mora na Asa Norte, é aposentado e passa muito tempo na roça. Era o melhor amigo de meu pai, hospedou-o na primeira vinda a Brasília e também sente saudades dele. Tem um baú de fotos antigas para me mostrar.

Meu padrinho ligou e quer muito me ver. Sinto-me já abençoada. Procuro mais informações sobre ele. Meu tio diz que é gente boa, mas não sabia que era meu padrinho. Minha mãe se lembra de que é baixinho e manco, mas padrinho só se for de crisma, porque os de batismo eram minha querida avó, já falecida, e o marido de uma tia, o qual nunca se importou comigo.
Meu padrinho ligou e quer muito me ver. Estou ansiosa como uma noiva. Sei que trará boas-novas. Pedirei que regue minhas raízes, que recomponha fragmentos extraviados da minha história. Que me conte quem era meu pai antes do álcool — se foi feliz na juventude, se realizou sonhos, se deu carinho à minha mãe, se pensou em mim antes de morrer.

Chega o dia da visita. Desço bem cedo para caminhar com Skipper, nosso novo cãozinho. A grama está molhada pela chuva da noite. O céu exibe um azul impossível e o ar é puro como num domingo de missa. Mandei encerar a casa, limpar as janelas, lavar as almofadas. Comprei quitandas e flores do campo para enfeitar a sala. Sinto cheiro de jambo, como na infância. Quando a campainha toca, abro a porta com o coração aos pulos e saúdo com os olhos já úmidos minha testemunha primitiva:

— A bênção, padrinho.



(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)

Fotomontagem: Chackal

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