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Gatos e flores

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Luci Afonso Meu novo apartamento é pequeno. Pequeno, não, minúsculo. Fica no primeiro andar, onde se ouve todo o barulho da rua. Motoqueiros entregando comida, carros acelerando, gente conversando na calçada. Mas aos poucos eu aprendo a gostar dele. O vizinho da casa em frente mandou pintar o novo portão de branco. A senhora que mora ao meu lado tem um pequeno jardim na marquise. Ouço quando ela abre a janela, duas ou três vezes ao dia. Em alguma casa subindo a quadra, alguém estuda flauta. O sino da Igreja toca ao meio-dia. Um gato amarelo passa em frente à janela. Comprei flores amarelas para enfeitar a sala. Depois de secas, eu as coloco na minha sala de escrever e acendo um incenso, enquanto medito. O poste lança a luz amarela nos quartos. Se eu abrir a persiana, a luz faz listras na parede. Preciso de pouco espaço para viver — que seja pelo menos do tamanho de um útero.                  (Imagem: Pintura espontânea d...

Nota de esquecimento

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Luci Afonso Caro leitor, Desculpe a desatualização. É que me afastei temporariamente da minha profissão escritora. Estive buscando o amor no lugar errado. Alimentei-me de gestos rudes em vez de carícias. Vivi de passado e de futuro. Desabitei o “agora”. Achei que podia prescindir das palavras. Esqueci que elas são meu oxigênio, minha lucidez, minha identidade. Confundi primo com pai, tia com mãe, criança com homem, amigo com apaixonado. Cheguei à extrema solidão de dois. Mas graças a você estou de volta. Hoje reparei no intenso amarelo dos ipês em meio à seca. A cigarra cantou no fim do dia. Dei à luz a primeira crônica nascida no depois. Obrigada por não desistir de mim. Imagem: "Primeira chuva", de Luci Afonso (Texto publicado em 20 de agosto de 2017.)

Querida estranha

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Luci Afonso De repente me deparo com essa querida estranha dentro de mim. Onde foi que ela andou? De repente me surpreendo no espelho com a pele enrugada. Como foi que envelheci? De repente me vejo através de olhos imensos. Quando foi que eles se abriram? Lá fora a seca embeleza o céu azul-abençoado. O pôr do sol se torna arco-íris, a grama tem mil tons de marrom. A mulher que caminha devagar sente a vida rebrotando no peito e não sabe explicar por que hoje acordou sentindo um amor absoluto por ela mesma. O cheiro das coisas a penetrou como nunca, e as várias camadas de pele impregnaram-se dos afagos do mundo. Imagina-se retocada de maquiagem, os dentes muito brancos, o cabelo cinza. Sabe que agora se conhece, se entende e se ama. O vestido para a festa é de cetim vermelho. Tem uma fenda na coxa direita e um decote que mostra parte dos seios ainda firmes. Enfim chegou aos sessenta, inteira e possuída de si mesma. Deixa que os redemoinhos da seca levem seu homem pa...

Faminta

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Luci Afonso Estou faminta de companhia. Alguém que cuide de mim, que faça a comida, que passeie comigo, que me leve ao parque e tome sol junto. Que me traga água, café, suco, remédio. Que permaneça acordado enquanto durmo. Que me faça rir. Que me enxugue após o banho. Que me diga: Está tudo bem . Que me conte histórias. Que compartilhe minha visão do mundo.  Que mova cristais ao sol para que façam reflexos na parede. Não adianta procurar fora. Só existe um humano assim, e ele está dentro: meu Eu sábio e infinito. Meu pai e minha mãe internos. Minha criança divina. Minha guerreira. Meu pássaro da coragem. Minha baleia jubarte. Faço uma prece diária para que venham ao meu encontro. Eu os espero, compassiva e serena, no centro da minha alma. Imagem: Pintura Espontânea - "Faminta", de Luci Afonso