domingo, 9 de outubro de 2011

Senhora dos Gatos



Luci Afonso

Desceu do ônibus por volta das dezenove horas, como de costume, e quando começou a caminhar percebeu que era seguida. Virou-se, mas não viu ninguém. Andou mais rápido. Quando já entrava na quadra, ouviu um gemido. Tomando coragem, refez seus passos e a viu escondida atrás de uma quaresmeira. A pata direita sangrava. Os olhares de fêmea se cruzaram:
— Você quer que eu te salve?
A gata hesitou, mas finalmente aproximou-se da mulher e esfregou-se na sua perna. Rose sentiu um arrepio e soube, então, que encontrara a razão de sua vida.
Pegou o animal com cuidado e o levou até o apartamento nas 400. Usou o edredom que havia sido da filha para forrar o chão do quarto de hóspedes. Após limpar e tratar os ferimentos, encheu duas vasilhas de plástico com leite e água.
— Você vai se chamar Dévon. — A gata assentiu, lambendo as mãos da salvadora.
Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, Rose estava diferente. Não se sentiu sozinha no ônibus lotado. Respondeu ao bom-dia das colegas de repartição com a alma leve, ao contrário dos últimos meses, em que nem se dava ao trabalho de cumprimentá-las. O toque constante do telefone não a incomodou. A voz do chefe, antes insuportável, soou simpática.
Como estava sem serviço, passou o dia pesquisando na Internet sobre entidades que cuidavam de gatos abandonados. Descobriu uma ONG e filiou-se na hora. A secretária enviou por e-mail o estatuto, o termo de adoção e um manual de cuidados com bichanos.
Antes do almoço, resolveu tomar o remédio para a febre que começara há alguns dias. A comida do bandejão cheirava bem e estava saborosa. Será que haviam trocado a firma? Tomou suco e comeu sobremesa, o que dificilmente fazia. Duas horas depois, estava de novo faminta e devorou um pacote de biscoitos.
Foi com alegria que pegou o zebrinha cheio e se equilibrou durante as loucas manobras do motorista. Havia comprado ração e caixa de areia para Dévon, além de um ratinho de brinquedo. Subiu correndo as escadas do prédio e, ao abrir a porta, constatou, surpresa, que o apartamento estava vazio. Nenhum sinal da gata, nem do edredom no quarto de hóspedes, nem das vasilhas com leite e água, nem dos curativos na pia.
— A diarista! — ela deduziu imediatamente. Pegou o celular e digitou, enraivecida, o número da moça. Com certeza, ela havia se livrado do animal sem consultá-la. O telefone estava na secretária eletrônica. Gravou todos os xingamentos que conseguiu lembrar e despediu a abusada.
Não conseguiu dormir. Imaginava ouvir um miado e um leve arranhão na porta da sala. O corredor, porém, estava vazio. Deixou as janelas abertas, na esperança de que a gata voltasse.
Faltou ao trabalho nos próximos dias e mandou dizer que estava doente. Não tinha fome nem sede. Perdeu a noção do tempo. Quando estava claro, deitava-se no sofá. Quando escurecia, acomodava-se na cama.
Uma noite, não suportando mais a ausência de Dévon, desceu à sua procura. Chovia forte, mas não se preocupou em levar a sombrinha. Logo à saída do prédio, escorregou numa poça de lama e feriu a perna na cerca do jardim. Um fio de sangue escorreu até os chinelos.
A intuição lhe dizia que encontraria a gata no mesmo lugar. Andou lentamente até a quaresmeira sem se importar com a dor, que aumentava a cada passo.
Esperou longo tempo na chuva, tremendo por causa da febre. Notou que uns gatos se aproximavam. Quando pensava em voltar, Dévon saiu de trás da árvore:
— Você quer que eu te salve?
          Rose não hesitou: foi até a gata e deixou que lambesse a perna ensanguentada.
            Na linda manhã que seguiu a tempestade, acordou sem dor em outro mundo, em que ela e os gatos se compreendiam e se amavam sem abandono.

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sábado, 1 de outubro de 2011

Doidinha



Luci Afonso
— E aí? — A cabeça ovalada apontou na fresta da porta.
— Virgem Nossa Senhora! — A avó teve um desmaio, a mãe começou a chorar e Dona Aurora fez o sinal da cruz.
— Não estou lindíssima? — ela entrou e deu uma volta no meio da sala.
— Você ficou doida? — gritou a mãe, entre soluços.
— Fiquei, e daí?
— Por que você fez isso, minha filha? — perguntou a visita.
— Porque eu quis, véi. É meu, eu faço o que eu quiser. Ninguém tem nada com isso.
— Filha... — quis saber a avó, já refeita do susto, mas ainda trêmula — ...você vai sair na rua assim?
— De boa, vó! Eu quero que todo mundo me olhe.
— Mas e se eles rirem de você?
— Quem estiver perto, eu meto a mão. Quem estiver longe, eu xingo.
— Foi ideia daquele gay, não foi? — gritou de novo a mãe, referindo-se ao Mano, que sempre fazia cortes malucos no cabelo da filha. Da última vez, desenhara um losango no alto da cabeça, mas agora era demais... — Cadê o telefone daquele... daquele...
— A ideia foi minha, falou? Eu já tenho quinze anos!
— Você pode usar uma touquinha de crochê enquanto cresce. Vai ficar bonitinho... — sugeriu Dona Aurora.
— A senhora que use touquinha, se quiser. Eu vou andar assim mesmo. Quem gostar, gostou. Quem não gostar, pode se f...
Levantou-se e foi embora. No caminho para casa, ouviu assobios e comentários, mas não ligou. Não se preocupava com a opinião dos outros. Não precisava de ninguém. Era um espírito livre. Libertíssimo.
A esta hora, os irmãos estavam na escola e a mãe provavelmente ia demorar. Abriu uma cerveja do pai, acendeu um cigarro e sentou-se no canto preferido da varanda. Na parede, havia escrito em letras enormes: “SE EU MORRER, MORREREI DE PÉ, COMO UMA ÁRVORE”. Não sabia bem o que significava, mas incomodava muita gente, e isso já valia a pena.
Era rebelde, sim. Rebeldíssima. Fumava e bebia, contestava os mais velhos, brigava com os pirralhos dos irmãos, desafiava regras, desobedecia leis, não aceitava intromissões em sua vida. Sabia muito bem o que queria: liberdade, liberdade e liberdade... Para fazer o quê, ela tinha muito tempo para decidir.
O telefone tocou:
— E aí, gata, tudo em cima para a festa? — O namorado a convidara para um casamento chiquérrimo logo mais.
— Tudo em cima, amor.
— Você vai usar o cabelo solto, como eu gosto? Quero te ver linda.

Às oito em ponto, ouviu a buzina. Conferiu a maquiagem, passou mais perfume e pegou a bolsa de mão.
— Você está irada! — ele disse quando a viu.
Ela entrou no carro e acendeu outro cigarro, ajeitando a peruca longuíssima que Mano lhe emprestara de última hora.
         

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira