sexta-feira, 25 de abril de 2008

O guardião da manhã



Luci Afonso


Acordo aborrecida com pequenos problemas. Ainda não fiz a declaração do Imposto de Renda, que sempre deixo para a última semana; minha secretária não está limpando a casa direito e começou a reclamar da ida diária ao supermercado; preciso retomar as sessões de acupuntura para a tendinite, mas não tenho ânimo; o trabalho está um saco; ainda não escrevi a crônica da semana.

Tomo o café sem sentir o gosto e me arrumo com mau humor, antevendo a chatice de enfrentar o trânsito congestionado no Eixão e de procurar uma vaga no estacionamento entupido.

Esqueço que justamente ali me aguarda um ser humano-humano, que tem o dom de transformar meu espírito.

— Bom-dia, madame! - Saúda a voz de samurai.
— Bom-dia, Sr. Pernambuco. - Respondo, já me sentindo um pouco mais leve.
— A senhora tá boa? A família tá boa? - pergunta o sorriso de dentes escassos.
— Tudo bem. E o senhor?
— Tudo bem, graças a Deus.

E, como um sacerdote que acabou de celebrar a missa matinal, profere a bênção que sempre me enternece:
— Deus lhe acompanhe.
— Amém - digo quase com alegria.

Ninguém sabe o nome verdadeiro ou a idade do velho que é o primeiro a chegar de algum setor distante do Plano Piloto para lavar os carros de altos funcionários públicos, geralmente insatisfeitos, como eu. Só faltou ao trabalho duas vezes: quando o filho levou um tiro e quase morreu no Hospital de Base e quando ele próprio foi assaltado e ferido na perna, perdendo parte dos movimentos.

A aparência rude esconde um homem bonito. Imagino-o executivo bem-sucedido, mandando lavar o carro de luxo em algum estacionamento, ou nobre Deputado, atravessando, em terno escuro, os corredores da Câmara e impressionando os ouvintes na tribuna.

Mas preciso dele exatamente ali. Enquanto o guardião da manhã mantiver seu posto, estarei a salvo de angústias menores.


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Olhos de areia



Mônica Thaty

Joana sumiu. Em uma noite sem estrelas, e sem deixar rastros ou pistas. Sequer migalhas de pão que indicassem seu caminho. Apenas a voz carregada de tristeza e cortada de soluços no celular do seu namorado. “Não posso mais...” E depois que a voz rouca também sumiu, Lucas ainda ficou com o telefone mudo na mão, sabendo que havia algo a fazer, mas o quê?

Lucas, que não saía de madrugada, cheio de trancas na porta e preocupações. Lucas que desconfiava de trovões, raios e ventos fortes. Lucas que não ia a lugar algum sem o casaco e o guarda-chuva, que mesmo quando menino subiu em poucas árvores e colecionou poucos machucados. Esse mesmo Lucas viu-se obrigado a sair na noite fria à procura de Joana.

Resolveu pedir ajuda a Bárbara, melhor amiga de sua namorada. Bárbara, de olhos verdes, cabelos vermelhos e alma de bruxa. Bárbara que cresceu fascinada por histórias de mulas-sem-cabeça, sacis e fantasmas, que apaixonou-se ainda pequena pelo Negrinho do Pastoreio e o invocava em noites de solidão para que lhe fizesse companhia. Bárbara que não temia nada, muito menos a noite, mesmo que sem estrelas, mesmo que cheia de nuvens e maus presságios.

Lucas quis chamar a polícia, Bárbara não deixou. Era perda de tempo. E tempo era algo que já não tinham. E aquela busca não seguia a lógica de investigadores, apenas indícios que existiam apenas no coração de quem amava Joana. Era isso que perseguiam. A que lugar a suavidade, a leveza e a fragilidade de Joana a haviam levado? Onde encontrar Joana e seus olhos cinza-chumbo, de areia movediça, que às vezes deixavam transparecer certa inquietude? Um incômodo que era quase nada, mas que, como o vento na rocha, corroía aos poucos o equilíbrio de Joana.

Bárbara dirigia, enquanto murmurava orações e simpatias que não acalmavam em nada o coração de Lucas. Entretanto, seus próprios pensamentos também não o tranqüilizavam. Pensava em assaltos e seqüestros, em pneus furados e na tempestade que se anunciava. Bárbara pensava... Não pensava em nada. Apenas em encontrar Joana.

Passaram por bares animados e ruas escuras. Hospitais cheios e praças desertas. Visitaram lugares aos quais os pés de Lucas nunca o levariam por vontade própria. Lugares que ele nunca imaginaria, mas que faziam parte da vida de Joana. Lugares que ela conheceu enquanto ajudava os outros e se perdia. Enquanto encontrava a força que depois jogava fora em uma noite ruim. Lugares onde Joana foi triste e quase feliz. Mas ninguém sabia dela, ninguém a viu.

Afastavam-se do centro da cidade, do movimento, das luzes. Havia plantas nos cantos das vias e menos postes nas ruas. Até que chegaram a caminhos onde não havia nada, mas de onde se ouvia já o barulho do mar. E em uma dessas trilhas, de areia pisada no rumo da praia, encontraram o carro de Joana. A porta aberta e dentro apenas um pedaço de papel, meio amassado, onde sua letra trêmula havia escrito “Queridos”. E só.

Lucas procurou algo mais, no entanto só achou pegadas misturadas a outras na areia fofa e já meio desfeitas pelo vento. Gritou por Joana, e só ouviu sua voz e o barulho do mar. Um trovão. A chuva caiu, e ficaram ali. Lucas com o coração cheio de uma certeza triste, encarando o inexorável e sentindo-se estranhamente forte. E Bárbara, com o coração transformado em um poço de dúvidas, e temendo o mar.

Continuaram ali enquanto amanhecia aos poucos, e era Lucas que tomava as providências práticas, enquanto Bárbara olhava o mar. Não havia sinal no celular e a gasolina havia acabado, como se o carro, assim como eles, houvesse esgotado suas últimas forças naquela busca inútil.
Lucas foi buscar ajuda. Bárbara continuou olhando o mar. Um menino negro, de sorriso aberto passou por ali. Encarou Bárbara. Acenou. Ela baixou a cabeça e ignorou-o. Queria ficar só. Mas de repente sentiu medo. Procurou o menino. Ele já havia partido. Voltou a olhar o mar...

E ainda hoje, em dias de sol ou noites frias, Bárbara ainda olha o mar. Esperando que a mesma onda que levou Joana sem deixar traços a traga de volta à praia. Sorrindo e correndo. Brincando como antes. Então ela aperta a mão de Lucas, e ambos, cada um à sua maneira, tenta lidar com as lembranças.
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Entrevista com Rubem Alves*



por Josué Machado


Qual seu método de trabalho, se tem algum: é sistemático?

Meu corpo e minha alma ainda não entraram na rotina da linha de montagem. São crianças. Escrevem como quem brinca. Às vezes, correria, pique. Noutras, no ritmo do balanço. Amo escrever. Não há método para o amor. Ele acontece quando se sente tesão. E sinto sempre tesão por escrever. Fernando Pessoa sofria da mesma coisa. Escreveu: "Sinto uma ereção na alma..."

Autores dizem que começam a escrever e não sabem o que vai ocorrer depois. Que a história se conduz sozinha. Como é no seu caso?

Olha, quando vou escrever, coloco as idéias no papel, como se fossem um mapa a ser seguido. Mas sei que é inútil. Porque na viagem eu vejo cenários imprevistos e me embrenho por eles. Tenho a sensação de que, quando estou fazendo meu esbocinho, as idéias comentam: "Ele está só fazendo esboço. Não é preciso ir lá. Quando ele começar a escrever, então apareceremos..."

Trabalha lenta ou rapidamente?

Tudo depende das idéias. Há as que vêm sob a forma de cachoeiras e a digitação não consegue segui-las. Outras vêm com a vagareza de caramujos, arrastando-se. Algumas simplesmente se recusam a comparecer. É preciso, então, deixar para depois.

Usa lápis, caneta, antes do computador?

Sempre o computador. (...) Mas entendo que haja pessoas que têm uma relação amorosa com a folha de papel. Aliás, o ato de escrever é uma metáfora sexual: o lápis pontudo tirando a virgindade da folha branca...

Demora muito para terminar um livro? O trabalho emperra às vezes?

Já tive um caso de emperramento. Trabalhei três anos num livro e cansei. Ele ficou esquecido num arquivo. Aí, de repente, lembrei-me de que Schubert compôs uma sinfonia que não conseguiu terminar. E é linda! Então, por que não publicar um livro que não terminei? Ao final eu explico ao leitor o caminho que eu iria seguir e ele que o siga por conta própria. É um livro de que gosto muito: Livro sem fim (Loyola).

Já escreveu mais de 70 livros, a maioria depois dos 40 anos. Talvez mais de dois em média por ano. Por que produz tanto? Não seria melhor desfrutar?

Escrever, para mim, é como armar quebra-cabeças. É brincar... Viver só no desfrute é um tédio. É preciso construir alguma coisa que contribua para melhorar as pessoas e o mundo.

*Trechos da entrevista publicada na Revista Língua Portuguesa n° 20, junho de 2007
(
www.revistalingua.com.br)


Sobre a crônica**

“Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver. Uma das minhas alegrias são os emails que recebo de pessoas que confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo meus textos. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de três páginas. O que escrevo são aperitivos.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos. Mais que isso: quero que eles sejam comidos com prazer. Esse é o sonho de cada escritor.”


** Trecho da crônica “Os ipês amarelos”, em “Um céu numa flor silvestre — A beleza em todas as coisas”, Verus Editora, 2005.

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quarta-feira, 23 de abril de 2008

XXIV SARAU DA CÂMARA DOS DEPUTADOS





100 Anos sem Machado de Assis

Teatro SESC Garagem - 913 Sul

28 de abril - 20h30min


Este Sarau especialíssimo fará homenagem ao maior mestre da Literatura Brasileira.
Na parte musical, grandes letras da MPB com nomes conhecidos em nossa cidade: a cantora ÂNGELA REGINA e o violeiro MARCOS MESQUITA.
Após a apresentação, coquetel em que se realiza a grande confraternização do público com os participantes.
Serão autografados livros de Amneres Santiago, Emanuel Mazza, Alexandra Rodrigues, Isolda Marinho, Marco Antunes e Luci Afonso.
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sábado, 19 de abril de 2008

Mãe e filha



Luci Afonso

Alguém deixara uma boneca caída na grama. A mulher a pega com cuidado, desamassa o vestidinho florido e fecha os grandes olhos castanhos. Limpa também uma pequena mancha vermelha no rosto de porcelana.

Olha para cima, contando os andares, até chegar à sexta janela. A esta hora, a filha deve estar dormindo, exausta, após um dia de brincadeiras com o pai e os irmãos. Em pensamento a aconchega no edredom, acende o abajur e sai devagar do quarto, como sempre faz quando ela está em casa. Mal pode esperar para revê-la no dia seguinte.

Enquanto volta para seu apartamento, ouve ao longe sirenes e vozes. Algo grave parece ter acontecido. Lembra-se, de repente, da manhã de domingo em que a menina nascera, deixando suavemente o útero e deslizando gentil pelo corpo da mãe, como se não quisesse lhe causar dor. Minutos depois, o pequeno ser levava a boca ao seio, que nunca recebera carícia tão delicada.

Quando abre a porta de casa, percebe que sem querer trouxe a boneca. Outros pontos vermelhos surgiram nos bracinhos e pernas. Vai até o banheiro da filha e pega a caixa de primeiros socorros. Lava os ferimentos e aplica curativos, perguntando-se quando fora a última vez em que a menina se machucara. Certamente, fazia muito tempo, pois não consegue se recordar.

No canto do quarto, amontoam-se os enfeites da festa que ela vem preparando há um mês. Aproveita que está sem sono para organizá-los. Tira da caixa o vestido azul que a filha usará no aniversário daí a alguns dias. Vai ficar linda! Põe uma música e gira, abraçando o vestido. Por que está tão feliz?

A boneca a encara da poltrona. A mãe tem uma idéia maluca: há quanto tempo... não brinca de boneca? Troca o vestidinho florido pelo azul, penteia os cabelos de nylon marrom e limpa as manchas que teimam em aparecer no pequeno corpo.

— A senhorita quer dançar? - pergunta. Sem esperar resposta, enlaça a menina e rodopia ao som da música, agora mais alta, até cair sem forças na cama desfeita.

Uma lágrima minúscula brota nos olhos de mãe e filha um pouco antes de adormecerem.
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Carrossel


Mônica Thaty

Em um dia de céu nublado e coração cinza, Rita foi ao parque de diversões. Chegou lá sem saber aonde ir, guiada por um sentimento tão indefinido quanto irracional. Vontade de não ver ninguém conhecido. Vontade de perder-se na multidão.

Dia de semana, multidão de meia dúzia, mas quem precisa de mais do que isso? Um único desconhecido pode ser uma turba para quem procura a solidão.

De longe Rita viu o Carrossel. Sem luzes e sem brilho, com cavalos de tinta descascada. Mas ainda assim seu coração encheu-se de ternura, lembrando de outros carrosséis, cheios de sonhos e risadas de menina. Pagou o ingresso, acomodou-se em um cavalo verde, de crina amarelo encardido. E começou a girar.

E girou e girou. Olhou para dentro e para fora. Para frente e para trás. Riu por um momento. Achou tudo muito chato, em outro. Andou um pouco por entre os cavalos. Subiu em um azul. Desceu novamente e ficou um pouco parada, os braços meio abertos, equilibrando-se no espaço. Lembrou-se de como se divertira uma vez, ainda pequena, com algumas amigas. E em outra, já adolescente, com amigos diferentes.

Montou em um cavalo e agarrou o seu pescoço, os olhos fechados apertados e sentindo-se girar. Rápido, rápido, rápido. Lento, lento, lento. A vida estava ali, naquele carrossel. Podia fazer o que quisesse, ser o quisesse. Só não podia parar de girar ou descer do brinquedo em movimento.

O carrossel foi diminuindo o ritmo. Parou. Rita continuou.
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O Chamado*



Por Lygia Fagundes Telles


Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco aprendi duas palavras aparentemente banais, mas que acabaram tendo tanta importância no meu ofício, a palavra liberdade e a palavra justiça. Mas foi no terreno dos esportes que aprendi a disciplina, segredo do modesto equilíbrio desta escritora neste indisciplinado país. Sim, foram aquelas aulas de esgrima que eu amava tanto e ao mesmo tempo, temia, foram elas que me ensinaram a dura lição do desafio de exigir rapidez de raciocínio a alguém assim de reações demoradas, lentas, Uma tartaruga! ouvi minha mãe gracejar. Contudo, como me sentia feliz naquele uniforme todo branco, a túnica fechada e o coração de feltro vermelho pregado no lado esquerdo do peito. O professor provocava e investia enérgico nos treinos, máscara e florete. Em guarda! ele ordenava e eu tentando disfarçar a natural lerdeza, tinha que ser sagaz e me confundia em meio das ordens, Se defenda depressa que agora você se descobriu, olha o peito desguarnecido! Eu reagia tarde demais porque ele avançava implacável até tocar com a ponta do florete no meu coração exposto.

Ficou a lição de cobrar de mim mesma uma energia que também é malícia, aquela força acumulada lá no fundo e que hoje eu chamo de minhas reservas florestais, enfraquecidas pelo desmatamento. Nesse tempo eu já falava em vocação e que vem a ser a vontade de fazer isto e não aquela outra coisa eventualmente mais proveitosa e até mais fácil: vocare, aprendi nas aulas de latim. O chamado. Obedecer a esse chamado é uma destinação, mas não a condenação que implica perda de liberdade, na perda entraria o amargor, o que transformaria o escritor numa esponja de fel. Obedecer à vocação seria simplesmente exercer o ofício da paixão, era o que me ocorria quando diante da pequena mesa abria o meu estojo com as canetas, escolhia a pena preferida, molhava a pena no tinteiro e começava a escrever as minhas histórias. Mas tomando cuidado para não sujar os dedos da mão direita, ih! olha aí as nódoas de tinta nos dedos, esfregar o mata-borrão melhorava mas cuidado com a blusa!

Quando me perguntavam o que eu queria ser respondia, Uma escritora. Mas não falava em vocação, tinha pudor em assumir o ofício, falar em vocação não poderia parecer arrogância com um toque até de soberba? Só mais tarde é que fui compreendendo, na vocação não está incluído o sucesso, ah! tantas vocações fulgurantes e a obra na maior obscuridade. O silêncio, ninguém leu? ninguém viu. Melhor se tiver repercussão, mas na realidade o que importa é obedecer ao impulso. O chamado. Nenhuma preocupação com os penachos da vaidade mas prosseguir o trabalho com paciência, o aprendizado da paciência.

Não sei como será a vida de um escritor de outras terras, outras gentes mas sei da vida desta escritora neste país, testemunha deste tempo e desta sociedade. Pisando na realidade do analfabetismo e da miséria. Passei muito tempo participando do que chamo de verdadeira cruzada, ia a universidades, centros de cultura, bibliotecas e repetindo sempre, O dia em que tivermos mais creches e mais escolas teremos menos hospitais e menos cadeias. Adiantou? - alguém pode perguntar. Pelo visto, não adiantou mas respondo com Camões, Estou em paz com a minha guerra.

Uma guerra dura, sim, afinal escrevemos em português, língua desconhecida, ai de nós! embora o nosso estilo ou modo seja no charmoso feitio brasileiro. O poeta Olavo Bilac, já naquele tempo escreveu estes versos sem ilusões, Última flor do Lacio, inculta e bela/ És, a um tempo, esplendor e sepultura. Olha aí, uma verdade que me parece terrível, esplendor e sepultura, foi o que ele disse. Ainda bem que acrescentou em seguida: Amo-te assim, desconhecida e obscura. Pois participo dessa declaração de amor que inclui uma luta que me parece, às vezes, a própria luta de boxe. Por acaso vi na televisão dois homens se atracando e se separando, se atracando e se separando. Sim, o escritor e a palavra na luta que Carlos Drummond de Andrade achava que era uma luta vã. O boxeur lá na tela se agarra ao adversário para não cair, o assessor quase joga a toalha mas o boxeur resiste tão empenhado, vertendo sangue (o pensamento verte sangue) mas resistindo.

Apesar de tudo, a esperança. Disse um dia que se tivesse uma bandeira essa bandeira teria duas cores, o verde da esperança (a única cor que amadurece) e o vermelho na outra metade, a cor da paixão com as suas cintilações de cólera.

Amo o sonho. A invenção. Escrever é difícil, sim, aquele duro corpo-a-corpo com a palavra mas assim que entro no imaginário, na fantasia me sinto bem porque essa é a zona do mistério, a criação literária é um mistério.

Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de uma imagem, algo que ouvi (ou apenas vi) e retive na memória, essa incompreensível faculdade da memória e Sem a qual eu não poderia pronunciar o meu próprio nome, escreveu Santo Agostinho.

Outros contos (ou romances) nasceram de algum sonho, enfim, a maior parte dos meus trabalhos deve ter origem lá nos emaranhados do inconsciente — zona vaga e imprecisa como o fundo do mar. Impossível determinar as fronteiras do criador e da criação, os limites do imaginário e do real. Minha obra tem um certo travo de amargor? Creio que não, anoiteço às vezes, como toda gente mas de repente espero pela manhã com seu bíblico grão de acaso, de loucura. E de imprevisto.

Escrevi no livro A disciplina do amor que o escritor no Brasil é uma espécie em extinção mas vejo hoje que a espécie em processo de extinção é o leitor. Em cada esquina agora tem um novo editor com os escritores num delírio de lançamentos, sim, um verdadeiro porre de livros. E por onde anda o leitor fugidio, hein?... Li outro dia num noticiário que um esquartejador confesso dispensou o advogado porque queria mesmo ser preso para poder escrever as suas memórias na paz do presídio. Com tarde de autógrafos.

Em Salvador vi num antiquário a imagem de um anjo de botas vermelhas, manto azul esvoaçante e levando na mão direita um archote. Longo tempo fiquei olhando o belo anjo de olhar doce mas firme, empunhando aquela tocha acesa, a chama subindo em ondulações douradas. Um Anjo Tocheiro? Um Anjo Tocheiro que eu gostaria de ter hoje para iluminar o meu caminho.


*Texto publicado na Revista Língua Portuguesa n° 22, agosto de 2007, e no livro de crônicas “Conspiração de Nuvens”, Editora Rocco, 2007.
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sábado, 12 de abril de 2008

Encantada



Luci Afonso


Espero à beira do rio, enquanto o barco se aproxima lentamente. Soltei o cabelo loiro, que chega à cintura. Escolhi o vestido amarelo de renda, nosso preferido, e o chapéu de palha amarrado com fita. Os pés estão descalços para adentrar a água fria.

Ele se levanta e estende a mão. Veste a camisa azul clara, nossa preferida, e uma calça de linho branco. Cortou o cabelo moreno, aparou a barba e se perfumou com aquele aroma de que tanto gosto e de que não lembro o nome.

Sento-me no banco de madeira e recebo, em papel de seda de cor indefinível, o presente que ele me trouxe da longa viagem. É uma sombrinha japonesa, bordada com rouxinóis e flores de cerejeira.
— Para passearmos juntos - ele diz, sorrindo, na voz quase esquecida.

Ele começa a remar. Estamos no meio do rio quando ele pára e segura meu queixo com a ponta dos dedos.
— Senti sua falta - falamos ao mesmo tempo.

Um rouxinol se desprende do bordado, pousa no ombro azul e começa a cantar. Minúsculas flores rosadas caem em meu colo. Eu as planto no cabelo moreno, enquanto afago a barba macia.

Outros barcos vagueiam na manhã de sol, mas apenas o nosso está envolto em sonho. As pessoas invejam tanta felicidade.

Já vai escurecer quando nos despedimos e marcamos novo encontro. Fecho a sombrinha e abraço meu pai com força:
— Te adoro! - nos dizemos ao ouvido, um segundo antes de despertarmos.
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Profissão de fé




— Vão em paz, meus filhos!
Padre Gregório quase soltou um suspiro após a frase, mas engoliu-o antes que fosse percebido por alguém. Já não conseguia disfarçar a monotonia na voz ao celebrar as missas, e já era difícil encarar os fiéis. Não podia dar-se ao luxo de alguém perceber mais algum tom de enfado em suas ações. Atribuíam as suas frases ásperas e as suas repreensões ríspidas a uma certa impaciência, mas a sua fama de “estranho” já havia chegado à diocese.

Os freqüentadores da sua igreja cogitavam se ele talvez fizesse parte de alguma daquelas correntes progressistas que não toleravam qualquer tipo de superstição ou uma tradição mais eloqüente. Mas ainda assim era o pároco, o pastor espiritual da pequena cidade de cinco mil ovelhas fiéis e dedicadas. Na verdade, os fiéis eram mais complacentes com Padre Gregório do que ele com sua congregação. Sentia falta da época em que trabalhou como secretário na arquidiocese. Nada de fiéis requisitando sua presença nas madrugadas frias para a Unção dos Enfermos. Nada de jovens casadoiros ansiosos em ouvir suas palavras sábias sobre o Matrimônio. Nada de procissões mensais, intermináveis novenas, vigílias e mais vigílias, bençãos a casas, bicicletas, animais, automóveis, crianças... Isso sem falar nas correntes de oração, na fila diária de confissões, nas missas lotadas de segunda a segunda e nas pessoas ávidas por conselhos e orientações que ele não era capaz de dar. E agora aquela menina...

Padre Gregório olhou por sobre o ombro para as poucas pessoas que ainda restavam à porta da igreja, como se temendo que alguém pudesse ouvir seus pensamentos. Bem, mas se Deus não poderia escutá-lo, não seriam aqueles pobres ignorantes que conseguiriam.

O investigador enviado pela Santa Sé andava por ali, indagando a todos sobre os supostos milagres da menina. Mas logo Padre Gregório descobriu que ele também indagava sobre ele, suas ações, sua condução da situação, seu relacionamento com a paróquia. Na realidade era um julgamento no qual ele já sabia o veredicto. Soube no instante em que o Padre Emílio chegou à cidade e olhou-o de cima a baixo com seus frios olhos azuis por trás dos óculos de estilo moderno e falou sem meias palavras:
— Tememos que sua demora em avisar-nos do ocorrido tenha causado danos irreparáveis.

Padre Gregório pensou que estava tendo um infarto. Mas logo percebeu que a dor no peito era apenas a mais pura angústia. Sentia sua paz ruir como um castelo de cartas.
— Não quis dar corda a superstições...

Padre Emílio deu de ombros. Neste momento o outro religioso soube que seria o culpado por qualquer um daqueles danos a que o investigador se referia, seja lá o que isso significasse. Saiu do caminho daquele homem arrogante e passou a viver como uma sombra em sua própria paróquia. Não que isso fosse exatamente um sacrifício, já que era a arte que havia desenvolvido nos últimos 30 anos, desde que entrou no seminário. Ser pouco lembrado, pouco percebido. Parecer inteligente, mas não o suficiente para atrair inveja. Parecer pacato, mas não o bastante para pensarem que era medíocre. Dosar as palavras, as ações, e viver confortavelmente exercendo o sacerdócio como um velho guarda-livros.

E assim passaram os dias, uma, duas semanas. Padre Gregório não se interessava pelas investigações de Padre Emílio sobre os supostos milagres na cidade e adiava os pensamentos de ter que prestar esclarecimentos ao Vaticano. Burocraticamente rezava suas missas, ministrava os sacramentos e cumpria os rituais necessários.

Uma noite, o pároco acordou com batidas fortes na porta. “Provavelmente uma gestante com dificuldades no parto, e querem que eu vá ajudar”, pensou com raiva e ironia, maldizendo aquela cidade onde as pessoas chamavam o padre ao invés de correr para o hospital. Pensou em ignorar as batidas e voltar a dormir, mas achou que poderia ser pior para ele se o Padre Emílio acordasse e resolvesse abrir a porta. Levantou-se rapidamente e correu para a pequena sala, enrolando-se no robe.

Levou um susto ao vê-la ali. A tal da menina a quem atribuíam milagres. Qual era mesmo o seu nome? Isabel? Ana? Maria? Pequena e franzina, parecendo ter menos que os seus treze anos. Tinha um sorriso infantil, mas os olhos eram velhos e sempre haviam incomodado Padre Gregório.
— O que você quer a essa hora?
— Conversar.
Padre Gregório franziu a testa.
— Volte pela manhã. Isso não são horas de andar pela rua.
— É a melhor hora para conversar. Tenho uma proposta que pode te interessar.

O jeito informal da menina incomodou Padre Gregório. Não admitia nem mesmo a si mesmo, mas uma das vantagens do seu cargo que mais lhe agradavam era o tom cerimonioso e respeitoso com que todos o tratavam.
— Que proposta?
— Bom, antes quero que você saiba que eu sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Que você não acredita em Deus.
— Quem te disse isso?
— Ele.

O pânico tomou conta de Padre Gregório. De onde Padre Emílio poderia ter tirado aquilo? Será que havia deixado transparecer algo? Não escrevia diários, não entrava em detalhes em suas confissões, media sempre as palavras...
— Por que o padre Emílio diria uma coisa dessas?
— Não foi o padre Emílio, não. Ele também não sabe de nada.
— Quem foi então?
— Ele.

A menina sorria e Gregório começou a sentir-se enjoado. Procurou uma cadeira para sentar-se, mas pensou que talvez fosse melhor falar lá fora. A menina antecipou-se a ele.
— A gente pode ficar aqui. O padre não vai acordar.
— Como você sabe?
— Sabendo.

Cada vez menos Gregório gostava da garota. Já não bastava ter inventado aquela história de milagres... Ela continuou a falar.
— Eu sei também que você não acredita em milagres.
— Milagres não existem.
— Eu existo.
— Você não é um milagre.
— Os médicos disseram que minha mãe não podia engravidar, e eu nasci. Quando eu fiquei doente, disseram que eu ia morrer, e eu não morri. Quando meu pai abandonou a gente e eu e minha mãe passamos fome, sempre tivemos ajuda.
— Isso não é milagre. Foi sorte.
— Foi a Divina Providência.
— Não vou discutir Teologia com uma criança.
— Claro que não. Você não tem bons argumentos.

A retórica da pirralha começou a irritar Padre Gregório. Tinha vontade de sacudi-la pelos ombros e colocá-la para fora. Mas ao mesmo tempo sentia-se tão fraco e cansado... Era um homem de mais de um metro e oitenta de altura, de ombros largos e porte atlético. Em boa forma, apesar dos quase 50 anos. Muito exercício e disciplina para manter a boa alimentação. Cuidava do corpo porque era tudo o que tinha, além dos seus pensamentos inconfessáveis. E aquela menina ali, de chinelos nos pés, roupa surrada e ar maroto era capaz de destruí-lo com poucas palavras. Deixou-se cair em uma cadeira e ela continuou, sem dar atenção às aflições do padre.
— Eu não quero ir embora dessa cidade e sei que você também não quer, apesar de tudo. Nós dois temos uma missão por aqui.´

Padre Gregório fez menção de interrompê-la, mas ela ergueu a mãozinha magra e prosseguiu, com segurança, e contou seu plano. Enganariam Padre Emílio. Falariam que nunca houve nada de milagres, somente uma menina um pouco instável emocionalmente e uma cidade muito crédula. E ele, Gregório, desvendaria o mistério e cairia nas graças da Igreja. E ela voltaria à sua vida normal. Até que chegasse o momento certo.
— Deus tem planos para nós.
Padre Gregório suspirou.
— Não, não tem.

A menina sorriu novamente. Passou a mão pelo rosto dele. Padre Gregório ainda estava sentado na cadeira, largado como um grande peso morto, sentindo-se muito, muito cansado. Mas de certa forma, ela havia trazido a esperança de volta para ele. Uma luz no fim do túnel, de retomar sua tranqüilidade. Mesmo que, no fundo, ele soubesse que havia algo mais, que nada seria o mesmo, por mais que tentasse negar. A menina deu-lhe um beijo no rosto e ele sentiu algo estranho. Os lábios eram frios, mas aqueceram seu coração. Ela foi em direção à porta, mas parou um segundo antes de abrir. Virou-se para ele, ainda sorrindo.
— Ah, meu nome é Maria Isabel. - E saiu para a noite.
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A paixão feminina pela palavra*




Entrevista com Nélida Piñon

(Por Luiz Costa Pereira Junior)



Há quem diga que ler muito não faz escrever melhor, necessariamente, e o ideal seria ler tanto quanto escrever muito. Para escrever bem posso dispensar o hábito de leitura?

Sem a leitura não acumulamos vocábulos, não temos contato com pensamentos que descobrimos na leitura, não confrontamos nossas idéias com as do livro. Você precisa ser reformulado pelas idéias do outro e um livro é uma maneira. É preciso se opor à idéia do outro para vir a ter idéias que possam representar uma mudança pessoal. Se você lê e não escreve, significa que você está intimidado. Que a leitura não está lhe dando a liberdade que ela tem de oferecer. Escrever deve ser uma conseqüência natural do prazer de ler. Agora, acho também que ler e escrever não são incompatíveis. Quanto mais você lê, mais se dá conta que é dificílimo escrever, mas é necessário e pode aprimorar a sua escrita.

No que um texto produzido por uma mulher é diferente do feito por um homem?

A mulher esteve sempre segregada. Não teve sempre acesso à escrita. É um ser recente na cultura. Portanto, a leitura que ela fez foi produzida pelo ontem, por uma leitura masculina. Isso por si nivela uma competência intelectual se ela leu tanto quanto o homem textos fundamentalmente masculinos. Ora, todo ser segregado tem seu leitmotiv interno, tem seus ressentimentos, mesmo que diga que não. Vai adicionar ao que escreve e pensa o fruto da sensibilidade social que lhe impuseram, aquela que talvez não seja ainda a sua sensibilidade.
Você conta nos dedos o número de mulheres de destaque na literatura nacional. Você não vence uma resistência histórica em duas gerações. Veja um casal de mesmo nível intelectual e social. O homem tende a falar muito mais do que ela. A mulher é historicamente afásica. Mas estão queimando etapas. Com isso, também a sensibilidade do novo homem está se forjando. Agora que ele está no horizonte dele, ele também se reformulou.

Depois de ganhar tantos prêmios internacionais, o que pretende em sua literatura?

Ter saúde e organização mental, mas principalmente vivacidade. Que me deixe arrebatar pela vida e pelas pessoas, e continue pensando que a vida é um enigma. Enquanto for um enigma, vou bater à sua porta. No dia em que achar que estou apática, e que os prêmios escrevem os meus livros, estou perdida. Preciso da minha consciência, de meu desgoverno, de meu caos, de minha paz para criar meus livros. Não há prêmio ou consagração que alivie a minha angústia.


*Trechos de entrevista publicada na Revista Língua Portuguesa n° 7, maio de 2006
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sábado, 5 de abril de 2008

Diário



Luci Afonso


...Janeiro

Beijo homem moreno com flores no corpo. Observo meninos pelados nas árvores. Dançando com vestido vermelho curto. Ajudo menina a fugir da escola.
Matei um homem, queimei as roupas dele e fugi. Meu pai precisava ser enterrado. Conserto meus anéis.
Namoro homem cego e defeituoso. Nadando nua ao sol. X era meu e depois morria.

Fevereiro

Comunidade espiritual em Planaltina. Uma cobra e uma aranha azuis na minha cama. Passeando em Paris.
Visita a Araxá. Quarto arrumado com hortênsias. Escultor cego.
Festa em que eu não me divertia. Dente quebrado. Dando banho num macaco.

Março

Beijando um homem alto, que me levantava do chão. Eu tinha matado uma mulher e me escondia. Encontro meu pai, peço desculpas, nos abraçamos.
Oficina de bordado. Perdida em labirinto. Embalando criança.
Vestido de casamento cor de vinho. Noivos gêmeos.

Abril

Muitos arco-íris. Meu pai era mestre-de-obras na minha casa. Nadando com bebê.
Eu era escolhida num templo e aprendia a velejar um barco sagrado. Casa da minha avó com óleo derramado no chão.
Sandália nova se estragando. Igrejas velhas. Bordando um girassol.

Maio

Andando de elefante sem conseguir descer. Morcegos. Banho de rio.
Procurando livro espírita. X tirava verrugas das minhas costas. Caixa com cabeças de boneca.

Junho

Rapaz me dava duas imagens de São Francisco. Bebês morrendo. Correndo nua com X pela multidão.
Pisando na água do mar.

Julho

Minha mãe jovem e neutra. Abraçando árvore de flores amarelas em Pirenópolis.
Protegendo minhas jóias. Ex-namorado queria me matar.
Ateliê com vista para o lago. Consertando bainha de vestido de criança.

Agosto

Minha mãe andava ao lado do meu pai. Lojinhas de artesanato no caminho de casa. Cavalo branco pintado de prata.
Loja de conserto de canetas. Colar de pedras verdes. Menina atropelada. Mulher chinesa superando obstáculos.

Setembro

Conversando com Rubem Braga. Moedas diferentes na bolsa. Hóspedes. Ouvindo música francesa. Velhinha-menina no meu colo.
Namorando deficiente físico casado. Carta bordada. Copiando poemas.
O vento modificava meus desenhos. Castelo em reformas. Barco vermelho.

Outubro

Mandei uma amiga matar a mãe dela e estava com medo de ser presa. Procurando vestido de noiva. Nua no Ciclo.
Água negra em Itiquira. Cabeça de bebê. Caravana de mulheres grávidas. X deixa cair dois cristais. Casa em construção à beira-mar.
Presa no mundo virtual com muitas crianças. Viagem de navio. I-Ching sobre os homens.

Novembro

Cozinha suja, cangurus mortos. Ruínas da casa onde meu pai havia crescido. Procurando livro antigo.
Espetáculo japonês. Fazendo criança dormir. Conversa com Wisnik.
Cavalgando cavalo azul. Nua no trabalho. Dois anjos de pedra-sabão.

Dezembro...

Pesadelo em país árabe. Sinal de lepra nas mãos.
Peregrinação para o Egito. Carregando gato listrado.
Uma borboleta brotava na minha mão. Planta do orgasmo. Um olho novo nascia dentro do meu.



Imagem: "Deux jeunes filles en fleurs", Odilon Redon, óleo sobre tela, c.1905-12.
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Contra a maré



Mônica Thaty


Depois que Melissa terminou de desfazer a última caixa da mudança decidiu que era hora de arrumar outras coisas em sua vida. Sentou-se na frente do computador, armada com papel e caneta e espírito de detetive. Algumas pesquisas e meia dúzia de telefonemas depois e conseguiu fazer um levantamento quase completo da vida de Ricardo, o ex-namorado.

Telefone, endereço, local de trabalho. Tudo ali, em mãos. Só faltava a coragem.
Como se aborda alguém que não se vê há quinze anos, mas de quem ainda se lembra a voz, o cheiro, o toque, o beijo? Alguém que você acredita sinceramente que não ama, mas que é capaz de provocar arrepios em seu corpo apenas em encarar um olhar sorridente em uma foto?

Melissa pensou no que tinha a perder. Nada. Um casamento terminantemente desfeito, acabado com tanta civilidade que sugeria falta de emoção. Ou pior: uma paixão extinta como uma fogueira que queimou rápido demais. Restaram apenas dois filhos lindos. Aliás, olhar os filhos era o único consolo para o seu coração. O que fazia com que evitasse pensar que haviam sido dez anos de desperdício de vida. Houve um casamento, houve festa e um marido que, na verdade, nunca foi nada além de um amigo compreensivo. E só. O resto era rotina e nos últimos tempos seu corpo começou a clamar por sentir novamente o toque de Ricardo. Um toque inteiro, e não os toques tantas vezes interrompidos pelo medo de adolescente ou pelos quase flagrantes. Queria sentir Ricardo por inteiro agora, já que havia tanto espaço livre em seu coração e um buraco na alma.

Resolveu não adiar os planos. Armou um encontro, planejado com requintes cinematográficos. Um esbarrão acidental na rua. “Há quanto tempo!” Um convite para o almoço. E entre um gole e outro de vinho, evitava olhar Ricardo nos olhos ora verdes ora azuis. Olhos que mudavam de cor como o mar. E ela temia que uma onda pudesse levá-la para dentro deles. Mas não era essa a intenção?

Ricardo estava casado. Uma filha. Uma vida boa. Não tinha o direito de interferir assim, de desviá-lo do tráfego certo somente porque ela encontrava-se em uma encruzilhada. Mas não era um desvio obrigatório, pensou. Ele só a seguiria se quisesse. E ele quis.

Ao invés de pedirem a sobremesa, foram para um motel. Melissa respirava com dificuldade. Como se estivesse em alto-mar e se debatesse para voltar à praia. Sem salva-vidas, abandonada à deriva. Tomou fôlego antes de encarar os olhos aquosos de Ricardo. E foi como se reencontrasse seu porto seguro. Não era um mar revolto. Era um lago de águas cristalinas e mornas. Um lago onde deixou-se boiar, sentindo-se aquecida e bem. E feliz. Depois de tantos anos, verdadeiramente feliz.

Depois de tudo acabado, veio a paz. No corpo e no espírito. E ao observar a silhueta de Ricardo, quase por adormecer, também com um sorriso tranqüilo no rosto, Melissa não pôde evitar a observação. Provocada menos pela culpa do que pela constatação que os homens não eram todos iguais. E que talvez dez anos de marasmo doessem menos do que supunha.

— Talvez eu tenha feito mesmo a escolha certa ao me casar com o Régis. Não suportaria ser traída.
— Eu não te trairia.
— Você acabou de trair a sua esposa sem qualquer hesitação.
Ricardo encarou-a com os profundos olhos claros. Ela desviou o olhar para não afogar-se. Mas ainda via o azul diante de si quando ele respondeu.
— E você já parou para pensar que se você fosse a minha esposa eu não precisaria te trair, porque já teria o que queria?

Melissa prendeu a respiração, debatendo-se para voltar à tona. Droga de curiosidade! Agora não deixaria nunca de pensar se haviam sido dez anos desperdiçados. Os dez anos não voltariam. Só poderia viver dali pra frente.
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Escrevo porque...*




Fernando Sabino



“Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar. Me sinto defasado. A minha realidade interior vive abaixo do nível da realidade que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio, num contato normal com os demais seres humanos, tenho que escrever, porque a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Há uma espécie de catarse naquilo que escrevo: para não precisar me deitar no divã de um psicanalista. Se escrevi, por exemplo, um livro com o título A faca de dois gumes, pode ter sido para não esfaquear alguém.”

“Sempre que me sento para escrever, sou um principiante. Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguém.
Por isso às vezes passo horas, dias à procura da palavra adequada ou do encadeamento de uma frase. Não quero repetir coisas já ditas, inclusive por mim, o que infelizmente às vezes acontece. Para isso tenho de desaprender o que aprendi, me desvencilhar dos preconceitos, me livrar das hipocrisias, das idéias que me foram impostas, de tudo enfim que possa tolher a minha liberdade de expressão.”

“Já os que consideram a crônica também literatura descartável certamente estão mal informados. A crônica é um gênero literário com uma tradição que vem dos quinhentistas portugueses, como Diogo do Couto, desembarca no Brasil com Pero Vaz de Caminha, passa por Machado de Assis e chega até nossos dias com Rubem Braga. Como se vê, uma linhagem das mais nobres, a que qualquer um se orgulharia de pertencer.
A confusão vem provavelmente de o termo durante algum tempo ter servido para designar em jornal as seções especializadas: a crônica política, social, esportiva — enfim, tudo o que escreviam os que hoje são mais propriamente denominados colunistas.
Entre um romance e outro, escrevi e continuo escrevendo centenas de crônicas, contos e histórias curtas. Tudo é genericamente chamado de crônica. Como se diz das doenças: não sendo aguda, é crônica...”

“Escrevo antes de mais nada para mim mesmo — aquilo que eu gostaria de ler. Mas não escrevo só para mim. Nem para meus amigos, nem para meia dúzia de leitores, mas para o maior número de pessoas. Escrevo para me comunicar, e o que me alegra é quando essa comunicação se estabelece.
Só que poucas vezes chego a tomar conhecimento — e essa é uma das aflições de um escritor. Quanta coisa já escrevi que, mesmo tendo sido lida por muita gente, jamais saberei o efeito que causou.”

“Nada mais penoso para mim que a busca da expressão adequada, da propriedade vocabular. Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita. Para descobri-la, a gente pode levar a vida inteira. Levei exatamente trinta anos para encontrar o final certo da novela O bom ladrão.
Acredito que escrever seja, basicamente, cortar. Cortar o supérfluo. Eliminar repetições, ecos, rimas, cacófatos, redundâncias, lugares-comuns. Mas principalmente o excesso: (...) é preciso não duvidar da inteligência do leitor. Tenho a impressão de que, ou ele me valorizaria muito, ou passaria a ter por minha literatura o maior desprezo, se soubesse o que ela me custa: aquilo que ele levou alguns minutos para ler me custa dias, meses, às vezes anos para escrever."


*Trechos do livro O Tabuleiro de Damas, Editora Record.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira