domingo, 27 de março de 2011

Sobre a criação literária




Lygia Fagundes Telles

            A Criação Literária

O preço da criação literária seria mesmo o sofrimento? Penso na minha experiência e lembro que justamente nos instantes mais agudos das minhas atribulações eu não consegui escrever uma só palavra. Mesmo depois, na convalescença, se vinha a vontade, faltava a energia, o movimento era apenas da alma. Olhava para a minha mesa como alguém com sede fica olhando um copo d'água: quer beber mas fica rodeando o copo, faz outras coisas antes e embora pense o tempo todo na água, não faz o gesto para alcançá-la. Não sei dizer se os frutos colhidos mais tarde (alguns até doces) teriam vindo dessa figueira-brava.

O Escritor e o Leitor

Nada fácil testemunhar este mundo com tudo o que tem de bom. De ruim. Um mundo grande, que vai além da chácara do vigário. Diante de si mesmo, diante do papel o escritor se sente grande porque sua tarefa é digna. Pode ser corrompido mas não corrompe. Pode ser louco, mas não vai enlouquecer o leitor, ao contrário, poderá até desviá-lo da loucura.

Fragmentos

“Esses fragmentos têm alguma ligação entre si?”, perguntou-me um leitor. Respondi que são fragmentos do real e do imaginário aparentemente independentes mas há um sentimento comum costurando uns aos outros no tecido das raízes. Eu sou essa linha.

Da Criação

Vejo o Menino Jesus do presépio e o seu cheiro é o mesmo da malinha de couro com os cadernos de escola, o estojo de lápis e o lanche embrulhado no papel de pão. A alegria excitante porque proibida: escrever minhas invenções nas últimas páginas do caderno de desenho que era o mais grosso de todos, copiá-las no fim do caderno para ninguém achar, ninguém era a Dona Alzira. O sentimento de pecado e prazer que me tomava quando via os touros cobrindo as vacas no pasto — essa exaltação culposa me possuía ao escrever as histórias nas páginas proibidas. (...)
Na minha inocência, eu já sabia por instinto o que viria a ficar tão claro mais tarde: que a obsessão da permanência é inseparável da criação.




Trechos de “A Disciplina do Amor: Memória e Ficção”, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2010.

#Compartilhe:

sábado, 19 de março de 2011

O Cronista é um Escritor Crônico



Affonso Romano de Sant'Anna

O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico.
O que é um cronista?
Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula.
Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista.
O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, é um eu de utilidade pública.
Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.

(Jornal "O Globo", Rio de Janeiro, 12/6/88)
(Texto lido na Oficina de Crônica em 18/03/11.)


#Compartilhe:

domingo, 13 de março de 2011

Um teto todo seu



Virginia Woolf

(Trechos de duas palestras proferidas em 1928 para plateias femininas)

Mas, dirão vocês, nós lhe pedimos que falasse sobre as mulheres e a ficção — o que tem isso a ver com um teto todo seu? Vou tentar explicar. O título "As mulheres e a ficção" poderia significar a mulher como ela é; a mulher e a ficção que ela escreve; a mulher e a ficção escrita sobre ela; ou uma associação desses três aspectos. Qual deles escolher?
Tudo o que posso fazer é oferecer uma opinião acerca de um ponto menor: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção.  Vou fazer o possível para mostrar como cheguei a esse conceito.  
A vida para ambos os sexos — eu os observei abrindo caminho na calçada, às cotoveladas —, é árdua, difícil, uma luta perpétua. Ela exige coragem e força gigantescas. Mais que tudo, talvez, criaturas de ilusão que somos, ela exige autoconfiança. Sem autoconfiança, somos como bebês no berço.
Como gerar essa qualidade imponderável, inestimável e tão fugaz? Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos, dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. Qualquer que seja seu uso nas sociedades civilizadas, os espelhos são essenciais a toda ação violenta e heroica. Eis por que tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres: não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se. 
Isso explica o quanto os homens se inquietam diante da crítica que as mulheres lhes fazem, como é impossível a mulher dizer “este livro é ruim”, “aquele quadro é fraco”, ou seja lá o que for, sem magoar mais, sem despertar muito mais raiva do que outro homem que dissesse o mesmo. Se ela começa a dizer a verdade, a figura no espelho encolhe, sua aptidão para a vida diminui. Como pode o homem continuar a proferir julgamentos, a civilizar nativos, a fazer leis, a escrever livros, a vestir-se para discursar em banquetes se não puder se ver no café da manhã e ao jantar com pelo menos o dobro do seu tamanho real?
A visão no espelho é de suprema importância, pois insufla vitalidade, estimula o sistema nervoso. Retirem-na, e o homem pode morrer, como o viciado privado de sua cocaína. 
Antes de receber a herança de uma tia, eu estava sempre fazendo algum trabalho que não queria fazer, como escrava, adulando e humilhando-me. Era a morte ocultar aquele dom pequenino, porém precioso para sua possuidora. Com ele morria eu mesma, morria minha alma. Era como a ferrugem corroendo a floração da primavera, destruindo a árvore em seu âmago. Hoje, retiro da bolsa uma nota de dez xelins para pagar o almoço. É impressionante a mudança de ânimo que uma renda fixa promove. 
As mulheres brilharam como fachos luminosos nas obras de todos os poetas desde o início dos tempos. Na vida real, porém, mal sabiam ler, quase não conseguiam soletrar e eram propriedade do marido. Não tinham dinheiro, evidentemente, e, segundo famoso historiador, assumiam seu papel tradicional antes mesmo de largarem as bonecas.
Afirmou um sábio senhor — creio que um bispo —, já falecido, que seria impossível a qualquer mulher, do passado, do presente ou do futuro, ter a genialidade de William Shakespeare. Disse também estar convicto de que os gatos não vão para o céu, embora tenham uma espécie de alma. Não pude deixar de imaginar, enquanto olhava as obras de Shakespeare na estante, o que teria acontecido se ele tivesse tido uma irmã chamada, digamos, Judith, maravilhosamente dotada, tão audaciosa, tão imaginativa, tão ansiosa por ver o mundo quanto ele. Enquanto William aprendia Latim, Gramática e Lógica, enquanto lia Ovídio, Virgílio e Horácio, Judith pegava um livro de vez em quando, mas os pais a mandavam remendar meias e cuidar da comida, em vez de perder tempo com fantasias.
Não sabemos se de fato os gatos não vão para o céu, mas aquele cavalheiro estava certo pelo menos nisto: teria sido totalmente impossível a qualquer mulher ter escrito as peças de Shakespeare na época de Shakespeare. 

Virginia Woolf, Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 

(Texto lido no evento "Mulheres de Papel", encenado no Auditório da Aliança Francesa em agosto de 2004. Criação e direção: Marco Antunes.)

#Compartilhe:

sábado, 5 de março de 2011

Sequência de erros


Gabriel Marinho se autodefine como “escritor, roteirista em potencial, dramaturgo fingido, músico de habilidade questionável, desenhista nas horas vagas, (...) mais um que precisa ser alguém além de si mesmo”.
Autor de dois romances publicados e de outros três já prontos, Gabriel acaba de criar o http://sequenciadeerros.blogspot.com/. Leitores de todas as idades poderão finalmente compartilhar as percepções dessa mente jovem e brilhante sobre “... os erros, os acertos, as evoluções e os regressos que transformaram o mundo de hoje no que ele é”.
(Leia sobre Gabriel Marinho neste blog, no respectivo marcador à direita.)


#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira