domingo, 27 de setembro de 2009

Mantra



Luci Afonso


SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA...

Instruções: Repetir 108 vezes ininterruptas, por 40 dias. Se esquecer um dia, recomeçar a contagem.

Propósito: Encontrar um parceiro.

Tradução: “Abençoe-me com um divino marido”.

Resultado: Comecei hoje, mas estou confiante.
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domingo, 20 de setembro de 2009

Guidons e garupas



Luci Afonso


As pernas doíam, o fôlego acabava, o suor escorria enquanto eu levava Neusa ladeira acima, na velha bicicleta. Fazíamos o trajeto todo dia até a pracinha onde brincávamos. Ida e volta, eu no guidom, ela na garupa.

Conhecíamo-nos há meses. No aniversário da menina, a mãe deu uma grande festa. Coloquei o vestido novo, peguei o presente e esperei no portão, até o último minuto, o convite que não veio. Fui dormir imaginando o que eu fizera de errado para não merecê-lo.

Cresci pensando que grosserias, esquecimentos e agressões eram, de alguma forma, minha culpa. Engoli tantos sapos, e tão gordos, que logo precisei de ajuda para expeli-los.

O Dr. Martelo, assim conhecido pelos contundentes e eficazes métodos de trabalho, ensinou-me (pow!) a regra de ouro para identificar os falsos amigos — um mais zero dá um; zero mais zero dá zero; um menos um, também. Quando um mais um são dois, dois mais dois são quatro e assim por diante, não há dúvida: são verdadeiros.

Sapos regurgitados, contas refeitas, alta médica. Continuo perdoando indelicadezas, mas sem maquiar os fatos. Nas palavras de uma sábia cronista, quem tem só uma cara apanha muito (pow!) até distinguir amizades autênticas de meras “experiências”.

Não sei se ainda fabricam bicicletas com garupa; é que eu não carrego mais neusas.
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sábado, 19 de setembro de 2009

A era do miniconto




Dos contos tradicionais aos concursos de textos em uma linha, histórias enxutas brincam com a imaginação do leitor

Braulio Tavares



Que tamanho deve ter um conto? Os critérios editoriais definem a extensão de um texto pelo número de caracteres ou palavras. O mercado literário norte-americano, mais industrializado e preciso do que o nosso, define quatro faixas de extensão: conto, até 7.500 palavras; noveleta, de 7.500 a 17.500; novela, de 17.500 a 40 mil; romance, de 40 mil em diante.

Edgar Allan Poe definiu o conto, de maneira pragmática e intuitiva, como "narrativa curta, cuja leitura atenta requer de meia hora a uma ou duas horas". Tinha em vista o que ele chamava de unidade de efeito. O conto deveria ser curto para não ser interrompido. Ser uma experiência mental única, contínua, do começo até o fim, para que não se diluíssem as tensões, e o desfecho tivesse toda a carga emocional preparada pelo autor. Curiosamente, a duração que ele preconizava para o conto é a que tem um longa-metragem comercial. E qualquer espectador de cinema mais exigente sabe que a experiência de ver um filme na TV "quebra o efeito" por causa dos intervalos comerciais. Tanto conto quanto filme devem, idealmente, ser uma experiência mental ininterrupta.

Isso se torna mais fácil quando praticamos o "miniconto". Para ele não há limite específico, mas podemos considerar minicontos aqueles de duas páginas ou menos. Revistas literárias de língua inglesa promovem de vez em quando concursos para contos com só seis palavras. O modelo é um texto de Ernest Hemingway: "For sale: baby shoes, never worn" (Vendem-se: sapatos de bebê, sem uso). Há toda uma tragédia familiar por trás desse minitexto.

Concisão

O miniconto procura sugerir, já que não pode descrever ou narrar muita coisa. Em oficinas literárias ou de roteiro, vez por outra os alunos recebem a tarefa: "Conte sua história em uma frase. Depois, em dez linhas. Depois, em trinta linhas; e em 200 linhas". Quem for capaz de manter precisão e coerência ao longo dessas etapas provavelmente será capaz de escrever um roteiro de 120 páginas. A concisão é virtude em jogo na era eletrônica e seu espaço sem limites. Antigamente, escrevíamos pensando no número de toques por linha (eram 70) e no de linhas por lauda (30). Compactar qualquer história em seis palavras nos traz de volta essa antiga disciplina.

A revista Wired promoveu certa vez um concurso de contos fantásticos e de ficção científica em seis palavras. Tarefa difícil, uma vez que é preciso sugerir, além da história, uma ambientação com a qual o leitor, a princípio, não tem familiaridade. Mesmo assim, houve tentativas bem-sucedidas. Como a de Eileen Gunn: "Computador? Trouxemos baterias? Alô! Computador? Computador?." Não precisa mais nada para imaginarmos uma nave silenciosamente à deriva no espaço, cheia de astronautas congelados. (...)

Não ficção

O interessante nessas experiências é que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco de dados comum para preencher as partes não explicadas. As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem ficar esmiuçando "como" e "por quê". São como título de livro ou manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de "já saber" e de imaginar.

(...) Há um grande romance latente em cada meia dúzia de palavras, desde que bem escolhidas.

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br


(Trecho do artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 45, julho de 2009)
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Estive em Lisboa e lembrei de você



Acaba de sair, publicado pela Cia das Letras, o novo livro de Luiz Ruffato, Estive em Lisboa e lembrei de você.

Em mais um volume da coleção Amores Expressos , um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros contemporâneos revela sua mão segura e inventiva ao narrar a história de Serginho, mineiro (de Cataguases) desiludido com o casamento e a falta de emprego que decide se aventurar em Portugal, em busca de redenção financeira e, quiçá, amorosa.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Dom de menina



Com entrada franca, Quinta Crônica mistura as histórias de Gracia Cantanhede com as canções de Caetano Veloso.


O gosto da escrita nasceu no tempo de menina, lá no interior de Minas Gerais. A escritora Gracia Cantanhede lembra o dia em que descreveu uma viagem de navio completamente criada na sua imaginação. Tinha 9 anos quando a redação foi lida e elogiada em sala de aula pela professora. Naquele momento, ela decidiu que não se separaria mais das palavras. Jura cumprida. Hoje, em casa, essa mineira-brasiliense tem uma pilha de cadernos com frases feitas em caneta de tinta. Alguns se transformaram nos livros Palavra de mulher e Jogo de persona. “Mesmo na era do computador, continuo criando a próprio punho porque assim acredito que escrevo com o coração”, confessa.


Na quinta-feira, dia 17 de setembro, às 19h30, no Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados, Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3, atrás dos anexos dos ministérios), Gracia Cantanhede ficará diante de suas histórias. Ela é autora homenageada do projeto Quinta Crônica. As narrativas serão dramatizadas pelo ator e diretor Jones Schneider e mescladas às canções de Caetano Veloso, interpretadas por Alex Souza (músico do projeto Caraivana). A autora estará presente e o clima será de um talk-show ao vivo. “Gracia enviou os livros pra mim e encontrei ali uma escritora tocada pelo ser humano. São histórias de uma mulher, que é observadora atenta do outro”, observa Jones Schneider, que também desenvolve, neste mês, o Terça Crônica na Ceilândia, com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). À qualidade nata de observação, Gracia Cantanhede atribui à vida no interior, onde se atenta a detalhes do cotidiano, perdidos nas grandes cidades. “O de ver um passarinho fazer o ninho. Cresci com a sensibilidade para olhar as coisas, de atentar para todo o tipo de gente, os personagens folclóricos do interior, a prostituta que passava na minha janela”, lembra Gracia Cantanhede, que, nos projetos literários, pretende escrever biografias.


QUINTA CRÔNICA

Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados, Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3, atrás dos anexos dos ministérios, 3216.7678). Dia 17 de setembro (quinta), às 19h30, crônicas de Gracia Cantanhede e canções de Caetano Veloso. Direção e atuação de Jones Schneider. Com o músico Alex Souza. Participação especial: Gracia Cantanhede. Entrada Franca. Classificação indicativa livre.
http://www.tercacrônica.com.br/
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Coletânea Poética do Guará




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domingo, 6 de setembro de 2009

Menino Pai



Luci Afonso


Menino, chegou a hora. Nasça devagar, não tenha pressa.

Brinque de carrinho, jogue bola. Namore as duas irmãs, case com a mais bonita.

Daqui a vinte anos serei sua filha.

Você me levará a todo lugar. Vai me mostrar aos amigos, tirar fotos, me encher de presentes. Vai me ensinar a nadar, sentirá orgulho no recital de piano e no balé.

Quando eu fizer dez anos, me deixará pela primeira vez. Perguntarei, aflita, aonde vai, e ouvirei apenas: — Para longe, querida.

Aos quinze, desejarei a nova separação. Terei pesadelos de que você voltou e está no bar da esquina.

Você não conhecerá meus homens, todos parecidos com você. Não levará seu neto para tomar sorvete.

Não nos falaremos mais. Ao telefone, não conseguirei dizer o quanto sinto sua falta, apenas ouvirei sua respiração ansiosa. Receberemos a notícia num domingo bonito demais para se partir.

Pai, até chegar a hora, celebrarei sozinha, com uma lágrima de cristal, o dia em que você nasceu.


(Imagem: "Materna", pastel a óleo de Luci Afonso)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira