Vamos brindar
Luci Afonso Ela passa o café, põe na xícara e vai até a janela rústica da cozinha, que dá vista para o quintal. Veste uma blusa branca de algodão e soltou o cabelo. Acabou de escrever um poema. Observa, ao longo do córrego que atravessa a fazenda, os galhos das árvores balançando quase em câmera lenta. Não há dúvida em seu coração. A notícia chega pelas redes sociais. Só pode ser engano: após lutar quarenta dias na UTI devido a um infarto, morreu a jovem poeta de fala mansa, voz de veludo, sorriso constante. Em seguida, o filho, que não suportou viver sem a mãe, se matou e foi sepultado junto dela. Meio distraída, meio maluca, como são os poetas, quando apresentava um sarau, não tinha hora para começar, não seguia nenhuma ordem aparente e terminava sempre em forró. Gostava tanto de falar em público que às vezes era preciso interrompê-la para que outros tivessem vez. Amava as pessoas humildes, de pouca instrução, pois muitas delas nunca haviam tocado num livro...