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Mostrando postagens de Dezembro, 2008

Reencontro

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Luci Afonso

(Para Marco)


A palavra me chamou, baixinho:
— Volta! Estou com tanta saudade...
Temendo nova separação,
Fui bem devagar ao seu encontro.
Afinal nos reconciliamos:
Hoje passeamos ao pôr-do-sol
E fazemos amor de madrugada.
Eu a trato com doçura;
Ela me chama de meu bem
E faz chuva quando quero dormir.
Não sinto mais a tristeza das manhãs.
Estou feliz
E assustada também.

A Muriçoca

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Emanuel Mazza
Imersa em sua glória ela pousava cantando, cantava não, fruía as asas num som agudo, estridente, em seu passeio de caçadora. O corpo bojudo, saciado de sangue, denunciava-lhe a placidez, a tranqüilidade. Estava no repasto e a noite fazia-se alta, acobertada no silêncio da madrugada. A caça sobre a cama, irrequieta, tentando dormir. Envolvia-se toda no lençol, abraçava o travesseiro em torno das orelhas. Em vão! Não conseguiria o sossego tão necessário para o dia de trabalho a seguir. Por muitas vezes havia levantado e perseguido o inseto repelente que teimava em incomodá-lo. Ele era astuto, porém, rapidamente escapava, camuflado na sua pequenez, inalcançável nas alturas do teto. O quarto sombrio de repouso do hospital denunciava tudo que não poderia ser: uma noite de trabalho perturbada não por pacientes a procura de socorro, mas por um, e apenas um, inseto infame que escapara do banheiro. Maldita a hora em que se lhe abriram as portas da prisão.
Eram dois habitantes que …

Será que você merece um ano novo?

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Marco Antunes

Prezado amigo! Venho hoje desejar a você um feliz ano novo, mas antes, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas pertinentes para saber se vão adiantar de alguma coisa meus sinceros votos em breve formulados.
Tudo bem pra você? Sei que serão muitas perguntas e que você é pessoa das mais ocupadas e que, como costuma dizer, seu tempo é dinheiro, nesse caso, restaria desejar-lhe que seu próximo ano seja um cofre do qual só você saiba o segredo.
É verdade que, se seu ano for assim, há de ser bem escuro e abafado, mas quem sabe você se ilumine com o brilho das barras de ouro de suas ocupações inadiáveis e se abane com as cédulas de tempo produtivo.
Se diante dessa constrangedora imagem, o distinto amigo resolveu sentar-se um pouco e responder às perguntas, sugiro que faça, então, o firme propósito de responder com rigorosa honestidade às minhas curiosas indagações.
Sim, exatamente isso, não porque tema ser enganado, mas porque temo que se engane a si próprio e a franqueza das resp…

Mensagem de Natal

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Luiz Carlos Ribeiro Borges


Em dezembro cintilam
os signos de natal.

Não, não luzes e estrelas
ou paisagens com neve;
nem, ao redor da árvore,
as caixas coloridas.

Outros signos existem,
sutis, quase invisíveis,
expressos nos olhares
e silêncios tácitos:
uma alegria urgente
perambula nas ruas,
mostra-se em cada esquina
nos rostos transeuntes.

Insensata alegria,
ancestral e pagã,
em que, sem dizer nada,
no outro me reconheço.

As luzes do natal
são o signo visível
deste diverso símbolo:
a chama que nos anima.

A esse entusiasmo,
em que nos descobrimos
parceiros de viagem,
irmãos de travessia,

a essa chama vital
podemos chamar: Deus;
ou então, simplesmente,
dizê-la: humanidade.

Luiz Carlos Ribeiro Borges nasceu em Guaraci, no interior do Estado de São Paulo, e reside em Campinas desde 1956. É escritor, crítico e cineasta, membro da Academia Campinense de Letras. borges.luiz@terra.com.br

Bifurcação

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Luci Afonso

Na manhã de quinta-feira, resolvi encarar a chuva e o trânsito até o Parkshopping para comprar o presente do meu filho: um jogo eletrônico recém-lançado, que eu esperava encontrar no templo FNAC da tecnologia. Este ano estou sem dinheiro, graças a Deus, e só vou dar esse presente.
Eu planejava desincumbir-me da tarefa em pouco tempo e ainda voltar para o almoço em casa. A compra foi rápida. Demorada foi a chegada ao shopping.
Em vez de ir pelo Eixão, como sempre faço, decidi usar a EPIA. Dirijo pouco fora do Plano Piloto, e por isso não conheço as recentes duplicações e viadutos construídos pelo GDF. Após a Rodoferroviária, percebi que estava na faixa da direita, em direção à Estrutural, e que deveria pegar a da esquerda. Não deu tempo. Resultado: fui parar na rodovia sem retorno que leva a Taguatinga e Ceilândia.
Tentei ver a situação de forma positiva. Quem sabe, aquele era um sinal de que eu não deveria ir ao Parkshopping naquela hora, naquele dia? Lembrei-me de experiênci…

Asa negra

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Emanuel Mazza
Ele sempre sonha com aquela rua. É uma rua estreita, coberta com pedras antigas de um calçamento que desce a ladeira e vai dar numa praça. A praça se abre em muitas outras vias, cercada de uma igreja e tantas outras casas que se perdem no arcabouço da memória. Dessa vez ele voa baixo, pesado, quase arrastando. Por mais que se esforce não consegue alcançar o tão almejado céu, o que vê é um céu escuro e opaco da noite de breu sem fim.
Não há nuvens no horizonte límpido e frio da consciência, exceto uma ou outra carregada de chuva, que, tão pesadas como ele, parecem se arrastar com o vento. Na verdade, não há horizonte, e toda natureza conspira contra ele naquele momento, nem o vento o suporta. Nem ele mesmo se suporta.
Assim, fatalmente será agarrado. Sim, há um perseguidor, é então que ele o vê, a poucos passos, não consegue uma noção concreta de quem está por trás, é tudo um sonho mesmo, e se virar muito a cabeça certamente irá cair. Ele voa, tenta em desespero bater mais…

Você é ilunga?

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A empresa britânica Today Translations ouviu mil tradutores de todo o mundo para selecionar as dez palavras mais difíceis de ser traduzidas. A palavra saudade, exclusiva da língua portuguesa, está em 7º lugar. A primeira posição ficou com a palavra ilunga. Ela pertence ao idioma tshiluba, do Congo, e traduz “uma pessoa que está disposta a perdoar uma ofensa numa primeira vez, a tolerá-la numa segunda ocasião, mas que jamais perdoará pela terceira vez”.
Em segundo lugar ficou a palavra shlimazi, em ídiche (língua germânica falada por judeus, especialmente na Europa Central e Oriental), que significa "uma pessoa cronicamente azarada"; e em terceiro, radioukacz, em polaco, que significa "uma pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro".
Lista das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:
1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela p…

Dicas para escrever bem

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· Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V.Sa. Outrossim, tal prática advém de esmero excessivo, que beira o exibicionismo narcisístico.
· Evite abrev., etc.
· “não esqueça das maiúsculas”, como já dizia carlos machado, meu professor lá no colégio santa efigênia, em salvador, bahia.
· Fuja dos lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
· Estrangeirismos estão out.
· Seja seletivo no uso de gírias, bicho, mesmo que sejam maneiras, sacou?
· Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.
· Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva e a repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
· Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
· Frases incompletas podem causar.
· Cuidado com a orthographia, para não estrupar a língua.
· Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só …

Resolvida

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Luci Afonso

Você finge que não me vê. Eu a enxergo em todos os detalhes.
Sua roupa tem um colorido deslumbrante. Seus acessórios são grandes e caros.
Sua voz tem um verniz que se despedaça à menor contrariedade. Seus olhos bem maquiados choram lágrimas rasas.
Seu umbigo é uma cratera em que se perdem até grandes obras da história universal. O pensador de Rodin foi tragado para o fundo e nunca mais pensou.
Você tem cursos, nós já entendemos, mas quem não os tem?
Sua música é paródia. Seus versos, caricatura. Sua voz, desafinada. As pessoas a aplaudem para puxar o saco.
Seus pés estão gordos e mal cabem nos sapatos de grife. Você está achatada como um sapo no pântano. Logo começará a coaxar.
Ah, se você me visse!...
Eu me espelharia na sua autoconfiança.
Apreciaria seu bom gosto, sua sofisticação, sua sensibilidade.
Aplaudiria sua música, seus versos, suas criações, e poderia até acreditar em... genialidade!
Admiraria sua silhueta madura e seus pés bem fornidos. Sua voz soaria doce como a de um …

Reciclagem

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Emanuel Mazza
O dia ainda não amanhecera. Era madrugada escura e uma névoa seca, bem fria, cobria o ar, sugerindo vagamente a lua e algumas estrelas. O homem despertou de um torpor, demorando em reconhecer onde estava, mas então se recorda: era um pequeno quarto feito de partes de papelão entrelaçadas por fitas adesivas. Ele limpou os olhos com os dedos da mão e mirou o subir e descer do colo da mulher a seu lado, enquanto ouvia o respirar calmo dos filhos no chão, protegidos por folhas de jornal. O frio invadia o quarto com seu peso de chumbo, e penetrava fundo nos ossos. Sentiu o crepitar de uma fogueira acesa lá fora, disposta no centro de um círculo de outros quadrados de papel, que o chamava como o apelo de um farol aos navegantes. Sua vontade, entretanto, era de caminhar lentamente em direção ao fogo, e se fundir com ele, na tentativa de acabar com o frio medonho, largar a própria carne ao sabor das chamas e com essa aflição final dar cabo de sua dor infinita.
Chegou o mais próxi…

Mais Uma de Almoço (Geme Geme)

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Isolda Marinho


Esta é mais uma das manjadas histórias de almoço
que já aconteceu comigo, com você, e com todo mundo.
É a história do cara que perdeu o almoço e do almoço que perdeu o cara
Diz mais ou menos assim



Perdi meu almoço... lá no Porquinho
Dou tudo que eu tenho... por um lombinho

Seja com sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por suflê


Geme geme, uh, uh, por suflê
Geme geme, ahh, por suflê (2 vezes)


Não durmo de noite
Passando mal
Será que foi o óleo
Ou foi o sal


Seja sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por purê


Geme geme, uh, uh, por purê
Geme geme, ahh, por purê (2 vezes)

Vocês podem estar pensando
Que eu não tenho grana
pra comer lá no Porcão,
e não tenho mesmo

Mas no Porquinho tem sobremesa
Que é de graça
Isso então é uma beleza

Mesmo sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por patê

Geme geme, uh, uh, por patê...
ieh ieh por patê (2 vezes)

“É nóis”

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Ladrões invadiram uma agência bancária no interior do Estado do Mato Grosso do Sul e levaram uma grande quantia. O assalto só foi percebido quando os funcionários do banco chegaram para trabalhar e viram que havia um buraco no teto.
Um recado escrito à mão foi deixado no local do crime pelos assaltantes com os seguintes dizeres:
“Cem arma, cem drogas, cem violência — agradecemos a preferencia e acima de tudo nossa percistencia — é nóis”.
(Revista Língua Portuguesa nº 37, novembro de 2008)

Qual a maior palavra?

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Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico


A expressão médica, rara no Brasil, tem 46 letras e descreve quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão. A segunda maior palavra do idioma é “anticonstitucionalissimamente”, com 29 letras. (Revista Língua Portuguesa nº 35, setembro de 2008)

Não tem anos em que você gostaria que o Natal chegasse mais cedo?

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Se este for um desses anos, saiba que o Núcleo de Literatura do Espaço Cultural atendeu seu desejo e segunda, dia 8, às 20h, no Teatro Garagem, nós prometemos emocionar você com a mais bela coleção de músicas e poemas de Natal que você jamais ouvirá! Venha e traga seus amigos!

Nesta noite especial, o coral Serenata de Natal da UnB interpretará canções como Noite Feliz, Deixei Meu Sapatinho, Cavaleiros Reis e Boas Festas enquanto o cantor Alírio Netto, com seu teclado, interpretará Christmas Song e a histórica e divertida 12 Days of Christmas.

Poemas de Drummond, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Olavo Bilac e Marco Antunes.

Quer mais? Pois tem!

Será a noite de revelação dos vencedores e a entrega dos prêmios do 2º Desafio aos Escritores do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados. Entregaremos o Troféu Sindilegis em 8 categorias e aos 3 finalistas dessa impressionante maratona literária.

Na ceia, estrogonofe, salpicão natalino, farofa sofisticada,…

Fodopa

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Luci Afonso

— E aí, belezinha? Joinha? Tudo em paz? - Dois beijinhos, o sorriso franco, o aperto de mão.
—Bem-vinda, querida! - A risada solta, a voz forte, o abraço sincero.
— Saudações poéticas! - O olhar amoroso, o passo firme, a onda de calor.
— Oi, véi! - O frescor, o futuro, a juventude.
Assim sou recebida no portal intergalático a que cheguei depois de longa viagem.
— É dia de batismo! - Sou levada ao jardim e batizada com a água fresca que esguicha da mangueira, antes de começar o trabalho do dia.
Trabalho, não: paradinha.
As paradinhas são resolvidas uma a uma, com a ajuda de todo o grupo. Algumas são estranhas — estranhas, não, bizarras: onde colocar as enormes cabeças de papel que servirão como vírus para a nova campanha de divulgação? As figuras parecem não caber em nenhum lugar da Casa.
— É fodopa! - todos concordam, enquanto se sentam ao redor da mesa para o brainstorming:
— Eu pensei num móbile gigantesco, absolutamente impregnante.
— E se a gente... tipo... pendurasse nas ár…

O ponto

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Emanuel Mazza

Meu sangue percorre caminho entre ruas escusas, intransponíveis, obstruídas na ânsia de si mesmas, num entrave certo à vida. Ele faz o que tem de fazer, segue sua sina, busca o aconchego de outros mares, e eu, não sei se quero ir com ele, ou apenas me deixar ficar, soltar amarras e ansiar a morte, naturalmente como deveria ser, se hoje não fosse, longe de tantos recursos, paralisado no cansaço do corpo, preso na inércia de mim.
Melhor não pensar, uma vida inteira pautada em razões, em caminhos e atitudes racionalizadas, em porquês delineados, essa conduta de herói, de dominador, daquele que dispõe dos fins e dos meios (ilusão), me levou aonde estou, ao trombo. O trombo é um ponto no caminho. Um ponto de sangue coagulado no tempo.
Procuro não pensar. Há tantos significados que pensar seria crime, há tantas variáveis na matemática do existir que é impossível o pensar. Apenas deixar vir, as imagens cintilam como idéias, estrelas que pulsam na noite, ao acaso. O sopro seco do…