sábado, 27 de dezembro de 2008

Reencontro



Luci Afonso

(Para Marco)


A palavra me chamou, baixinho:
— Volta! Estou com tanta saudade...

Temendo nova separação,
Fui bem devagar ao seu encontro.

Afinal nos reconciliamos:
Hoje passeamos ao pôr-do-sol
E fazemos amor de madrugada.

Eu a trato com doçura;
Ela me chama de meu bem
E faz chuva quando quero dormir.

Não sinto mais a tristeza das manhãs.
Estou feliz
E assustada também.
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A Muriçoca





Emanuel Mazza

Imersa em sua glória ela pousava cantando, cantava não, fruía as asas num som agudo, estridente, em seu passeio de caçadora. O corpo bojudo, saciado de sangue, denunciava-lhe a placidez, a tranqüilidade. Estava no repasto e a noite fazia-se alta, acobertada no silêncio da madrugada. A caça sobre a cama, irrequieta, tentando dormir. Envolvia-se toda no lençol, abraçava o travesseiro em torno das orelhas. Em vão! Não conseguiria o sossego tão necessário para o dia de trabalho a seguir. Por muitas vezes havia levantado e perseguido o inseto repelente que teimava em incomodá-lo. Ele era astuto, porém, rapidamente escapava, camuflado na sua pequenez, inalcançável nas alturas do teto. O quarto sombrio de repouso do hospital denunciava tudo que não poderia ser: uma noite de trabalho perturbada não por pacientes a procura de socorro, mas por um, e apenas um, inseto infame que escapara do banheiro. Maldita a hora em que se lhe abriram as portas da prisão.

Eram dois habitantes que partilhavam a mesma alcova. A noite quente não ajudava a nenhum, aumentando o apetite da feroz devoradora e o desespero da vítima. Sonhava com outros mundos, em escapar dali correndo, em nunca mais precisar voltar. Preocupava-se com o dia fastidioso do porvir, em que teria de enfrentar a sina constante, os olhos semicerrados de sono, as pálpebras inchadas.

Súbito, acendeu a luz mais uma vez, numa tentativa desesperada de capturar o animal. Ali estava ele, ou ela, que são as que têm sede de sangue, repousando na parede, despreocupada. Lentamente ele recorreu a um livro sobre a cadeira ao lado da cama. Seguiu em direção à minúscula fera e tentou acertá-la num golpe. O livro zuniu cortando o ar e bateu direto contra a parede onde estava pousado o inseto. Estava, pois não está mais lá. Fora mais rápido que seu algoz. Ele se desesperou, quase chorando: sabia que não conseguiria ter paz por aquela noite. Uma paz tão preciosa e desejada. O inseto desaparecera por encanto. Não podia ser real, era coisa do diabo. Sim, o diabo estava contra ele e nunca lhe daria sossego!

Tornou a buscar a pequena caçadora, e eis que a viu. Ela estava lá, sobre o colchão, ao lado do travesseiro, um pouco atordoada. Num misto de alegria e desprezo ele ergueu a mão com o livro e desferiu o golpe fatal. Esse é certeiro e espalha todo o sangue do ventre da paladina na pequena porção do lençol. Vitória completa. Com um sorriso nos lábios, esfregou a contracapa do livro, livrando-se para sempre da mancha asquerosa, e apagou a luz para dormir. A caçadora no mesmo dia virou caça. Fez questão de deitar-se ao lado da presa esmagada, junto ao sangue que antes era seu. Agora, talvez, dormirão em paz, lado a lado como dois amantes. Isso se os pacientes não o importunarem noite adentro.
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Será que você merece um ano novo?




Marco Antunes

Prezado amigo! Venho hoje desejar a você um feliz ano novo, mas antes, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas pertinentes para saber se vão adiantar de alguma coisa meus sinceros votos em breve formulados.

Tudo bem pra você? Sei que serão muitas perguntas e que você é pessoa das mais ocupadas e que, como costuma dizer, seu tempo é dinheiro, nesse caso, restaria desejar-lhe que seu próximo ano seja um cofre do qual só você saiba o segredo.

É verdade que, se seu ano for assim, há de ser bem escuro e abafado, mas quem sabe você se ilumine com o brilho das barras de ouro de suas ocupações inadiáveis e se abane com as cédulas de tempo produtivo.

Se diante dessa constrangedora imagem, o distinto amigo resolveu sentar-se um pouco e responder às perguntas, sugiro que faça, então, o firme propósito de responder com rigorosa honestidade às minhas curiosas indagações.

Sim, exatamente isso, não porque tema ser enganado, mas porque temo que se engane a si próprio e a franqueza das respostas é essencial para a soma dessa equação que passo a formular.

Está pronto? Sugiro que se sente agora frente a um amplo e nítido espelho de onde se possa ver de corpo inteiro.

Está bem acomodado?

Pois bem, vamos lá então!

Quantas vezes no ano que passou você foi visitado por uma criança? Mais precisamente aquela com quem você se encontrava nas tardes fagueiras à sombra dos laranjais?

Quantas vezes essa criança levou você pra tomar sorvete de manhã no último inverno?

Por acaso essa criança sugeriu que você convidasse um amigo para cabularem juntos uma obrigação social?

Em que mês um rapazinho bateu na sua janela para você vir correndo espiar a nova vizinha com ele sobre o telhado?

Você trocou com ele as figurinhas da vida repetidas para que ambos fechassem o álbum ao mesmo tempo?

Pode ter acontecido de um moço bonito ter ido com você à lanchonete da esquina pelo simples prazer de sentar em um banco e ver o tempo passar?

Nesse dia você contou pra ele que andava inseguro e não conseguia decidir que rumo tomar para chegar a você?

Existe alguma possibilidade de numa dessas noites frias de junho você ter saído sozinho pelas ruas tentando encontrar “por acaso” aquela pessoa que faz o sono faltar e estica as horas da noite com febres sem cura?

Você por essa esperança chorou ao meio-dia no metrô e se prometeu que era a última vez que andava nessa linha?

Desceu numa estação improvável e teve a nítida impressão de ter visto o vulto amado entre milhares de transeuntes banais?

Conta só pra mim, você trocou receitas de felicidade com sua melhor amiga este ano que passou?

Ela contou pra você que num distante país asiático encontraram uma nova deusa entre as crianças do lugar e vocês riram imaginando se ela não seria uma divindade ocidental?

E no dia do seu aniversário você fugiu mais cedo do trabalho dizendo que ia tomar um chopp com os amigos e na verdade foi ver o pôr-do-sol sozinho no parque?

Agora, em segredo, conta só pra mim, você sonhou que tinha embarcado num cruzeiro no mediterrâneo com sua atriz de cinema favorita e só por isso ficou vermelho quando alguém lhe perguntou se estava apaixonado?

Tá certo, tá certo, perguntas mais simples, já que anda desacostumado de brincar com a imaginação.

Você amou?
Você sonhou?
Você fez planos?
Você dedicou algum tempo pra ser feliz?
Você finalmente percebeu que perder um tempo sem propósito faz de você uma pessoa mais livre?
Você cresceu nesse ano que passou?
Você não quis crescer mais nesse ano que passou?

Então, se respondeu sim a pelo menos uma dessas perguntas:

Há uma esperança para o seu ano
Sim, é possível que seja um feliz ano novo
Independente de que eu o deseje a você
Independente de que alguém o profetize
Sim, é possível que o novo ano seja pleno de novas surpresas e pequenas felicidades
Sim, é possível que você se pegue rindo à toa
Que você pregue uma peça na vida e aja de modo impróprio para sua nova idade
Sim, é possível que novas estrelas surjam no firmamento de sua vida
Sim, é possível que nesses novos 365 dias você encontre um ano feliz
Ou que um ano possível encontre você feliz
Sim, é provável que você mereça um ano novo
E que o ano seja novo em você de novo
E que o novo seja feliz
Sim, é possível! E a melhor notícia
É provável que você seja possível de novo!
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Mensagem de Natal



Luiz Carlos Ribeiro Borges


Em dezembro cintilam
os signos de natal.

Não, não luzes e estrelas
ou paisagens com neve;
nem, ao redor da árvore,
as caixas coloridas.

Outros signos existem,
sutis, quase invisíveis,
expressos nos olhares
e silêncios tácitos:

uma alegria urgente
perambula nas ruas,
mostra-se em cada esquina
nos rostos transeuntes.

Insensata alegria,
ancestral e pagã,
em que, sem dizer nada,
no outro me reconheço.

As luzes do natal
são o signo visível
deste diverso símbolo:
a chama que nos anima.

A esse entusiasmo,
em que nos descobrimos
parceiros de viagem,
irmãos de travessia,

a essa chama vital
podemos chamar: Deus;
ou então, simplesmente,
dizê-la: humanidade.

Luiz Carlos Ribeiro Borges nasceu em Guaraci, no interior do Estado de São Paulo, e reside em Campinas desde 1956. É escritor, crítico e cineasta, membro da Academia Campinense de Letras. borges.luiz@terra.com.br
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sábado, 20 de dezembro de 2008

Bifurcação


Luci Afonso

Na manhã de quinta-feira, resolvi encarar a chuva e o trânsito até o Parkshopping para comprar o presente do meu filho: um jogo eletrônico recém-lançado, que eu esperava encontrar no templo FNAC da tecnologia. Este ano estou sem dinheiro, graças a Deus, e só vou dar esse presente.

Eu planejava desincumbir-me da tarefa em pouco tempo e ainda voltar para o almoço em casa. A compra foi rápida. Demorada foi a chegada ao shopping.

Em vez de ir pelo Eixão, como sempre faço, decidi usar a EPIA. Dirijo pouco fora do Plano Piloto, e por isso não conheço as recentes duplicações e viadutos construídos pelo GDF. Após a Rodoferroviária, percebi que estava na faixa da direita, em direção à Estrutural, e que deveria pegar a da esquerda. Não deu tempo. Resultado: fui parar na rodovia sem retorno que leva a Taguatinga e Ceilândia.

Tentei ver a situação de forma positiva. Quem sabe, aquele era um sinal de que eu não deveria ir ao Parkshopping naquela hora, naquele dia? Lembrei-me de experiência semelhante vivida há apenas uma semana, quando uma amiga e eu procurávamos um endereço num condomínio no Lago Sul. Rodamos quase duas horas, indo e vindo pela Ponte JK — pontes também não têm retorno —, até que, exaustas e mal-humoradas, desistimos. Deus escreve certo por caminhos errados.

Pois bem. Agora eu estava na Estrutural, na direção oposta da que pretendia. Já estava conformada em fazer o longo trajeto quando avistei um retorno providencial. Não tive dúvida: entrei na Cidade dos Automóveis, procurando placas que me devolvessem ao destino correto. Placas havia de sobra: “compra-se”, “vende-se” e “troca-se”, mas nenhuma de sinalização.
Fiz balões e mais balões até parar numa extensa fila de carros, caminhões e ônibus. Motivo: obras na pista e um desvio de terra transformado em atoleiro pela chuva. Não estava preparada para o rally, mas enfrentei os buracos com coragem até chegar de novo ao asfalto, essa maravilhosa invenção humana.

Para minha surpresa, o atoleiro levara diretamente ao Setor de Indústrias, que conheço relativamente bem. Encontrei a saída para a EPIA e segui tranqüilamente o caminho, até descobrir mais à frente uma nova bifurcação à direita para o Parkshopping — desta vez, eu estava à esquerda. Felizmente, a antiga estrada para o Guará continua no mesmo lugar e também dá acesso ao paraíso das compras.

No final, deu tudo certo. Achei o presente e consegui evitar o tumulto de pessoas enlouquecidas pelo espírito natalino. Ano que vem, se Deus quiser, compro um carro com GPS.
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Asa negra


Emanuel Mazza

Ele sempre sonha com aquela rua. É uma rua estreita, coberta com pedras antigas de um calçamento que desce a ladeira e vai dar numa praça. A praça se abre em muitas outras vias, cercada de uma igreja e tantas outras casas que se perdem no arcabouço da memória. Dessa vez ele voa baixo, pesado, quase arrastando. Por mais que se esforce não consegue alcançar o tão almejado céu, o que vê é um céu escuro e opaco da noite de breu sem fim.

Não há nuvens no horizonte límpido e frio da consciência, exceto uma ou outra carregada de chuva, que, tão pesadas como ele, parecem se arrastar com o vento. Na verdade, não há horizonte, e toda natureza conspira contra ele naquele momento, nem o vento o suporta. Nem ele mesmo se suporta.

Assim, fatalmente será agarrado. Sim, há um perseguidor, é então que ele o vê, a poucos passos, não consegue uma noção concreta de quem está por trás, é tudo um sonho mesmo, e se virar muito a cabeça certamente irá cair. Ele voa, tenta em desespero bater mais forte as asas, mas não consegue. Essas asas que não são feitas das penas de um anjo, mas de negras membranas dispostas entre longas alças arqueadas que as sustentam e terminam em garras, como as de um demônio.

Será pego, isso está certo, e a idéia o atormenta, o devora, como ele estava acostumado a devorar. O caçador finalmente torna-se presa. O assassino incansável para quem pouco importa a vida ou a morte, exceto a dele mesmo. Acossado, ouve a respiração forte e regular, os passos firmes e cadenciados de quem não tem nenhuma dúvida de que o irá apanhar. O homem corre, apenas segue veloz, e é mais forte que ele.

Fraqueja, sente-se mortal como há muito não sentia. Não suporta a idéia de ser um homem comum, desacostumara-se com isso. O coração começa a falhar, um peso o abate, a esmigalhar o peito e o ventre, e se espraia pelo corpo, como ondas de choque que vibram num pulso. Suas asas ruflam contra o vento enquanto ele em vão emite um guincho medonho.

Sim, sabe que vai perder aquela luta, que de nenhuma maneira poderá escapar, já está condenado, é o fim...

Os olhos se abrem lentamente na escuridão. A respiração, a princípio rápida e entrecortada, vai suavizando. Sente o suor frio e pesado como um manto pegajoso e glacial agarrado à sua pele e que lhe dá nojo. A roupa encharcada numa realidade que se impõe sobre o sonho. Ou um sonho que não é senão parte de uma inesgotável realidade.
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Você é ilunga?



A empresa britânica Today Translations ouviu mil tradutores de todo o mundo para selecionar as dez palavras mais difíceis de ser traduzidas. A palavra saudade, exclusiva da língua portuguesa, está em 7º lugar. A primeira posição ficou com a palavra ilunga. Ela pertence ao idioma tshiluba, do Congo, e traduz “uma pessoa que está disposta a perdoar uma ofensa numa primeira vez, a tolerá-la numa segunda ocasião, mas que jamais perdoará pela terceira vez”.

Em segundo lugar ficou a palavra shlimazi, em ídiche (língua germânica falada por judeus, especialmente na Europa Central e Oriental), que significa "uma pessoa cronicamente azarada"; e em terceiro, radioukacz, em polaco, que significa "uma pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro".

Lista das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:

1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. Shlimazl (ídiche) - pessoa cronicamente azarada, de forma vitalícia.
3. Radioukacz (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
4. Naa (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
5. Altahmam (árabe) - um tipo de tristeza profunda.
6. Gezellig (holandês) - aconchegante, de uma maneira excentricamente especial.
7. Saudade (português) - sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória ou ausência de algo/alguma coisa.
8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres
9. Pochemuchka (russo) - pessoa irritante que faz perguntas demais.
10. Klloshar (albanês) - perdedor.


(Texto da Internet)
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Dicas para escrever bem


· Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V.Sa. Outrossim, tal prática advém de esmero excessivo, que beira o exibicionismo narcisístico.
· Evite abrev., etc.
· “não esqueça das maiúsculas”, como já dizia carlos machado, meu professor lá no colégio santa efigênia, em salvador, bahia.
· Fuja dos lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
· Estrangeirismos estão out.
· Seja seletivo no uso de gírias, bicho, mesmo que sejam maneiras, sacou?
· Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.
· Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva e a repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
· Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
· Frases incompletas podem causar.
· Cuidado com a orthographia, para não estrupar a língua.
· Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.
· Seja mais ou menos específico.
· Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
· Quem precisa de perguntas retóricas?
· Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda a A.G.O.P.
· O exagero é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.
· Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

(Texto da Internet)
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Resolvida


Luci Afonso

Você finge que não me vê. Eu a enxergo em todos os detalhes.

Sua roupa tem um colorido deslumbrante. Seus acessórios são grandes e caros.

Sua voz tem um verniz que se despedaça à menor contrariedade. Seus olhos bem maquiados choram lágrimas rasas.

Seu umbigo é uma cratera em que se perdem até grandes obras da história universal. O pensador de Rodin foi tragado para o fundo e nunca mais pensou.

Você tem cursos, nós já entendemos, mas quem não os tem?

Sua música é paródia. Seus versos, caricatura. Sua voz, desafinada. As pessoas a aplaudem para puxar o saco.

Seus pés estão gordos e mal cabem nos sapatos de grife. Você está achatada como um sapo no pântano. Logo começará a coaxar.

Ah, se você me visse!...

Eu me espelharia na sua autoconfiança.

Apreciaria seu bom gosto, sua sofisticação, sua sensibilidade.

Aplaudiria sua música, seus versos, suas criações, e poderia até acreditar em... genialidade!

Admiraria sua silhueta madura e seus pés bem fornidos. Sua voz soaria doce como a de um pássaro no bosque.

Mas você finge que não me enxerga, e eu a vejo em todos os detalhes.
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Reciclagem


Emanuel Mazza

O dia ainda não amanhecera. Era madrugada escura e uma névoa seca, bem fria, cobria o ar, sugerindo vagamente a lua e algumas estrelas. O homem despertou de um torpor, demorando em reconhecer onde estava, mas então se recorda: era um pequeno quarto feito de partes de papelão entrelaçadas por fitas adesivas. Ele limpou os olhos com os dedos da mão e mirou o subir e descer do colo da mulher a seu lado, enquanto ouvia o respirar calmo dos filhos no chão, protegidos por folhas de jornal. O frio invadia o quarto com seu peso de chumbo, e penetrava fundo nos ossos. Sentiu o crepitar de uma fogueira acesa lá fora, disposta no centro de um círculo de outros quadrados de papel, que o chamava como o apelo de um farol aos navegantes. Sua vontade, entretanto, era de caminhar lentamente em direção ao fogo, e se fundir com ele, na tentativa de acabar com o frio medonho, largar a própria carne ao sabor das chamas e com essa aflição final dar cabo de sua dor infinita.

Chegou o mais próximo que pôde da fogueira e cumprimentou os amigos num aceno, os dentes expostos em desalinho, tentando ocultar o desespero. Ainda não despertara por completo. Sentia a náusea da noite anterior e a cabeça ribombava sob o efeito da embriaguez contínua a que se submetia lentamente para suportar seu destino, presa de um alcoolismo calado e servil, guardado entre as paredes do quarto de papel, num ardor murmurativo que lhe dissolvia as entranhas.

Não atinava com o novo dia.

“Você não vai trabalhar hoje?” lhe fala uma voz um pouco mais distante da fogueira. A pergunta lhe caiu como um raio, teria que ir logo, antes do lusco-fusco, senão não encontraria mais nada. O homem levantou-se, saiu cambaleante e buscou um pouco de água na bacia para lavar o rosto, depois um café de cor amarela disposto em um grande bule armado sobre um tripé de pedras, curtidas por galhos e gravetos que estalavam em outro arranjo, e buscou pela carroça. O filho já o esperava, instalado comodamente diante do estrado de madeira. Pegou pelos cabos com a mão e, fazendo as vezes do animal, foi à cata do lixo.

O primeiro sol da manhã os encontrou com a carroça cheia, apinhada de latas e papel, cuidadosamente arrumados para que não ocupasse muito espaço, o homem dobrado ao peso do próprio corpo, o peito brilhante de suor, o olhar fixo no chão enquanto puxava o conjunto, que era a maneira que havia de render mais força; o menino de camisa aberta ao vento, num sorriso lesto, olhos fixos em outros monturos. Os dois, homem e menino, calados na espera irremediável das horas, a cidade recrudescendo nas próprias cinzas, restos de outros homens que inopinadamente esperam, e esperam por dias melhores.

Depois, o de sempre, o converter de lixo em centavos, o transmutar de centavos em comida, o eterno arrastar de dejetos, produtos de uma cidade que tem vida própria, respira e come e bebe, e não tem mais onde expurgar sua angústia.

(O homem passa sobre uma ponte; abaixo, a fileira desmedida de veículos que estertoram outros sonhos. Se saltasse dali não haveria como não morrer, ou pela queda, ou pelo atropelo das máquinas apressadas).

Só lhe restava esperar, ao fim do dia, pelo calor íntimo da garrafa de bebida, e deleitar-se com o aconchego frio do seu castelo de papel, até o descortinar certeiro de outra madrugada para, assim, sem que soubessem, renovar em eterno sua servidão.

Um clarão de luz lhe avisa que não precisa mais sentir dor. Tudo tão rápido que nem lhe dá tempo de compreender, apenas o menino percebe o carro desgovernado chocar-se contra a carroça, apenas o menino assiste o pai morto, ossos e sangue dispersos no chão ante uma cidade silente, aquietada no som grotesco da indiferença.

O enterro teve que seguir rápido, não havia tempo para rituais, somente o baque seco da terra sobre a carne, uma carne despida de si mesma, envolta no pano fino com que costumava dormir. Ao menos agora não sentiria mais frio.

Dia seguinte o menino segurava a carroça, o irmão mais novo sobre o estrado, o trabalho por fazer, a fome que não dava trégua.

Afinal, aquele era um país vencedor, campeão de reciclagem de lixo!
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Mais Uma de Almoço (Geme Geme)

Isolda Marinho



Esta é mais uma das manjadas histórias de almoço
que já aconteceu comigo, com você, e com todo mundo.
É a história do cara que perdeu o almoço e do almoço que perdeu o cara
Diz mais ou menos assim



Perdi meu almoço... lá no Porquinho
Dou tudo que eu tenho... por um lombinho

Seja com sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por suflê


Geme geme, uh, uh, por suflê
Geme geme, ahh, por suflê (2 vezes)


Não durmo de noite
Passando mal
Será que foi o óleo
Ou foi o sal


Seja sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por purê


Geme geme, uh, uh, por purê
Geme geme, ahh, por purê (2 vezes)

Vocês podem estar pensando
Que eu não tenho grana
pra comer lá no Porcão,
e não tenho mesmo

Mas no Porquinho tem sobremesa
Que é de graça
Isso então é uma beleza

Mesmo sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por patê

Geme geme, uh, uh, por patê...
ieh ieh por patê (2 vezes)
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“É nóis”


Ladrões invadiram uma agência bancária no interior do Estado do Mato Grosso do Sul e levaram uma grande quantia. O assalto só foi percebido quando os funcionários do banco chegaram para trabalhar e viram que havia um buraco no teto.

Um recado escrito à mão foi deixado no local do crime pelos assaltantes com os seguintes dizeres:

“Cem arma, cem drogas, cem violência — agradecemos a preferencia e acima de tudo nossa percistencia — é nóis”.

(Revista Língua Portuguesa nº 37, novembro de 2008)
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Qual a maior palavra?

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico


A expressão médica, rara no Brasil, tem 46 letras e descreve quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão. A segunda maior palavra do idioma é “anticonstitucionalissimamente”, com 29 letras.
(Revista Língua Portuguesa nº 35, setembro de 2008)
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sábado, 6 de dezembro de 2008

Não tem anos em que você gostaria que o Natal chegasse mais cedo?


Se este for um desses anos, saiba que o Núcleo de Literatura do Espaço Cultural atendeu seu desejo e segunda, dia 8, às 20h, no Teatro Garagem, nós prometemos emocionar você com a mais bela coleção de músicas e poemas de Natal que você jamais ouvirá! Venha e traga seus amigos!

Nesta noite especial, o coral Serenata de Natal da UnB interpretará canções como Noite Feliz, Deixei Meu Sapatinho, Cavaleiros Reis e Boas Festas enquanto o cantor Alírio Netto, com seu teclado, interpretará Christmas Song e a histórica e divertida 12 Days of Christmas.

Poemas de Drummond, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Olavo Bilac e Marco Antunes.

Quer mais? Pois tem!

Será a noite de revelação dos vencedores e a entrega dos prêmios do 2º Desafio aos Escritores do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados. Entregaremos o Troféu Sindilegis em 8 categorias e aos 3 finalistas dessa impressionante maratona literária.

Na ceia, estrogonofe, salpicão natalino, farofa sofisticada, vinho, espumante, palha italiana e sorvete de panetone.

Lançamento dos livros ABC de Vladimir Carvalho, de Gustavo Dourado; e o Sentido do Amor, de Stella Rodopoulos.

Você não acha que é uma noite pra ficar na memória? Nós achamos!
Mas essa noite só será perfeita se você estiver conosco!

29º SARAU DA CÂMARA DOS DEPUTADOS
8/12/08
Teatro SESC Garagem - 913 Sul
A partir das 20h


Entrada franca
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Fodopa



Luci Afonso


— E aí, belezinha? Joinha? Tudo em paz? - Dois beijinhos, o sorriso franco, o aperto de mão.
—Bem-vinda, querida! - A risada solta, a voz forte, o abraço sincero.
— Saudações poéticas! - O olhar amoroso, o passo firme, a onda de calor.
— Oi, véi! - O frescor, o futuro, a juventude.

Assim sou recebida no portal intergalático a que cheguei depois de longa viagem.

— É dia de batismo! - Sou levada ao jardim e batizada com a água fresca que esguicha da mangueira, antes de começar o trabalho do dia.

Trabalho, não: paradinha.

As paradinhas são resolvidas uma a uma, com a ajuda de todo o grupo. Algumas são estranhas — estranhas, não, bizarras: onde colocar as enormes cabeças de papel que servirão como vírus para a nova campanha de divulgação? As figuras parecem não caber em nenhum lugar da Casa.

— É fodopa! - todos concordam, enquanto se sentam ao redor da mesa para o brainstorming:
— Eu pensei num móbile gigantesco, absolutamente impregnante.
— E se a gente... tipo... pendurasse nas árvores?
— Vamos usar espelhos, saca, com música ao fundo!
— Poderia ter um machado bem grande, assim... abrindo as cabeças...
— Que tal uma dança das cadeiras, para desestressar?

A última idéia é acolhida por unanimidade.
Todos se posicionam e giram em volta das cadeiras até que a música pare. Uma rodada, duas, três, e sou a vencedora! Será que me deixaram ganhar? Não importa. Estou empolgada por ter participado da primeira atividade lúdica com minha nova família fodopiana.

Sinto-me belezinha, joinha, em paz. Fora do padrão, e finalmente em casa.
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O ponto




Emanuel Mazza


Meu sangue percorre caminho entre ruas escusas, intransponíveis, obstruídas na ânsia de si mesmas, num entrave certo à vida. Ele faz o que tem de fazer, segue sua sina, busca o aconchego de outros mares, e eu, não sei se quero ir com ele, ou apenas me deixar ficar, soltar amarras e ansiar a morte, naturalmente como deveria ser, se hoje não fosse, longe de tantos recursos, paralisado no cansaço do corpo, preso na inércia de mim.

Melhor não pensar, uma vida inteira pautada em razões, em caminhos e atitudes racionalizadas, em porquês delineados, essa conduta de herói, de dominador, daquele que dispõe dos fins e dos meios (ilusão), me levou aonde estou, ao trombo. O trombo é um ponto no caminho. Um ponto de sangue coagulado no tempo.

Procuro não pensar. Há tantos significados que pensar seria crime, há tantas variáveis na matemática do existir que é impossível o pensar. Apenas deixar vir, as imagens cintilam como idéias, estrelas que pulsam na noite, ao acaso. O sopro seco do vento no inverno. Queria realização quando a vida me cobrou seu momento, e me senti aquém, aquele que não viveu senão o compromisso, cujo destino principal não estava em si mesmo.

E quando o acaso, senhor absoluto de todas as coisas, veio buscar o que é seu, e trouxe na mão uma balança, percebi que o muito que havia era quase nada, que outros eram os sonhos, que o que havia em mim estava calado, recôndito, estagnado no ponto.

Quando a comichão da morte me tocou eu não me senti à vontade, gritei por mim na iminência do não ser, e o que ouvi foi um eco, o baque surdo da minha voz contra as rochas, e as rochas eram o trombo.

Vejo minha mão e percebo como se minha não fosse, uma parte inerte presa em sua anestesia. Mais um quarto escuro, uma caverna que se resguarda em si, e tantas já são. Despojos de guerra atirados no sótão, distraidamente, ao longo dos anos, até que não sobrasse muito, mas que a própria memória não dá por falta, exceto por uma nesga, uma fincada cruciante de que algo de mim se perdeu, e esse algo talvez fosse tudo.



(Imagem: Le modèle rouge, René Magritte, 1935)



Emanuel Mazza de Castro nasceu em 3 de maio de 1967, em Teresina, PI, e mora em Brasília desde 1992. Formou-se em Medicina pela Faculdade Federal do Piauí. Trabalha em Clínica Médica e Terapia Intensiva na Câmara Federal e TCU. Casado pela segunda vez, é pai de dois meninos, Chael e Breno. Como contista, foi premiado em diversos concursos. Também é autor de estórias infantis. Publicou “Vôo Livre”, contos, em 2003, e “O Rei, o castelo e o dragão”, estória para crianças, em 2004. (emanuelmc@tcu.gov.br)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira