quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Enamoramento 1


Maria Amélia Costa


Olha-o por trás. Sentada ao lado dele fez com o olhar um contorno impossível. Ela gosta de olhar por trás, comedida em feições que se expressam na clandestinidade de quem acredita que pode ver além. Não ser vista e assim cercar o ser amado com cercanias quadradas, redondas, perpendiculares, transversais. Trazer fiozinhos sutis e delicados das entranhas da terra para o atravessarem, o fixarem e o aprisionarem no tempo que é só dela. No tempo que é dela quer, também, vê-lo pelo lado do lado dele: nem à frente, nem atrás, nem de cima. De cima, talvez. Contudo, de lado. Mas, não quer ser vista. Nessa condição clandestina o olhar o atravessa na pretensão de luz que tudo ilumina, decifra, expõe, constrange. Ele está distraído com alguma coisa, tocando alguma coisa ou, simplesmente, olhando em frente enquanto fala com ela. Mas ela não quer falar. Talvez até queira. Talvez até fale uma banalidade qualquer. Mas, definitivamente, não é falar o que ela quer. Não naquela hora. Naquela hora o que ela quer é olhar para ele e se concentrar nesse encantamento, com a intensidade de uma posse solitária. Aquele tempo era só dela por isso precisava se entregar e fazer tudo por inteiro. Pára de respirar por um instante, naquele instante que ela insiste na imobilidade do tempo. Fixa o olhar carregado de alma em algum ponto dele. O ponto adquire dimensões grandiosas porque está emoldurado em um retângulo que contorna o infinito, para abrigá-lo.

Há, também, uma criança de cabelos lisos que se mexem porque ela se mexe em movimentos naturais de criança, subindo e descendo por degraus de um lugar rústico. Ela, a criança, está fora do quadro, do tempo, do espaço. A criança se move.

Mas ela... Ela não podia se dispersar em movimentos. Poderia dizer-se que precisa renovar os esforços de atenção para não sair daquele contorno que ela elegeu e o colocou no centro. Mas não vai dizer isso porque ela traz a alma no olhar e assim está inteira naquele gesto que não quer chamar de gesto porque esta é uma palavra insignificante demais para representar o conjunto daquele instante. O cabelo dele estava com os fios sobrepostos em pontos irregulares formando uma superfície uniforme. Quis tocar um a um aqueles fios e se demorar muito nisso, na imobilidade intensa de quem toma para si, em posse, a finitude e infinitude de arranjos assim. Tomar para si um si que é só seu. O cabelo contornava e ela foi deslizando o olhar acompanhando aquele contorno que marcava a testa, a orelha, a nuca. Marcava o ser. Quis acariciar, mas ela não podia fazer isso porque estava sem respirar na intensidade da entrega. Na imobilidade da posse. Ela o amava e o olhava de lado. Na clandestinidade. Na clandestinidade podia fazer qualquer coisa e nessa liberdade o possuir por inteiro aprisionando-o naqueles contornos que ela mesma desenhou. Mas não eram os contornos que davam o sentido para aquele momento de êxtase que ela insistia em não dividir.

Assim, na liberdade, ela o fez levantar-se e sair.
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Barriguda

— Quantos meses?
— Que barriga linda!
— Já sabe o sexo?
Por onde eu andava, recebia olhares e perguntas gentis. Nas filas do banco, o guarda ou gerente vinham me lembrar do atendimento preferencial às gestantes. Jovens e idosos se levantavam para me ceder o lugar. Mulheres me olhavam com inveja. Uma senhora de cabelos brancos no parque pediu permissão para tocar meu ventre e se emocionou ao ouvir um coração batendo. Uma colega disse que minha pele estava linda; outra previu que seria menino, pelo formato pontudo da barriga.
Durante meses fui alvo de incontáveis delicadezas. Só havia um problema: eu não estava grávida. Na verdade, eu tomava um remédio que dilatava o abdômen e causava a protuberância. Quando surgiram as primeiras perguntas, eu tentava explicar a situação. Depois me cansei e resumia a resposta a “não estou grávida”. Em seguida, adotei o comportamento passivo-agressivo:
— Onze meses.
— A sua também.
— É gay.
Encolhia a barriga e prendia a respiração sempre que me aproximava de uma pessoa ou entrava num ambiente. Pensei em colocar um anúncio no mural: “Não estou grávida”.
— E aí, barrigudinha, vai um pão-de-queijo? - Perguntava todo dia a moça do lanche.
— Temos vestidinhos lindos para gestante - me ofereceu a vendedora de uma loja infantil onde entrei para comprar um presente de aniversário. Passei a odiar a palavra “gestante”.
Uma barriguda desperta enorme atenção aonde quer que vá. Talvez a espécie humana reconheça ali o triunfo da sobrevivência. Talvez a memória da vida uterina seja reativada. Talvez as pessoas devessem cuidar de suas vidas em vez de encher o saco.
Seguindo o conselho de um amigo, comecei a recitar a Oração da Serenidade diariamente e superei o comportamento passivo-agressivo. Respirava fundo e triunfava sobre meus instintos mais primitivos toda vez que precisava dizer: “não estou grávida” — certo dia, contei cinqüenta vezes.
Finalmente, terminei o tratamento e deixei de tomar o remédio. Aos poucos, o barrigão voltou ao normal e não mais suscitava perguntas embaraçosas.
Passado algum tempo, uma colega novata pediu que eu participasse de uma pesquisa de ergonomia do curso de pós-graduação na UnB. Concordei, solícita, e ouvi a primeira pergunta:
—Você considera que a perda do seu bebê se deveu às más condições no ambiente de trabalho?
( ) Sim ( ) Não Justifique: ____________________________________
Respirei profundamente antes de responder:
— Barriguda é a puta que te pariu!
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sábado, 10 de novembro de 2007

Pessoas que nos atravessam

Maria Amélia Costa




Eu o encontrei.

Entrei na livraria fazendo uma daquelas coisas que se faz por hábito, como esse que tenho de pesquisar em livrarias cada vez que vou a um shopping center.

Um pouco melancólica e entregue ao acaso não coloquei atenção nas pessoas que se movimentavam no interior da loja. Estava distraída quando fui surpreendida por um “oi” vindo ao meu encontro. Virei. Era ele. Abraçamos-nos e nos dissemos alguma coisa, ao mesmo tempo, numa surpresa única.
Não consigo imaginar a expressão do meu corpo naquela hora. O que disseram os meus olhos ou a minha boca trêmula. Ele estava ali, na minha frente, como um milagre.



Tantas vezes conversei contigo nos tempos de ausência. Disse tantas coisas!
Compartilhei momentos. Contei histórias e feitos meus. Falei da falta que sinto
das vezes que sorrimos juntos por coisas banais. Falta dos cuidados teus. Que
por vezes me vejo em atitudes tolas, iluminando pequenas coisas que vieram de
ti. Emoldurando. Ilustrando. Colocando sentido. Fazendo história. Contigo ao meu
lado, por noites sem fim, chorei e disse da saudade que sinto.



Agora ele estava ali, na minha frente. Sorrindo. Amoroso. E eu não sabia o que fazer. Não sabia o que dizer. Paralisada, reparei na camisa listrada que conhecera outrora, no cabelo de fios levemente dourados e no sorriso. Dei-me conta, mais uma vez, de que ninguém sorri como ele! Sei que fiquei olhando, sem vida, porque tudo parou em mim. Tentei disfarçar. Girei em torno daquela emoção que tomou conta de tudo o que estava em volta e me deixava mole, lerda, inerte.

Quis desaparecer e parar o presente a um só tempo. Aprisionar o universo para que nada se movesse e tudo se aquietasse na eternidade daquele momento.
Meu Deus, como quis que o tempo parasse... Eternizar o instante e nele fazer tudo o que sonhei fazer, dizer tudo o que desejei dizer. Tocar e sabê-lo quente.

Segurava um livro em uma das mãos. Explicou que era para a filha que se formara em Arquitetura e que estava esperando no carro estacionado em fila dupla lá fora e que por isso, lamentava muito, mas tinha que ir.
Uma angústia singular e a sensação de impotência amoleceram os meus ossos.
Disse uma despedida e novamente me abraçou.
Fiquei ali. Esvaziada, abatida, sem forças sequer para olhar e vê-lo se afastar, sair pela porta de vidro e se
perder.
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Deu zebra


Tarde de sábado, 30 graus, umidade a 20%. Mãe e filho vão ao cinema no Pátio Brasil. Escolhem um filme sobre uma zebra que, abandonada ainda filhote pelo zoológico, é encontrada por um fazendeiro e cresce ao lado de cavalos puro-sangue, pensando ser um deles. Stripes, como passa a ser chamada, é motivo de chacota de animais e homens, mas não desiste do sonho de vencer a corrida mais importante da região.
O menino corre para pegar a almofada infantil. Na fileira de trás, uma velhinha corcunda e cheirosa também foi colocada numa almofada e balança os pés, satisfeita, enquanto se delicia com um saco de pipoca. Durante o filme, será a vez de chupar balinhas, com um ruidoso movimento de sucção que se contrapõe à trilha sonora.
Enquanto o filho se diverte com a estória, a mãe volta no tempo e constata, com alguma tristeza, que, ao contrário de Stripes, sempre se sentiu zebra, e que para isso contou com a ajuda de muitos que não lhe perdoavam a estranhez nem a superioridade.
Na infância, Magrela, Palito, Esqueleto.
- Quantos ossos tem um esqueleto? - Perguntava-lhe a tia infeliz na frente de todos, para humilhá-la. As aulas de Educação Física eram um suplício. Além de não conseguir dar as cambalhotas obrigatórias, os cambitos pareciam esticar ainda mais no short de elástico. As meninas riam, em vingança contra o desempenho excelente nas outras matérias.
Na adolescência, Eucalipto, Seriema, Espigão.
- Vai, Espigão! - gritava a torcida de handebol, quando ela partia para o ataque. Era o nome de uma novela de sucesso à época, e foi também o apelido dado por um rapaz de 1 metro e meio que a perseguia no ginásio.
Depois dos 20, foi enchendo de corpo, até ostentar, com orgulho, a fama de “falsa magra”. Abusava das saias curtas, conquistou inúmeros namorados, era invejada por outras mulheres. Achou que duraria para sempre.
Estava redondamente enganada: na gravidez, ganhou 20 quilos que nunca mais perdeu.
- Você tinha um corpo tão bonito! - comentavam as colegas, com indisfarçado prazer.
O sobrepeso a deprimia, assim como a extrema magreza na juventude. Aos 40 anos, simpática e roliça, sentia-se tão desajeitada quanto a menina esquelética no grupo escolar.
Sua mente se volta para o filme. Chegou o grande dia: Stripes está em último lugar, mas vai ultrapassando um a um os puros-sangues. As crianças batem os pés e a velhinha, palmas — as balinhas acabaram, e agora ela tem as mãos livres. A mãe se junta à torcida pela zebra, que, no último minuto, vence a corrida.
As luzes se acendem. Mãe e filho agora se acomodam no McDonald’s. Ela vê sua imagem multiplicada nos espelhos do shopping e, no instante silencioso e súbito, compreende: sente-se zebra porque nunca se soube puro-sangue. Ainda é tempo: enquanto pede 2 Mclanches Felizes, cheeseburger sem picles e Coca-Cola, olha timidamente para si mesma e recebe de volta uma multidão de sorrisos encantadores.
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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Uma pessoa em busca de palavras



Maria Amélia Costa












Ela gosta de livrarias, principalmente aquelas que têm, anexo, um café. Gosta de ficar ali para folhear, apalpar, procurar, sentir. Sentir cheiro de livro tomando café. Foi em uma livraria que encontrou a professora e escritora da qual ela prefere não dizer o nome, agora.

Conversa vai, conversa vem foi feito o convite para conhecer uma oficina de literatura. Levou o convite nas páginas de um livro de crônicas que acabara de ser autografado. Naquele momento o convite já estava aceito.

Depois da decisão veio a dúvida. Será que deveria ir? Pesquisou pelas páginas da internet - nessa bisbilhotice tão, aparentemente, fácil nos dias atuais. Da pesquisa ficou a impressão de que se tratava de um grupo muito específico de funcionários da Câmara dos Deputados. Deve ser um monte de gente metida a besta, pensou. Mas, sem que falasse nada, o convite foi reforçado e então resolveu ir e ver o que acontece.

No calor de quase meio dia de um dia quente de início de primavera no ano 2007, foi. Deu várias voltas à procura de uma vaga no estacionamento público e quando já pensava em desistir, encontrou um cantinho para deixar o carro. Agora não havia mais desculpas. Subiu para o oitavo andar e pelo caminho ia pedindo informações sobre a sala tal em frente à sala tal onde o grupo estaria reunido.

Abriu a porta devagar, entrou e sentou em uma cadeira posicionada próximo a porta. Cautelosa, não queria incomodar e se manteve ali, observando. Durante os primeiros momentos só queria ficar assim, compondo o sentido de estar ali. Percebeu-se acolhida e se entregou para aquela possibilidade. Atenta e curiosa deixou que cada poro seu se abrisse para entrar aquela sensação boa de alimentar-se com a arte em forma de poesia e de música. De música e de poesia.

Mas havia, também, alimento em forma de comida. Ofereceram-lhe, mas ela, tímida, não aceitou. Não aceitou porque achou que seria abusado chegar assim na hora do almoço e almoçar. Ao mesmo tempo se deu conta da indelicadeza. O cheiro bom que fazia voltas em seu torno lhe dizia que não deveria ter recusado. Por vezes, enquanto cantavam, liam poesia e comiam, ela sentiu um misto de prazer e fisgadas de arrependimento. Nas horas seguintes daquele dia não conseguiu esquecer o cheiro da refeição e meditou: a poesia, a música, o encontro, tudo isso poderia experimentar em outros momentos, mas a comida... E isso lhe enchia a boca de frustração úmida. Ela ainda não sabe direito porque coisas assim causam efeitos assim – duradouros.

Diante do pequeno grupo, no interior das indagações que fazia, ela se perguntou: Por que, nesse lugar, com tantas pessoas em salas fechadas se fecham para encontros assim? Era uma pergunta de criança, ela sabia.

Nesse dia, saiu com a certeza de que voltaria. E voltou.

Chegou mais cedo para o segundo encontro. Percebeu que o grupo havia aumentado com a presença de outras pessoas. A primeira coisa que pensou foi se não estaria sobrando na sua estrangeirice inusitada.

Sentou, cruzou as pernas e ocupou o espaço porque queria que o espaço, também, se sentisse ocupado por ela, num momento de verdadeira comunhão. Depois de um tempo se deu conta do próprio silêncio e que a sua presença, feita de um corpo atento e miúdo, poderia causar estranhamentos. Nesse estado disse para si mesma que precisava falar, dizer alguma coisa, uma bobagem que fosse. E continuou calada. Melhor que dizer besteira. Convenceu-se num monólogo de si para si.

No espaço aéreo da pequena sala as vozes, os risos, os feitos, os escritos, e os silêncios de suspiros profundos se entrelaçavam tecendo uma trama densa, quase visível. Ela apreciava, num tipo de paquera, como se não conseguisse ultrapassar a soleira de entrada. Não sabia, ao certo, se estava dentro ou se estava fora.

Nesse dia ninguém cantou ninguém comeu. Houve no que lhe pareceu, uma saciedade absoluta causada pelo tão presente Manuel Bandeira que veio como presente numa bandeja cheinha de poesia. De história, também. E ninguém, tendo aguçado os seus cinco ou seis sentidos, precisava de mais nada.

Foi embora prometendo que voltaria e se apresentaria dizendo: esta sou eu. E deixaria que o tempo cuidasse do resto. Mas aí aconteceu de alguém querer perguntar: Quem é você? E ela respondeu: Uma pessoa em busca de palavras.











Viver de palavras tem sido o meu ofício.
Sou professora com formação em Pedagogia, especialização em Filosofia e mestrado em Educação. Trabalhei com crianças por alguns anos, mas é atuando em magistério superior com formação de professores/as que experimento estimulantes desafios.
Nasci no Maranhão, mas desde meados da década de sessenta que Brasília é a minha morada. Foi aqui que nasceram os meus dois filhos.
Aprecio muito a cidade, notadamente, quando as tardes de agosto pintam o céu com nuances avermelhadas e quando ela se veste com o colorido da primavera.
Gosto de leitura, de música, de dança; de silêncio e contemplação, ar puro, amigos. Gosto do verde no meu quintal; do cheiro de terra molhada; de ver a chuva caindo.
Identifico-me com a simplicidade e com a complexidade que há em tudo.Gosto, também, de um casal de jandaias barulhentas que faz amor sob o telhado da minha casa.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira