sábado, 31 de maio de 2008

De barriguinha pra baixo




Luci Afonso


Após muita insistência, Nalva me convencera a visitar seu amigo Olorico Barbosa, terapeuta naturalista. Conforme a massagista me explicara, ele era hidrologista, quilopata e natopata, isto é, atuava no diagnóstico da íris, destravamento da coluna e controle de peso mediante tratamento fitoterápico.

Fiz devagar o longo trajeto a Taguatinga logo de manhã. Quando preciso ir ao médico ou dentista, é um marca-remarca interminável. Dado o passo inicial, porém, sou a melhor das pacientes: obediente, assídua e fiel até a morte.

O verdadeiro nome de Nalva, eu acabara de descobrir, era Norvina (o pai, grande pescador, assim homenageara o peixe favorito). Ela já me aguardava no consultório decorado em tons de verde. Uma íris enorme nos observava na parede principal e outras menores espiavam de todos os cantos.

Fui apresentada a um moreno baixo e forte, de cabelo preto liso, parecido com o presidente boliviano, Evo Morales.
— Estou um pouco nervosa.
— Fique tranqüila, paixão - disse ele com leve sotaque. Você está em casa.

Olorico viera do Uruguai para o Brasil ainda criança. Crescera numa fazenda, onde aprendera a lidar com ervas medicinais. Já na cidade, trabalhara como alfaiate durante muitos anos, até descobrir a vocação de terapeuta naturalista. Fizera vários cursos na área, e sempre os repetia, para fixar melhor o aprendizado. Suas clientes eram sua paixão.

Na sala de exames, ele diagnosticou:
— Você precisa perder uns oito quilos, cinco de barriga. Você é uma mulher bonita, paixão, não uma coroa barriguda!
— A alta estima é importante - completou Nalva, segurando minha mão.

Em seguida, minha íris foi projetada na tela. Olorico gentilmente congelou a imagem por alguns segundos para que eu a fotografasse com o celular.
— Você sofreu um trauma antes de nascer, paixão. Seu pai brigava muito com sua mãe.
— Traumatismo craniano - emendou Nalva, acariciando meu cabelo. — Eu já suspeitava, mas não quis falar.
— Agora, deita ali de barriguinha pra baixo - mandou Olorico. — Desabotoe a calça.

Obedeci, com medo. Eu ouvira dizer que o destravamento da coluna era um processo muito dolorido.
— Suas pinças estão tortas - informou ele.
— Da coluna? - perguntei.
— Não, da calça.
— A costureira deve ser muito porca - opinou Nalva.
— Eu mesma fiz. São provisórias – desculpei-me, quase sem voz, pois Olorico montara em minhas costas e forçava meu pescoço para trás e para os lados, com movimentos bruscos.

— Segure os braços dela e dê uns trancos - ele ordenou à amiga, enquanto fazia o mesmo com as pernas. Ambos me esticaram até ficarmos exaustos.
— Você é musculosa, paixão. Difícil destravar. Volte semana que vem.

A consulta e os remédios custaram muito acima do valor previsto por Nalva, que ganhava comissão do amigo terapeuta.
— Estou muito orgulhosa de você! - ela disse, acomodando-me no carro.

Fiz devagar o longo trajeto à Asa Norte, satisfeita por ter rompido mais uma barreira. O corpo doía até os pés, mas a alta estima estava lá em cima.
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Nesta terra, também!



Cinthia Kriemler


Assim é, se lhe parece.
Se não parecer, ainda assim pode ser.
Se não for, não pode parecer.


Sexta-feira, fim de tarde. E fim de tarde é quando a noite já começou a colocar as manguinhas de fora, mas ainda não deu permissão às estrelas. O calor que eu sinto me conta que não importa o tempo no relógio: é hora de relaxar. Estou aqui a trabalho e só volto para casa domingo, porque, com a confusão do caos aéreo, os vôos estão superlotados.

O pessoal do escritório nem precisou insistir muito para combinar comigo um programa na orla, porque o mar nunca precisou de apelo para me ter por perto.

Como aluguei um carro, decidi que posso encontrar sozinha o restaurante. Recusei duas caronas. Quem sai para a noite com a turma do escritório tem duas opções: pegar carona e depender de algum clímax etílico para ir embora, ou ir no próprio carro e ter a liberdade de escapar antes que as línguas comecem a ficar tão enroladas quanto a divisão da conta.

E aqui estou eu, sozinha, na porta desse tal de Ponto de Encontro. Na minha terra, isso é nome de zona! Nada contra... nem a favor, até por que não tenho bem certeza se, hoje em dia, as pessoas ainda vão a esses lugares pagos. Tudo tão liberal neste mundinho moderno, tão fast food — “chegou, pegou, levou” —, que eu me sinto um pouco envergonhada do preconceito.

Melhor parar um minutinho na porta e telefonar para o pessoal. Ninguém atende. Parece que eu fui mesmo a primeira a chegar. Tudo bem. Enquanto isso, fico aqui na porta bebendo a exuberância noturna desse mar espetacular!

É tanta gente entrando, que se eu não garantir uma mesa agora não vamos conseguir lugar. Faço um gesto suave com o indicador e um truculento rapaz de roupa colorida se aproxima sorridente. Melhor dizer “sarado”, porque truculento é coisa do passado.

— Por favor, uma mesa para seis pessoas.
— A senhora me acompanhe, por favor.

Essa “senhora” me acompanha há um tempo, como um alter ego indesejável. É calda quente em cima de bolo: gruda, entranha, endurece e enjoa. Bom, pelo menos a mesa é boa, de frente para o calçadão. Quanta gente, que movimento!

— Garçom, por favor, uma água mineral com gás.
— Só a água? Não quer outra coisa para beber?

Por que esse moço da bandeja me olha assim como se eu fosse um estorvo? Tenho que consumir álcool para ser bem servida? Se eu comer, então, capaz até de ganhar um sorriso! Não gostei do atendimento aqui. Olha o jeito como ele fala! Eu sempre começo com uma água gelada, ou com uma água de coco antes de pedir um chopinho, mas se ele me irritar demais sou capaz de pedir água a noite toda!

Tem um sujeito me acenando aqui de lado. Vou virar a cabeça e passear os olhos displicentemente para ver se é algum conhecido... Não, não conheço mesmo. Ele deve estar me confundindo com alguém. Ia ser muita coincidência mesmo, tão longe de casa...

— Com licença, posso me sentar? - O que é isso?!? Como é que a criatura chegou aqui tão rápido?
— Desculpe, mas estou esperando alguém.
— Só um drinque - insiste o espinhento.
— Não dá. Desculpe.

O intrometido recebe um olhar firme. Nem um sorriso. Ele se afasta meio debochado e eu acho que chegou a hora de pedir meu chope. Era tudo o que eu precisava agora: assédio! Parece que a única mesa onde sobram cadeiras e falta gente é a minha. Mas será o Benedito?!? Ninguém atende o celular!

Não! Eu não acredito que aqueles dois homens estejam vindo para cá! Dois!Deve ser alguém que eles conhecem na mesa atrás da minha. Para disfarçar o susto, peço, rapidamente, um chope com dois dedos de colarinho.

— Podemos sentar? - Não acredito! Eles estão falando comigo! Os dois!
— Desculpem. Eu estou esperando uns amigos que se atrasaram, mas não estou sozinha. Obrigada.

Sinceramente, isso já passou dos limites! Se não fosse pela mesa e pelo medo de me desencontrar do pessoal eu ia embora agora! Mais uma tentativa pelo celular, mais um chopinho e 15 minutos de espera; depois eu peço a conta.

— Vamos dançar? – uma mão áspera me segura o cotovelo! De onde surgiu esse frasco de perfume ambulante? Quem deixou essa mão de lixa encostar em mim? Eu nem tinha ouvido a música...
— Não, não quero.

Que educação que nada! Abandonei o “desculpe” e o“obrigada” junto com a água mineral.

— Vai mangar de mim, é? Venha dançar!

Apelou! Apelou e apertou o meu braço. Isso virou emergência!

— Quer tirar a mão, por favor?
— Não tiro não! Venha dançar e pare de dengo!

Tento alguma solidariedade ao redor e esbarro com os olhos zombeteiros do garçom. Faço sinal, mas ele me ignora. Não é possível que esteja fingindo que não vê os meus acenos cada vez mais fortes! Apanho minha bolsa e arranco das mãos do bárbaro o meu braço dolorido. Corro para o moço truculento da porta e altero a voz:

— Eu estou sendo agredida por um sujeito que quer me obrigar a dançar e eu quero que você tome alguma providência!

Enfrento o grandalhão não por vontade, mas por desespero. Preciso da proteção daqueles ombros enormes, sarados, para poder ao menos sair dali, já que o estúpido está quase chegando perto de mim!

— Que foi menina? Ele é um dos nossos melhores clientes! Não acertou a grana?

Chão! Eu preciso do chão que foi embora. Preciso ao menos daquele “senhora” tão respeitoso que me daria alento e confiança agora! Forço passagem até o caixa no fundo do bar e peço a conta. Qual mesa? Sei lá! A essa altura, o garçom também está no meu encalço e eu grito para ele:

— Que mesa é aquela? Rápido!
— Quatorze, responde ele sem nenhuma pressa.

Jogo o dinheiro em cima do balcão. Não sei se a mais, mas com certeza não a menos, porque enquanto fujo em ziguezague para o carro, ninguém mais me segue.

Meu pânico é cortado pelo som estridente do celular.

— Alô! Graças a Deus! Cadê vocês? Como?!? Me esperando? Me esperando onde? Porto de Encontro? ...Porto?!

Enquanto fecho bem as portas e janelas do carro, isolando as confusões com o ar refrigerado, meu nervoso se acalma lentamente, e a gargalhada de um pensamento se exterioriza, estrepitosa: “Nesta terra, também é nome de zona!!!”.
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A vida ao rés-do-chão (2)*



Antonio Candido

Até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e a originalidade com que aqui se desenvolveu. Antes de ser crônica propriamente dita foi “folhetim”, ou seja, um artigo de rodapé sobre as questões do dia — políticas, sociais, artísticas, literárias. Aos poucos o “folhetim” foi encurtando e ganhando certa gratuidade, certo ar de quem está escrevendo à toa, sem dar muita importância. Depois, entrou francamente pelo tom ligeiro e encolheu de tamanho, até chegar ao que é hoje.

Ao longo deste percurso, foi largando cada vez mais a intenção de informar e comentar (deixada a outros tipos de jornalismo), para ficar sobretudo com a de divertir. A linguagem se tornou mais leve, mais descompromissada e (fato decisivo) se afastou da lógica argumentativa ou da crítica política, para penetrar poesia adentro. Creio que a fórmula moderna, na qual entra um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma.

Num país como o Brasil, onde se costumava identificar superioridade intelectual e literária com grandiloqüência e requinte gramatical, a crônica operou milagres de simplificação e naturalidade, que atingiram o ponto máximo nos nossos dias. O seu grande prestígio atual é um bom sintoma do progresso de busca de oralidade na escrita, isto é, de quebra do artifício e aproximação com o que há de mais natural no modo de ser do nosso tempo. E isto é humanização da melhor.

A crônica pode dizer as coisas mais sérias e mais empenhadas por meio do ziguezague de uma aparente conversa fiada. É importante insistir no papel da simplicidade, brevidade e graça próprias da crônica. Aprende-se muito quando se diverte, e os traços constitutivos da crônica são um veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa que, divertindo, atrai, inspira e faz amadurecer a nossa visão das coisas.


* Trechos do ensaio publicado no livro “Recortes”, Companhia das Letras, 1993.
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sábado, 24 de maio de 2008

Roupa de época




Luci Afonso


Aproveito a manhã de sábado para alugar a fantasia do sarau. Na Rua das Noivas há uma loja especializada, a Luxo no Lixo, no subsolo do Bloco “A”. Ao descer as escadas, vejo, atrás do balcão, uma máscara de leão assustadora. É a dona da loja, com o rosto inchado após uma cirurgia plástica.

— Não repare, fiz esta semana - ela se desculpa.
— Quase não dá para ver - tento disfarçar. — A senhora tem uma roupa do século XIX?
— Século XIX? Não lembro como era. Você trouxe uma foto?
— É do tempo de Machado de Assis.
— Ah, aquele da minissérie com a Vera Fischer?
— Não, é outro, mas a roupa é parecida. De época.
— De época? Por que você não disse logo?

Ela me conduz a um cubículo entupido de fantasias.
— Esta é uma réplica da minissérie - ela diz, acariciando um lindo vestido vermelho com renda. — Pena que não te sirva. Vou procurar alguma coisa maior.
— Pode ser só a blusa. Tenho a saia em casa.
— 50 ou 52?
— 48.

Ela se enfia entre os cabides e me dá algumas blusas. Estou quase conseguindo abotoar a primeira quando chega outro cliente.
— Não repare, fiz esta semana - ela novamente se desculpa.
— Tudo bem - diz uma voz conhecida. — A senhora tem uma cartola de cetim preto, com forro, 61 cm de diâmetro e 22 de altura?

Meu amigo Klotz e eu falamos do sarau enquanto provamos os acessórios.

— Não repare... - ouvimos pela terceira vez.
— Estimo as melhoras - deseja Alexandra, antes de embarcar em nossa viagem ao passado: — A senhora tem uma tiara de melindrosa, pois não?

Finalmente acho uma blusa que me sirva. Para combinar, uma tiara na mesma cor, luvas brancas de renda e um leque espanhol. Meus companheiros igualmente têm sucesso na busca.

Escolhidos os objetos, é hora de preencher o detalhado contrato de locação. Parece que estamos alugando um imóvel. Além de pagar à vista, temos de deixar um cheque-caução de três vezes o valor do aluguel.

Klotz se revolta:
— Isto é ilegal!
— Desculpem, é que já tive muito prejuízo, até de um Procurador da República...
— Nunca mais piso aqui. - Declara ele, indignado, segurando a cartola.

Acalmados os ânimos, os três viajantes do tempo se despedem, ansiosos pelo breve reencontro no século XIX.

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Vida de flor



Cinthia Kriemler


Se sou, preciso entender como é grande ser.
Se não sou, melhor começar a querer ser.



É hábito meu antigo apreciar jardins. Eu poderia olhar e me encantar também com o céu, todos os dias, mas o céu às vezes fica tão bravo, tão bravo que se derrete em lágrimas! As flores têm sempre melhor humor.

Faço caminhadas diárias, comandadas pelo medo de sentir cessar as batidas do único amigo verdadeiro de uma existência inteira. Não me importo de ser velha ou jovem. Não me impressionam as rugas, a perda de visão gradativa, a imperfeição dos dentes. Para tudo isso, se eu quiser, há remendos humanos. O que me importa é muito mais que um amontoado de pendengas físicas. Eu quero vida! E foi dessa senhora que de nós se separa apenas uma vez que meu coração recebeu avisos para se cuidar.

Mas não me basta caminhar e assumir a rotina do passo a passo em frente a casas inertes, prédios-esfinges. Isso me irrita, me fatiga a paciência que já se faz tão curta. Para desfazer esse cansaço que as coisas imóveis costumam provocar, eu me distraio, em qualquer caminho, perscrutando jardins. Sou capturada pelo frescor de uma alameda, pela cor de um ramo florido, por uma folhagem que brinca com as nuanças do verde.

Prefiro, com toda a certeza, um tal jardim que fica na rua de cima, a despeito mesmo do pequeno aclive que preciso encarar no caminho. É um jardim irregular, desses que talvez escape a olhares mais estéticos, mas é tão, tão... coerente que não permite reparo! Ostenta uma poda necessária, mas não excessiva, uma ordem desorganizada no plantio das flores, um inteligente desprezo pelo convencional.

Parada em frente ao muro baixo que me separa do universo de seivas, medito sobre a beleza das coisas que não têm padrão. É um jardim com caráter. Tem sofrimento plantado aqui. E esse muro simbólico que o circunda é somente uma sentinela a proteger algum recato.

Abaixo a mão furtiva sobre uma cinerária lilás e arranco-a da folhagem cinza com a sofreguidão dos invasores. Pego a menorzinha de tantas, para que meu pecado tenha igual penitência. Tomo cuidado em não pisar na grama e respeito o rubro de um hibisco que parece se envergonhar do meu atrevimento.

Dias após dia, incentivada pelo sucesso do primeiro delito, furto de novo. E o instante da posse é sempre afogueado e pleno.

Mas o que é isso? Tenho a sensação de um olhar sobre o meu ato! Talvez seja mais sensato cumprir a vontade imediata dos meus tornozelos...mas correr é prova do delito! Melhor ter certeza, primeiro, de que há mesmo um olhar.

A janela da frente é a minha primeira opção. Subo os olhos medrosos até a vidraça entreaberta, preparando um sorriso convencional e uma fala improvisada. Ninguém está lá. Olho para a porta, percebendo a solidez das trancas e desejo ser menos cismada. Mais que coisa! Soltar um suspiro logo agora! Os suspiros sempre acompanham os malfeitos. Olho para o céu, disfarçando a busca e é exatamente neste giro de olhos que me choco com a presença de um homem me encarando da varanda do andar de cima.

— Bom dia... - arrisco.

Um aceno de cabeça é tudo o que recebo do taciturno.

— Desculpe ter arrancado uma flor. É que o seu jardim é tão lindo! - Arrancar? Como então começo a minha confissão de culpa comprovando a brutalização daquele montinho lilás que escondo atrás do corpo!

Recebo um frio “Está certo” distorcido pela grata distância entre nós. O homem se volta e entra, me deixando com a lembrança incerta de um sujeito alto, magro, de meia-idade, assim como eu. Chego a imaginá-lo pálido, mas não sei se há espaço suficiente para garantir essa percepção. Ele se foi rápido...E eu me vou mais rápido ainda!

Enquanto caminho, suada pelos passos apressados da fuga, enfrento o fato de que o meu bom humor está em frangalhos. Eu me tornei uma assassina de flores! Arrancando as pequeninas da sua mansão de sol, chuva, vento, liberdade! Destruindo suas forças, roubando-as da companhia amiga de outras flores! Aquele homem frio e taciturno de meia-idade é, agora, por minha causa, um criador sem criatura. A vida que tanto almejo reter é a mesma que arranco de uma simples flor de jardim!

Não estou acostumada a me ter como egoísta, muito menos a pensar em mim como alguém propenso ao fim das coisas. Sou pelos começos, pelas permanências, pela duração. E é por isso que decido não cessar os meus passeios matinais. Não posso permitir que nada além de uma noite de sono me separe das caminhadas que me fazem tão bem. Nem a descoberta do desequilíbrio que faz de mim uma mulher de contrastes.

Hoje, caminho por outras ruas, outros quarteirões, mas...não adianta! Meus pés se contorcem teimosos em direção àquele aclive. Melhor não resistir à ansiedade que me descompassa o coração. Isso pode ser fatal. É preciso promover um cara-a-cara urgente com os acontecimentos.

Estou aqui, de novo, nesta rua tão prazerosa. Tomo fôlego porque a tarefa é árdua: preciso pedir perdão às pequeninas.

Sobre o murinho, me enfeitiçando, um gladíolo alaranjado, ainda fresco. Parece deitado à espera de alguém. De mim?!? Impossível! Que pretensão sem sentido! Mas está aqui, solto, lânguido, sem dono. Então...é meu! E o perdão vai esperar por outra hora.

Já faz dias que é assim. Talvez semanas, porque mesmo agora que o inverno chegou, e as flores se recolheram para dormir um pouco mais, encontro no muro, a cada dia, uma rosa, uma cinerária, uma margarida. As minhas noites se resumem à antecipação da flor da minha manhã.

Vez ou outra, levanto os olhos e recebo o mesmo contido aceno daquele homem alto, magro e de meia-idade. Existe aconchego no gesto diário desse amigo que não conheço.

Não me sinto mais ceifando a vida das flores. Recebi, num sussurro de folhas, o segredo das pequeninas, a me dizer que foram mesmo feitas para serem arrancadas. São como as pessoas: germinadas com um destino. Têm começo, meio, fim. Inquietam-se, gemem, choram, rejubilam-se. E aí, brilham. Como as pessoas. Depois se vão para um não sei onde, cumprido o seu papel na perfeição de Deus.

É com as flores que a minha crença miúda se converte. Não há mais o Deus que tripudia de mim despejando nos meus anos dor, velhice, morte! O Deus das flores me diz para arrancar o que eu preciso. E diz a elas que se doem a mim. Não há culpas.

Olho as pequeninas estendidas preguiçosamente ao sol e me lembro das pessoas que esbarraram em mim durante toda a minha vida, ora me entregando cor, beleza, frescor, ora me pedindo ajuda, conselho ou simples companhia. Penso em quantas vezes arranquei essas flores e em quantas vezes me neguei a ser arrancada. A gente entrega o que tem, recolhe o que precisa...até que de tanto retirar e repor chega, enfim, a hora em que cessam as barganhas.

Amanhã, eu venho de novo. Quero dizer olá ao meu amigo que não conheço e agradecer a ele cada flor que o muro me entregou.

Pode ser que eu aprenda com ele a remexer a terra, a plantar, a saber o momento de colher para entregar.

Quero essa vida de flor que ainda tenho tempo para começar. Quero ser eu também semeada, e cuidada, e afagada. Quero ser um jardim.

E quero ser arrancada todos os dias.
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A vida ao rés-do-chão*



Antonio Candido

“...(a crônica) para muitos pode servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura. Por meio dos assuntos, da composição solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão certa profundidade de significado e certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.”

“...o fato de ficar tão perto do dia-a-dia age como quebra do monumental e da ênfase. A crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.”

“...o seu intuito não é o dos escritores que pensam em “ficar”, isto é, permanecer na lembrança e na admiração da posteridade; e a sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão. Por isso mesmo, consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um; e, quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava, talvez como prêmio por ser tão despretensiosa, insinuante e reveladora.”




*Trechos do ensaio publicado no livro “Recortes”, Companhia das Letras, 1993.
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I Estante Itinerante de Escritores do Poder Legislativo Federal


26 a 30 de maio de 2008
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sábado, 17 de maio de 2008

Batismo



Luci Afonso


Escolhemos um domingo branco de maio para a cerimônia. Nossa roupa também é branca e nossos convidados são os poetas. Enfeito-me com colares de cristal transparente e ele, com uma flor no paletó. Vamos cumprir a antiga promessa.

Partimos cedo e despertamos a manhã com passos gentis. Não temos pressa. Caminhamos de braços dados e conversamos baixo para não perturbar as árvores. Eu me abandono ao seu braço como uma menina se deixa levar pelo pai.

Ao meio-dia, procuramos um lugar fresco para repousar. Estendemos na grama a toalha branca e celebramos com pão, frutas e vinho. A natureza se junta ao brinde:

Em meio à folhagem, desponta um trevo de quatro folhas. Uma borboleta azul pousa auspiciosa em meu seio. Ele a captura e a deposita em minhas mãos, cuidadoso como um menino que passa o anel e espera uma prenda. Colho um ramo de margaridas e faço uma coroa para seus cabelos morenos, enquanto o sol acende os enormes olhos castanhos do meu soberano.

É noite quando chegamos ao nosso destino. Os convidados aguardam em silêncio. Descalços entramos no riacho e desnudos nos ajoelhamos para a benção. Recebo na face a água pura e no ouvido, as palavras secretas, que se misturam aos sons da mata.

Meu peito se abre e liberta o grito aprisionado. O corpo soluça até o céu e retorna redimido. O útero se rompe num longo fio de cetim vermelho e escoa a culpa de não dar amor a quem amei. A boca confessa os últimos pecados, enquanto os lábios do meu padrinho lentamente se aproximam dos meus.
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Para, enfim, me deitar na minha alma*



Cinthia Kriemler



Narciso me fiz, ou nasci assim... Certo mesmo é apenas que somos vaidade e desejo, de uma coisa só, de tantas coisas... Somos carne, ou só espelho?

Se eu conhecesse o medo, talvez pudesse nomear a sensação que me toma quando essas portas se abrem. Um a um, a dois, em bando eles adentram e iniciam a profanar o que não entendem. Não há consentimento. Defloram.

O desaforo que o trabalho quase arqueológico de Vanessa, minha marchande, recebe dessa turba é nauseante. Ela passa meses pesquisando e escavando prédios antigos para assentar neles minhas exposições de forma tão magnífica. E sempre encontra lugares de boa fortuna. Desta vez, por sinal, ela se superou. As colunas dóricas da sala principal são magníficas! Lamento por mim, lamento por ela que o destino de tanta maravilha seja uma reunião de bárbaros.

Eu não posso impedi-los de entrar, de percorrer, de perguntar. É imprescindível que os receba, que os entenda, que perdoe a ignorância com que deitam seus olhares e sorrisos sobre as minhas formas de argila, madeira, ferro. Eu e minhas criaturas somos unos, indivisíveis. Eles são fragmentos desarmônicos.

Como é possível ter que compartir meu resplendor com esses imprestáveis que fazem do templo um mero passeio de trajes e elegâncias? Apenas vez ou outra encontro uma alma que me reverencia. No mais, apenas vendilhões.

Vanessa insiste em que eu me civilize mais. Que eu pare de implicar com as pessoas. Que eu abandone as frases secas pelas conversas intensas. Ela persiste na idéia de que para seduzir essa amante ingrata, que é a sorte, eu preciso negociar diálogos. Mas eu não sou desses aparvoados que vomitam palavrórios frouxos sobre suas obras. Não reproduzo com meus dedos intensos nem a tristeza de amores perdidos, nem paixões inacabadas, nem homens ou mulheres que habitam o meu éter. Não me importo com isso, são banalidades fracas. Minha obra sou eu. Completamente e tão somente eu. Eu sou a argila permeável, o ferro incandescente. Quando esculpo, sôfrego e entorpecido, é minha essência em cada busto, é minha ânsia em cada entalhe. Por isso, só o que espero de um olhar é devoção, adoração, contemplação.

— Quanto tempo demorou para fazer esse busto? - me pergunta uma voz masculina empostada.

Pronto, começou! Eis o primeiro que descumpre o caminho e vem direto a mim. Ele não quer saber do busto, quer vir até mim e me bajular com lisonjas! Ensaiou essa frase, por certo, desde a porta.

— Talvez uma quinzena...um mês no máximo - respondo sem pensar se a resposta é precisa.
— A sua obra se inspira em quê? - insiste o dono da voz.

Estou sendo cortejado mais uma vez! E o que mais me enfada no flerte inconseqüente não é a cantilena monótona que repetidamente acontece durante as minhas exposições, mas a sucessão de homens que oferecem a mim seu sexo empobrecido. Nenhum deles ofertou sua volúpia ao barro, à areia, ou ao metal que expus despudoradamente nestas salas! Se o fizessem, não precisariam vir a mim...eu já estaria neles, e seria eu a arrastá-los para fora dali para entregar-me como oferenda. No entanto, os que me ocupam as noites são hienas sorrateiras: sua avidez é pelos restos. Os suspiros de gozo que escuto no meu leito são gemidos de bestas que me afastam da beleza que sou, da beleza que crio.

No avançado da hora, quando o ressonar substitui as carícias, me esforço em moldar os corpos desajeitados que me acompanham. O negrume do quarto, que impede a visão de ter certezas, é minha desculpa para esquadrinhar com as pontas dos dedos cada pedaço de carne. Depois, antes que o sol venha me fazer homenagem, eu deixo a febre se apossar de mim e passo horas, ainda na escuridão, repetindo em substâncias o ato retido em minha mente. Não há nos corpos a menor essência do belo. Sou eu que filtro para a perfeição a vulgaridade enfadonha das feições. Na verdade, nem preciso deles.

A conversação já foi longe demais por esta noite. Hoje, não admito mais máculas. Peço licença e me afasto do pequeno grupo que já começa a formar-se. São outras perguntas, outros rostos inexpressivos, outros ignorantes. Mas onde está Vanessa? Talvez por aí, envolta com pessoas. Sempre guardiã das minhas belezas.

Escapo do ambiente sufocante para percorrer os corredores do casarão. Em cada sala, meu eu se espraia em triunfo. Não há melhores. Tudo é excelência. Não sei por que ainda exponho minha criação aos indivíduos, por que desperdiço meu tempo permitindo a esses pretensiosos julgar e poluir as minhas formas. Eu sou irretocável.

Vanessa me prometeu uma surpresa no último cômodo da mansão. Pediu que eu me deslocasse até lá lentamente, para saborear melhor o inesperado do presente. Agora, é hora de consumar a expectativa.

Na entrada do salão, que ainda está às escuras, um homem de terno, impessoal e casual, me recebe.

— Acendo, senhor? - me pergunta ele respeitosamente.
— Acender?
— As luzes do salão, senhor.
— Pode acender....não, não espere um pouco...eu quero ficar um pouco no escuro.

Ah, os homens de terno treinados como eunucos! Obedecem, poupando as emoções inúteis.

Finalmente me sinto relaxado. Somos eu e a penumbra. Eu, a penumbra e as silhuetas irregulares das formas que daqui a pouco serão invadidas pela turba que se arregimenta. Enquanto aguardo, meu toque encontra asperezas, saliências, contornos, relevos. E meus dedos fazem amor com as substâncias, consumando deleites.

E então, um súbito acontece! As luzes se acendem sem que eu tenha ordenado ao homem de terno, e uma sensação pior que a proximidade dos visitantes me esbofeteia. Espelhos imensos refletem a minha criação por todo o salão. Esplêndidos! São formas que me abraçam, acolhem, aninham.

Cada superfície reproduz mais que o tom da minha obra! Fui excedido! Olho as imagens de gesso, argila, ferro e as enxergo melhores, mais iluminadas, mais vivas. Como se atrevem a mais beleza do que a beleza que eu lhes permiti? Os espelhos me sobrepujam, elevam minha obra acima de mim, não me querem mais o senhor das formas!

Vou destroçar esses vidros arrogantes e reduzi-los a pedaços cortantes! Não me importa se interrompo, assim, a visitação indesejada. Nada do que é meu escapa de mim! Não vou permitir superação, nem consentir que a platéia desvie o seu olhar de mim ou da beleza que pratiquei aqui! Ninguém vai desprezar-me por espelhos! É a mim que buscam. É a mim que cultuam. Sou mestre, sou obra, sou guia para os seus olhos míopes!

Minhas esculturas promoveram o meu suicídio.

— Ingratas, ingratas, ingratas! - grito a cada uma em seu reflexo.

Pois que morram assim, apenas refletidas. A mim não induzem à morte!

Viro-me aos espelhos, desafiante, e olho o inimigo nos olhos, mas... que inesperado... há um reflexo dedicado a mim e que me captura sem embate, e me convida a mergulhar na luz, e a gozar, e a repetir o gozo. A superfície polida me prende, me apreende, mas me devolve intacto e frontal, invertido e límpido... só não mais igual.

Toco o homem do espelho e retraio lentamente o braço em direção ao meu rosto. Faço isso repetidas vezes. Como somos perfeitos, o de carne e o refletido!

Depois que me apaixono pela beleza desse eu multiplicado, minhas mãos se desvencilham da vergonha e, repletas de vontade, buscam o resto do meu corpo pulsante. A beleza que sou, homem ou imagem, me desacanha os prazeres, e o impudor é consentido. Na pele e no espelho.

Não necessito mais paixões na escuridão. Enfim o amor, visível, fulgurante veio se prostrar perante mim para doar-me devoção, adoração, contemplação. Entrego-lhe o meu ápice, em rigidez e fluido. E é de morte o gosto perfeito que me saliva a boca.

Tranco a porta. Quero morrer em todos os reflexos.

E quando eu estiver exausto de morrer, que a superfície de luz se faça céu. E me deixe ascender para, enfim, me deitar na minha alma.


*Prêmio de Melhor Conto no 1° Desafio aos Contistas promovido pelo Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares da Câmara dos Deputados em 2007.


Imagem: "Narciso", 1881, óleo sobre tela do húngaro Gyula Benczúr
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Que escritora seria eu se não tivesse lido?*



Marina Colasanti


Extraída de mim a leitura, que ser humano eu seria, e que ponto de partida teria para uma escrita?

Eu começaria por não gostar de papel, não amar visceralmente qualquer folha de papel, em branco ou escrita. E a não ter aquela sensação, comum a todos os leitores, de que a tipologia está me chamando. O conceito da escrita como salvaguarda do pensamento não estaria implantado em meu viver. Sem saber que cada livro se abre sobre um mundo diferente, eu olharia apenas pela janela, que se abre sempre sobre a mesma paisagem.

A leitura me precedeu abrindo portas, fornecendo respostas a perguntas que eu ainda não havia conseguido formular. Se eu não tivesse sido leitora, é certo que precisaria de um talento infinitamente maior para escrever. Não tendo aprendido com os outros a traduzir os fatos em palavras, os sons em palavras, as cores em palavras, o tempo em palavras, a vida e a morte e a alma em palavras, que trabalhoso seria apertar sozinha, uma por uma, todas as cravelhas das palavras.

Quando me tornei outra leitora, passei a usar o lápis. Não desço mais, entregue, nas corredeiras. Analiso a força das águas, sua direção, sua profundidade. Meço a transparência, procuro o que nela se move. Tornei-me interlocutora do autor. Estou lendo por cima do ombro dele.

Com freqüência me perguntam quais as marcas dessas leituras na minha escrita. Me parece que procurar na escrita é procurar pequeno. As marcas estão em mim. E eu sou o meu texto. Mas aquilo que se fosse mais superficial seria visível, ao ser incorporado e processado no fundo do meu sentir tornou-se invisível, ainda que gerador da escrita.

À medida que avançava nas leituras e na profissão, sentia crescer meu parentesco com uma família cujo álbum de retratos olhava com intimidade cada vez mais evidente. É a família dos escritores que deram um passo para lá do real. E que ali, em terreno mais etéreo, fundaram sua realidade. Hoje, estreitados os laços, sinto-me com certeza irmã dos que reencontram seu mundo no sonho. Mas irmã, igualmente, de todos os que o buscam no papel impresso.



*Trechos do ensaio publicado em “Fragatas para Terras Distantes”,
Editora Record, 2004.
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domingo, 11 de maio de 2008

Leituras Dramáticas





de Marco Antunes


19 de maio, Teatro Caleidoscópio, às 20h.

Entrada franca

"Rodrigueanas" é um conjunto de pequenas peças, em geral humorísticas. Recebeu este nome em homenagem à grande obra de cenas curtas do dramaturgo Nelson Rodrigues. Vale como homenagem ao mestre do "conto teatral", embora seu conteúdo seja substancialmente diferente do espírito rodrigueano. Escritas como ensaio de gênero pelo, então, jovem autor, a peça foi montada em Brasília nos anos 80 sob o nome "Desculpe foi engano".

Marco Antunes é um militante da literatura, professor, poeta, ator. Esse encontro é uma oportunidade de conversar com amigos, atores e autores sobre o texto.

A leitura dramática é quase um espetáculo, realizado por atores, favorecendo o conhecimento de textos inéditos e a releitura viva de textos já montados.




http://www.teatrocaleidoscopio.com.br/index.htm

CLSW 102 Bloco C Galeria - Sudoeste - Brasília/DF.
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sábado, 10 de maio de 2008

Dia de Baile




Luci Afonso

Das brumas do Nordeste...

Não sabia direito o que eram brumas, mas tinha lido numa revista e gostava da palavra. Pernambuco era Norte ou Nordeste? Perguntou à tia.

— Acho que é Nordeste. - Se não fosse, ficaria sendo, porque precisava da rima.

Das brumas do Nordeste

Voou para o Centro-Oeste...

Leu em voz alta e achou bom o verso. O que mais sabia sobre ela? Os olhos eram castanhos ou negros, não tinha certeza. Melhor não falar sobre eles. O corpo não era grande coisa. Seria boa de cama? Tinha um Chevette zero, apartamento próprio no Plano, cargo de chefia no Ministério. Costumava receber os amigos para jantar. Dizem que fazia um bobó de camarão!!

Acendeu um cigarro antes de continuar. Investira 5 reais num caderno em espiral pequeno, numa caneta Bic azul e em dois Hollywoods. Pediria o dinheiro do ônibus à tia e, uma vez no Flash, não tinha com o que se preocupar: as despesas seriam pagas pelas amigas e talvez já por ela, se tudo desse certo.

Terminou o poema, desenhou flores em volta do texto e recortou a folha com a tesoura de picotar. Planejava entregá-lo assim que chegasse e aguardar a reação de sempre: comovida com a idéia de que o pobre coitado estivesse apaixonado, a mulher lhe daria uma chance.

Assustou-se com o toque da campainha. Nunca recebia visitas. Não deixaria que ninguém o atrasasse: estava na hora de se aprontar.

Abriu a porta e fez um gesto de desgosto: era a chata que não largava do seu pé. Tudo bem, haviam passado bons momentos — ela até o levara a Ouro Preto no feriadão, e se divertiram muito —, mas tinha acabado. Ele agora estava a fim de outra. Como fazê-la entender?

Estava magra e abatida. Abraçou-o com força, disse que sentia muitas saudades.

— Você está ficando sem vergonha - ele respondeu, num impulso de raiva. Ela se desprendeu dele, os olhos úmidos. Teve vontade de mandá-la embora, mas lhe ocorreu que seria bem melhor ir ao Plano de carro que de ônibus. Por que não aproveitar a carona?

Deitou-a no sofá e beijou-a com desagrado. — Quero ter um filho seu - ela lhe disse ao ouvido, acreditando na reconciliação. Ele lhe acariciou o corpo pela última vez. Era bonita. Não tinha muita bunda, mas o resto compensava. O problema era que não estava interessado em declarações melosas nem em cenas de choro.

— Vamos ao Flash? - ele sugeriu depois do sexo, esperando que ela recusasse, mas se oferecesse para levá-lo. Era tão desprendida! Para sua surpresa, ela aceitou o convite. No caminho, tentou, sem êxito, demovê-la da idéia. Passaram rapidamente no apartamento para que ela se arrumasse. — Todos os homens vão te olhar - ele disse, sem convicção, e saíram.

Como fazê-la entender? Convenceu-a a estacionar numa vaga mais afastada e levou-a para uma mesa no fundo do salão, de modo que ninguém os notasse. As amigas já o esperavam e lhe garantiriam o shopps e a batatinha. A pernambucana sentara-se em frente à pista de dança, sorvendo, elegantemente, a taça de vinho tinto. Ele precisava agir rápido.

Levantaram-se para dançar. Recostada no seu ombro, ao som da música que marcara o início do namoro (“A nossa estória de amor/ se parece com milhões de outras mais...”), ela surpreendeu-se quando ele a deixou no meio do salão e dirigiu-se à mesa ocupada por uma senhora de uns 50 anos — ela tinha 28 — para lhe entregar um papel picotado. Lembrou-se do poema que recebera dele meses antes e que sabia de cor: “Das brumas de Minas Gerais/ veio brilhar muito mais...”

Finalmente, entendeu e desceu correndo as escadas, Cinderela delirante, em direção ao carro já transformado em abóbora.

Anos mais tarde, ele a avistou da parada de ônibus: o sorriso meigo que pensava ter esquecido, o marido ao volante do carro, uma criança loira no banco de trás que lhe pareceu familiar. Observou-os por alguns minutos, jogou fora o Hollywood e fez sinal para o ônibus: era dia de baile.

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A Assembléia das Chaves





Cinthia Kriemler


O melhor de tudo é brincar...

Com as pessoas, com a vida, com as palavras.



- Eu fecho, eu fecho, me deixa fechar, deixa!!!! – uma vozinha afinada e insistente chama a atenção da Assembléia das Chaves.

Interessados em descobrir a dona de tanto berreiro, as outras chaves se viram procurando de onde partiu tanta euforia.

- Eu...aqui...eu fecho!

Ah, lá está! No fundo, à esquerda de quem entra. Sentadinha ao lado da Chave de Parafuso. Uma chavinha comum dessas, douradinha, gritando como se fosse uma Allen!

- Cala a boca, pequena! Coloque-se no seu lugar!

- É isso mesmo, calada!

- Vamos fazer silêncio aí, criança! – esgoela uma Chave Inglesa esnobe.

O alvoroço é intenso. A Chave Mestra, que preside a Assembléia desde que a Chave do Paraíso se aposentou, decide intervir com urgência no desvario das insensatas.

- Ordem! Ordem! Eu vou mandar evacuar o recinto! Vou mandar chamar as Chaves de Armário e trancar todas vocês, suas tagarelas!

De supetão, o clamor se desfaz. Um ou outro “Oh!” se escuta no ambiente, mas logo o silêncio impõe-se absoluto. Nem um tilintar sequer! As Chaves de Armário são terríveis! Bloqueiam a passagem, recolhem e aprisionam tudo em lugares escuros...Ui!!! Quem não respeita uma Chave de Armário??

- Como é isso, frágil pequenina?!? Você acredita mesmo que com esse corpinho frágil pode fechar o Portão dos Acontecimentos?

Risadas disfarçadas, muxoxos, deboches em sussurro se esparramam entre as presentes.

- Posso. Eu posso sim!

- Não, pequenina, eu agradeço a sua boa intenção, mas como foi ontem à noite que as Sete Chaves esqueceram de trancar o Portão, eu não sei ainda que conseqüências isso provocou. Não posso mandar ninguém lá pra fechar, por enquanto, porque é perigoso; nem elas. Além do mais, como é que pode uma pobre chavinha querer cumprir uma tarefa tão grande? O Portão dos Acontecimentos é majestoso, imenso, misterioso...É lá que tudo começa para todo o mundo. Desista!

Nesse instante, desavisada do solene puxão de orelhas da Chave Mestra na desconhecida chavinha dourada, entra correndo pela nave central a Chave Tetra, representante da Liga Antifurtos. Contorcida e rechonchuda, tropeça no tapete e cai de boca ao pé de uma Chave de Luz idosa e endurecida.

- Desculpe, desculpe mesmo! – enfrenta a cara feia da outra – É que a situação está crítica... Senhora presidente, prepare-se para um grande problema!

Inquietação geral novamente! A linhagem das Tetras é confiável, elas são seguras de si, não fazem alarde à-toa. O que aconteceu?!? E a ansiedade se espalha da primeira até a última fila dos assentos-fechadura, provocando um ruído ensurdecedor de “racs-racs” e “locks-locks”.

- A Chave de Cadeia aproveitou que o Portão dormiu aberto e promoveu uma fuga em massa dos Maçaricos que estavam presos na Ilha dos Cofres!! Escaparam muitos deles, os piores elementos do fogo organizado! Ai que azar, senhora presidente!

- Azar? Uma tragédia, isso sim! Aquela bandida vulgar e espertalhona – diz a Chave Mestra.

- Deve ter ganhado muito com isso! Eu dou um aperto nela e ela fala... – desespera-se a Chave de Braço.

- Isso é mais que tragédia, é uma desdita, uma verdadeira catástrofe! Decerto que eles virão atrás de nós – lamenta-se uma Palavra-Chave pernóstica - Vamos ser derretidas, desmanchadas, consumidas pelas chamas...

- Cheeeeega! - enfeza-se a Chave Mestra – Relate, Tetra, relate tudo!

- As Chaves de Armário estavam no seu turno regular e havia ainda um pelotão de Chaves de Perna fazendo a vigilância, mas ninguém sabia que o Portão estava aberto...

- Descuido!

- Não, não, senhora! A Chave de Cadeia raptou uma Chave de Dados e obrigou a coitadinha a decodificar os números da fechadura do presídio! Um horror...

Dessa vez, é difícil calar a platéia ensandecida pelo medo dos lança-chamas implacáveis. As chaves se levantam, sentam, rodam em seus assentos-fechadura, tremem, pensam em fugir. Espalha-se o medo.

Uma coisa dessas proporções é mesmo motivo para pânico. As conseqüências de um universo sem chaves, quais seriam? Portas sem abrir, diários lacrados para sempre, jogos sem solução, falta de eletricidade, carros com rodas frouxas, parafusos desajustados...Santos Segredos, seria o fim do universo livre!

- Uma terra todinha queimada! – diz uma Yale da Liga Tradicionalista, como se pudesse resumir os pensamentos das demais.

- Vamos parar de lamúrias! Temos que deliberar! – convoca a presidente.

As chaves se reúnem circunspectas em suas respectivas ligas e discutem soluções que vão do ataque à defesa. Batem-se umas contra as outras, andam, agrupam-se, dissolvem os aglomerados, saem, entram, até que, finalmente, a Informação-Chave pede a palavra.

- Deliberamos e decidimos, senhora presidente.

- E...??

- Parceiros.

- Como?!?

- Temos que pedir ajuda aos parceiros, senhora.

- E quem são esses parceiros tão poderosos?

- A Comunidade das Portas e Portões, e o Sindicato das Chaves de Luz. O sindicato vai desligar toda a energia local, enquanto que a comunidade, com a ajuda de chaves diversas, vai instalar portas e portões intransponíveis ao redor da cidade. É essencial que cada instalação receba a visita das Sete Chaves, com urgência.

- Vou mandar uma Chave de Memória acompanhar as irmãs agora mesmo. Não dá pra confiar nessas esquecidas! – apressa-se a presidente.

- Tem mais; importantíssimo! Já que estamos online com todos os universos, a Liga das Chaves das Caixas de Correio Eletrônico vai enviar correspondência ao Universo dos Inflamáveis dentro de alguns minutos, informando sobre a rebelião dos Maçaricos e pedindo que seja interrompido de imediato o envio de óleos combustíveis para cá. Sem combustível, sem fogo. Embargo já!

- E estamos esperando o quê? Chaves à obra!

O alvoroço recomeça, mas, agora, cada chave está mais confiante. As gêmeas, Chave Bifásica e Chave Bipolar, não cabem em si de contentes, porque a solução dos conflitos dependerá da sua família elétrica. A Chave de Casa reza pelas portas e portões que fazem o cerco à cidade. E a Chave Mestra se pergunta se não é melhor ir dar uma ajudinha na periferia, na qualidade de Presidente da Assembléia das Chaves.

O plano mostra-se bem sucedido. As notícias estão chegando, comprovando que tudo está dando certo. Os desalmados Maçaricos não conseguem entrar na cidade e, um a um, estão sendo destruídos pela estratégia da falta de óleo prevista pela Organização dos Parceiros – fundada no último minuto para evitar vaidades e desavenças. A Chave de Cadeia foi capturada e emparedada pelo serviço secreto dos Molhos de Chaves de Armário e seu julgamento será marcado para depois que as coisas se acalmarem.

Em meio a tantas notícias picadas, chega a boa nova:

- Os Maçaricos foram aniquilados! Sem fôlego, sem óleo combustível, eles tombaram inertes na periferia da cidade!

- Urra! Urra! – grita a turba enlouquecida.

- Viva a Organização dos Parceiros!

- Viva!!!!

- Viva a Assembl.....

- Parem! Parem agora! – soa em tom menor o comando de uma Chave de Armário que entra apavorada.

- O que houve?!? – pergunta a presidente.

- Um Maçarico escapou do cerco e se aproxima da cidade!

- Ohhhh! – exclamam vozes amedrontadas – Como foi que isso aconteceu???????

- Tomou por refém um cofre indestrutível e se trancou dentro dele. Está gritando lá de dentro que não adianta a Chave Mestra tentar abrir o cofre, porque não tem fechadura. E que só ele sabe o segredo!

- Estamos perdidas! Não sabemos o segredo para entrar e não há nada que destrua esse cofre! Quando esse Maçarico abrir a porta, vai sair cuspindo fogo e liquidar todas nós!– diz, aos prantos, uma Chave de Carro.

- Estamos perdidas, perdidas !!! – ecoam todas.

Então, em meio ao caos do extermínio iminente, uma vozinha afinada se repete:

- Eu fecho, eu fecho, me deixa fechar, deixa!!! Eu fui feita para abrir e fechar melhor do ninguém!

- Maluca! Fechar o quê?!? Não fala coisa com coisa essa metida aí! A gente tem é que correr e tentar se salvar, porque nenhuma de nós resiste ao fogo de um Maçarico! – irrita-se uma Chave de Fenda nervosa e pessimista.

Porém, de forma surpreendente, pronuncia-se a favor da chavinha a presidente da Assembléia:

- Deixem a douradinha falar! Vamos manter os direitos das chaves até o fim. O que é que tanto você quer fechar, pequenina?

Mas, nesse instante, ouve-se um som metálico espantosamente alto...E começa a rolar desajeitado, no tapete da nave central, um pesado cofre. É o Maçarico!!!

Gritos! Correria! Angústia! Choros!

Então, ligeira como um olho que pisca, a chavinha dourada se aproxima do cofre, agarra-o e fecha com a estrutura frágil do seu corpo miúdo a porta que a qualquer momento o Maçarico pode abrir. Luta por alguns momentos, se arranha, perde o ar, mas, por fim, depois de repetidos golpes, estraga o painel eletrônico do cofre! Pronto, o Maçarico foi detido! Ninguém entra; ele não sai. Fechado na prisão que arrumou para si mesmo, o lança-chamas não representa mais nenhum perigo.

Risos desenfreados de alívio, agradecimentos efusivos, dia de folga para todas as chaves! E lá se vai a chavinha dourada pela porta afora, buscando apenas um pouco de descanso. Que dia agitado!

- Antes de sair, por favor, preciso do seu nome para lavrar no Livro de Atas e Elogios da Assembléia... – lhe pede de longe a Chave Mestra.

- Meu nome, senhora presidente? Meu nome é Chave de Ouro.

Cinthia Kriemler é carioca, tem 51 anos, mora em Brasília há 39 anos e tem uma filha.
Formada em Comunicação Social, é Analista Legislativo da Câmara dos Deputados há 10 anos, e atua no Planejamento Estratégico da Secretaria de Comunicação Social.
cinthia.kriemler@uol.com.br

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Para mim e para o Otto*



Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende

Nenhuma tarefa é tão pesada como a de pastorear o ser das coisas que a nós se revela. Preciso aprender a trabalhar, com método calmo e transparente amor. Só na medida em que as águas surgem é que elas renovam. Do fluir decorre a fluência. Estou certo de que só o criar alimenta e restaura a capacidade da criação. O preço da graça que recebemos é nos mantermos fiéis a ela, é nos tornamos os porta-vozes dela, nos fazermos a voz dela, a linguagem dela. A graça quer aceder ao mundo através de nossa boca que fala. Fala boca, para que te possas depois calar com dignidade. Fala, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia. Fala.

Rio de Janeiro, 12/6/1962

*Trecho de bilhete publicado em “Lucidez Embriagada”, Editora Planeta do Brasil, 2004.

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sábado, 3 de maio de 2008

Istrogonofe com safrão*



Luci Afonso

— O que tem de almoço, Ana?

— Fiz istrogonofe, Ci.

— Por que está amarelo desse jeito?

— Tava muito branco, pus um pouquinho de safrão.

— Oba! Você fez mousse de chocolate?

— É arroz doce, Ci. O açúcar parece que queimou demais.

— O baixinho almoçou?

— Igual um leãozinho.

— Ele comeu o strogonoff desse jeito?

— Não, ele quis núguets com molho babicu. E um copão de Coca-Cola!

— Levou o quê de lanche?

— Orkut e chips.

—Tem café novo, Ana?

— O pó acabou, Ci. O coador também.

— Vai lá comprar. Estou doida para tomar um café.

— Tem outro problema.

— Qual?

— Vieram cortar o gás.

— Por que você não me ligou?

— Não gosto de incomodar a Ci. O moço disse que se pagasse na hora, não cortava.

— Ai, ainda bem! Você pagou?

— Não tinha mais dinheiro.

— E o que eu deixei, Ana?

— Gastei na floricultura. Ci gostou das gerbras, gostou?


*Texto republicado em homenagem à memória de Ana Cleide Lima e Silva, que faleceu anteontem, aos 37 anos, e será sepultada hoje, às 17 horas, no Cemitério São Francisco de Assis, em Taguatinga.

Ana partiu cedo, mas deixou muita alegria em nossas vidas.

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A Maldição



Mônica Thaty

Não sei como aconteceu. Era para ser uma linda manhã de primavera. Mas acordei e percebi que tinha virado a minha mãe. Eu, uma jovem e promissora advogada, reduzida a uma dona-de-casa com três filhos egocêntricos e um marido acomodado? Eu, que tinha um futuro brilhante pela frente, passar os dias areando panelas, lavando vidraças, guardando roupas espalhadas pela casa? Sim, aconteceu. Inexplicavelmente, como eu já disse. E, confesso, entrei em pânico. Olhar aquela imagem no espelho e não me reconhecer. Aquelas rugas todas ao redor dos olhos e da boca. No pescoço! Aquelas dobras a mais na cintura. As varizes que formavam um suave mapa hidrográfico nas minhas coxas outrora malhadas e com a penugem dourada de sol. Eu queria meu corpo de volta, meus pensamentos, minhas vontades. Como havia acontecido aquilo?

A resposta era óbvia. Se eu estava no corpo de minha mãe, ela deveria ter entrado no meu. Não é assim que acontece no cinema? E como ela deveria estar? Coitadinha! Talvez em choque, catatônica.

Não, não. Conhecendo bem a mamãe, era mais provável que estivesse dando risadas. Vestindo as minhas melhores roupas, aproveitando a carreira que ela havia abandonado e cumprindo, finalmente, a vingança que havia me prometido durante toda a minha vida: “Um dia você vai estar no meu lugar e aí vai ver o que é bom.”

Resolvi agir com cautela, até descobrir o que realmente havia acontecido. Preparei o café da família em silêncio, e continuei muda durante a refeição. Ninguém percebeu. Aliás, mal perceberam que eu também estava à mesa. Eu e a geléia de amora nos fizemos companhia. Lição aprendida com mamãe: tornar-se invisível mesmo presente. Dom que fez com que ela ouvisse muitas conversas indevidas e descobrisse coisas que pretendíamos manter em segredo.

Esperei todos saírem para decidir o que fazer. Após as mais variadas especulações, concluí que havia sido um feitiço de minha mãe. Não havia outra explicação possível. Sempre desconfiei que ela era uma bruxa disfarçada, com todas aquelas sopinhas e chazinhos que curavam qualquer doença. E aquele suspeito chocolate quente, capaz de fazer desaparecer qualquer dor de cotovelo? Bem, se havia sido obra dela, então eu estava sozinha nessa. Mas não iria dar a ela o gostinho da vitória. Vou assumir seu lugar, mamãe. E provar que posso ser ainda melhor do que você.

O primeiro dia correu tranqüilo. Varri, passei, lavei, arrumei, enxuguei, guardei, lustrei, encerei. E à noite, o que ganhei? Meu... Marido? Aquele homem que eu mal reconhecia — e com quem nunca teria casado em meu estado normal, tenho certeza — perguntou assim que entrou em casa: “O que tem pro jantar?”

Pedimos pizza.

No segundo dia, quando abri os olhos e percebi onde estava, quis voltar a dormir. Esperar, como a Bela Adormecida, que o príncipe encantado aparecesse. Cem anos em paz. Mas meu querido filho caçula entrou no quarto. “Mãe, tenho jogo hoje. Você viu meu meião? E a chuteira? Você vai me levar, né, mãe? Manhêeeeee! Levantaaaaa!”

No terceiro dia levantei-me sem esperar pelo despertador ou pela invasão do quarto. Fui sorrateiramente até o escritório e liguei o computador. Digitei “troca de corpos” no site de busca. Dois mil e noventa resultados. Refinei a pesquisa. “Feitiço para troca de corpos”. Nada. Tudo bem, menos específica. O filho do meio entrou no escritório. Pesquisa interrompida.

— Mãe, tenho que imprimir um trabalho pra escola.

OK. O pai quer saber cadê a gravata marrom. OK. Você faz vitamina? OK. Você compra meu uniforme novo? OK. E lava meu tênis? OK. OK. OK. Cheguei a ver o sorriso sarcástico de minha mãe e ouvir sua voz cheia de malícia. “Cansada, querida?” Não, mamãe, você ainda não venceu.

Se os três primeiros dias foram difíceis, o quarto foi desastroso. A jarra da cafeteira quebrou. Esqueci o vencimento das contas e tive que enfrentar a fila de dois bancos diferentes. O jantar queimou. E eu, exausta, só queria sentar na frente da televisão e planejar minhas próximas férias. Cancún. Precisava de sol, praia. Talvez o nordeste mesmo. Um bom resort. Sem camas para arrumar. Sem roupa para lavar. Café da manhã pronto. Almoço de frente pro mar. Jantar sem hora marcada... Perguntei ao marido para onde iríamos nas férias. “Pirapora, visitar a minha mãe. Esqueceu?” Eu tinha que reverter o feitiço antes do Natal.

Eu marcava os dias como os prisioneiros contam o tempo de detenção. E eles se transformaram logo em semanas. Duas, três, quatro. Eu não era mais do que uma sombra de mim. A cada saída para ir ao mercado ou à feira, eu pensava em fugir. Correr para a liberdade, como um preso que vê o portão deixado descuidadamente aberto. Mas desistir seria dar o braço a torcer. Admitir que minha mãe tinha razão. Que ela era mais resistente do que eu, melhor do que eu. Não, eu iria ficar. Seria eu quem iria rir por último. Sobreviveria.

Então, a cada manhã, agarrava a minha rotina com uma disposição feroz. Limpar, cozinhar, passar. Virei a dona-de-casa perfeita, a super-mãe. Não me atrasava para as reuniões de pais e mestres. Experimentava novas receitas. Deixava a casa impecável. E daí que não tinha tempo para ler? E o que importava que não soubesse quais os filmes que estavam em cartaz? E qual o problema se meu corpo desmoronava? Eu era forte, mais forte do que ela. Onde quer que ela estivesse. A bruxa. Sorrindo, vitoriosa.

E mais uma vez aconteceu o inesperado. Naquela tentativa insana de ser uma mãe ainda melhor do que a minha, fui, aos poucos, deixando-me prender por aquela teia de grande amor e pequenas mágoas, questionando e entendendo mais a senhora que às vezes eu me recusava a compreender, com suas verdades absolutas e suas decisões aparentemente sem sentido. Por fim, acabei esquecendo que aquilo era uma troca de corpos. O que era para ser temporário, ficou definitivo. Eu era a minha mãe.

Com os seus métodos, regras e preconceitos. Com seus mesmos dons. O sexto sentido para pressentir quando os filhos estavam em problemas ou em perigo. A audição biônica para ouvir sussurros e passos suspeitos nas madrugadas. O olfato capaz de identificar cheiro de cigarro ou bebida a metros de distância. Repeti os mesmos erros e acertos, os certos e errados. E assim eu me vi proibindo meu filho do meio de namorar em casa. Fiz um discurso antidrogas para o menor. Chorei quando a minha filha mais velha apareceu com uma tatuagem, sem ter me pedido autorização. Logo eu, que vinte anos antes estampei um dragão na perna.

Aliás, encarar a minha filha-eu mesma foi a parte mais difícil dessa experiência. Discutir com aquela menina quase mulher que era igual e tão diferente de mim. Que me questionava e não me entendia. Então eu, que estava presa entre o mundo onde um dia quis estar e aquele onde minha mãe viveu e que agora era tão meu, enchi-me da minha nova sabedoria e vaticinei:

— Um dia você vai estar no meu lugar, e aí vai ver o que é bom.

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Muito prazer: notas para uma erótica da narrativa*



Ana Maria Machado

“Por exemplo, a questão do prazer de ler. (...) Essa expressão geralmente tem sido confundida e deturpada. Não significa que uma leitura tem que dar prazer no sentido de ser divertida, leve ou engraçada, gostosinha, capaz de distrair e fazer passar o tempo. Esse prazer nada tem a ver com um consumo passivo da escrita, mas está associado a algo ativo, uma atividade a dois, encontrando-se num jogo entre autor e leitor, em que o texto do primeiro desperta um possível texto do segundo, até então latente, e capaz de recriar a obra escrita e lida. Desencadeia-se uma troca interativa a partir de um contato sedutor.”

“Se um texto dá prazer é porque foi feito no prazer do processo da escrita (o que não elimina a possibilidade de ele ter sido escrito na dor, os conceitos não são excludentes). Mas o prazer do escritor não garante o do leitor, até mesmo porque não se sabe quem vai ser esse leitor; ele precisa ser procurado, seduzido. (...) Um leitor não gosta de um texto ao acaso, mas porque sente que esse texto o escolhe, o atrai, o deseja, o excita, por meio de todo um jogo de esconder e revelar.” (Citações de Roland Barthes)

“O desejo inicial, numa boa narrativa, desencadeia uma energia excitante, faminta, túmida, crescente e expansiva, que se lança em direção a um fim... É preciso não se contentar apenas com o prazer imediato, nem sucumbir à pressa de chegar logo lá, mas ser capaz de criar formas de adiamento, que prolonguem o processo de pulsação do texto até a descarga final de energia, para que ela então possa ser mais completa e total, libertando toda a tensão e conduzindo a um estado de relaxamento e aquiescência.”

*Trechos de palestra publicada em “Ilhas no tempo: algumas leituras”, Editora Nova Fronteira, 2004.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira