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Pele Neve

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Luci Afonso Desde muito jovem assisto a filmes que se passam em Nova York. Eu sonhava conhecer a cidade, e o fiz no mesmo ano em que realizei outro sonho, o de me formar na faculdade. Como presente de aniversário, me dei oito dias na Big Apple. Era inverno. Em 9 de janeiro, eu caminhava pela deslumbrante Times Square quando minha idade chegou em flocos de neve e se colou à minha pele com delicadeza e carinho. Em vez de sentir frio, tive o corpo invadido por uma onda de calor – não o do sol abrasador de uma praia, mas o das chamas que se extinguem aos poucos numa lareira no alto da serra. Estava protegida, inteira, confortável. Então, isso eram os 60 ? — me perguntei. Ninguém me falara dessa plenitude, desse pertencimento, dessa certeza de quem sou e do que estou fazendo no mundo. Enfrentar 10 graus negativos num país estrangeiro era uma grande aventura. Senti-me em casa. O frio intenso era quase palpável e compartilhado por milhares de moradores e visitantes agasalhados c...

Meio brilho

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Luci Afonso Minha alegria, em geral, é pouca. Sorriso de lábios fechados, olhos a meio brilho, esperança discreta. Sem risadas inconvenientes. Sem pulos de contentamento. Corpo contraído, voz cuidadosa para não soar alta demais. Pés grudados no chão, braços relutantes em alçar voo. Mas, às vezes, meus olhos brilham inteiros, meus lábios se abrem num riso incontrolável, minha voz atravessa as paredes e chega aos ouvidos do último morador da Terra. Arrisco um voo rasante sobre as paisagens do mundo. Sou pássaro em busca de asa. Em geral, não dou conta de muito amor. Tem que ser comedido, não ultrapassar os limites da minha segurança. Não pode invadir espaços trancados por longo tempo. Não pode ser o principal alimento em todas as refeições. Não pode ser tudo. Mas, às vezes, envolvo a pessoa amada numa fina teia de seda, que vou espalhando para abrigar o sentimento de todos os seres. Não tenho chaves para abrir ou trancar portas. Estas se tornaram vórtices azulados que me...

Beautiful

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Luci Afonso Nove de janeiro de 2018. Noite de gala no Teatro Majestic, Broadway, Nova Iorque. Casais elegantes descem de carros luxuosos: os homens de smoking , as mulheres de longos pretos, realçados por colares de pérolas enormes e, com certeza, autênticas. Os casacos de peles finalizam o visual requintado. Sinto-me como num filme de Hollywood. Meu vestido é branco e, meu casaco, vermelho. Pareço uma Branca de Neve madura ou uma Chapeuzinho Vermelho que cresceu de repente. Sou também uma linda mulher, uma bonequinha de luxo, uma noiva em fuga. Sou todas as personagens que posso lembrar. Posso ter todos os finais felizes que desejar. Hoje é meu aniversário de 58 anos. Faz 10 graus negativos, e se espera uma tempestade de neve na madrugada. O clima não importa. O tempo parou: era meu sonho estar em Nova Iorque neste dia e assistir ao musical “O Fantasma da Ópera”, em cartaz há quase trinta anos. Aqui estou, em meio a gente do mundo inteiro, aguardando para desfrutar a bele...