sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Querida, Meu Bem



Luci Afonso


Arrasto-me pela casa com roupão branco e chinelos atoalhados, esperando que ela vá embora. Na infância éramos inseparáveis. Depois, afastamo-nos um pouco, mas ela insiste em aparecer de surpresa e em se demorar:

— Vim o mais rápido que pude, Querida.

Meu Bem é sozinha: não tem família, nem amizades, nem bichos de estimação, nem plantas. Quando chega, espalha-se pelos cômodos, revira o quarto, desliga o computador e esconde os óculos para que eu não leia, não escreva, não faça nada além de cuidar dela. O telefone emudece, as persianas se fecham, as violetas murcham. Os gatos param de brincar.

Durmo o dia inteiro para que passe mais rápido, mas ela se deita comigo e quer brincar como antes:

— Lembra?

Ainda não consegui dizer que já estou esquecendo, que agora...

— Lembra? - ela insiste.

— Sim - eu minto, fingindo uma lágrima para deixá-la contente. Ela também chora e diz, já em sonho:

— Que bom!

No dia seguinte, ela se vai sem despedida. Guardo os chinelos, ponho o roupão para lavar, tomo banho e vou pintar o cabelo e as unhas, talvez ambos de vermelho.

Na próxima visita, contarei que tenho outras amigas, que não preciso mais dela. Direi também que sou... — não, isto ainda não consigo admitir nem a Querida, nem a Meu Bem.


(Imagem: "Infância", pastel a óleo de Luci Afonso)
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Prefácio ao Guardião da Manhã



Nestor Kirjner


A artista ousa! Cercada de literatos, respeitada por seu talento, ela poderia qualificar sua obra recorrendo a um nome de peso da literatura brasiliense. Mas Luci Afonso acredita em seus signos, e o convite para este Prefácio chega surpreendentemente ao Velho Menestrel, com a constatação de que há música, e muita música, nas crônicas com que Luci enfeita nosso cotidiano.

Não escolher um escritor consagrado, mas um poeta musical desconhecido! A ousadia de Luci me faz personagem de uma confissão. Ela confessa que seus poemas são temas musicais que, como diria Paulinho da Viola, só não têm melodia, pra não perder o valor.

E a leitura das crônicas confirma essa suspeita! A música da vida permeia as palavras da escritora, a poesia caracteriza a prosa cotidiana, Luci compõe musicalmente belos textos e, convidando-me ao prefácio, me faz parceiro de sua arte! Infelizmente, não sei “cantar” suas deliciosas crônicas plenas de leveza, e permaneço estático, apenas um humilde e ávido espectador de sua percepção do cotidiano.

Mas não pense o leitor que leveza e delícia pressupõem superficialidade. Absolutamente! A denúncia está em cada palavra que Luci escreve. Tu encontrarás nos textos aparentemente leves a solidariedade em face das dores da condição humana, perceberás a indignação com o egoísmo e a gratuidade da violência, vivenciarás a revolta da autora para com o cinismo e a indiferença da competitiva e absurda sociedade de consumo que todo santo dia nos obrigam a engolir, sem digerir. A diferença é que, forjadas na linha precisa e preciosa de autores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Veríssimo, as crônicas de Luci Afonso associam pitadas femininas de ternura e poesia a diálogos ágeis e bem-humorados e, tal como na valsa de Orestes Barbosa, ela “pisa nos astros, aparentemente distraída”. E tu, leitor, sorris da tragédia do dia-a-dia e te divertes com a ironia da desgraça cotidiana, sem perceber que a poesia sutil de Luci permanecerá na corrente do teu sangue, impregnada definitivamente nos poros de tua perplexidade.

A cada crônica, tu quererás mais, pois a sensação pós-leitura é de um extremo bem-estar. E, sem querer, uma música qualquer virá a tua memória, para atestar que a poesia de Luci Afonso vai muito além que um simples ato de literatura. Os Velhos Menestréis que o digam! Leitores atentos, o que lhes resta é ser guardiães das manhãs e cantar canções que lhes venham à memória e ao coração. Versos que Luci Afonso repetirá com arte extrema, arrancando lágrimas da platéia. E que gerarão, depois, uma nova “safra” de crônicas cotidianas e profundas, dando (quem sabe?) a um pintor ou a um fotógrafo sensível a chance de atender a um novo pedido da escritora, e prefaciar um terceiro (e cada vez mais brilhante) livro de crônicas. Pois, como já “entreguei” a vocês, Luci Afonso vai muito além da simples literatura. A crônica de Luci é arte, e arte não se define com rótulos ou com limites...


Nestor Kirjner é poeta e compositor de Brasília.
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sábado, 15 de agosto de 2009

A vida é um grande Biscoitão



Luci Afonso


From: Eudaldo Sobrinho <eslsobrinho@gmail.com>
To: Luci Afonso de Oliveira <
luci.afonso@terra.com.br>

Quinta 23/04 09h57
Luci,
O orçamento é um pouco acima do montante de que dispomos, ainda assim eles ofereceram o projeto mais completo. Considero essa edição muito luxuosa em vários sentidos: o papel e a tinta são os melhores possíveis. Na capa, a impressão é dos dois lados. O livro ficaria realmente um chuchuzinho.

Segunda 27/04 09h42
O Edson fez o melhor que pôde pra baixar o preço. Fiquei triste de não conseguir cópias adicionais. Agora temos que correr pra fazer a prova e imprimir! Me mande os textos que você quer incluir. Acho que cabem umas duas crônicas não muito grandes.

Quinta 30/04 01h48
Em anexo segue o pdf. Mil perdões por não ter enviado mais cedo. Hoje o dia foi uma montanha russa que eu não queria ter vivido. Gostaria de saber se é possível ter mais uma crônica, mas ela só pode ter 2 páginas. “Umas” não é possível, e 3 é inviável. Se você tiver uma na sua caixa mágica do cotidiano, ia ser legal.

Quinta 30/04 20h39
Como anda a solicitação do isbn? O ideal seria ter isso na segunda para a prova já sair com o código. Caso não seja possível, não poderemos atrasar a produção porque, infelizmente, eu já atrasei tudo o que foi possível (foi mal!). Foi um fim de noite muito agradável reler algumas crônicas. Durante a correção, os parágrafos eram lidos até o fim, mesmo quando as vírgulas e os itálicos já estavam em seus lugares!

Quarta 06/05 7h49
Tem dois pdfs já com algumas alterações. O primeiro sem as páginas juntas dá pra ficar grande no A4 e o segundo é pra você poder ver como as páginas ficam juntas.Mais tarde envio com as ilustrações. Teremos que ir na gráfica acertar o pagamento.

Quinta 07/05 0h20
Em anexo vai o preview com as ilustrações que finalizei. Estou tendo problemas com meu monitor, as cores nem sempre ficam fiéis. Esse preview não está tão bom quando deveria, mas já tem alguma coisa do livro pronto. Estou sonhando com ele impresso.

Quinta 07/05 23h55
Acabei a correção, segue em anexo o pdf. Amanhã você pode conferir. Note que eu troquei o adorno, achei esse mais discreto. Não precisa sofrer muito com o lance do texto. Ainda não troquei a ilustração da folha de rosto, mas está aqui anotado.

Terça, 19/05 22h24
Trabalhei na ilustração a tarde inteira, mas a verdade é que eu não entendi bem o que devo mudar. Por mim já avançaríamos como uma moto aplainadora, fazendo asfalto novo. A verdade é que estou agoniado, querendo ver o livro pronto. Se eu estou assim, imagine você. Por favor, continue sendo esse poço enorme de paciência! Estamos quase lá.

Quinta, 28/05 10h15
O livro está na fase final de impressão! Podemos buscá-lo à tarde.

Quinta, 28/05 14h10
A impressão teve que ser suspensa por causa de outra encomenda mais urgente. O Edson informou que será impossível entregar a tempo para o lançamento às 19h.

Quinta, 28/05 18h50
Graças a um telefonema de um figurão da Câmara, nosso livro está pronto. Venha urgente com o segundo cheque. A vida é um grande biscoitão!
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



Isolda Marinho

Como um refresco doce num momento de amargura; um sorvete de pinha no calor do verão; uma massagem relaxante após um dia cansado; um abraço de aconchego na horinha da tristeza; uma xícara de chã de hortelã com bolo de amêndoa no vazio da tarde; uma fonte de esperança quando tudo já parece esvaído. Esta é sensação que sinto quando leio um texto da Luci. A cada crônica, um lampejo de ânimo para termos a certeza de que vale a pena ser.


Isolda Marinho é autora dos livros de poesia "Sementes de Amora" e "Viço do Verso".
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Os olhos do tempo, de Elicio Pontes






Os Olhos do Tempo é o segundo livro do poeta Elicio Pontes e será lançado na próxima segunda-feira, 17 de agosto, às 19h30, no Martinica Café, na 303 Norte. Classificação: imperdível.
Elicio Pontes nasceu em Nova Russa, Ceará. Em Crateús, para onde se mudou aos cinco anos, escutava cantadores e poetas populares na feira da cidade. À noite, lia romances de cordel para ouvintes não leitores; ganhava aplausos (e, às vezes, algumas moedas).
Aos 13 anos foi para Fortaleza, onde mais tarde tornou-se jornalista e radialista. Formou-se em Pedagogia pela UFC. É mestre em Educação pela USC, de Los Angeles, EUA, e doutor pela Uned de Madri, Espanha. É professor da Universidade de Brasilia.
Publicou, em 2001, Corpos Terrestres, Corpos Celestes (Poesia).



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sábado, 8 de agosto de 2009

Felis cattus domesticus L., SRD



Luci Afonso

Gatos são amaldiçoados, desde que um deles serviu urina a Jesus. Têm pacto com o Demônio e com feiticeiras. São dissimulados, interesseiros e preguiçosos. Quando não gostam de uma pessoa, atacam-na diretamente na jugular, sem chance de defesa. Não se apegam a ninguém, não fazem carinho nem gostam de ser tocados.

Eu acreditava firmemente nessas ideias e chegara a afirmar, em diversas ocasiões, que odiava gatos, que eles me davam medo e agonia. Por isso, fui apreensiva à feirinha de doação de animais, na manhã de sábado, procurar um gatinho para meu filho, disposta a enfrentar meus temores para que ele tivesse a companhia de um bicho de estimação. Ainda estávamos traumatizados por várias tentativas fracassadas de criar cachorros e sabíamos que pássaros, tartarugas e peixes não interagem com o dono.

Avistei imediatamente o filhote de pelo claro e listrado, no meio de outros que miavam nervosos e assustados com os barulhos da feira. Ele nascera há dois meses em apartamento, portanto, era de família, meigo e dócil, e não tinha maus hábitos adquiridos na rua. Meu filho o abraçou até chegarmos em casa, já com a ração, a caminha, a areia e as caixas que serviriam de banheiro.

Nos primeiros dias, um ou outro xixi fora do lugar, depois o uso correto e espontâneo das caixas de areia, seguido por um som que significava: “Acabei”. Uma ou outra planta derrubada, na exploração do novo território, depois o andar leve e gracioso entre os móveis e objetos. Um ou outro pulo mal calculado, seguido de exibições impressionantes de agilidade e equilíbrio.

Apaixonamo-nos pelo gatinho sem raça definida e resolvemos chamá-lo Patinha — sobrenome Oliveira, na ficha da clínica veterinária. Ele se reveza em nosso colo e em nossa cama, dorme a tarde inteira num buraco que fez na parte de baixo do colchão, fica quietinho quando saímos e nos recebe com gemidos de saudade.

À noite, nós três ronronamos, aconchegados e tranquilos: jamais, em hipótese nenhuma, haverá latidos no meio da noite nem surpresas indesejadas no tapete da sala. Meu receio se esvai, como se a vida inteira eu esperasse ter um gato. Prometo a mim mesma nunca mais odiar o que não conheço.

Sempre que chego do trabalho, jogo a bolsa no sofá e pergunto, com a mesma voz que usava com meu filho ainda bebê:
— Cadê o gatinho da mamãe?
Ele aparece com cara de sono e dá um miadinho de contentamento:
— Estou aqui, mamãe, estou bem aqui.


(Imagem: Gato Amarelo, de Aldemir Martins)
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



"De: Luiz Ruffato
Data: terça-feira, 4 de agosto de 2009 09:00
Para: Luci Afonso
Assunto: olá

Olá, Luci,

fiquei muito feliz em reencontrar você.
No aeroporto, li O Guardião da Manhã, de uma só vez...
Além da edição lindíssima (invejável pelo bom gosto e pela elegância), os textos são primorosos. Alguns, como Parabéns pra você, Promessa, Escambo de natal, extrapolam o gênero e se querem contos - e são muito bons. Outros, como Dente mole e sua continuação É meu, ou Moreno, alto e forte, são mostras do melhor da crônica.
Parabéns, Luci.
Grande abraço deste
lr"

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases (MG) em 1961. Recebeu importantes prêmios literários nacionais. Seu mais recente livro é Vista Parcial da Noite, terceiro volume da série Inferno Provisório, publicada pela Editora Record.
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4º Desafio dos Escritores



Está lançado o 4º Desafio dos Escritores (Conto) do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, da Câmara dos Deputados.

Já estão na página do Núcleo as regras, a ficha de inscrição e o cronograma.

Certamente,como nas edições anteriores, o Desafio revelará grandes talentos. Seja um deles!

Início: 27 de agosto.

Inscreva-se já:

http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/
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sábado, 1 de agosto de 2009

Assim no Céu como na Terra


Luci Afonso


— Nome?
— Clodoaldo José Paulino, às suas ordens.
— Idade?
— Oitenta e um. Oitenta e dois no mês que vem, se Deus quiser.
—Apelido?
— Pernambuco.
— Nasceu em Pernambuco?
— Não, no Rio Grande do Norte.
— Motivo que o trouxe?
— O coração estufou, o peito ficou pequeno.
— Causa natural, então. Deixou bens?
— Filhos, netos, amigos e clientes.
— Profissão?
— Lavador de carros.
— Que tarefa gostaria de realizar aqui?
— A mesma. Por dentro e por fora, no capricho.
— Não usamos carros. O senhor sabe fazer mais alguma coisa?
— Eu sei alegrar as pessoas que acordam desanimadas.
— Essa atividade não consta em nossa lista. É nova?
— Não, é velha como eu.
— Como era feita?
— Eu só cumprimentava, desejava bom serviço e dava minha benção.
— O senhor tinha permissão para abençoar?
— Precisava?
— Um momento, por favor. Apresente-se amanhã bem cedo, no portão principal.
— Se não for pedir muito, seu moço, posso ter crachá?
— Veremos se é possível. Próximo!

No dia seguinte:

— Bom dia, doutor!
— Bom dia... Sr... Pernambuco... - o velho alto, com a cintura carregada de chaves, lê o crachá do novo guardião.
— O senhor tá bom? A família tá boa?
— Tudo bem, graças a Deus.
— Bom serviço. Deus lhe acompanhe.
— Amém - responde São Pedro, quase feliz.


(O Sr. Pernambuco, o Guardião da Manhã, faleceu em casa, no dia 20 de julho, à tarde, devido a problemas cardíacos.)
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



Cristina Leme

21/07/09

"Querida Luci,

Adorei seu filho mais novo, seu "benjamim".
Você merece muitos maços de gerbras! Agrada-me muito seu aguçado senso de humor, presente nas crônicas que abordam os tratamentos ditos alternativos (para o corpo e para a alma): você se submete a eles sem abdicar do senso crítico.
No dia em que vc veio me trazer o livro, esqueci de comentar sobre o grande destaque que o Correio Braziliense deu no dia do lançamento, com matéria de página inteira, fotos, revelando quem é o guardião da manhã. Achei ótimo!
Ah! você é a Ci, LuCi?
Abração,

Cristina "



Cristina Leme é Assessora Parlamentar e personagem da crônica “Equinócio”.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira