segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cuidado com o X.!


 

Manuel Bandeira

 

Outro dia tomei um táxi-lotação para Copacabana, havia dois lugares vagos atrás, mas anoitecia, peneirava uma chuvinha miúda, fazia frio, preferi sentar-me no banco da frente para me aquecer ao calor da máquina. O passageiro que ocupava a ponta teve o gesto antipático de sair muito polidamente para me dar entrada, e lá fui eu, espremido entre ele e o chofer, quando a lotação se completou com dois novos passageiros. Estes eram grandes palradores, um ao que parece literato e bastante academizável, pois, caindo a conversa sobre a Academia, o outro perguntou-lhe: — Você nunca pensou em se candidatar?

Aí apurei o ouvido, quer dizer, dei toda a força à minha maquinaria de ouvir e o que ouvi foi isto, que reproduzo com a possível fidelidade:

— Eu, candidatar-me?

— Por que não?

— Deus me livre!

— Tem preconceito antiacadêmico?

— Não é isso. Não tenho é vocação para ser traído!

— Traído?

— Não quero dar ao X. o gostinho de me fazer o que fez ao A. e ao B.!

— Não conheço o caso, me conte.

— Pois ouça lá. A. e B. disputavam a mesma vaga. X., amigo de ambos, prometera o voto a ambos. Prometera de pedra e cal, como se diz. Era, porém, de crer que o desse a B., pois à véspera do pleito telefonara à mulher de B. recomendando-lhe: “E olhe, não se esqueça de pôr champanha na geladeira, a vitória é certa!”. Mas no momento de votar...

— Votou em A.

— Qual A. nem B.! Votou em C!

— Em C.? C. não tinha nenhuma possibilidade de ser eleito! Foi então um voto humorístico?

— X. não é humorista, você sabe disto melhor do que eu. Votou em C. porque o homem lhe andava prestando uns serviços, na ocasião precisava mais dele do que de A. e de B.

— Incrível!

— Mas ouça o resto, que ainda é melhor. X. teve o descoco de telefonar a B., que foi o eleito, para felicitá-lo: “Meus parabéns! Então ganhamos!” Ao que B. respondeu, seco: “Ganhamos sim, mas não com o seu voto, que foi de C.”. No dia seguinte B. recebia uma telefonada de C.: “Dr. B., quem votou em mim não foi o X., foi o Y.”. Grande surpresa de B., que telefona para A.: “C. me telefonou dizendo que quem votou nele não foi o X., foi o Y.”. A. desmentiu indignado: “É falso! Y. votou em mim, eu próprio fui o portador dos votos dele!”.

Eu escutava estarrecido. Decerto tudo aquilo era invenção. Mas invenção ou não, aviso aos navegantes: se se candidatarem à Academia, cuidado com o X.

                                      [28.VI.1961]


Manuel Bandeira, Crônicas para Jovens. Global Editora, São Paulo, 2012.
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sábado, 3 de novembro de 2012

Adivinhem quem está chegando?


Ela mesma...
A Senhora dos Gatos!
Faltam quarenta dias...

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Nova edição do Canto das Letras


O Canto das Letras, promovido pelo Centro Cultural Câmara dos Deputados, com o apoio da TV Câmara e do Sindilegis, é um programa que contempla artistas de Brasília, aliando música e literatura. Em formato de talk-show, o ator Jones Abreu e a poeta, servidora, Isolda Marinho recorrem a um bate-papo informal, no qual a plateia pode participar. Na edição de outubro, o evento contará com a presença dos escritores Vânia Moreira Diniz e Casimiro Neto, além da cantora e compositora Ângela Brandão.
           
Ângela Brandão tem se destacado como uma das principais compositoras da nova geração de Brasília. Faz sambas de raiz, valsas sofisticadas e música pop de qualidade. É jornalista da TV Senado, onde apresenta o programa Argumento.
           
Vânia Moreira Diniz é autora de romance, poesia, literatura infanto-juvenil e crônicas.  É  membro nacional vitalício da Academia de Letras do Brasil (ALB), com a cadeira número 1 no Distrito Federal. Mais informações:http://www.vaniadiniz.pro.br;

        O escritor Casimiro Neto é sócio titular da Associação Nacional dos Escritores. Paulista, radicado em Brasília desde 1970 e na Câmara desde 1994, publicou dois livros de poemas e dois acadêmicos. Escreve artigos em Cadernos do Museu da Câmara, catálogos de obras de arte da Câmara e na Revista Plenarium/CD.
 
SERVIÇO

Canto das Letras – A literatura encontra a música
Data: 8 de novembro, quinta-feira
Hora: 19 horas
Local: Auditório da TV Câmara – Edifício Principal
Entrada franca

 

 
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Três cronistas brasilienses


Luci Afonso

 
Nesses primeiros dias de chuva e de aposentadoria (combinação deliciosa), chegaram-me às mãos três livros que li e amei:


Ephemeris, A Idade do Nunca/L’Âge de Jamais (edição bilíngue), Angela Maria Delgado, Thesaurus Editora, 2005. Neste diário transformado em livro, acompanhamos Angela num ritmo frenético, que inclui ler, escrever, traduzir, cuidar da casa, ler, cuidar do marido, ler, olhar os netos, ler, caminhar, ler, andar de costas para usufruir o pôr do sol, ler, ter insônia, ler mais um pouco. Esta leitora ávida e exigente nos traz a companhia de Clarice Lispector e José Saramago, para citar apenas dois, ao mesmo tempo em que comenta a invasão do Iraque pelo Presidente Bush e outras questões mundiais. Várias leituras numa só uma experiência enriquecedora.

 
Quase pisei!, Roberto Klotz, Edição do Autor, 2009. Klotz é irreverência pura. Em suas caminhadas diárias pela Asa Norte, veste um short sem elástico, conversa com seu tênis (isto mesmo, tênis) tarado, passeia com uma poodle em formato de couve-flor e consola uma mulher que perdeu o piano no bingo. Tudo isso enquanto evita pisar nos montinhos deixados pelos cachorros, pois titica no tênis dos outros não fede. Para bom preguiçoso meio passo basta eu, que odeio caminhar, senti vontade de começar, ao saber que quem anda seus males debanda. Infelizmente, quando um pé não quer, o outro também não vai, e uma andadinha só não faz verão. Vou ficar sentada mesmo, lendo Klotz.

 
Do todo que me cerca, Cinthia Kriemler, Editora Patuá, 2012. O que posso dizer de Cinthia que já não tenha dito? Do conto à crônica, da carta ao romance, do poema ao ensaio, esta escritora de dez mãos é a maior promessa surgida no meio literário brasiliense nos últimos tempos. Você está triste, desesperançado? Leia um conto de Cinthia. Está exultante, apaixonado? Escolha um poema. Com sede na alma? Procure uma carta. Indiferente ao mundo? Devore as crônicas deste livro, escritas com sensibilidade, franqueza e até bom humor. Depois, apague as luzes e sinta os olhos brilhando no escuro não tanto quanto os de Cinthia, já que somos apenas seus leitores.
Senti-me muito bem acompanhada pelos três autores, enquanto a chuva trazia alívio à seca que nos cerca.
Viva a crônica!
Viva a chuva!
Viva Brasília!


 

 
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira