Celebração




Você diz que não quer mais viver. Vamos nos sentar ali naquele banco enquanto nos aquecemos ao sol morno da manhã. Observe o dia que começa. Os bebês se deslumbram com a visão do céu, os velhinhos perambulam iguais, os cachorros cheiram o mundo. O homem que passa encolhido de frio mora longe. A mulher deixará o filho na creche enquanto cuida da casa alheia.
Segure um raio de sol na palma da mão. Agarre outro e mais outro. Preste atenção ao silêncio das árvores: elas saboreiam o orvalho e a visita dos pássaros. Ao meio-dia, darão sombra generosa a quem precisar.
Vou lhe contar uma estória. Era uma vez uma mulher que foi entristecendo até achar que não queria mais viver. Desfez-se de tudo o que possuía, despediu-se de cada amigo e saiu vagando. Jogou fora documentos para esquecer quem era. Lançou ao mar os pertences mais valiosos para que alguém os recolhesse numa praia distante. Desafiou a morte, ela não veio.
Quase sem forças, voltou à casa materna para convalescer em lençóis bordados e macios. Um dia acordou com um toque suave no rosto: era o sobrinho que ela conhecera bebê, que agora completava dois anos e que dali em diante viria sempre despertá-la. O menino a chamava de “Gui”, o som mais doce que ela ouvira até então. Ansiava por ele ao acordar e o guardava na memória antes de adormecer.
Gui e o sobrinho passavam o dia juntos. À tarde sentavam-se no quintal, onde ele desenhava e corria pela grama no corpo de arco-íris. Um dia caiu do balanço e quebrou a perna; a tia ficou ao seu lado. Outra vez, foi deixado sozinho na piscina e já se afogava quando ela o resgatou. Assim, foram se protegendo e se amando, enquanto ela se recuperava e ele crescia.
Você diz que não quer mais viver. Vou lhe mostrar meus bens mais preciosos, que guardo envoltos num xale de cetim. Veja este desenho: é a obra-prima de um pequeno artista que fez meu retrato e o chamou de “Fada”. Estes presentes de papel, você me deu no meu aniversário. Estas declarações de amor em letra miúda, quando aprendeu a escrever. Lembra-se desses corações e sóis recortados? Olhe estas fotos. Repare na alegria do menino que me fez desejar o filho que hoje tenho.
Há muitos anos, renasci pelas mãos de uma criança que hoje diz que não quer mais viver. Acredite: você ama profundamente a vida — sou fiel depositária desse amor. Dê-me de novo a mão. Juntos mergulharemos na noite escura e nela reencontraremos nosso diamante puríssimo.



(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)

Postagens mais visitadas deste blog

Roupa de época

Os personagens e seus nomes

A escrita de uma crônica*