sábado, 25 de outubro de 2008

Relatório sobre a mamãe




Luci Afonso


De: claudia@terra.com.br
Enviado em: segunda-feira, 27 de junho de 2005
Para: fabio@tecnomix.com.br
Assunto: Relatório sobre a mamãe

Querido irmão,

Tudo bem por aí? E a viagem à Disney? Adorei a sua foto com o chapéu de pirata e a caneca do Mickey.

Ontem, eu e o Claudinho fomos à chácara, depois de muito tempo, e fizemos uma triste constatação: a mamãe está retornando ao estado selvagem, talvez ao nível do primitivo Homo Sapiens. Qualquer dia vamos encontrá-la em cima de uma árvore, e não será de se estranhar!

Os indícios dessa regressão são vários:
1. Ela se alimenta do que encontra na natureza, por exemplo, frutas ou verduras que ela mesma plantou;
2. Bebe água diretamente do poço, porque acabou a mineral;
3. Raramente penteia o cabelo (agora está ruivo, por causa do sol) e toma banho a cada três dias;
4. Vive no escuro — guia-se mais pelo olfato, ainda que a visão de longa distância funcione precariamente.

O mais grave, mano, é que mamãe está quase surda e só abre o portão por um lance de extrema sorte.

Ontem, por exemplo, ela estava chupando uma laranja na varanda, após ter comido uma cenoura. Eu a observava de fora do portão, enquanto o Claudinho insistia na buzina e eu, no grito. Já íamos embora, famintos e exaustos, quando de repente ela avistou o vulto grande e escuro do carro e veio correndo saber quem era. Ficou superfeliz ao ver o neto, é claro, e insistiu em fazer o bolo de cenoura que ele adora. Andou pelo quintal, meteu-se no galinheiro e embrenhou-se na cozinha escura, da qual emergiu, orgulhosa, com o bolo e o café fumegantes.

Claudinho já se acostumou a conversar com a avó. Primeiro, toca-lhe de leve o ombro; depois de fazer contato visual, fala bem devagar, movendo cuidadosamente os lábios, até que ela entenda a mensagem. Mamãe parece ter desenvolvido um sistema próprio de leitura labial, pois são necessárias, no máximo, três tentativas de comunicação. Ela, então, responde alto, rindo muito, independente do assunto. Só não entende quando falamos em aparelho para a surdez.

Fábio, vc sabe que ela tem mania com roupas. Atualmente, usa uma bermuda preta cortada em bicos, como a de Peter Pan, e um par de tênis de cor indefinível, com grandes buracos no peito do pé, talvez para ventilação. A blusa é aquela florida que vcs deram no Natal e a faixa no cabelo é a que eu dei no aniversário.

Quando forem lá, levem água potável, provisões e algum tipo de sinalização luminosa. Se conseguirem entrar, ajam naturalmente e finjam não estranhar nada. Aceitem o café e o bolo e prometam voltar logo. Mamãe ficará feliz com a visita.
Na próxima ida à Disney, traga uma caneca do Mickey para o Claudinho e uma da Margarida para mim. Se vc trouxer, nós acertamos.
Abraços.
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Coriandrum et Petroselinum



Antônio Cardoso Neto

Tanto os sérvios quanto os croatas falam a mesma língua, mas a escrevem de maneiras diferentes. Por imposição católica romana, os croatas usam o alfabeto latino, ao passo que os sérvios utilizam o alfabeto cirílico por determinação ortodoxa bizantina. O Híndi, que se fala na Índia, é a mesma língua que é chamada de Urdu no Paquistão. Mas por ser o Paquistão majoritariamente muçulmano, o Urdu é grafado no alfabeto em que o corão foi escrito: o arábico. Já o Hindi é escrito no alfabeto devanagárico ou Devanágari, que significa, literalmente, “escrita sagrada” em Sânscrito.

De qualquer maneira, o idioma é o som, não a escrita; é como se fala, e não como se registra a fala em um papel. Senão, o sinônimo de “idioma” seria “dedo”, e não “língua”. No frigir dos ovos, essas pequenas diferenças na maneira de escrever, por serem frutos de diferenças maiores, são suficientes para que sérvios e croatas se trucidem mutuamente, da mesma maneira que o fazem paquistaneses e indianos.

Nenhum povo gosta de ser confundido com outro, e talvez seja por isso que haja tanta rivalidade entre povos não muito diferentes entre si. A rixa entre poloneses e russos é brava. Brava e velha, muito anterior aos bolcheviques. E a diferença entre eles não é lá tão grande. Vistos de longe, brasileiros e argentinos são a mesma coisa, tão iguais como, digamos, birmaneses e cambojanos que, aliás, esses sim, não têm nada a ver uns com os outros.

Mas por que é que estou falando disso? Só para lembrar que o povo mais parecido com o português é o brasileiro. Os piadistas de plantão que esperneiem, mas não há no mundo povo mais parecido conosco que os portugueses, o que é muito bom, na minha opinião. Portugal é o único país da Europa cujo povo fala só uma língua. Além disso, fora dos guetos lusófonos de grandes cidades como Paris e Frankfurt (ou Franqueforte, como dizem os patrícios lá da Terrinha), o Português só é falado em Portugal. Daí é que o mapa político de Portugal coincide com o mapa lingüístico e étnico dos portugueses. Já a Espanha é uma zoeira total. Há o Galego, o Catalão e o Basco, além do Espanhol propriamente dito, com seus diversos falares: o Andaluz, o Castelhano (por que não é Castelão em vez de Castelhano?), o Valenciano, o Murciano, o Aragonês e muitos outros. Pode ser que, mais ou menos por conta disso, a América Espanhola tenha virado vinte e tantos países, enquanto a Portuguesa ficou uma coisa só, essa nossa querida bagunça auriverde.

Retomando o fio da meada, quero dizer que a diferença entre um sérvio e um croata é muito maior que entre um gaúcho e um pernambucano. Para os meus ouvidos, o sotaque amazonense não é muito diferente do carioca. Pode-se perceber que ao sul de Belo Horizonte, o fonema erre deixa de ser gutural e passa a ser mole, o erre caipira. Continuando rumo ao sul, o sotaque continua cada vez mais caipira e, de repente, no litoral catarinense, começa-se a ouvir o erre gutural de novo, como no Rio de Janeiro.

Não há dialetos no Brasil e tem pão-de-queijo, feijoada, churrasco e guaraná no país inteiro. Quase todos os brasileiros torcem para um time estadual e para um time do Rio. O Brasil não é somente a principal proeza da navegação portuguesa. Acho que foi o Darcy Ribeiro quem notou que, por ser o mais extenso e populoso país latino do mundo, o Brasil não deixa de ser também a maior conquista do Império Romano, a mais colossal vitória das legiões de César. Pobre César...

Tudo isso leva a crer que nossas parcas diferenças internas jamais farão do Brasil o que foi feito da Iugoslávia. A gente fica contente com isso, pede uma cerveja e um prato com arroz, feijão, bife, ovo frito e salada de tomate, unanimidade nacional. Está tudo muito bem, tudo muito legal, até o momento em que o garçom ¾ ou garção, moço, criado, mancebo, ou seja lá como é que o chamem, a gente não liga para essas picuinhas bairristas ¾ traz um condimento verde para colocar na comida.

Às vezes, isso pode resultar em tragédia. Já ouvi em todo canto gritos furiosos quando isso acontece. Alguns berram “salsinha de novo?”, outros vociferam “até aqui eles colocam coentro?”. Prevejo o dia em que, durante um banquete oferecido a industriais e políticos, alguns comensais virem a mesa aos berros de “chega de coentro”, seguido do desembainhar de peixeiras e de feroz luta corpo-a-corpo. Suo frio quando imagino a revolta popular contra a salsinha nas ruas de Recife, Fortaleza e Salvador. Perco o sono quando penso no encontro dos dois exércitos, na fronteira de Goiás com Tocantins, com os brados de “coentro” e “salsinha” a se alternarem, como os hinos francês e russo na Abertura 1812.

Se a polícia continuar a gastar dinheiro com a destruição de plantações de maconha e a fazer vista grossa com a produção de coentro e de salsinha, ainda vamos acabar mal, muito mal. Depois não me digam que foi por falta de aviso.



***


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Almofada de cetim



Maria Amélia Costa

O aparelho celular vibrou no bolso interno do paletó. Era sábado pela manhã, estava em uma reunião de trabalho e não pôde atender. Olhou depois na caixa de mensagens o convite para uma festa. Ficou alegre e surpreso porque há muito não recebia convites. Ligou para confirmar. Doravante o dia ficou mais iluminado e sua participação na reunião, mais ativa. Chegou até a levantar-se e gesticular na defesa de seus argumentos. No corpo uma palpitação e o desejo de encontrar o Alfredinho que decerto estaria lá.

Sorriu olhando com olhos distantes para a colega que, à sua frente, perguntou o que ele achava daquela proposta. Disse-lhe que sim, que era muito interessante e que podiam contar com ele. Nadava em um mar de possibilidades e tudo se revestiu no sabor de uma doce espera.

Durante o resto da manhã escapou em devaneios sobre o seu romance com o Alfredinho. Os olhos fundos nadando em palavras lentas, os dedos bem torneados, o caracol dos cabelos ruivos e sempre com aquele cheirinho de banho recém-tomado, a voz barítono e as pernas cruzadas do Alfredinho. Baladas, noites sem fim, beijo na boca, sanduíche nas madrugadas, almoços prolongados e uma sobremesa para dois: mouse de maracujá com aquelas sementinhas boiando. O Alfredinho adorava cozinhar, nos finais de semana ia para a cozinha e os dois convidavam amigos para almoçar.

Foi sozinho a um restaurante self-service e tendo a emoção lhe tirado o apetite não comeu quase nada, mas deixou-se ficar ali, distraído. Expressava uma surpreendente desenvoltura porque agora havia um convite e já antevia o glamour daquela noite. Ficou muito tempo olhando para a vegetação lá fora e resolveu que usaria a camiseta preta de gola rolê, o jeans justinho e o casaco que o padrasto trouxe-lhe de uma viagem que fez a Nova York. Agradeceu a Deus porque as noites estavam com um friozinho de inverno tropical. Ninguém haveria de estranhar aquele casaco de frio intenso.

Foi saltitando aconchegar-se no apartamento de quarto e sala. Tomou um banhinho rápido, colocou na vitrola um bolero de Ravel, vestiu um pijama curtinho e usou a colônia Chamma da Amazônia preparando-se para sonhar abraçado ao azul de uma almofada de cetim. Aquele final de tarde seria um prelúdio da noite que estava por vir. Dormiu sem sonhos. Antes de levantar fitou o abajur, pensativo: aquele lugar ainda estava impregnado pelo tempo que moraram juntos.

Tomou uma coca e desceu para a rua comercial. Compraria logo um vinho chileno para levar. Detestava sair para festas e ainda ter que passar em supermercados. Havia sempre a sensação de que ali ficaria uma parte dos seus trajes, seu perfume, a performance da ocasião e isso o deixava enciumado.

De volta ao apartamento ligou mais uma vez na amiga para saber quem estaria na festa.
— Bom... Disse-lhe a amiga: A Verônica... lembra? Aquela que você conheceu na casa do Ricardo e que estava toda de preto com cílios postiços enormes?
— Lembro, claro, depois daquele dia eu a encontrei no Café Martinica. Estava com um bofe maravilhoso que vestia preto, também.
— Então... Continuou a amiga: A Suzi, o Gui com o namorado, a Tati com o namorado e mais uma amiga que está de passagem por Brasília; um pessoal do trabalho que você não conhece... E uma pessoa que eu acho que você vai gostar de encontrar: o Alfredinho.

As pernas tremeram com aquela confirmação e, de repente, uma coisa estranha no estômago. Depois do telefonema fitou o abajur aceso e sentiu medo. Não, não estava preparado para encontrar o Alfredinho... Andou até a janela e se debruçou sobre o vazio lá de fora. Já era noite, havia faróis, gente indo e vindo, roupas na vitrine, guardador de carros, pão quente na padaria, solidão. O Alfredinho estaria lá. Dedos torneados, olhos fundos, pernas cruzadas e aquela capacidade de se fazer distante e ao mesmo tempo envolver tudo. Que tortura. E que doce agonia. Água, precisava tomar água. Não, melhor uma coca. Tomou água. Depois tomou coca.

Vestiu-se e sentou no sofá de dois lugares. Pensou e ligou outra vez para a amiga para dizer que não poderia ir que lamentava muito, mas houve um imprevisto e, por favor, me desculpe. Mas não disse nada disso, apenas perguntou se já havia chegado alguém e que iria demorar um pouco porque acabou de acordar depois do cansaço de uma manhã de trabalho. A voz estava trêmula, sabia. Ficou mais um tempo sentado sentindo o peso daquela coisa estranha no estômago. Tomou outra coca encostado na pia da cozinha. Lembrou com o olhar fixo na borda o maravilhoso talharim que o Alfredinho preparava nas manhãs de domingo enquanto trocavam olhares carinhosos, deslizavam para o sofá da sala e ali mesmo faziam amor.

No caminho quis pensar em algo. Chegaria alegre e desenvolto e diria o quanto está bem, trabalhando, viajando muito, sim, namorando também, diria encabulado se perguntassem, mas o namorado não estava se sentindo bem, uma gripe forte o colocara de cama — completaria olhando para o lado. Subiu pela escada até o terceiro andar. Chegou suando embaixo do casaco nova-iorquino. A amiga ofereceu bebida, seja bem-vindo, fique à vontade e apresentou-o aos que ali estavam. Depois se afastou para outro canto da sala onde havia um animado grupo discutindo sobre as delícias da comida árabe. Ele aproximou-se de tudo olhando em volta, procurando. Precisava mesmo de uma bebida.

Uma sensação de desconforto o invadiu e tudo em si pareceu inadequado: a gola rolê, o casaco quente, o cabelo curtinho, a calça justa, a taça de vinho. Cambaleou para perto de um casal conhecido e disse qualquer coisa para disfarçar. Tomou mais vinho. Sorriu e pediu licença para ir ao banheiro. No espelho a imagem desfocada. Demorou muito tempo olhando a imagem. Ao sair aproximou-se da dona da casa e disse alguma coisa junto ao ouvido dela, despediu-se do casal e foi embora.

Dormiu cedo demais e acordou na madrugada com o barulho da tv refletindo no amarelo reflexo da almofada de cetim.

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sábado, 18 de outubro de 2008

Poema 1



Luci Afonso


Calça bordada,
Blusa de renda.
Laço de fita,
Olho de prenda.

Pai,
Doce,
Balão.
Abraço vão.
Despedida.
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Manual do recém-chegado a Brasília




Antônio Cardoso Neto


Você acaba de chegar a Brasília e está mais perdido que cego em tiroteio com esse negócio de SQS, SQN, W3, L2 e outras siglas. Vá se acostumando, pois aqui é assim mesmo: é FHC, JK, ACM... depois acaba virando pizza, mas antes vira sigla. Mas, essas letras e algarismos (ou dígitos, se você tiver menos de quarenta anos) definem os logradouros urbanos de maneira original e bastante racional. Como tudo na vida, com o passar do tempo, você acabará se acostumando.

Exemplo de imparcialidade regional, a capital do Brasil eqüidista de todos os grandes centros do país, ou seja, é igualmente longe de tudo. O Distrito Federal, ou DF, é uma ilha cercada de Goiás por todo lado, e o nome Brasília refere-se apenas à Região Administrativa de Brasília, que corresponde a pouco mais que o Plano Piloto, ou as “asas do avião”, se preferir. O gentílico de Brasília é brasiliense. Quanto a quem nasce no DF, são chamados de candangos, mas desconfio que a denominação oficial seja distrito-federense, ou algo parecido.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do DF fica entre o da Polônia e o da Argentina. Até pouco tempo atrás, os índices locais de alcoolismo, divórcio e suicídio eram os maiores do país, o que dava a Brasília um certo charme de Estocolmo Tropical.

É curioso o fato de que em um território tão pequeno como o do DF, estejam riachos e córregos pertencentes às bacias hidrográficas do Tocantins, do São Francisco e do Paraná. E deve ser por isso que quando isso aqui vira, periodicamente, um mar de lama, ela escorre e nunca se sabe onde é que vai parar. Dependendo do rumo que pegar, pode ir parar em Belém, em Petrolina ou até mesmo em Buenos Aires.

Não há eleições bienais, pois não há prefeito nem vereadores. O poder legislativo local é uma mescla de Câmara Municipal com Assembléia Legislativa, chamada Câmara Legislativa, cujos mandatários são os Deputados Distritais.

Tive aqui a oportunidade de entender, de uma vez por todas, aquela coisa de existirem peronistas de esquerda e peronistas de direita na Argentina. O negócio é que todo mundo em Brasília, seja de esquerda, de direita, torcedor do Corinthians, muçulmano ou umbandista, adora, venera, idolatra o JK.


***
Talvez Lúcio Costa e Oscar Niemeyer imaginassem um futuro com transporte coletivo eficiente, mas a verdade é que o Plano Piloto acabou virando uma espécie de autorama, com ruas sem calçadas e estradas sem acostamento. É bem verdade que os pedestres têm total preferência ao atravessarem as vias, desde que não haja semáforo, mas, quando chove, eles metem o pé na lama, já que quase não há calçadas. É nessas horas que o pobre pedestre se sente parte do mar de lama que citei agora há pouco. Ninguém me tira da cabeça que a cidade foi construída em homenagem à então nascente indústria automobilística; não é à toa que a bandeira do DF parece sinal de trânsito e que SQN413 lembra mais placa de automóvel que endereço.

Embora carioca não saia do Rio nem com chuva de bala perdida, Brasília é o único lugar do mundo em que há cariocas fora do Rio de Janeiro. Se você for carioca, há o Lago Paranoá. Se for paulistano, pode ir passear no aeroporto aos domingos, mas os brasilienses preferem passear na Ponte JK, projeto arrojado escolhido pela Associação dos Engenheiros da Pensilvânia como a mais bela obra de engenharia de 2002. Para quem sente saudade da praia, no Parque da Cidade existe uma piscina com ondas, que não consegue matar a saudade do mar, mas pelo menos faz rir um pouco.

Não conheço local no Brasil que possua tantas estações de rádio de qualidade como Brasília. Há estações que dão ênfase a MPB, a jazz, a música instrumental genérica, a música erudita. É evidente que também há muita porcaria, mas são muitas as estações boas. Uma delas toca música instrumental indistintamente o tempo todo. Mesmo que seja por mera curiosidade, onde é que você consegue ouvir Xavier Cugat, Poly e seu Conjunto, Perez Prado, Ray Conniff, Ima Sumac e outras tranqueiras, hoje em dia? É uma sensação igual a andar de bonde ou ouvir a gaitinha do amolador de faca. Dá gosto ouvir rádio em Brasília.


***
Dizem que Lúcio Costa não gostava de ouvir dizerem que o Plano Piloto tem o formato de um avião. Parece que a idéia original é um arco estirado com uma flecha apontada para o leste, em cujas praias aportariam as hostes invasoras. Tenho quase certeza de que a associação com avião tenha partido de alguma outra associação que algum candango fez com a palavra piloto. Avião ou não, o Plano, como é mais conhecido, possui duas asas: a Asa Norte e a Asa Sul.

A “fuselagem” do avião se estende de leste para oeste, encontrando-se com as asas na estação rodoviária (ou Rodoviária do Plano) de onde chegam e partem os ônibus que ligam o Plano às chamadas cidades satélites. No extremo ocidental da fuselagem, situa-se a Rodoferroviária. A fuselagem possui duas pistas, separadas por um canteiro enorme. A que sai da Rodoferroviária e vai para o leste chama-se S1, que significa “pista sul numero 1”. Simetricamente, a do outro lado é a N1. A tal fuselagem chama-se Eixo Monumental.

No canteiro que separa as duas vias, situam-se o Memorial JK, o Centro de Convenções Ulysses Guimarães, o Clube do Choro, o Planetário e a Torre de TV. Na margem norte da N1 ficam o Palácio do Buriti, o Estádio Mané Garrincha, o Autódromo e o Ginásio Nilson Nélson.

Como já foi dito, o Eixo Monumental passa pela Rodoviária do Plano onde atravessa as asas. A partir daí, começa o lado Leste do Eixo Monumental. Ao lado da N1, está o Teatro Nacional, inspirado em uma pirâmide asteca, que dizem que o General Costa e Silva achava que era grega. No lado sul fica a bela Catedral de Brasília, em frente da qual há um campanário cuja forma exigiu tamanha ferragem para sustentá-lo que não pode mais ser considerado como sendo de concreto armado. Um amigo engenheiro chama o processo construtivo do campanário de “ferro à milanesa”. Começa, então, um monte de caixotes, como uma fileira de dominós em ambos os lados do Eixo. São os Ministérios. Os últimos dois ministérios não são em formato de caixotes, porque sabem se virar sozinhos, e é bem sabido que isso é coisa que caixote nenhum consegue fazer. São os da Justiça, ao lado da N1, e o das Relações Exteriores (ou Itamaraty), ao lado da S1: duas obras de gosto refinado.

Aí você já está na famigerada Praça dos Três Poderes, formada pelo Congresso Nacional, pelo Supremo Tribunal de Justiça e pelo Palácio do Planalto. O penicão do Congresso Nacional é o plenário da Câmara dos Deputados, e a tartarugona é o do Senado Nacional. Em frente ao Palácio do Planalto há um descampado onde está a escultura Dois Candangos, que junto com o Meteoro, que fica no Itamaraty, e a Lavadeiras, que fica na frente do Palácio da Alvorada, são, de longe, as mais belas esculturas de Brasília, bem diferentes de uma estátua-coisa, conhecida como “que porra é essa”, que fica em frente à cidade satélite de Sobradinho, e uma outra na Saída Sul do DF, chamada de “chifrudo do posto de gasolina”. Passando pelo Palácio do Planalto e seguindo em frente, estão o Palácio do Jaburu, que já foi residência oficial de muitos jaburus, e o magnífico Palácio da Alvorada. Atrás dos Ministérios, passam as vias S2 e N2.

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O fundador da cidade resolveu colocar a embaixada da então URSS bem em frente da dos EUA, com a sede da CNBB no meio das duas, ao lado da embaixada da pátria-mãe, Portugal. A francesa fica perto da britânica; a israelense, mais ou menos perto da libanesa, e por aí vai. Os gregos fincaram a bandeira da CEE ao lado da bandeira grega, talvez pra fazer fusquinha aos funcionários da vizinha embaixada da Turquia. A arquitetura das embaixadas, como a mexicana, é de encher os olhos. As da Suécia, da Noruega, da Finlândia e da Dinamarca são bastante frugais. Já a da Costa do Marfim é uma pompa que só vendo.

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Rasgando as asas, no sentido longitudinal da envergadura, de ponta a ponta, está o Eixão, uma via com três pistas de cada lado. O Eixão atravessa o Eixo Monumental pelo Buraco de Tatu, que passa por baixo da Rodoviária. Aos domingos e feriados, o Eixão fica fechado ao tráfego de veículos, vira um calçadão de dezessete quilômetros (acho que é o maior calçadão do mundo), e as pessoas aproveitam para andar em uma calçada, coisa quase impossível nos dias úteis. Há um canteiro em cada lado do Eixão, e depois de cada um deles há mais duas vias: o Eixinho L a leste, e o Eixinho W a oeste. Já me conformei com o fato de que jamais virei a saber em que língua os termos “leste” e ”oeste” começam, respectiva e simultaneamente, com as letras L e W.

Cada uma das Super Quadras (chamadas simplesmente de Quadras) conta com boa infra-estrutura e uma auto-suficiência razoável. São bastante arborizadas e há quase sempre um campinho de futebol, um parquinho infantil e uma banca de revistas. As da Asa Sul denominam-se SQS (Super Quadra Sul). A denominação das quadras da asa norte fica como tarefa de casa.

As quadras são enumeradas com três algarismos. As centenas pares ficam no lado leste das asas, e crescem à medida que se afastam do Eixinho L. As centenas ímpares ficam no lado oeste das asas, e crescem à medida que se afastam do Eixinho W. As unidades aumentam à medida que as quadras se afastam do Eixo Monumental, começando em um e terminando em dezesseis.

Ao lado do Eixinho L, ficam as quadras cujo primeiro algarismo é dois. Entre essas quadras e as que se iniciam pelo algarismo quatro (ou “quadras quatrocentos”), passa a via L1. Entre as quadras quatrocentos e as quadras 600, passa a L2; entre as 600 e as 800, passa a L3; entre as 800 e as 1000, passa a L4, e acabou, pois as quadras mil ficam nas margens do Lago Paranoá.

No lado oeste, é a mesma coisa: a via W1 separa as quadras cem das quadras trezentos. Continuando nossa emocionante viagem rumo ao oeste, atravessamos a W2, que separa as quadras 300 das 500, e a W3, que possui duas pistas com um canteiro no meio, e separa as 500 das 700. Dependendo do teor alcoólico, a W3 lembra às vezes a rua de uma cidade normal. Entre as 700 e as 900 passa a W4, e depois das 900, passa a W5, que a separa das 1100. Daí em diante, se você estiver na Asa Sul, vem o Parque da Cidade; se estiver na Asa Norte, vem o Parque da Água Mineral. E é assim que a coisa funciona. Tanto o fluxo da W1 como o da L1 são interrompidos nas quadras cujo número é um múltiplo de 4, para dar lugar a escolas, academias de ginástica e congêneres.

Não acredito que haja outra cidade tão orientada pelos pontos cardeais como Brasília. Seria, portanto, de esperar que a população os conhecesse bem. No entanto, todo mapa de Brasília é mostrado deitado de lado, com a rosa-dos-ventos apontando o oeste para cima, para que os lados direitos e esquerdo fiquem simétricos.

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A disposição das quadras é como a amarração de tijolos. A cada duas quadras, no sentido longitudinal das asas, há um Setor Comercial Local. São os SCLS, na Asa Sul, e os SCLN, na Asa Norte, também chamados de Entre-Quadras. Os que estão entre o Eixinho L e a L1 (ou o Eixinho W e a W1) ficam entre as quadras cujo número menor é ímpar. Os que ficam entre a L1 e a L2 (ou a W1 e a W2) ficam entre as quadras cujo número menor é par.

Uma coisa curiosa é a Rua das Farmácias, que fica ao lado do Hospital Sara Kubitchek. É um concorrente ao lado do outro, como em uma feira livre. Aqui é tudo setorizado. Os Setores de Diversões (tanto o norte como o sul) situam-se ao lado da Rodoviária. As zonas sul das cidades brasileiras são, geralmente, mais ricas que as zonas norte. Nos Setores de Diversão de Brasília é o contrário: o Conjunto Nacional (no norte) é relativamente elegante quando comparado com o decadente Conic (no sul). O Conjunto Nacional lembra um pouco seu homônimo da esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Parece-me evidente que um foi inspirado no outro, ou foi o outro que foi inspirado no um. O Conic já foi bem interessante, mas já faz bem uns vinte anos, que anda cada vez mais decadente.

Os Setores Comerciais (SCS e SCN), os Setores Hoteleiros (SHS e SHN), os Setores de Autarquias e os Setores Bancários ficam no que seriam as quadras 01. Nas redondezas ficam o que deveriam ser chamados de SPN e SPS, respectivamente Setores de Prostitutas Norte e Sul.

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Os edifícios residenciais das quadras são os chamados blocos, designados por letras latinas: A, B, C etc. Cada bloco tem seis andares, com exceção dos situados nas quadras 400, que possuem somente três. São sustentados por “pilotis”, grande jogada arquitetônica que permite que você circule livremente sob eles. Os blocos J e K das quadras 100 e 200, ficam defronte aos Eixinhos, talvez em homenagem ao fundador da cidade.

Qualquer bloco de qualquer quadra nunca dista mais de 200 metros de uma farmácia, padaria ou banca de revistas.

Muita gente vai te desaconselhar a morar aqui, com um argumento pra lá de idiota: “Brasília não tem esquina”, dirão. Mas quem precisa de eSQuiNa, quando se tem SQN? Você vai gostar daqui.


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A Salamandra Cor de Laranja



Eneida Coaracy


Salamandras são animais anfíbios conhecidos pela capacidade de auto-regeneração de suas caudas quando mutiladas. A rapidez com que esta parte do corpo desses pequeninos animais se regenera, após terem sofrido agressões externas, inspirou uma amiga ao escolher um presente para mim. Assim, fui surpreendida com este delicado pequeno mimo, feito de vidro alaranjado, na forma de uma espevitada salamandra.

— Como se chama este animalzinho mesmo em inglês? Perguntei-lhe ao receber o presente, pois a amiga em questão é americana.
— ‘Salamandra’. Respondeu-me. Elas têm uma capacidade incrível de se auto-regenerarem.
— Ah! Sim. Salamandra, como em português. Sei o que é... Lindinha. Muito obrigada mesmo. Você não se emenda. Está me estragando de tanto mimo. Acrescentei.

Íamos a uma festa naquele dia e o presente me foi dado antes de sairmos juntas. Voltei com a salamandrinha guardada na minha pequena bolsa de festa e, ao chegar em casa, abri o embrulhinho para admirar mais uma vez o meu precioso presente e ponderar sobre os seus muitos significados. Só uma amiga muito sensível e próxima conseguiria ligar com tanto afeto e carinho a imagem de uma salamandra à minha, neste momento tão conturbado e desafiador da minha vida.

A pequena salamandra está aqui ao meu lado, junto ao meu laptop, a sorrir-me encorajadoramente, com sua caudinha ligeiramente levantada, parecendo querer dizer-me:
— Posso ter quantas caudas quiser ter... Você também!
Miro a minha nova amiguinha alaranjada e continuo a nossa conversa telepática:
— Mas ter a cauda cortada dói muito... Acho que prefiro continuar com a minha velha cauda... Acrescentei.
— Caudas envelhecidas ficam pesadas e lentas. Acabamos por ter que arrastá-las conosco pela vida afora. Caudas novas são leves e flexíveis. Elas podem ter outros formatos e nos tornar mais ágeis e versáteis. Há que se arriscar e acreditar na transformação. Esta cauda curtinha e riscadinha de azul que tenho agora é a terceira numa seqüência de três cortes que sofri. E é a que me leva mais longe, mais rapidamente e com mais leveza. É a minha melhor conquista. Replicou a salamandra.

Olhei para trás, tentando ver exatamente onde nasceria a minha nova cauda, imaginando se seria longa ou curta, lisa ou enrugada. Teria algum detalhe azul como a da minha amiga salamandra? Para onde me levaria a minha nova cauda?

Nesta noite, sonhei que havia me transformado em uma linda salamandra alaranjada que resolvera explorar os telhados das casas vizinhas, numa viagem ao desconhecido mundo das caudas pintadas de azul, que as salamandras alaranjadas sabem desfrutar tão bem e com tanta sabedoria. E a minha nova cauda era da cor do arco-íris! Eu subia com rapidez pelos telhados e a minha cauda brilhava no escuro, iluminando a noite sem luar. Eu me sentia salamandra!

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Sarau Festas do Povo


Dia 3 de novembro
19 horas
Prédio do Cefor - Coordenação de Transportes
Câmara dos Deputados
Realização: Espaço Cultural - Cefor - Sindilegis
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sábado, 11 de outubro de 2008

O cabeleireiro fiel



Luci Afonso

— O senhor está na fila do pão? - ouço atrás de mim.
Ninguém responde.
— O senhor está na fila do pão? – uma jovem morena me cutuca o ombro.
— Não, estou na dos salgadinhos - digo, virando-me na direção da voz.
— Ah, me desculpe, eu pensei...
Sinto-me o alvo de olhares curiosos na padaria cheia. Desisto dos salgadinhos e volto para casa.

— Quem é o novo morador? - pergunta o síndico ao porteiro, ao me ver entrar no prédio. Não dá tempo de ouvir a resposta.

— Nossa! Ficou... ficou... - gagueja minha mãe ao abrir a porta. Dirijo-me ao quarto, mas, no caminho, enfrento o olhar reprovador do meu filho adolescente:
— Por que você fez isso, mãe?

Tranco a porta, pego o espelho de mão e confirmo o que vira um pouco antes no salão: de costas, pareço um homem musculoso, de ombros largos, cabeça comprida e ovalada. Poderia até ser confundido com um militar, por causa da jaqueta verde. Conto até três e me olho de frente. Os seios grandes não deixam dúvida quanto ao gênero feminino, mas o cabelo quase raspado e os traços fortes de caucasiana suscitam indagações quanto à orientação sexual.

E tudo por culpa de um coiffeur raivoso.

Conhecera Xiquinho há quase vinte anos, no condomínio onde ele morava com a mãe e no qual eu passava fins de semana. Ele fazia um delicioso doce de jaca, colhida no próprio quintal, e delicadamente me levava uma porção. Ele bordava, pintava quadros e criava animais exóticos. Era também cabeleireiro.

Desde o início, ficou maravilhado com meu cabelo, segundo ele, de tonalidade e textura raras, e me convidou para ir ao salão onde trabalhava. Aceitei o convite e saí extasiada com o resultado obtido pelas mãos do artista.

Nunca mais procurei outro. Xiquinho mudava muito, mas eu conseguia o novo telefone ou endereço e ia atrás. Aos poucos, fui aparando o corte longo, sempre contrariando meu mágico capilar:
— Não faça isso, lindinha. Eu adoro seu cabelo!
— Fica mais jovem! Pode cortar - eu insistia.
Quando chegamos ao Chanel, ele pediu:
— Vamos deixar crescer, lindinha! Sinto tanta falta...
Não atendi ao seu apelo. Eu estava mais velha, ganhara peso e ouvia em toda parte que o cabelo mais curto rejuvenescia.

Finalmente, decidi radicalizar:
— Quero bem curto e repicado - pedi a Xiquinho, assim que cheguei. Ele parecia aborrecido e não fez nenhum comentário. Pegou a tesoura e começou silenciosamente o trabalho. Sentei-me de costas para o espelho, enquanto a manicure me atendia.

Daí a pouco senti um friozinho na nuca.
— Não está muito curto? - perguntei, sem obter resposta. Tentei virar a cadeira, mas ele a prendeu com o pé e continuou a cortar, agora no topo da cabeça. De repente, a tesoura parou. Xiquinho me pôs frente ao espelho:
— Está radical, lindinha, ou quer mais? - E subiu correndo as escadas, num soluço histérico.

Passei o dia no quarto, esperando que minha sobrinha trouxesse uma bandana maneira para eu usar na rua. À noitinha, o porteiro trouxe uma encomenda deixada na recepção. Dentro da caixa forrada com tecido estampado, encontrei uma tesoura, mechas de todos os tamanhos do meu cabelo e um bilhete: “Perdoe-me, lindinha. Não consigo viver sem ele”.

Xiquinho nunca mais foi visto num salão de beleza.
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Mutilação Ortográfica


Antônio Cardoso Neto

Algum tempo após a independência dos Estados Unidos, Noah Webster concebeu um dicionário da língua inglesa sem se importar com os ditames britânicos, voltado para o povo da nação recém-nascida. Desde então, os Estados Unidos adotam oficialmente uma ortografia soberana, independente da usada na Inglaterra. E isso nunca os impediu de lerem as versões originais de Joyce, Dickens e Shakespeare, nem constituiu qualquer estorvo aos súditos de Sua Majestade ao lerem Faulkner, Poe e Twain. A reforma ortográfica da língua portuguesa, recém-imposta, é uma demonstração de que não somos “macaquitos” imitadores de gringos, e que a nossa independência da Europa é diferente da dos ianques. Ainda somos meio portugueses.

Esse negócio de acabarem com o acento do substantivo vôo não é nada mais que a admissão oficial de que, na prática, há muito tempo que os vôos não possuem mais assento, pois ainda vai chegar o dia em que “acento” e “assento” terão a mesma grafia.

Alguns hífens acabaram de uma vez por todas; ninguém os pronunciava mesmo. Deviam ter acabado com todos os hífens restantes para podermos adotar o portunhol de uma vez por todas; afinal de contas, não se escreve Merco-Sul, Mercossul nem Mercoçul, e mesmo assim ninguém chama o Mercosul de Mercozul.

Como a conjugação do verbo “parar” na terceira pessoa do presente do indicativo perdeu o acento, vejo-me obrigado a escrever “pra” no lugar da preposição “para”, o que, de certa maneira, aumenta o meu vocabulário. Deviam ter dado um fim em todos os acentos, pois não fazem a menor falta. Depois que acabaram com o acento da Petrobras, alguém a chama de Petróbras?

O trema foi definitivamente extinto. Os senadores que aprovaram a reforma poderão, finalmente, dormir trankilos, como já costumam dizer alguns deles. Parabéns!

Mas o maior motivo de exultação pela reforma ortográfica é o seu caráter popular, pois, finalmente, o Ká, o Dabliú e o Ypissilône estão de volta, para grande júbilo do Wandekleyton, do Klysterwaldo e dos jogadores de futebol em geral, além da (por que não?) Comadre Sebastiana. Este será um grande ano para as letras; principalmente para o K, o W e o Y.

***

Em diversos livros sobre lingüística, consta que o italiano é o mais regular de todos os idiomas europeus. Regularidade, nesse contexto, significa quão adequada é a escrita à fala. Em outras palavras, é uma medida que indica o número de exceções na pronúncia; quanto mais regular, menor o número de exceções. Acredito que é por ser uma espécie de latim sedentário, que o italiano acabou sendo a língua mais apropriada ao sistema de escrita criado pelos romanos. A Itália é o império romano que não parou de decair até hoje, mas isso é outro assunto do qual podemos falar outro dia.

Vivi por mais de quatro anos na Inglaterra e pude constatar a dificuldade das crianças em serem alfabetizadas em uma língua na qual não há regularidade entre fonética e grafia.

Pois bem. Embora com menos exceções que o inglês (e mesmo que o francês), o português também tem um número muito grande de exceções (exame, sexo, xadrez). Para piorar um pouco mais, uma das raras regras sem exceção foi para o quiabo recentemente, quando o presidente da república assinou o decreto que estabeleceu as novas regras ortográficas da nossa língua. Para quem gosta de ler, foi uma tristeza ter de se despedir do trema. Sei que para quem não gosta tanto faz, mas as pessoas têm de, pelo menos, saber o conteúdo do que estão assinando.

Não vou respeitar a nova ortografia. Continuarei escrevendo as minhas coisas do mesmo jeito que sempre escrevi, pois sou engenheiro e escrevo por puro diletantismo. No entanto, por ser servidor público, terei de escrever os documentos oficiais que me caem às mãos de acordo com a nova ortografia. Toda vez que eu for obrigado a suprimir o trema, lembrar-me-ei do dia 29 de setembro de 2008, mas não como sendo a data da grande queda da bolsa de Nova Iorque.
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Uma breve autobiografia



Antônio Cardoso Neto


O papa se chamava Pio XII e a guerra dos americanos era na Coréia quando surgi em Bauru (SP), quase cinqüenta e sete anos atrás, como conseqüência de uma mistura insensata de genes espanhóis, italianos e portugueses. Era quatro de dezembro, dia dedicado a Iansã, mas isso não tem a menor importância, pois sou sagitariano, e os sagitarianos não acreditam nesse negócio de astrologia e de horóscopo.

Passei a minha infância nos cafezais do norte do Paraná, e a primeira parte da juventude, no sul do estado de São Paulo. Minha primeira profissão foi no laboratório fotográfico do meu tio.

Mais tarde, entrei na USP de São Carlos, onde acabei virando engenheiro civil. Comecei a trabalhar com água e fui parar em Rondônia, onde vivi entre os suruís, os cintas-largas e outros, então, canibais.

Voltei para a USP de São Carlos e escrevi uma dissertação sobre escoamento de jatos fragmentados, saindo de lá como mestre em hidráulica. O meu orientador era paquistanês, o que fazia de mim um dos únicos pesquisadores realmente “orientados” do Departamento de Hidráulica; os demais eram todos “ocidentados”. Foi nessa época que conheci a Zaira, com quem vivo até hoje.

Continuei trabalhando com água em uma empresa de consultoria, depois fui para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e acabei indo para a Inglaterra, onde fiquei mais de quatro anos e defendi uma tese de doutorado em hidrodinâmica. Além do diploma, também trouxe de lá um efeito colateral das noites frias de Southampton, chamado Chico, que já está com dezessete anos e vai prestar vestibular no final do ano.

Trabalhei por algum tempo como pesquisador na USP em São Paulo, lecionei por dois anos na UFSC em Florianópolis e acabei passando em um concurso público aqui em Brasília. Atualmente, sou Especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas, onde trabalho com Hidrologia e Estatística. Já vi a Teoria das Probabilidades funcionar tantas vezes, que a probabilidade de que um dia desses a teoria falhe é bastante alta, fazendo com que eu acredite cada vez menos nela. Mas um dia ainda ganho na mega-sena.
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Encontro Inevitável




(Letra e música de Nestor Kirjner)



Este país já não vive sem ti.
Esta nação já é o teu coração.
Quantos brasis tua mão inventou!
Quantos brasis concebeu!
Tu vieste, eu sei, do Japão,
e aqui teu filho nasceu.
Tu vieste, eu sei, do Japão,
e aqui teu filho nasceu.

Esta mulher de beleza sem par,
olhos puxados, é brisa do mar.
Invenção de Deus, faz sonhar!
Invenção do Amor, vou-te amar.

Ô ô!
O encontro inevitável do amor!
O encontro inevitável do amor!
O encontro inevitável!
A paz!
Japão!
Brasil!
Miscigenação!

(Refrão)

(nestorkirjner@terra.com.br)

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sábado, 4 de outubro de 2008

Sopa de pedra



Luci Afonso

Quando cheguei ao foyer, ouvi o celular.
— Você vem? - perguntou a voz inconfundível.
— ...?
— À Embaixada, ora pois! Vão servir daqui a pouco.
— Servir o quê?
— A sopa! A sopa de pedra!

Senti grande desânimo e sentei-me para continuar a conversa.
— Não recebeu meus e-mails? – insistiu a amiga. — Reservei nossos lugares. São apenas cem convidados.
Meu correio eletrônico estivera estranhamente vazio nos últimos dias. Só agora me dava conta de que havia algum problema.

Há um ano eu ansiava provar a lendária iguaria da região de Almeirim, temperada com feijões, lingüiças, salames e chouriços. Na degustação literária, escritores famosos vindos especialmente de Portugal recitariam suas obras.
— Não posso ir - expliquei a situação. — Amanhã me conte como foi.

Compromissos são sagrados. Entre os inúmeros eventos culturais que agitavam a cidade, havia a peça de uma conhecida poetisa, somente naquele final de semana. Recebi o convite inesperado e aceitei sem hesitar, já que perdera outras oportunidades.

Ao saber da sopa, porém, não achava mais o programa tão interessante. Eu sentia o cheiro nas panelas antes de passar aos pratos, em conchas reluzentes.
Pensava numa boa desculpa para me evadir quando a mão suave tocou meu ombro:
— Vamos, querida? - A outra amiga havia chegado e me empurrava em direção à porta.
— Você sabe quanto tempo dura? - perguntei.
— Três horas.

Não desisto facilmente. Calculei que, pouco depois de começado o espetáculo, eu fingiria um mal-estar, iria ao toalete e de lá escaparia rumo à Embaixada. No caminho, enviaria uma mensagem de texto para evitar preocupações.

Alguém teve a idéia de se levantar primeiro. A artista interrompeu a fala, mandou a equipe técnica focalizar os holofotes na figura que subia rapidamente as escadas e indagou:
— Aonde a senhora pensa que vai?
— Ao to...a...le...te... - gaguejou a fugitiva.
— Xi...xi ou co...cô?

A moça não respondeu e voltou trêmula à sua poltrona, sob as gargalhadas da platéia. Temendo ser alvo de repreensão semelhante, desisti da fuga e fiquei quase imóvel.

Nos primeiros 60 minutos, ainda sentia o desejo de tomar a sopa, mas diverti-me com determinadas cenas. Após duas horas, esqueci-a completamente e prestei atenção às minhas pernas, que começavam a inchar por falta de circulação. Na eternidade que se seguiu, deixei de sentir o corpo cintura abaixo, não entendia o que era falado no palco e passei a rezar pelo fim do suplício.

Minhas preces foram atendidas à meia-noite em ponto. Levantei-me devagar, caminhei lentamente até a saída, amparada pela multidão, e, após despedir-me, fui mancando até o carro. Em casa, massageei as pernas com Gelol, tomei Dorflex e deitei-me, confusa e dolorida.

No pesadelo que me atormentou a noite inteira, eu segurava um prato vazio e mancava atrás do garçom, enquanto era perseguida por holofotes e por uma voz feminina que gritava:
— Aonde a senhora pensa que vai?

Fui acordada pelo telefone:
— Você perdeu! A sopa estava deliciosa e o recital, maravilhoso!
— Quando vão servi-la novamente?
— Ouvi dizer que foi a última vez. Parece que sai muito caro trazer os escritores e os ingredientes de Portugal. Como foi a peça?

Não encontrei palavras para responder.
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Cordel do Japão



Gustavo Dourado

O País do Sol Nascente:
Por Japão é conhecido...
Um haykai em borboletra
Soa em fá sustenido...
Ninjas...Deusas...Samurais:
Buscam o elo perdido...

Arquipélago: Gen do Sol:
Montanhas, vulcão e mar...
Noh...Kabuki...Ikebana:
Buda Xinto iluminar...
Sabedoria...Progresso:
Coragem para mudar...

Tecnologia de ponta:
Próspera modernidade...
Trabalho e tradição:
Honra e vitalidade...
Superação dos limites:
Nipograndiosidade...

Ilhas...Templos...Natureza:
Em Fuji...Cosmovisão...
130 milhões de almas:
Trabalham com devoção...
Parceria com o Brasil:
100 anos de integração...

Educação de primeira:
Yamato - Kamakura...
Lavra, tanka e hayku...
Arquipélago natura...
Flui poesia pelos poros:
Mishima arquitextura...

Navio Kasato Maru:
Japoneses no Brasil:
18/06/1908:
Um momento varonil...
781 lavradores:
Multiplicaram-se por mil...

Milhões de nipo-brasileiros:
Em São Paulo...Paraná...
Brasília e Curitiba:
Londrina e Maringá...
Mogi, Bastos, Assaí:
E no Estado do Pará...

Descendentes de japoneses:
Conhecidos por nikkei...
Destes os filhos que nascem:
Denominam-se nissei...
Sansei chamam-se netos
E os bisnetos Yonsei...

São muitos os dekasseguis:
Brasileiros no Japão...
Muitos foram e voltaram:
Não esquecem o quinhão...
Fazem o seu pé de meia:
E retornam ao torrão...

Watanabe...Shimizu - Onoyama:
Yamao...Iwano - Matsumoto
Takeshi...Sakamoto -Taniguchi
Okinaka..Sagae - Morimoto...
Aoki...Kano...Yuki...Miaki
Suenaga...Genji - Yamamoto...

Matsunaga...Joko, Ueki:
Shibata, Saito, Obara...
Nikui...Ueno...Raga...Hinoto:
Inoki...Inoue...Ohara...
Nakashima...Nakanishi:
Nakao...Oyama...Kihara...

Shiniashiky- Takada - Mikama:
Kurosawa - Chiaki - Kamura...
Takahashi...Nakagawa
Koshino - Honda - Nomura...
Suzuki - Sato – Awano - Ono
Yuri - Hama – Nishimura...

Sakai -Takagi - Ihoshi -
Sakemi -Yamazaki
Sawasato - Tamashiro
Egashira - Kumizaki
Miyasaka - Nishioka
Sanematsu – Ni - Ohtake...

Matsuda - Woo - Okamoto
Hiroshi - Okabe – Ohata...
Kobayashi - Kuroshima...
Okada - Echigo - Tabata...
Takai – Tiba – Mori –Eizo:
Hoyama – Kamada – Hirata...

Yamato - Edo - Oé - Bashô
Muromachi - Kamakura
Kakimoto Hitomaro
Monogatari leitura -
Kenzaburo - Kawabata:
Flui nipoliteratura...

Hiroshima - Nagasaki:
Vítimas da brutalidade...
A Paz em Memorial:
Luta pela liberdade...
Guerra é estupidez:
Destrói a humanidade...

A Terra do Sol Nascente:
Por Japão bem conhecido...
Um haykai em borboletra
Sonoro fá sustenido...
Poetas...Deuses...Samurais:
Encontram o elo perdido...





Poema declamado pelo autor no 26º Sarau da Câmara dos Deputados – Brasil-Japão
Teatro SESC Garagem
29 de setembro


http://www.gustavodourado.com.br/
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Terça Crônica





Uma grande parte da história brasileira foi contada pelos cronistas, de maneira curta e bem-humorada.
O ator Jones Schneider e o músico Alex Souza selecionaram algumas dessas deliciosas crônicas para apresentá-las em leves cenas musicadas, em um dos mais simpáticos teatros da cidade.

Teatro Goldoni/Casa d’Itália
208/209 Sul
21 horas
Entrada franca


DIA 07/10 - Crônicas de José Carlos Vieira e canções de Chico Buarque.

DIA 14/10 - Crônicas de Roberto Klotz e canções de Caetano Veloso.


Roberto Klotz escreve como se estivesse conversando. É criativo com linguagem alegre, bem humorada e entusiasmada. Observador atento a tudo que o rodeia e, como cronista, interpreta e acentua com leveza e ironia procurando surpreender o leitor ao final da história.
Enquanto aprendia a cozinhar escreveu um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para recuperar o peso, o médico recomendou que caminhasse. Escreveu crônicas para pessoas que caminham com os olhos fechados.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira