sábado, 29 de setembro de 2007

Bandeira 2








Acordo sentindo uma leve tristeza na manhã de sábado. Cai uma chuva fina desde a noite passada.
Finalmente vou buscar meu carro na oficina. A revisão demorou mais que o esperado, e por isso andei de táxi uma semana. Chamo o Sr. José Maria para nossa última corrida, já com saudade das suas histórias.
Ele quase não dormiu. Está com os olhos vermelhos e a barba por fazer, mas ganhou um bom dinheiro com as chamadas noturnas:
21 horas. Jorge contrata uma garota na 314 e a leva até o Colorado. As preliminares têm início já no carro e se prolongam no estacionamento do motel, enquanto o casal aguarda uma vaga.
21h40min. Selma segue o marido até uma boate no Conic. Há muito tempo ele não a procura. Está desconfiada de que tem outra mulher.
22 horas. Mel vai comemorar 45 anos com amigas no Gilberto Salomão. Seu pedido secreto de aniversário é encontrar um homem bonito e carinhoso com quem passar a noite.
23 horas. Bernardo, viúvo há um ano, vai até o Alpino’s, no Parque da Cidade, tomar um chope e procurar companhia. Pode ser feia, mas tem que ser alegre.
23h30min. Rosilene termina o trabalho no banco. São apenas 2 quadras até a quitinete onde mora, mas a esta hora ela não se arrisca a ir a pé. Como faz toda noite, o amigo taxista espera embaixo do bloco até que ela suba em segurança.
1 hora. Selma flagra o marido com um travesti, sente-se mal e precisa ser levada ao HRAN. O Sr. José Maria acompanha o atendimento no hospital, certifica-se de que ela está bem e informa a família sobre o ocorrido.
3 horas. Mel encontrou um belo rapaz de 20 anos e o traz para casa. No trajeto, os dois homens conversam sobre futebol.
4 horas. Bernardo despede-se das novas amigas, que o colocam no táxi. O porteiro ajuda a levá-lo até o apartamento. Pagará a corrida no dia seguinte, como de costume.
6 horas. Jorge acerta a conta do motel e dá à garota 70 reais pelo programa. O táxi os espera no portão. O casal se aconchega e cochila no banco de trás.
O Sr. José Maria retorna à casa-ponto. Faz café, fecha os olhos por alguns minutos e sonha com sua plantação de milho molhada pela chuva fina. Adormece sentindo uma leve tristeza na manhã de sábado.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Linguagem

Anabe Lopes









Busco nos recônditos da lembrança
a linguagem da plebe em que fui formada
e linguagem do amor e da dor em que fui gerada

Sorverei o perfume dessa flor teimosa
Que vomitará o tédio,
Sobre o negro asfalto,
De piche, de pedra e de sangue


Ela expressará o sentido da seiva
corrente nas artérias
do homem morto sob o asfalto
que fará nascer uma esperança amarela
De um futuro negro,
E haverá mais flores rompendo o nojo
Teimosas e amarelas flores
Amarela esperança.

Decifrará dor de que somos feitos
Desfará o nó de existir

Despencará no mundo escurecido
Iluminado canto alegre
de pássaros teimosos
ao nascer de um dia
teimoso e ensolarado
que vencerá a poluição
e simplesmente

brilhará!!
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domingo, 23 de setembro de 2007

Cala a boca, cachorro!

Acabamos de nos mudar para o apto. 105. Quem mais sente a mudança é nossa cadelinha Vivi, que, acostumada a ficar solta na chácara durante quase cinco anos, agora está confinada.
No primeiro dia, nervosa, faz o n° 1 no elevador, por azar, no momento em que o vizinho do 106 desce, descalço, para pegar o jornal. Ele pisa na poça, percebe o que é e vai direto reclamar à síndica.
Recebo a primeira notificação do condomínio, lembrando os cuidados necessários com os animais. Curiosamente, o cachorro da síndica, seu amigo inseparável, tem livre trânsito no prédio. Engulo a advertência.
Vivi está mais calma. Uma manhã, porém, não se segura a caminho do parque e faz o n° 2 ali mesmo na escada — a empregada tinha sido instruída a não mais usar o elevador. O vizinho também não o usa mais e sai nesse instante para o trabalho. Desce, apressado, e resmunga quando um chiclete parece pregar no sapato. Chegando à garagem, olha melhor e dá um grito ouvido em toda a vizinhança. Segunda notificação, ameaçando o descumpridor das regras com multas.
Passam-se algumas semanas. No domingo, eu mesma levo Vivi para passear. Ponho sua coleira. Saímos. A luz do corredor está queimada, e levo um minuto para encontrar a chave. Uma porta se abre, de repente, um vulto aparece na escuridão e ela avança nele, para me proteger. O vizinho do 106 vai à lixeira, solta um urro e volta correndo para o apartamento. Desta vez, a carta do condomínio cita artigos do Código Penal.
Três meses sem incidentes. É sábado. Vou passar a noite fora e não posso levar Vivi. Arrumo sua caminha, ponho ao lado água, comida, brinquedos e saio, tranqüila. No dia seguinte, o porteiro me informa que ninguém dormiu no prédio porque ela uivou e arranhou a porta a noite toda. O vizinho do lado também passou a noite gritando com ela para que calasse a boca, sem sucesso. Começo a pensar em levá-la de volta, mas seu olhar meigo me comove. Resolvo não deixá-la mais sozinha.
Alguém bate à minha porta. É ele.
— A senhora sabe o que aconteceu? Por que não opera as cordas vocais dela? Eu não agüento mais! - E desabafa: no apartamento de cima, dois cachorros latem sem parar e não o deixam dormir; agora que Vivi mora ao lado, ele olha duas vezes antes de pisar no corredor; em frente, um Rotweiller enorme e feroz rosna sempre que o vê.
Eu lhe respondo que não maltrato animais e sugiro que vá morar numa casa ou num local mais distante. Ele se sente indignado, e avisa que fará abaixo-assinado para expulsar Vivi. Escrevo carta de desabafo ao Correio Braziliense, que é publicada sob o título Preconceito. Muitos leitores se solidarizam comigo. Um deles sugere uma campanha: Salvem Vivi! O caso gera polêmica e, depois, cai no esquecimento.
Faz um ano que moramos no apto. 105. O abaixo-assinado obteve poucas assinaturas e foi arquivado. Vivi andava triste e está de novo na chácara, onde corre atrás de passarinhos, borboletas e outros bichos sem incomodar ninguém. O vizinho do 106 se mudou. Os cachorros continuam latindo.


(Vivi morreu no mês passado. Que esteja em paz no céu dos cachorros!)
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sábado, 22 de setembro de 2007

Canção de amor


Anabe Lopes






Te encontro no beijo do vento,
um sopro no tempo.

Nos olhos da lua te vejo,
a todo momento.

Almas de flores flutuam,
no céu de um abraço.

No abraço um beijo de vida,
remanso, riacho.

Mágica essência da terra,
desliza o momento.

A voz suave da chuva,
sussurra o teu beijo.

Olho no céu um lampejo,
no azul horizonte

Da água que escorre em meu corpo,
renasce um desejo.

Da espuma das ondas do mar,
divino carinho.

Ao som dessas águas azuis,
grito seu nome.

E o mar te entrega um segredo,
na areia da praia.

E na eternidade das ondas,
eu posso te ter.
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sábado, 15 de setembro de 2007

O eqüino estrangeiro

Leonardo Oliveira







O eqüino estrangeiro, despedaçado pelo seu passado, avistava o horizonte, deslumbrado, quando chegou à fazenda. Receoso, logo avistou uma criança no alpendre da enorme casa. Foi quando os olhares se entrelaçaram.
Por trás do sorriso sutil e dos olhos famintos, a criança escondia um amor puro e colorido, como as violetas e margaridas sorridentes em sua janela. Não havia brutalidade ou manchas de uma vida desgastada. Era puro.
O olhar da criança confortou o eqüino.
Aos poucos, ele foi juntando seus remendos e renasceu pelas mãos da criança que, todas as manhãs, acordava para contemplá-lo do alpendre de sua casa.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Silêncio



Anabe Lopes










E de repente acordei
E tudo era silêncio
Um silêncio que cortava o corpo do sonho ao meio
Uma enorme cachoeira silenciosa
Os pássaros ensaiavam os sons
e produziam só o silêncio
e o silêncio reproduzia um grito de dor
As crianças vinham a mim sorrindo
e suas palavras silenciosas
calavam mais a minha alma
que vertia lágrimas silenciosas
E a nossa música passou a ser o silêncio...






Tenho (?) 41 anos e 4 filhos. O tempo que tenho é o que virá, se vier,e passará, porque quando paramos para pensar o agora ele já é passado. Os filhos são do mundo e os consagro a Deus, e que sejam atores e construtores da vida e da fé. A poesia é minha forma de provar intensamente a vida, de vivenciar a sensação de habitar o espaço entre o ser o não ser, o crer e o não crer, o viver o não viver, o fazer e o não fazer... o dizer e o não dizer; esses espaços plenos de sentimento de mundo em que nossas almas dançam entre a realidade e o sonho. É minha forma de não calar, mesmo sabendo que a palavra escrita é só a ponta do iceberg dos sentimentos e sentidos que moram em nós... Não calar é a forma humana de lutar e de ser um elo na corrente que, fortalecida, resistirá às opressões, e a resistência é o princípio da mudança...

As crianças têm flores nos olhos
E sonhos nas mãos!
Os brutos, armas nas mãos e pedra no coração.
Os homens, a poesia.


anabels@tcu.gov.br




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domingo, 9 de setembro de 2007

É meu!



— É meu! É meu! É meu! - A mulher saiu correndo da outra ponta do bloco e veio gritando furiosa em minha direção, debaixo da forte chuva. Já eram 14 horas e, aparentemente, ela também estava atrasada para o trabalho.
— Não, dona, eu sou é dela - explicou calmamente o Sr. José Maria, saindo do táxi e apontando para mim.
— Mas eu chamei faz tempo! - ela insistiu.
— Foi radiotáxi? É assim mesmo: a senhora paga menos, mas espera mais. Já deve estar chegando.
Ficamos os três ensopados, enquanto ela se convencia de que eu não roubara o táxi que ela esperava há mais de 20 minutos.
— A senhora pode me ceder a vez? - suplicou ela, me oferecendo uma nota de 10 reais. Eu estava meio dura, mas nem me passou pela cabeça aceitar a oferta. O Sr. José Maria valia muito mais.
— Desculpe, o chefe corta o meu ponto - menti. Para sorte de todos, o radiotáxi dela chegava nesse instante. Despedimo-nos e nos acomodamos nos respectivos carros.
— Tem gente que se desespera à toa, né? – comentou meu motorista. Enquanto falava, ele passava um pano grosso no vidro. A chuva se transformara em tempestade, e em poucos minutos o carro estava completamente embaçado.
— Ainda bem que eu estou tranqüilo - continuou ele. — Só esperando desinchar a gengiva para fazer o implante. Tem que cortar no osso e...
Fiquei preocupada com a possibilidade de um acidente.
— O senhor não prefere ligar o desembaçador? - sugeri.
— Seria bom, mas quebrou.
Ele viu o meu cabelo molhado.
— A senhora quer uma toalha? No porta-luvas tem uma que eu sempre uso.
— Não precisa...
— Está limpinha, lavei a semana passada...
— Obrigada, não.
— A senhora imagina que está difícil até lavar roupa? No ponto não tem tanque, só uma pia...
— Ponto?
— É, eu não contei para a senhora? Estou morando no ponto de táxi, para economizar. Só até janeiro, quando eu termino de pagar umas dívidas. Tem um quartinho bom lá, o pessoal me deixou ocupar. O problema é o telefone, que toca sem parar. De noite diminui um pouco, eu dou umas cochiladas. Também aproveito a bandeira 2. Faltam dois cheques da cerca...
— Cerca?
— É, comprei umas terras no Goiás, tive que cercar antes de comprar as vacas. Saiu quase 10 mil. Mais 6 mil do dentista... Quando eu pagar os cheques, vou morar na roça. O problema é que roça não dá dinheiro. Vou ter que alugar a permissão do táxi para pagar a maldita...
Desta vez, interroguei-o somente com os olhos.
— Minha ex-mulher. A senhora acredita que pago 500 reais a ela todo mês? O pior é que não pode atrasar, dá cadeia. Já se foi a casa, agora é a pensão. Será justo?
Não tive tempo de pensar numa resposta.
— Parece que ela arrumou outro, bebe feito um condenado, nem trabalha. Estou sustentando dois vagabundos.
A esta altura, estávamos envoltos num denso nevoeiro, como nos filmes americanos, só que dentro do carro. Os outros veículos eram vultos assustadores que se moviam à nossa volta. Comecei a temer pela nossa segurança, mas o Sr. José Maria parecia acostumado a dirigir nessas condições.
— O seu marido também é funcionário público? - indagou, tranqüilo, como se o sol brilhasse firme naquela tarde de quarta-feira.
— Sou separada - respondi.
— A senhora me desculpe, mas bonitona desse jeito? - O olhar curioso me encarou no retrovisor, enquanto a mão continuava esfregando o vidro.
— Fui eu que quis - justifiquei.
Um vulto gigantesco apareceu à nossa direita: era o Anexo IV.
— Como é que a senhora consegue vaga aqui a esta hora?
— Tenho vaga privativa - respondi, procurando o dinheiro na bolsa.
— Amiga dos figurões?
— Não, cargo de direção.
— Hum, a senhora deve ganhar bem... - insinuou ele, piscando o olho direito.
Na próxima vez, definitivamente, o radiotáxi.
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Nostalgia



Leonardo Oliveira










E todos aqueles momentos mais do que especiais que tive o privilégio de viver um dia continuam guardados a sete chaves dentro do meu peito. São como cachorrinhos recém-nascidos: frágeis por demais. Tenho medo até de relembrá-los além da conta para que não sejam mudados. Não quero estragá-los. Não, em hipótese nenhuma! Seria irreversível. Seria como perder um amigo num acidente de carro. Mas acho que foram no mínimo corrompidos por mim e pela minha terrível necessidade de praticar o verbo "lembrar". É como se fosse um antidepressivo: a nostalgia cura meus momentos de dor e solidão. O que posso fazer?
O melhor mesmo é que tais momentos continuem guardados até que chegue a próxima tarde vazia e nostálgica. Quem sabe amanhã, talvez.
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Experiências em Palavras




(Revista da Casa — Câmara dos Deputados, n° 76, 04/09/07)





Traduzir pensamentos e experiências em palavras, esse é o objetivo da servidora do Departamento de Taquigrafia (Detaq) e escritora, Luci Afonso. De suas vivências do cotidiano, a mineira de Araxá tirou os temas para suas crônicas que geraram o primeiro livro publicado pela funcionária da Casa. “Velhota, eu?” que foi lançado no dia 2 de abril e garantiu à escritora a participação na 26ª Feira do Livro de Brasília.
Luci Afonso, filha mais velha de quatro irmãos, mudou-se para Brasília ainda criança, em 1971, acompanhando o pai comerciante e a mãe, que foi funcionária da biblioteca da Câmara. A servidora do Detaq, que ingressou na Casa em 1985, conta que seu interesse pelas letras surgiu ainda na infância e foi retomado agora com a participação nas oficinas culturais da Câmara. Ela revela que o livro foi todo escrito nas Oficinas de Crônicas do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares. Do convívio nesses grupos surgiu a idéia e o apoio para construção da obra.

A servidora lembra que sempre escreveu o mesmo tipo de texto, mas que foi somente nas oficinas, sob coordenação do professor Marco Antunes, que descobriu o que eram: crônicas. Sua primeira produção publicada foi uma crônica, no 1° livro de Literatura de Câmara de 2004, uma coletânea de textos dos participantes das Oficinas da Casa.

A escritora, mãe de um menino de 11 anos, diz que escreve sobre temas do cotidiano, geralmente coisas que acontecem durante seu dia-a-dia. A crônica que deu nome ao livro, foi escrita a partir de um episódio envolvendo a autora e um jovem que se dirigiu a ela como velhota, relata a mineira de gestos contidos, que completa “deu uma crônica engraçada”. Bom humor, aliás, é o ponto em comum dos escritos da servidora do Detaq.

No prefácio do livro “Velhota, eu?”, escrito pelo professor Antunes, ele destaca: “É crônica tudo aquilo que for manchete na alma do cronista. Desabem sobre o mundo as torres da insensatez humana, para o cronista, no entanto, sem traumas ou vergonha, a grande notícia do dia pode ter sido a morte de um simples quati na garagem de seu prédio”.

Para escrever, Luci Afonso conta que possui um espaço bem tranqüilo em casa e prefere se dedicar à atividade pela manhã. O prazer em escrever pode ter vindo de outro hábito: a leitura. Entre as prediletas dela estão os poetas Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado; e os cronistas Fernando Sabino, Rubem Braga e Caio Fernando Abreu. Por falar em Sabino, o escritor define crônica dizendo que ela “busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um”.

Desde os 11 anos morando em Brasília, a mineira diz que aprendeu a gostar da capital. Ela participa de saraus declamando poemas. Foi em um desses saraus, que acontecem de dois em dois meses, que foi lançado o livro “Velhota, Eu?”, no teatro Sesc Garagem.

A servidora cursou letras na Universidade de Brasília (UnB) e trabalha com revisão de textos aqui na Casa, o que acredita facilitar seu trabalho como escritora. O artesanato também faz parte da rotina da escritora, que produz garrafas com sementes e figuras para presentear amigos.

Luci diz incentivar seu filho a ler, mas revela decepcionada: “por enquanto ele ainda não gosta”. Para ela cada um tem seu tempo para simpatizar com os livros. “De repente pode surgir o interesse pela leitura”, opina.

A participação na 26ª Feira do Livro de Brasília foi um incentivo da editora, segundo Luci Afonso. “Eles reservaram um horário no estande deles para eu divulgar o livro”, diz ela. Sobre a experiência? “Estou muito animada, já contratei até fotógrafa”.

Além do livro “Velhota, eu?”, Luci Afonso mantém um blog onde são publicados seus textos inéditos e o trabalho de amigos escritores. O espaço permite a ela ter um retorno sobre seu trabalho. “No blog tem a opinião de alguns autores, inclusive portugueses, sobre o meu livro. Mandei pedindo uma opinião e eles responderam”, afirma.

Futuramente, a escritora planeja publicar mais uma coletânea de crônicas e adianta que o 2° livro de Literatura de Câmara já está em fase de revisão e terá um texto de sua autoria. Luci Afonso ainda participa como jurada do 1º desafio dos contistas promovido pelo professor Marco Antunes.
Para conhecer mais o trabalho da escritora: http://luciafonso.blogspot.com/

Participação na 26ª Feira do Livro de Brasília: dia 04/09/07 das 14h às 15h e dia 06/09 das 21h às 22h. Stand 9, da Thesaurus Editora.
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sábado, 1 de setembro de 2007

História de uma vida após a morte

Leonardo Oliveira




Ainda não estava certo de sua missão. Não, certeza era algo que ele nunca havia tido. Talvez fosse mesmo só mais um indeciso no meio da multidão, ou talvez tivesse mesmo nascido para mudar o mundo. Nem que fosse de forma anônima, com a ajuda do seu “eu” escondido no mais profundo infinito de si mesmo, ele mudaria o mundo.
Quando criança, teve medo de fantasmas. Não tinha medo de cobras, altura ou mesmo da morte, mas de fantasmas. Eles espreitavam seus pensamentos e o perseguiam até em seus sonhos. Já não bastasse toda aquela metamorfose infernal pela qual os garotos tinham de passar a certa altura da vida, as coisas só fizeram piorar. O seu céu, mais lindo que uma pintura expressionista, mais claro que a água do alto mar e mais limpo que a areia das dunas do deserto, se fechou. Uma nuvem negra apareceu de supetão, trazendo consigo um temporal e, em seguida, uma neblina. Era tão forte que chegou a embaçar seus olhos, deixando-o permanentemente cego. Durou.
Todo aquele medo que parecia ter sido enterrado junto ao seu passado voltou à tona, medo esse tão poderoso que acabou por consumi-lo em sua totalidade, destruindo-lhe os órgãos vitais — cérebro, pulmões e coração — e deixando-lhe uma mancha marrom-escura permanente em seus sonhos e lembranças. Até que, num dia nublado e vazio, algo aconteceu.
Não havia tempo para aquele desespero humano desnecessário, pois tudo passou num piscar de olhos. Ele pôde sentir sua garganta comprimindo-se cada vez mais e sua pele transpirando sem hesitar. Sentiu também algo espremendo seu coração até que gotas cristalinas de sangue começaram a escorrer pelos cantos de seus lábios. Durante os últimos batimentos cardíacos que esta terra haveria de ouvir, sua vida inteira passou diante de seus olhos, como se ele estivesse em um cinema sombrio. Foi nesse filme da vida que ele viu um garotinho trancado em seu quarto, escondido debaixo de suas cobertas e rezando para que os fantasmas não o pegassem. Porém, aquele garotinho era como um elefante: não sabia a força que tinha.
De repente, como uma nuvem de poeira, todo o seu medo desapareceu, e o grande mistério fora então desvendado: ele havia nascido para mudar seu próprio mundo. Ele, então, renasceu.
(Imagem: "Beatrice", Odilon Redon, 1885.)
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Comentário sobre "Velhota, eu?"




caríssima luci,

estive viajando uns tempos, de forma que só agora pude ler o seu livro (cujo envio muito lhe agradeço). e digo-lhe: gostei muito. concordo que crônica é tudo aquilo que for manchete na alma do cronista. apenas, nem todos os cronistas sabem fazer manchetes do cotidiano. e, não em todos os textos, mas em alguns você soube. e muito bem. velhota, eu?, felicidade, eu tenho!, agonia e êxtase, são alguns desses casos. tem-se por histórico colocar como marco da crônica o rubem braga. tudo bem, é um marco. mas o mundo não parou nos jardins da cobertura da rua barão da torre. assim como o mundo avançou (retrocedeu?), a arte da comunicação também. os novos usos da palavra transformaram a arte de escrever. digo-lhe isto pra quê? apenas pra repetir o que escrevi acima: gostei do seu livro. mais de umas, menos de outras, mas no total, a média das suas crônicas é muito boa.
abraços do
cunha de leiradella


*


Prezado Cunha de Leiradella,

Agradeço-lhe muitíssimo a gentileza de ler e comentar meu livro. Fico feliz que tenha gostado.
Sua opinião é importante para mim.
Um grande abraço,
Luci

*

ô luci, a minha opinião vale nada, não. é apenas opinião. o importante é você própria ter gostado do que escreveu. isso é que importa, estar satisfeita com o seu trabalho, viu?
abraços do
leiradella




Cunha de Leiradella nasceu em 1934, em Póvoa de Lanhoso, Portugal, e morou durante mais de quarenta anos no Brasil. Foi fundador do TUCA-Rio (Teatro Universitário Carioca), em 1965, e do Sindicato dos Escritores do Estado de Minas Gerais, em 1985. Sua obra inclui peças de teatro, contos e romances. Atualmente reside em Portugal, na casa em que nasceu.

leiradella@sapo.pt



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Menininha





Mil passos até a Igreja Matriz, onde foi batizada e recebeu a primeira comunhão. No sábado à tarde, sempre encontrava a porta fechada quando ia se confessar. No domingo de manhã, vestido bordado, meias três-quartos e sapatos de verniz, ajoelhava-se sob o olhar indecifrável dos anjos, temerosa de haver cometido algum pecado.
Quinhentos passos até o grupo escolar, onde Dona Lourdes, a faxineira, a consolava quando as outras meninas não a deixavam entrar na roda. No dia da padroeira, era escolhida entre todas as alunas para coroar Nossa Senhora Aparecida e, de roupa branca, subia trêmula e solene os degraus até a estátua de manto azul.
Duzentos passos até a lojinha da Boa Vista, onde uma vez cobiçou um diadema cor-de-rosa na vitrine. Voltava toda semana para comprá-lo, mas já fora vendido e outro estava para chegar. Depois de algum tempo, teve a certeza de que jamais conseguiria o que desejasse — melhor não querer.
Cem passos até a Rua São Vicente, onde brincava em bandos, alheia, por um breve momento, às despedidas que já se anunciavam. O asfalto cobriu os pequenos rastros e os carros abafaram os gritos do pique-pega ou da caça ao tesouro.
Cinqüenta passos até o alpendre de casa, onde era criticada com veemência por gigantes enfurecidos. Imaginou se vingar desistindo de tudo o que pudesse lhe trazer alegria, punindo-se em dobro a cada ato de desamor.
Um passo até o espelho, onde aguardei a vida inteira para aconchegá-la em meus braços. Ela se aproxima no vestido bordado, meias três-quartos, sapatos de verniz e descansa no meu colo, certa de não haver cometido nenhum pecado.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira