segunda-feira, 24 de março de 2014

A lenda do pé de jambo


Luci Afonso

Dizem que há muito tempo, numa pequena cidade do interior do Brasil, viveu uma menina de pele clara e perfumada como o jambo. Seu nome era Joaninha. Sua família era grande e pobre. O pai vendia queijos na rua, mas o pouco que ganhava era gasto com a pinga. A mãe trabalhava na casa de uma senhora rica e só tinha folga no sábado à tarde. Joaninha era a mais velha de sete irmãos. Chegava da aula, fazia o almoço, servia as crianças e cuidava delas até a noite. Quando o pai chegava bêbado, os irmãos pulavam na cama e fingiam estar dormindo. Ela punha a janta e depois o ajudava a se deitar.
Era a hora favorita de Joaninha. Ela pegava o livro que sempre trazia da escola e sentava num toco de árvore no fundo do terreiro, embaixo da luz do poste. Nesse cantinho, lia estórias de pessoas felizes, que tinham tudo o que desejavam. Quando acabava de ler, pensava com força: quero ser feliz, quero ser feliz, quero ser feliz.

Uma noite, a menina observou que o toco onde sentava para ler havia crescido e tinha galhos e folhas. Com o tempo, o pé de joaninha, como as crianças o chamavam, se transformou em árvore. Joaninha subia até o alto, onde continuava lendo e pensando com força: vou ser feliz, vou ser feliz, vou ser feliz.
Uma vez o pai voltou sem cheiro de bebida, e daí em diante nunca mais bebeu. As crianças esperavam por ele no portão, pulavam no seu colo e o beijavam sem medo. Outra vez, a mãe arrumou um emprego com folga diária. Por essa época, um perfume doce começou a invadir a casa. Enquanto os outros dormiam, Joaninha subia na sua árvore alta e florida, apanhava as pequenas flores brancas e guardava seu perfume entre as páginas do livro, recitando com força: sou feliz, sou feliz, sou feliz.

Passou um ano. Os pais trabalhavam, Joaninha ia à escola e cuidava dos irmãos. A renda do casal aumentara, e aos poucos eles conseguiam reformar a casa e encher a despensa. A menina continuava subindo no pé de jambo, agora com cuidado para não esmagar os frutos de pele clara e perfumada. Uma noite subiu tão alto que sumiu entre as nuvens e nunca mais desceu.
Dizem que, quando um pé de jambo começa a dar seus frutos cheirosos, é Joaninha que vem abençoar nossa casa. Nesses dias, devemos ler uma página de qualquer livro e agradecer com força: somos felizes, somos felizes, somos felizes.

 
 
Lindas Lendas Brasileiras. Antologia lançada pela Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA), Scortecci Editora: São Paulo, 2014


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Sposa




 
Luci Afonso
 

            Io la vidi non appena attraversò il portone di legno. Il lungo vestito la faceva levitare. Era alta ed esigua come un eucalipto, i lunghi ricci castani erano sul punto di esplodere come l’infiorescenza rossa del flamboia[1].

            – La casa sarà lì – disse lei, indicando l’angolo opposto al quale mi trovavo.

            Scelse un piccolo ciottolo e lo sotterrò nel futuro locale della costruzione.

            – È lanciata la pietra fondamentale – lei proclamò, sorridendo. (È stata un’impressione, o il sole in quel momento ha brillato più forte?)

            Tolse i sandali ed attraversò il fiume, bagnandosi i piedi e l’orlo del vestito nell’acqua fresca. Dopo, venne fino alla foresta e benedisse ogni albero, come una generosa madrina. Arrivò vicino a me.

            – Che specie è questa? – domandò.

            – Non so – rispose l’uomo che la accompagnava. – È quasi morta, non produce nemmeno più fiori. Possiamo tagliarla, se lo desidera.

            Lei accarezzò il mio corpo rinsecchito e le mie braccia supplicanti.

            – No, voglio farla rivivere – e mi legò con affetto. (È stata un’illusione, o in questo momento la linfa mi ha percorso con più vigore?)

            Le mie radici tremarono di paura e piacere. L’uomo aveva ragione: io avevo rinunciato a fiorire. Generavo alcuni pallidi feti in un unico periodo dell’anno, che alle volte morivano nel giro di ore, senza aver ricevuto nemmeno uno sguardo.

            Nei mesi successivi, ogni volta che visitava il cantiere, Ísis veniva da me e si appoggiava al mio tronco. Intonava, in una lingua estinta, la canzone della rinascita, che imparò in altre vite e che spargeva per il mondo fin dall’inizio dei secoli. Io proteggevo la sua morbida pelle con la piccola ombra delle foglie che cominciavano a germogliare, mentre si restaurava in me il desiderio di fiorire.

            Venne la siccità, cantarono le cicale, caddero le piogge. Quando la casa fu pronta, sentì che era giunto l’istante tanto atteso. In questo giorno, lei si vestì di bianco. Si avvicinò lentamente, mi abbracciò e mi domandò:

            – Vuoi sposarmi?

            Riunendo la linfa accumulata durante anni, ruppi i bottoni di seta che si aprirono senza paura, tessendo un velo lucente per la mia sposa.

            – Voglio – risposi in fiori.

 
 
Pensieri in Parole. Antologia bilíngue português-italiano, Edizioni Mandala: Milão, 2013
 



[1] Albero originario delle Antille dai fiori rossi.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira