quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Prêmio Rubem Braga de Crônicas




E-mail recebido do Secretário Municipal de Cultura de Campos do Jordão, Benilson Toniolo, comunicando o resultado do Prêmio Rubem Braga de Crônicas



Em Ter 21/01/14 21:19, premiorubembraga premiorubembraga@bol.com.br escreveu:

Prezados Amigos,
É com grande alegria que anunciamos o resultado final do Prêmio Rubem Braga de Crônicas, organizado pela Secretaria Municipal de Cultura de Campos do Jordão através da Biblioteca Municipal Prof. Harry Mauritz Lewin.
O concurso recebeu um total de 126 textos, sendo 08 de autores jordanenses e 118 do restante do País. Participaram escritores de 64 cidades de 13 Estados brasileiros  ( SP, RJ, MG, RS, GO, BA, AL, PI, PE, PR, SC, CE E AM, além do DF).
A entrega dos prêmios aos vencedores da categoria Autor Jordanense será feita durante a 3. Exposição dos Escritores de Campos do Jordão, em data ainda a ser anunciada pela Secretaria de Cultura. Os vencedores da categoria Autor Nacional receberão suas premiações pelos Correios.
Os vencedores foram:
AUTOR NACIONAL
LUGAR
AUTOR
CIDADE
TEXTO
1.
Luci Afonso de Oliveira
Brasília, DF
Mãe Mar
2.
Túlio Fernando Mendanha de Oliveira
Inhumas, GO
Do Primitivo ao Civilizado
3.
Sarah Passarella
Campinas, SP
Nastácia Tá Aqui…
AUTOR JORDANENSE
LUGAR
AUTOR
TEXTO
1.
Adriana Maria Russo Moysés Harger
Esperança
2.
Viviane Maria dos Santos
O Escravo, os Sapatos e Um Coração de Homem
3.
Sérgio Franklin da Silva
As Fases da Lua dos Enamorados da Madrugada

Nossos agradecimentos a todos os que, com sua participação, prestigiaram mais esta iniciativa cultural realizada em Campos do Jordão.
Um grande abraço a todos e até a próxima!
Benilson Toniolo

http://luciafonso.blogspot.com.br/2011/07/mae-mar.html


Comentários no Facebook:

Onã Silva Entrei no blog e li a crônica. Lindos sentimentos em forma de palavras. Luci Afonso, acho que é em todo ventre morno que está o segredo da mãe-mar que nasce para amar. Um abraço.
10 de maio de 2014 às 22:03

Leonardo Oliveira Ô meu Deus, que coisa linda!
10 de maio de 2014 às 22:05

Carla Moises Que lindo!
10 de maio de 2014 às 23:00

Sandra Regis Beijos aas duas. Parabéns.

11 de maio de 2014 às 14:52 


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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Antologia é voar em bando



Lançamento oficial da antologia bilíngue português-italiano "Pensieri in Parole"no Brasil. 
Casa das Rosas, São Paulo. 22/01/14.
Edição: A.C.I.M.A Mandala
Organização e apresentação: Mariana Brasil
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domingo, 19 de janeiro de 2014

Dias perfeitos


Foto: Tânia Tiburzio
Cecília Meireles

Dias perfeitos são esses em que a Metereologia afirma, vai chover e chove mesmo: não os outros, quando se anda de capa e guarda-chuva para cá e para lá, até se perder um dos dois ou os dois juntos.
Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, excetuando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.
Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; o ônibus não vem em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.
Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa ou, se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.
Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.
Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos!...)
Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.
Dias perfeitos são esses em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.
Dias perfeitos, esses em que voltamos para a casa e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranqüilos e felizes como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno.


Cecília Meireles. Crônicas para jovens. São Paulo: Global, 2012.
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O primeiro a gente nunca esquece




Modesto, mas precioso.
Fotos: Décio Dias França
(A crase no titulo do conto é do revisor.)
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Festa



Cecília Meireles

Entre muros brancos de fortaleza, o som do piano. A sombra do piano projetada nos muros brancos, desconforme. Duas mãos pequenas fazem toda aquela música, rumorosa, grandiosa: aquele oceano sentimental.
É um mundo de cravos vermelhos presos em fitas douradas; de rendas, de joias enormes.  
Os parapeitos derramam-se para a noite, para o espaço, para a via láctea. E as moças nos: parapeitos são outras vias lácteas, são cometas diáfanos, com seus longos vestidos vaporosos, seus cabelos em nuvem, a fosforescência da sua ornamentação.  
Em toalhas de renda com laços cor-de-rosa, iremos comer manjar branco, com umas colheres de prata que a luz fosca dos grandes lampiões converterá em longos peixes esguios, de cauda blasonada.
A noite cálida tem uma frescura subterrânea, em redor dessa mesa descomunal, de um tempo de fidalgos gigantescos, treinados em cavalgadas, caçadas, espadas — mas também com certo requebro lânguido, fadigas saudosas de linhos macios, cristais lapidados, cestas, leques, refrescos...
 A dona da casa é uma rainha de raça misteriosa, toda enrolada em seda branca das espáduas à ponta dos pés. Com diadema de rosas e diamantes, continuará sentada em seu trono — que é uma enorme cadeira de balanço — de onde acompanhará vagamente a apaixonada cadência do piano e o movimento geral da festa.  
E uns rapazes de cabelos cetinosos, com grandes olhos do século XVI, virâo servir em frágeis porcelanas um café que perfuma o palácio, a ilha, o mar. E com o café, o açúcar, o tabaco, as bebidas ardentes recordarão que estamos num lugar de palmeiras e canaviais, com tapetes de areia morna franjada de espumas verdes e azuis.
É um mundo de cravos vermelhos, de luzes antigas, e espelhos suntuosos, por onde deslizam pessoas fora do tempo, que ao som do piano se tornam completamente irreais.
Do lado da terra, ouve-se o abafado planger da fonte, em sua bacia de pedra. Os insetos zunem, estalam, ciciam: há uma teia de músicas a estender-se na sombra.
Do lado do mar, uma solidão imensa, e o luar nas águas.
Há uma angústia de perfumes, uma excitação romântica, uma sensação de ternura e fatalidade, como se esta noite fôssemos todos morrer de amor.
Mas talvez seja apenas porque o palácio tem estes muros grossos de fortaleza, e em redor é a noite, e em redor é o mar — e o piano canta uma espécie de melancolia que transforma a festa numa cerimônia humana muito pungente, sem nada do cotidiano, mas só de memórias e desejos essenciais.  

Cecília Meireles. Crônicas para jovens. São Paulo: Global, 2012.
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domingo, 5 de janeiro de 2014

Devagar e perigosa


Luci Afonso

Acabo de descobrir que sou mais uma vítima da síndrome do carro na garagem — SCG.
De início notei que andava mais lenta:
— Ô lesma!
— Ô roda presa! 
— Morreu, vó?
Depois comecei a perder o controle de embreagem:
— A senhora comprou a carteira no Goiás? — perguntou a dona do Voyage cujo para-choque amassei na tesourinha da 112.
  Logo em seguida, vieram as manobras perigosas, feitas numa espécie de transe. Quando eu percebia, estava prestes a bater.
— Sua loooouca! — gritou a mulher do Corsa que desviou por milagre, quando saí bruscamente de uma agulhinha.
O trânsito de Brasília é um costurar sem fim, mas depois de 25 anos sem multas nem acidentes, fui surpreendida pela fobia ao volante. Senti-me incompetente. Começaram as cobranças:
— Você está gastando demais com táxi — comenta Tia Afonsina.
— Cadê o carrão? — pergunta o porteiro do prédio para onde acabo de me mudar.
A síndrome do carro na garagem — SCG atinge pessoas ansiosas e perfeccionistas, com alto grau de exigência consigo mesmas e com receio da desaprovação alheia — assim dizia o folheto que recebi no Curso teórico de iniciação à superação do medo de dirigir, do Detran. As 32 horas/aula não serviram para nada. O segundo passo foi agendar vinte aulas práticas no Centro de Reabilitação de Condutores (CRC), com taxa de aprovação de 99%. Só não entrei nessa estatística porque me apavorei com a ideia de sair de carro, mesmo com o instrutor ao lado.  
Fico admirada ao ver pessoas dirigindo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Atualmente só ando no banco de trás, porque também desenvolvi a síndrome do banco do passageiro — SBP —, que costuma seguir a SCG, dando a sensação de que o veículo está desgovernado e de que a qualquer hora vai acontecer um desastre. Felizmente, o meu atual motorista é meu ex-marido, que dirige muito bem. Por coincidência, aprendeu comigo.
O último passo foi procurar os Motoristas Ansiosos Anônimos (M.A.A.), cujo lema é O importante é tentar. A maioria dos membros convive há anos com a SCG/SBP, além de síndromes derivadas.

Graças à ajuda do grupo, toda manhã desço até a garagem, entro no carro, afivelo o cinto e ligo o rádio. Depois de ajustar os retrovisores, dou a partida. Me dá um suor frio, as pernas tremem, o coração dispara, mas não desisto. Com muita calma, movimento o carro para frente e para trás até me certificar de que não vou conseguir sair. Só então chamo o táxi. 
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira