domingo, 31 de outubro de 2010

Li e Amei


Fiquei encantada com o livro "Estou na quadra", de Fátima Bueno, Thesaurus Editora, 2010, e o recomendo a todos os que amam Brasília, em especial a Asa Norte.








 Conheça o projeto Iconografia Aplicada DF, que Fátima Bueno integra como artista plástica.

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domingo, 24 de outubro de 2010

40º Sarau da Câmara dos Deputados


Serviço
Baile de Máscaras em Veneza - 40º Sarau Literomusical da Câmara dos Deputados
Data: 25/10/2010
Hora: 20 horas
Local: Teatro Garagem do SESC na 913 Sul.
Coquetel: festival de massas com vinho

Entrada franca
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sábado, 16 de outubro de 2010

Esta primavera


Luci Afonso

Esta primavera vou ficar em casa.

Deitada no sofá, ouço o grito suicida das cigarras. Debruçada na varanda, recolho pingos frescos de chuva, os primeiros e os últimos. À noite, a lua atravessa a persiana do quarto e ilumina meu corpo, enrodilhado no lençol de quinhentos fios egípcios.

Companhia, só quero a do filho, da mãe e do gato, prolongamentos espontâneos de mim. Vozes, somente a dos fantasmas queridos, das crianças bem pequenas ou dos velhinhos solitários. Carícias, apenas a do vento que gentilmente me refresca o rosto.

Os homens não me olhem: estou feia. Os amigos não me procurem: estou ausente. Para quê encontrar pessoas? Já conheci todas que posso suportar.

Não preciso de fatos — o mundo gira sem mim. Só me interessam a folha caída na grama e o poema sussurrado pela árvore antiga.

Desvaneço nesta primavera invertida. Embrenho-me na profundidade escura da terra para implodir meu canto, até que a morte branca do ipê venha me nutrir de seiva bruta para a próxima estação.
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Carta




Mário Quintana
Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? — perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?


(Poesia Completa, Ed. Nova Aguilar, 2006)

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domingo, 10 de outubro de 2010

A rosca




Luci Afonso

— Já chegou?

— Será que vem hoje?

— Está atrasado!

— Custava telefonar?

Todo dia aguardava-se ansiosamente a chegada do Túlio, muito querido pelo temperamento alegre e brincalhão, mas, principalmente, pela deliciosa rosca rainha que trazia há quase vinte anos para o café da manhã. Alguns colegas vinham trabalhar em jejum para saborear a iguaria; outros, mais antigos, que já poderiam ter se aposentado, não o faziam por causa da rosca. A copeira, Dona Joana, apesar do diabetes, sempre garantia um pedaço. Ninguém conseguia se concentrar no trabalho antes de comer uma fatia.

Às 9h40min, Túlio descia a escada com os cheirosos embrulhos. Sempre trazia acompanhamentos: pães de queijo quentinhos, bolos variados e pães de mel. Um adolescente ficava à porta, encarregado de dar o sinal: — Chegou! — a notícia se espalhava e, em minutos, o corredor estava lotado.

A fama da rosca ultrapassara as fronteiras da seção e alcançara os ouvidos do Diretor, que abriu espaço na agenda para provar a guloseima. Após fartar-se (dizem que até lambeu os dedos), fez questão de cumprimentar o funcionário:

— São servidores abnegados como V.Sa. que engrandecem a instituição.

— Obrigado, Excelência — respondeu Túlio, emocionado.

— V.Sa. poderia dar a receita ao meu chefe de gabinete?

— Não posso, Excelência. Segredo de família.

— Tenho disponível uma FC-5...

— Lamento, Excelência. Prometi à minha avó.

— No leito de morte?

— Não, ela ainda está viva.

— Tudo bem, então. Se mudar de ideia, podemos até pensar numa FC-6...

— Muito grato, Excelência.

Com o tempo, constatou-se que a rosca tinha propriedades medicinais. Uma colega que sofria de depressão crônica e que tentara, sem êxito, várias terapias, acreditava ter sido curada graças à fatia ingerida diariamente. Um senhor da Seção de Finanças atribuía à mesma causa a recuperação da vista no olho esquerdo. Uma senhora paraplégica do Anexo IV voltara a andar. Um recém-concursado vítima de grave acidente recebeu a rosca por via intravenosa e saiu do coma.

Nas pesquisas anuais do Departamento de Recursos Humanos, a rosca era apontada, pela maioria dos entrevistados, como o principal fator de motivação no trabalho. Túlio, no entanto, permanecia alheio às repercussões do seu nobre gesto. Nem a ida ao Programa do Jô, nem a Medalha de Honra ao Mérito recebida do Presidente Lula abalaram a humildade tuliana.

Apenas um fato alterou a rotina do generoso homem: em sociedade com a avó, precisou abrir uma padaria e confeitaria para atender à crescente demanda. A Túlio’s Roscas acaba de ser eleita, pela “Revista VEJA Brasília - Comer & Beber 2009/2010”, o melhor estabelecimento do gênero no Distrito Federal.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira