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Janela, porta, prisão, palavra

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Mario Benedetti “Ter notícias suas é como abrir uma janela, mas então me dá uma vontade quase irreprimível de abrir mais janelas e, o que é mais grave, de abrir uma porta. (..,) Uma porta é muitas coisas. Quando está fechada, e sempre está, é a clausura, a proibição, o silêncio, a raiva. Se abrisse. (...) seria a recuperação da realidade, da gente querida, das ruas, dos sabores, dos cheiros, dos sons, das imagens e do tato de ser livre. Seria, por exemplo, a recuperação de você e de seus braços e de sua boca e de seu cabelo (...) para chegar às palavras filho, mulher, amigo, rua, cama, café, biblioteca, praça, estádio, praia, porto, telefone, é imprescindível transpor a palavra porta.” (Trecho de Primavera num Espelho Partido . Alfaguara: Rio de Janeiro, 2018.)

Saramago e as palavras

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“Estranha relação é a que temos com as palavras. Aprendemos de pequenos umas quantas, ao longo da existência vamos recolhendo outras que vêm até nós pela instrução, pela conversação, pelo trato com os livros, e, no entanto, em comparação, são pouquíssimas aquelas sobre cujas significações, acepções e sentidos não teríamos nenhumas dúvidas se algum dia nos perguntássemos seriamente se as temos. Assim afirmamos e negamos, assim convencemos e somos convencidos, assim argumentamos, deduzimos e concluímos, discorrendo impávidos à superfície de conceitos sobre os quais só temos ideias muito vagas, e, apesar da falsa segurança que em geral aparentamos enquanto tateamos o caminho no meio da cerração verbal, melhor ou pior lá nos vamos entendendo, e, às vezes, até, encontrando.” “Ao contrário do que geralmente se pensa, as palavras auxiliadoras que abrem caminho aos grandes e dramáticos diálogos são em geral modestas, comuns, corriqueiras, ninguém diria que perguntar, Queres um café,...

As palavras

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Luci Afonso O primeiro canto da cigarra este ano foi em 19 de setembro, às 17 horas e 50 minutos. Desta vez, não me trouxe alento. Durante toda a minha vida adulta, esse canto inicial me dava coragem. Hoje ele não é suficiente: quero também a chuva para dormir; a voz da mãe para acalentar; o riso do filho para valer a pena; as pessoas para me cuidarem; as palavras para me ressuscitarem. Eu e as palavras é uma longa história. Não sei quando começou, nem quando vai acabar. Andam magoadas comigo, porque eu lhes disse que não as amava mais. Menti para que não sofrêssemos. Não nos encontramos há meses. Eu as julgava perdidas, mas, de repente, me vi pensando nelas, nos momentos que passamos juntas sem sentir as horas, sem nos importar se era dia ou noite, sem precisar de ninguém. As palavras poucas e belas. As tranquilas, as nervosas, as instigantes. Puras ou não, fortes, sempre fortes, segurando-me as mãos. Com elas aprendi o amor incondicional. A recompensa da espera. O...