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Mostrando postagens de Junho, 2013

A velhinha trêmula

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Luci Afonso
Dona Flor desce do carro com o auxílio do motorista e da cuidadora. Está atrasada. Caminha a passos de bebê até a porta, cumprimenta todas num fiapo de voz e é instalada na cadeira mais próxima do lavatório. As meninas estão a postos. — Tratamento completo hoje, Dona Flor? — pergunta Marijô. — Sim, por favor, querida. Mais a hidraaaatação. — A raiz tá grande, né? — É, minha filha, faaaalta de tempo. — Loira ou morena? — Loiiiiríssima. — Tem festa hoje? — Não, só manuuuutenção. Dona Flor empaca nas vogais. As meninas já estão acostumadas. Os cabelos são ralos como os de uma jovem espiga de milho. No alto da cabeça, um pequeno espaço descoberto, que Marijô disfarça penteando os fios de lado. — Vai pintar a unha, Dona Flor? – Sônia se aproxima com os apetrechos de manicure. — Sim. Tem o Deeeeesejo? — Novinho! Ela estende as mãos: — Desculpe, estou treeemendo um pouco hoje. — Tudo bem. É bom que dá uma sacudidinha — brinca Sônia. A pedicure traz a bacia com água morna. — E o pé, a senhora vai…

Senhora dos Gatos na Livraria Cultura

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Canto das Letras

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O programa Canto das Letras é apresentado pela carismática dupla Jones de Abreu e Isolda Marinho.

Ando esquecendo as palavras

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Luci Afonso
Ando esquecendo as palavras. Ontem, em meio a uma onda de calor, procurei aquele objeto feito de varetas e de papel fino, geralmente rendado, que as damas usavam para se refrescar no século XIX. Encontrei-o numa prateleira, meio escondido entre os livros. Abanei-me longo tempo antes de lembrar como se chamava. No Verdurão, esqueci o endereço para mandar entregar as compras. Era 210 ou 211? Apartamento no quarto andar, que número? Do telefone de casa, só sabia o prefixo. Ao preencher o cheque, forcei a memória antes de perguntar à moça do caixa em que ano estávamos. Pedi à empregada que cozinhasse aquele tubérculo cor de vinho, meio duro, e o servisse em rodelas, junto com a salada. Ela entendeu perfeitamente. Em conversas com amigos, com frequência interrompo o falante para dizer o que estou pensando, porque no minuto seguinte terei esquecido. Depois lembro de novo, mas o assunto já é outro. É assim: lembro, esqueço, lembro, esqueço, esqueço. Parei de escrever. Redigi uma mens…