domingo, 23 de junho de 2013

A velhinha trêmula



Luci Afonso

Dona Flor desce do carro com o auxílio do motorista e da cuidadora. Está atrasada. Caminha a passos de bebê até a porta, cumprimenta todas num fiapo de voz e é instalada na cadeira mais próxima do lavatório.
As meninas estão a postos.
— Tratamento completo hoje, Dona Flor? — pergunta Marijô.
— Sim, por favor, querida. Mais a hidraaaatação.
— A raiz tá grande, né?
— É, minha filha, faaaalta de tempo.
— Loira ou morena?
— Loiiiiríssima.
— Tem festa hoje?
— Não, só manuuuutenção.
Dona Flor empaca nas vogais. As meninas já estão acostumadas.
Os cabelos são ralos como os de uma jovem espiga de milho. No alto da cabeça, um pequeno espaço descoberto, que Marijô disfarça penteando os fios de lado.
— Vai pintar a unha, Dona Flor? – Sônia se aproxima com os apetrechos de manicure.
— Sim. Tem o Deeeeesejo?
— Novinho!
Ela estende as mãos:
— Desculpe, estou treeemendo um pouco hoje.
— Tudo bem. É bom que dá uma sacudidinha — brinca Sônia.
A pedicure traz a bacia com água morna.
— E o pé, a senhora vai pintar? — pergunta Edileusa.
— Claro, querida, Deeeeesejo! Falar nisso, cheeeegou meu creme, Rose?
— Qual é mesmo? — quer saber a dona do salão.
— Reeeenew intensive. O meu está quase acabando.
— Mando levar assim que chegar.
— Ele é muiiiito bom — ela se examina no espelho. Não há mais espaço para rugas, mas elas estão lisinhas, como se tivessem sido engomadas a ferro.
— Hora dos remédios — lembra a cuidadora.
— Que saco essa remedaiada! Me dá a baaaaaanana.
Ela só consegue engolir a dezena de comprimidos que toma diariamente junto com pedaços de banana. A cada comprimido, faz uma pausa dramática e uma careta.
— É triste fiiiiicar velha, minha filha. É uma doençada que a gente descoooobre...
Dona Flor Prazeres dos Santos tem oitenta anos supervividos. Frequenta o Rose Cabeleireiros há pelo menos duas décadas, quando ainda não tinha o Parkinson. Nesse período, perdeu parte dos movimentos, teve de acostumar-se com o tremor, com a dificuldade na fala e na deglutição.
A vaidade, porém, permaneceu intacta. Na agenda cheia, a manhã de sexta é reservada para cuidados com a beleza. Os outros dias ela dedica aos cuidados com a saúde, à ginástica para idosos no parque, a reuniões dos grupos literários e comunitários de que participa e a providências diversas. Na maturidade, publicou alguns livros que não conseguiu vender e que ainda distribui aos amigos ou dá como presentes de Natal (faltam apenas quatro caixas, com cem livros cada uma). Ainda gosta muito de ler, mas já não escreve.
À noite, Dona Flor não perde o Jornal Nacional. Depois, entra no Facebook, onde tem 231 amigos. Gosta de atualizar seu perfil com fotos tiradas pela neta. Curte, compartilha e, às vezes, posta alguma reflexão sobre a vida, geralmente tirada dos livros. Só não tem paciência com jogos idiotas.
Bom mesmo é o sábado, que passa com a única neta, agora com 22 anos. É verdade que ultimamente ela traz o chato do namorado, mas Dona Flor não deixa que ele estrague o dia. Simplesmente o ignora, enquanto comenta as notícias da semana.
— E a Dilma, que vaaaaia, hein? E a maniiiiifestação, você não está indo, né, filha? E o Neymar, quaaaaantos gols!
No domingo... Bem, no domingo, Dona Flor descansa porque já não tem idade nem saúde para fazer extravagâncias.                                                          
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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Senhora dos Gatos na Livraria Cultura


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Canto das Letras



O programa Canto das Letras é apresentado pela carismática dupla Jones de Abreu e Isolda Marinho. 
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domingo, 9 de junho de 2013

Ando esquecendo as palavras




Luci Afonso

Ando esquecendo as palavras. Ontem, em meio a uma onda de calor, procurei aquele objeto feito de varetas e de papel fino, geralmente rendado, que as damas usavam para se refrescar no século XIX. Encontrei-o numa prateleira, meio escondido entre os livros. Abanei-me longo tempo antes de lembrar como se chamava.
No Verdurão, esqueci o endereço para mandar entregar as compras. Era 210 ou 211? Apartamento no quarto andar, que número? Do telefone de casa, só sabia o prefixo. Ao preencher o cheque, forcei a memória antes de perguntar à moça do caixa em que ano estávamos. Pedi à empregada que cozinhasse  aquele tubérculo cor de vinho, meio duro, e o servisse em rodelas, junto com a salada. Ela entendeu perfeitamente.
Em conversas com amigos, com frequência interrompo o falante para dizer o que estou pensando, porque no minuto seguinte terei esquecido. Depois lembro de novo, mas o assunto já é outro. É assim: lembro, esqueço, lembro, esqueço, esqueço.
Parei de escrever. Redigi uma mensagem de despedida para meu blog e cogitei tirá-lo do ar. Logo comecei a ter aquela sensação esquisita, aquela agonia que dá a gente não sabe por quê. Um peso no peito, um cansaço nos ombros. Consultei o cardiologista, que ouviu atentamente a descrição dos sintomas. Dei sorte em encontrar um médico com capacidade de abstração. Ele diagnosticou com facilidade a síndrome da abstinência de palavras, muito comum em determinados grupos de risco, e prescreveu o remédio mais eficaz: um parágrafo três vezes ao dia, de início, com aumento gradativo da dose até alcançar a melhora desejada.
O tratamento começa a surtir efeito. Neste domingo, acordei com vontade de escrever e corri para o computador, com medo de esquecer a vontade. Lembrei das pessoas que precisam do que eu digo. Aconteceu também de ler as palavras de uma amiga, saídas daquele órgão que bate sem parar e bombeia sangue para o corpo. As palavras dela despertaram as minhas, e por isso estou aqui.
Acontece de repente, igual a quando a gente reencontra o que havia perdido, ou igual a quando o sol da manhã invade o apartamento que acabou de acordar. Daqui a pouco lembro o nome dessa coisa boa, que só a palavra me dá.

Imagem: www.facebook.com                                                                                             

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira