sábado, 27 de agosto de 2016

A banca exterminadora


Luci Afonso

Apoiei-me bem no tampo da mesa, dei um grito e levantei-me, ignorando a dor dilacerante nas coxas. Abaixo da cintura, tudo doía. Era preciso enorme esforço para levantar da cadeira ou da cama. O ortopedista diagnosticara inflamação no ciático. Isso porque, nos últimos três meses, eu passara horas incontáveis ao computador, escrevendo meu Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar da idade, era a primeira vez que eu fazia o TCC. Quando mais jovem, eu começara a faculdade quatro vezes sem terminá-la. Sempre a mesma história: eu passava no vestibular, iniciava o semestre, ia desanimando, começava a faltar e acabava deixando o curso.
Desta vez, pretendia me formar. O fluxo curricular se invertera, porque eu havia abandonado o Estágio Supervisionado II por medo dos alunos. Agora, ao TCC se seguiriam dois semestres de estágio obrigatório, mas eu só conseguia pensar num problema de cada vez. Terminada a Licenciatura, planejava fazer uma breve pausa, e logo depois uma pós-graduação. Tinha inveja quando alguém me dizia: “estou fazendo uma pós”.
Eu escrevera 51 páginas, 15.397 palavras, 82.971 caracteres sem espaço, 98.205 caracteres com espaço, 401 parágrafos e 1.688 linhas. Consultei vinte livros, 17 artigos acadêmicos, 4 teses de mestrado, uma de doutorado, dicionários diversos. Dediquei especial atenção ao aporte teórico. A orientadora estava satisfeita com o resultado. Senti-me confiante.
Chegou o dia da apresentação. Arrumei cabelo e unhas, vesti uma roupa social. Contratei o serviço do UberBlack e convoquei meu filho a me acompanhar, depois de convencê-lo a tomar banho e a trocar de roupa. Saímos com bastante antecedência, porque a universidade era longe. Eu fazia o curso a distância. Esse seria meu primeiro contato com os professores.
Encontrei a orientadora bem antes do horário agendado, para fazermos os acertos finais. Ela estava aflita porque o PowerPoint ficara muito extenso e ela precisara cortar dezessete slides. Sem problema, eu disse. Meu filho se encarregaria da projeção.
A examinadora chegou um pouco atrasada por causa do trânsito. Era a única na plateia, o que me deixou nervosa: não havia mais ninguém para eu olhar. Aplicando os conhecimentos adquiridos na Oficina de Retórica feita há uns dez anos, adotei o olhar de paisagem, que não se fixa em nenhum ponto específico. Isso me ajudou a suportar os longos quinze minutos da apresentação.
Terminada a defesa da monografia, sentei-me para ouvir as considerações da mestra. O trabalho estava muito bom, ela disse, exceto pelo aporte teórico: eu confundira a análise de discurso de linha francesa com a análise de discurso de linha inglesa. São teorias opostas.
Ela havia lido as 51 páginas no fim de semana e fez questão de explicar cada anotação. Minha confiança foi diminuindo aos poucos. Uma lágrima ameaçou despontar no olho direito. Mantive-me firme enquanto pude, para não causar nenhum trauma ao meu filho, mas desabei quando ela disse que eu havia apenas tangenciado o aporte teórico.  Levantei-me com um grito de dor e pretendia sair correndo da sala, mas elas me abraçaram e me fizeram sentar novamente, enquanto uma delas buscava um copo d’água.
— Não estressa, mãe — disse meu filho, segurando meu ombro.
— Não fique assim, isso é comum — informou a orientadora.
A linguagem acadêmica é muito diferente da literária. Se eu fosse escrever uma crônica, também teria dificuldade — completou a examinadora
À medida que eu me acalmava, elas discutiam uma forma de me ajudar. Decidiram que eu receberia a nota mínima, sob condição de refazer o trabalho em trinta dias, e que conforme o resultado minha nota poderia aumentar. Aceitei.
Enquanto aguardo novas instruções, faço fisioterapia motora para coluna lombar, coxas, joelhos e mãos. Tudo continua doendo, mas estou tranquila: entre mim e o diploma, apenas dois semestres de estágio com alunos da rede pública de ensino. O que pode dar errado? Tenho certeza de que me formarei até os sessenta anos. Depois, vou parar de estudar. Pensando bem, pós-graduação para quê?


#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira