domingo, 16 de fevereiro de 2014

This spring


Luci Afonso
This spring I'll stay home.

Lying on the couch, I hear the suicidal scream of cicadas. Leaning over the balcony, I gather fresh drops of rain, the first and the last. At night, the moon crosses the blinds of the bedroom and lights up my body, curled on the Egyptian 500-thread sheets.

As for company, I only want my son's, my mother's and my cat's, spontaneous extensions of myself. Voices, only those of dear spirits, of small children, or the lonely elderly. Caresses, only those of the wind, which kindly refreshes my face.

Men, don't look at me: I'm ugly. Friends, don't look for me: I'm absent. Why meet people? I've met all I can stand.

I don't need facts – the world spins without me. I'm only interested in the leaf fallen on the grass and in the poem whispered by the ancient tree.

I fade away in this inverted spring. I penetrate the dark depths of the earth to implode my singing, until the white death of the Ipê tree comes to nourish me with the raw sap for the next season.

(Ouça este texto em Crônica&Voz, gravado por Eneida Coaracy.)


                                  

Esta primavera
Esta primavera voy a quedarme en casa.
Acostada en el sofá, oigo el grito suicida de las cigarras. Asomada al balcón, recojo gotas frescas de lluvia, las primeras y las últimas. A la noche, la luna atraviesa la persiana del cuarto e ilumina mi cuerpo, enrollado en la sábana de quinientos hilos egipcios.
Compañía, sólo quiero la del hijo, de la madre y del gato, prolongaciones espontáneas de mí. Voces, solamente la de los fantasmas queridos, de los niños pequeños o de los viejitos solitarios. Caricias, sólo la del viento que gentilmente me refresca el rostro.
Los hombres que no me miren: estoy fea. Los amigos no me busquen: estoy ausente. ¿Para qué encontrar personas? Ya conocí a todas las que puedo soportar.
No preciso de hechos — el mundo gira sin mí. Sólo me interesan la hoja caída en el césped y el poema susurrado por el árbol antiguo.
Desvanezco en esta primavera invertida. Me oculto en la profundidad oscura de la tierra para implosionar mi canto, hasta que la muerte blanca del lapacho venga a nutrirme de savia bruta para la próxima estación.


                                


Esta primavera

Esta primavera vou ficar em casa.

Deitada no sofá, ouço o grito suicida das cigarras. Debruçada na varanda, recolho pingos frescos de chuva, os primeiros e os últimos. À noite, a lua atravessa a persiana do quarto e ilumina meu corpo, enrodilhado no lençol de quinhentos fios egípcios.

Companhia, só quero a do filho, da mãe e do gato, prolongamentos espontâneos de mim. Vozes, somente a dos fantasmas queridos, das crianças bem pequenas ou dos velhinhos solitários. Carícias, apenas as do vento que gentilmente me refresca o rosto.

Os homens não me olhem: estou feia. Os amigos não me procurem: estou ausente. Para quê encontrar pessoas? Já conheci todas que posso suportar.

Não preciso de fatos — o mundo gira sem mim. Só me interessam a folha caída na grama e o poema sussurrado pela árvore antiga.

Desvaneço nesta primavera invertida. Embrenho-me na profundidade escura da terra para implodir meu canto, até que a morte branca do ipê venha me nutrir de seiva bruta para a próxima estação.  
                                               
(Imagem: Detalhe de ilustração de Márcia Bandeira e Lelo)
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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Prêmio Melhores Poetas 2014


                                       Hotel Golden Tulip Regente, Rio de Janeiro, 08/02/2014


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O gato sou eu


 


 

Fernando Sabino

 

Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.

— Continuou dormindo.

— Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.

— Que espécie de gato?

— Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.

— A que você associa essa imagem?

— Não era uma imagem: era um gato.

— Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?

— Associo a um gato.

— Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.

— Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.

— Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.

— Uma projeção do senhor?

— Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.

— Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.

— Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.

— Em quem o senhor está falando?

— Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos, dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

— Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.

— Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.

— Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?

— Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.

— Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?

— Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.

— E eu insisto em dizer: não é.

— Sou.

— Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.

— Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…

— Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?

— É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.

— Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.

— Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.

— Já disse que o gato sou eu!

— Sou eu!

— Ponha-se para fora do meu gato!

— Ponha-se para fora daqui!

— Sou eu!

— Eu!

— Eu! Eu!

— Eu! Eu! Eu!

 

Fernando Sabino. O gato sou eu. Contos brasileiros. Editora Record, 1984.
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sábado, 1 de fevereiro de 2014

A arte de não fazer nada


Cecília Meireles

Dizem-me que mais de metade da humanidade se dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco da afirmativa. Não existe tal quantidade de gente completamente inativa: o que acontece é estar essa gente interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem consequências úteis para o resto do mundo.  
Aqui me encontro num excelente ponto de observação: o lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.
E não posso dizer que não estejam fazendo nada aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras, atentos ao trote ou ao galope do animal.
Há homens longamente parados a olhar os patos na água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem todos juntos, enfileirados, clã obediente, para a noite que conhecem, no pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados, á beira de um lago tranquilo. De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não sabemos – nem eles mesmos sabem – se este homem não vai aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto, como se não estivesse fazendo nada.
Assim os rapazinhos que se divertem em luta violenta, derrubando-se uns aos outros, procedem a uma avaliação de forças, de golpes de habilidade: lições de assalto e defesa, postas em prática espontaneamente. Pode algum curso ser mais interessante do que este, que encontra já os alunos vivamente dispostos a segui-lo? E aqui pelo salão fala-se de coisas que muitos julgariam fúteis: de jogos de cartas, do valor convencional de ases e coringas. Mas os que assim conversam estão de tal modo necessitados desses conhecimentos como outros, neste mundo, de uma leitura filosófica ou científica. Não se pode, em sã consciência, dizer que não estejam fazendo nada.  
Mesmo estas mocinhas que trouxeram para a vitrola seus ruidosos discos americanos e ainda recomendam: "Ponha bem alto! Ponha bem alto!", embora conversem de outra coisa e não prestem nenhuma atenção à música, estão escravizadas ao seu ritmo, que vão acompanhando com os ombros, com as mãos, com requebros da cabeça. Não estão fazendo nada? Mas estão disciplinando a sua própria cadência; estão acertando pelo compasso da época (se é pior ou melhor esse compasso, quem o ousará dizer?) a sua própria vida, como o colegial que acerta, em pauta dupla, sua caligrafia.
Não, não; estou desconfiadíssima de que a tal arte de não fazer nada não existe. Pois estas senhoras, certamente, vieram para aqui a fim de não se dedicarem a coisa nenhuma: e eis que encontram trabalhos dobrados, pois a cada hora do dia pensam em mudar de roupa e em se fazerem mais originais e mais bonitas. E os cavalheiros que as acompanham, com tanto tempo que agora têm à sua disposição, dedicam-se a gentilezas e solicitudes que representam um trabalho meritório, sem dúvida, mas delicado e ininterrupto. Quem falou em férias, em descanso, em arte de não fazer nada? As pessoas mais disponíveis são as que vêm tratar da saúde. Pois de manhã cedinho já estão vestidas, a caminho do balneário, onde lutam com os seus cálculos e alergias, em vigorosos banhos, em duchas e massagens. E atravessam a manhã ocupadas com o relógio, a controlarem os goles d'água de seus copinhos. E atravessam o dia ocupadas com a sua dieta e o seu descanso, de modo que seria grande injustiça imaginar que não estejam fazendo nada.
Até as crianças, que gozam da fama de uma existência de contínua gratuidade, tentam, à tardinha, brincar de roda, recitar versos, dançar e cantar, o que lhes custa um enorme esforço, pois as tradições vão desaparecendo. E é tudo assim. Não vejo nada inativo: nem estas nuvens que parecem paradas, nem estes passarinhos que voam para o norte, nem o cavalo abandonado à margem da estrada, que meneia a cauda indolentemente. Apenas, talvez haja um valor e uma hierarquia nessas atividades. Mas quem sou eu, para defini-las e recomendá-las?

Cecília Meireles. O que se diz, o que se entende. Crônicas. Ed. Nova Fronteira, 1980.




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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira