sábado, 27 de fevereiro de 2010

Última Música


Luci Afonso



— Adoro esta hora! — ela pensou, mais uma vez, às 11:11.

Amava os números, especialmente o número um. O início, o princípio, o começo de tudo. A unidade, a totalidade, a completude. Procurava-o em jornais, revistas e placas de carro. Reverenciava-o na tela do computador.

Coisas boas sempre aconteciam nesta hora — o nascimento do filho mais velho, a compra da casa, a confirmação do novo emprego. Todo dia fechava os olhos e agradecia em silêncio as bênçãos recebidas.

Depois se sentia disposta a cumprir a agenda frenética, assinalando em verde os assuntos já resolvidos; em azul, os encaminhados; e em vermelho, os pendentes. Num dia normal havia, em média, vinte itens.

No topo da lista de hoje estava o aniversário de casamento, que seria em quinze dias. Ela já cuidara de todos os detalhes. Comprara o vestido, reservara o restaurante, enviara os convites, contratara os músicos. Faltava apenas escolher a roupa do marido, dos filhos, dos pais e das irmãs, além de providenciar o material para a decoração, que uma amiga se oferecera para fazer.

— Adoro comemorar! — dizia. Na véspera de datas especiais, fazia questão de ficar acordada até meia-noite para dar início à comemoração e só a concluía à meia-noite seguinte, sem desperdiçar um minuto sequer de alegria. Terminado um evento, começava imediatamente a planejar o próximo. Tanto a celebrar e tão pouco tempo!

Tinha paixão pela dança. Às segundas e quartas-feiras, fazia a do ventre; às terças e quintas, a de roda; às sextas e aos sábados, ia a shows; aos domingos, ligava o som bem alto e rodopiava pela sala. No carnaval, arrastava a família para a Sapucaí e se esbaldava no samba. Decorava os enredos das escolas e cantava até ficar sem voz. Voltava ao trabalho com o corpo dolorido, já antecipando os momentos mágicos de que desfrutaria no ano seguinte.

Às vezes, em meio a uma festa, esquecia-se do motivo da celebração e sentia uma tristeza antiga, que a acompanhava desde menina. Não se deixava abater: corria ao banheiro, abraçava-se em frente ao espelho e dizia: — Adoro viver! —, antes de voltar ao salão para dançar até a última música.
#Compartilhe:

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Chatinho e ruinzinho


Luci Afonso


Adoro receber comentários maldosos: eles me inspiram a escrever. A resposta pode levar anos — quanto mais madura, melhor —, mas também acontece de vir rápido, sempre na linguagem escrita, em que sou mais fluente.

Há cinco anos, um jovem me chamou de velhota. O incidente rendeu meu primeiro livro. Alguns meses atrás, outro desocupado registrou a opinião de que sou velhota, sim. Grande título para minha próxima obra.

As gentilezas não param. Na semana passada, um nobre comentarista achou meu texto “chatinho e ruinzinho”, ou “ruinzinho e chatinho”, não lembro direito. Tudo bem que não tenha gostado do que escrevi, mas que intimidade é essa? Não somos colegas de bar! Aceito críticas feitas com civilidade, ingrediente que sempre incluo nas minhas. Infelizmente, tanto no mundo real quanto no virtual, gentileza nem sempre gera gentileza. Só nos resta o recurso extremo: recusar comentário.

Quem navega na blogosfera sabe que é difícil postar comentários em qualquer página: é preciso se identificar, fornecer o endereço de e-mail, escrever o texto, confirmar o código de letras e dar o.k. É surpreendente que alguém se dê a todo esse trabalho para dizer merda (desculpem a expressão, só uso em último caso).

De três, todas: chatinha e ruinzinha é a vida do nobre comentarista; é a mãe; é a avó. Com todo o respeito.


#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira