domingo, 27 de maio de 2012

Pois é, peraí...



Luci Afonso
Acabamos de nos mudar para o último andar, que não tem copa. Dona Ridica, a copeira do andar inferior, controla seu pequeno reino como uma déspota, interrompendo, sempre que necessário, a conversa ao telefone:  
(Pois é, minha filha. Você sabe que sou uma pessoa feliz, satisfeita. Amo minha família. Meu marido, meus filhos, meus netos, todos me respeitam. Minhas noras, então! Peraí...)
— A senhora vai levar três copos? Precisa tudo isso? Aí eu fico sem nenhum. Quanto mais eu ponho na bandeja, mais vocês pegam! Se puser dez, pegam dez. Se puser vinte, pegam vinte. Põe copo, pega copo. No fim do dia, acabou!  
(...Pois é, eu me dou bem com todo mundo, adoro meus vizinhos. Não reclamo de nada, aceito tudo caladinha, barulho, confusão, tudo! Peraí...)
— Aqui não pode almoçar, não. Se todo mundo quiser sentar, onde é que eu fico? Hã? O micro-ondas é só da copa. A senhora quer saber como esquentar a comida? Melhor trazer quente de casa.

 (...Pois é, o Seu Inácio trouxe um pitbull da chácara que não me dá sossego. Ontem, ele pulou no jardim e esmagou as flores. Não fiz escândalo; não dei um pio. Fui quietinha dar queixa na delegacia. Peraí...)
— Tem formiga na sala de vocês? Deve ter pacote de biscoito ou açúcar aberto. Formiga é um bicho muito perigoso. Aqui nunca teve! De repente, começou a aparecer.
(...Pois é, menina, os policiais já me conhecem e até brigam para ver quem vai me atender. Levei a prova do crime: uma foto do cão pisando nas flores. Peraí...)
— Quem comprou essa garrafa de vocês? Que tampa dura! Toda vez preciso pedir pra alguém abrir. Dá muito trabalho! Quase estraga a minha unha.
(...Pois é, minha filha, quero ver se a polícia vai resolver o assunto rápido como da última vez, quando o maldito cachorro quase matou a nossa gata. Peraí...)
— A hora certa de pegar o café é às 9, que aí eu faço pra todo mundo. Se vier buscar depois, me atrapalha. Imagina se cada um vier na hora que quiser! Vou passar a manhã fazendo café.
(... Te contei não? O homem foi chamado à delegacia e teve que assinar um documento se responsabilizando pelo animal. Depois disso, nunca mais falou comigo, mas que culpa eu tenho se ele resolveu criar um monstro em casa?)

Passados alguns meses, fomos surpreendidos com a chegada de Janice, a nova copeira. Ela é simpática, faz um café gostoso, dá livre acesso aos copos e até ao micro-ondas.
Dona Ridica se aposentou. Coitado do Seu Inácio!
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sábado, 19 de maio de 2012

Palavrinha ou palavrão?




Luci Afonso

Não sei o que está acontecendo comigo. Tenho provocado confusão aonde vou: supermercados, farmácias, lojas, estacionamentos, padarias. Em ônibus, não: não ando de ônibus. Tampouco no trânsito: não dirijo há dois anos. Quem me vê assim calma, a voz baixa e contida, os movimentos suaves, a aura zen, não imagina o quanto posso me tornar belicosa à menor provocação. Que nem jararaca, mansa até ser pisada.
Não menosprezo ninguém, principalmente pessoas humildes. Revoltam-me atitudes pedantes ou racistas. Doutores de gravata borboleta deveriam aprender com orangotangos a viver em sociedade.
Não humilho, não desacato, mas coisas miúdas me irritam além da conta.
Como ontem, na padaria:
— Aqui o presunto, senhor — disse a balconista, entregando-me o pacote.
— Do que você me chamou?
— Desculpe! Aqui o presunto, senhora.
— Quero também seis roscas de creme, por favor.
— O quê? — a moça riu como se tivesse ouvido uma grande besteira.
— Seis roscas de creme.
— Isso não existe, senhora.
Toda tarde eu comprava roscas para meu filho naquele mesmo estabelecimento.
— Então, o que é aquilo ali? — perguntei, a voz ligeiramente alterada, e apontando a prateleira inferior do balcão.
— Ah, a senhora quer dizer rosca doce — ela me corrigiu.
A esta altura, o diálogo chamara a atenção de todos. Os outros balconistas se posicionaram ao lado da colega para defendê-la. Os clientes aguardavam o desenlace da conversa.
— Pois é, rosca doce. E o que é aquele negócio amarelo em cima?
— É creme.
— Humm, creme. Então, como podemos chamá-las?
Roscas... de creme?
— Me dê seis — peguei a sacola sem dizer obrigado e passei no caixa.
Semana passada, no Extra:
— Esta fila é até dez itens — avisei ao rapaz que entrou na minha frente, o carrinho cheio. As filas comuns estavam lotadas.
— Eu não sou cego — ele respondeu.
— Não é cego, mas é estúpido. E muito abusado...
— Eu não sabia que hoje era o Dia do Velho — ele comentou.
— Pois é, também é o Dia do Palhaço — devolvi, antes de chamar o gerente para cuidar do espertinho.
Acho que cansei de ser boazinha: bom dia, por favor, boa tarde, com licença, boa noite, desculpe. Não foi nada, tudo bem, pois não, pode passar. O sorriso escancarado, a gentileza indiscriminada, a boa vontade extrema.
Hoje sou mazinha. Talvez seja efeito dos hormônios da maturidade. Quando eles sossegarem, pode ser que eu volte ao normal.
Consultei duas amigas sobre o assunto. Uma, que se casou virgem aos cinquenta anos, explicou-me que “nessa idade a gente se solta mais”. A outra, bem mais jovem, acha que sou muito “inha” e que por isso as pessoas não me respeitam.
— Solta um palavrão de vez em quando, p..., e ninguém vai te f... — Como incentivo, ela me emprestou o Moderno Dicionário Brasileiro de Termos Obscenos e o livro Palavrinha ou Palavrão? — Exercitando a Assertividade.
— É do ca... — ela garantiu.
Depois disso, venho me soltando e xingando, soltando e xingando, xingando e soltando. Quero ver que m... vai dar.


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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira