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Mostrando postagens com o rótulo Mônica Thaty

A Maldição

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Mônica Thaty Não sei como aconteceu. Era para ser uma linda manhã de primavera. Mas acordei e percebi que tinha virado a minha mãe. Eu, uma jovem e promissora advogada, reduzida a uma dona-de-casa com três filhos egocêntricos e um marido acomodado? Eu, que tinha um futuro brilhante pela frente, passar os dias areando panelas, lavando vidraças, guardando roupas espalhadas pela casa? Sim, aconteceu. Inexplicavelmente, como eu já disse. E, confesso, entrei em pânico. Olhar aquela imagem no espelho e não me reconhecer. Aquelas rugas todas ao redor dos olhos e da boca. No pescoço! Aquelas dobras a mais na cintura. As varizes que formavam um suave mapa hidrográfico nas minhas coxas outrora malhadas e com a penugem dourada de sol. Eu queria meu corpo de volta, meus pensamentos, minhas vontades. Como havia acontecido aquilo? A resposta era óbvia. Se eu estava no corpo de minha mãe, ela deveria ter entrado no meu. Não é assim que acontece no cinema? E como ela deveria estar? Coitadinha! Talvez ...

Olhos de areia

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Mônica Thaty Joana sumiu. Em uma noite sem estrelas, e sem deixar rastros ou pistas. Sequer migalhas de pão que indicassem seu caminho. Apenas a voz carregada de tristeza e cortada de soluços no celular do seu namorado. “Não posso mais...” E depois que a voz rouca também sumiu, Lucas ainda ficou com o telefone mudo na mão, sabendo que havia algo a fazer, mas o quê? Lucas, que não saía de madrugada, cheio de trancas na porta e preocupações. Lucas que desconfiava de trovões, raios e ventos fortes. Lucas que não ia a lugar algum sem o casaco e o guarda-chuva, que mesmo quando menino subiu em poucas árvores e colecionou poucos machucados. Esse mesmo Lucas viu-se obrigado a sair na noite fria à procura de Joana. Resolveu pedir ajuda a Bárbara, melhor amiga de sua namorada. Bárbara, de olhos verdes, cabelos vermelhos e alma de bruxa. Bárbara que cresceu fascinada por histórias de mulas-sem-cabeça, sacis e fantasmas, que apaixonou-se ainda pequena pelo Negrinho do Pastoreio e o invocava em no...

Carrossel

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Mônica Thaty Em um dia de céu nublado e coração cinza, Rita foi ao parque de diversões. Chegou lá sem saber aonde ir, guiada por um sentimento tão indefinido quanto irracional. Vontade de não ver ninguém conhecido. Vontade de perder-se na multidão. Dia de semana, multidão de meia dúzia, mas quem precisa de mais do que isso? Um único desconhecido pode ser uma turba para quem procura a solidão. De longe Rita viu o Carrossel. Sem luzes e sem brilho, com cavalos de tinta descascada. Mas ainda assim seu coração encheu-se de ternura, lembrando de outros carrosséis, cheios de sonhos e risadas de menina. Pagou o ingresso, acomodou-se em um cavalo verde, de crina amarelo encardido. E começou a girar. E girou e girou. Olhou para dentro e para fora. Para frente e para trás. Riu por um momento. Achou tudo muito chato, em outro. Andou um pouco por entre os cavalos. Subiu em um azul. Desceu novamente e ficou um pouco parada, os braços meio abertos, equilibrando-se no espaço. Lembrou-se de como se di...

Profissão de fé

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— Vão em paz, meus filhos! Padre Gregório quase soltou um suspiro após a frase, mas engoliu-o antes que fosse percebido por alguém. Já não conseguia disfarçar a monotonia na voz ao celebrar as missas, e já era difícil encarar os fiéis. Não podia dar-se ao luxo de alguém perceber mais algum tom de enfado em suas ações. Atribuíam as suas frases ásperas e as suas repreensões ríspidas a uma certa impaciência, mas a sua fama de “estranho” já havia chegado à diocese. Os freqüentadores da sua igreja cogitavam se ele talvez fizesse parte de alguma daquelas correntes progressistas que não toleravam qualquer tipo de superstição ou uma tradição mais eloqüente. Mas ainda assim era o pároco, o pastor espiritual da pequena cidade de cinco mil ovelhas fiéis e dedicadas. Na verdade, os fiéis eram mais complacentes com Padre Gregório do que ele com sua congregação. Sentia falta da época em que trabalhou como secretário na arquidiocese. Nada de fiéis requisitando sua presença nas madrugadas frias para a...

Contra a maré

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Mônica Thaty Depois que Melissa terminou de desfazer a última caixa da mudança decidiu que era hora de arrumar outras coisas em sua vida. Sentou-se na frente do computador, armada com papel e caneta e espírito de detetive. Algumas pesquisas e meia dúzia de telefonemas depois e conseguiu fazer um levantamento quase completo da vida de Ricardo, o ex-namorado. Telefone, endereço, local de trabalho. Tudo ali, em mãos. Só faltava a coragem. Como se aborda alguém que não se vê há quinze anos, mas de quem ainda se lembra a voz, o cheiro, o toque, o beijo? Alguém que você acredita sinceramente que não ama, mas que é capaz de provocar arrepios em seu corpo apenas em encarar um olhar sorridente em uma foto? Melissa pensou no que tinha a perder. Nada. Um casamento terminantemente desfeito, acabado com tanta civilidade que sugeria falta de emoção. Ou pior: uma paixão extinta como uma fogueira que queimou rápido demais. Restaram apenas dois filhos lindos. Aliás, olhar os filhos era o único consolo ...

O Último Diálogo

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Mônica Thaty Era o fim. Mas nada de finais apoteóticos, grandes efeitos especiais. Não para ele. Apenas o fim, escrito sem qualquer rebuscamento sobre um fundo preto, enquanto os créditos passavam, monotonamente, ao som de uma melodia melancólica. Válter sabia o que tinha de fazer ao chegar em casa. Arrumar as malas. Poucas roupas. Os livros preferidos. Os CDs do Tom. Talvez os do Vinícius. Os do Chico? Não, era coisa demais. Não queria ficar naquela casa mais tempo do que o necessário. Assim que entrou em casa, e arrastou o corpo cansado até o seu quarto, Válter já ouviu a voz de Diana. — Você está atrasado, meu bem. A voz dela era doce, e ele chegou a sentir um calor no estômago. E estava vestida com um conjunto de lingerie que... Que por um momento ele pensou que fosse para ele. Ilusão que não durou mais do que poucos segundos. — Você tem menos de meia hora para se arrumar. Não podemos chegar tarde na casa da Lucinha e do Jair. Tudo aquilo era para o outro, o acompanhante. O pedaço ...