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Dente mole

— A senhora prefere o Eixão, né?
O Sr. José Maria, nosso taxista de confiança, foi chamado para me levar ao trabalho depois do almoço.
Antes que eu fechasse a porta do táxi, ele informou:
— A senhora imagina que eu perdi dois dentes de uma vez só? Fiquei com janelinha, igual menino - e abriu o sorriso desdentado.
— Que pena, - comentei.
Ele continuou, orgulhoso:
— A senhora acredita que eu nunca tinha ido ao dentista na minha vida?
— Nunca? - repeti, admirada. Eu tinha ido inúmeras vezes, sempre com grande sofrimento.
— Nunca! Mas, na semana passada, senti um dente mole e resolvi ir. O dentista puxou e saiu fácil, fácil. Parece que nem tinha raiz! Pior: puxou o do lado, também saiu. Dois, e logo na frente!
— Doeu? - Perguntei, solidária, lembrando as extrações que havia feito e a dor aguda que sentia depois de passado o efeito anestésico.
— Nada! Estavam soltinhos, como dentes de leite! Mas agora vou ter que fazer dois implantes. A senhora já fez? - Ele me observava atentamente pelo retrovisor.
Fingi não ouvir. Na verdade, eu precisaria ter feito, por causa de uma falha nos dentes, mas nunca tivera coragem.
Ele insistiu:
— Implante, a senhora já fez?
— Ainda não.
— Parece que fica muito bom. Eu tenho uma cliente que fez, ninguém diz.
— O senhor já viu como os ipês estão bonitos? Só faltam as cigarras.
— É mesmo... Ainda bem que esse dentista faz tudo: arranca, faz raspagem, faz implante. Só não tira radiografia. A senhora já fez raspagem?
— Como?
— Raspagem... da gengiva, a senhora já fez?
— Já.
— Dói?
— Um pouco. - A lembrança me trazia arrepios.
— Pois é, eu tenho que fazer antes do implante. A senhora acredita que eu posso perder todos os dentes? A minha sogra perdeu. Caíram... problema na gengiva. Agora, usa ponte móvel. Deus me livre! A senhora não usa ponte, né?
— Não.
— Já usou aparelho?
— Também não.
— Eu notei que a senhora tem um dente meio torto...
— O sinal está amarelo -, eu o alertei.
Ele freou e se distraiu com o trânsito por um minuto. Fez o balão da Rodoviária e pegou a Esplanada.
— Só tem um problema, - ele suspirou: a senhora acredita que vou pagar 6 mil pelos dois implantes?
Já estávamos no Itamaraty.
— Dava para comprar umas dez vacas pro meu sítio! Mas dentadura eu não uso, de jeito nenhum! Um amigo usa. Toda vez que espirra, ela sai. Da última vez, caiu e quebrou. Teve que fazer outra. A senhora...
— Chegamos - eu disse.
— É mesmo! São dezesseis reais. Boa-tarde. Quando precisar...
Um homem gordo de terno veio correndo até o táxi e perguntou se estava livre.
— O senhor imagina... - ouvi o taxista dizer ao passageiro, enquanto este afivelava o cinto de segurança.
Da próxima vez, decidi, chamaria o rádiotaxi.


(Revista da Casa, Câmara dos Deputados, nº 65)