sábado, 29 de março de 2008

O Último Diálogo


Mônica Thaty


Era o fim. Mas nada de finais apoteóticos, grandes efeitos especiais. Não para ele. Apenas o fim, escrito sem qualquer rebuscamento sobre um fundo preto, enquanto os créditos passavam, monotonamente, ao som de uma melodia melancólica. Válter sabia o que tinha de fazer ao chegar em casa. Arrumar as malas. Poucas roupas. Os livros preferidos. Os CDs do Tom. Talvez os do Vinícius. Os do Chico? Não, era coisa demais. Não queria ficar naquela casa mais tempo do que o necessário.
Assim que entrou em casa, e arrastou o corpo cansado até o seu quarto, Válter já ouviu a voz de Diana.
— Você está atrasado, meu bem.
A voz dela era doce, e ele chegou a sentir um calor no estômago. E estava vestida com um conjunto de lingerie que... Que por um momento ele pensou que fosse para ele. Ilusão que não durou mais do que poucos segundos.
— Você tem menos de meia hora para se arrumar. Não podemos chegar tarde na casa da Lucinha e do Jair.
Tudo aquilo era para o outro, o acompanhante. O pedaço dele que pretendia deixar em casa, junto com as coisas de menor valor.
— Não vou ao jantar, Diana.
— Claro que vai, bem. Não podemos fazer essa desfeita. A pobre da Lúcia deve ter passado o dia inteiro na cozinha... Além disso, o casamento deles está em crise, e como bons amigos nós temos que apoiá-los nesse momento difícil. Nem que seja com uma boa conversa. Você trouxe o vinho que eu pedi? Não?! Tudo bem, vamos levar aquele Merlot que compramos mês passado. Uma garrafa só. Não podemos beber muito, amanhã temos que acordar cedo, tem o churrasco do Mauro. A chácara fica a uns cem quilômetros daqui. Mas acho que vai valer a pena. Disseram que tem até um lago. As crianças vão adorar. O Mauro até convidou a gente pra dormir lá, mas eu disse que não dava. Podemos deixar as crianças e voltar, porque domingo tem o almoço de aniversário da Helena...
— Domingo é o meu dia de jogar tênis.
— Você joga semana que vem, querido. É o aniversário da Helena! E ela contratou um bufê maravilhoso. O mesmo do casamento do Cadu. Mas Válter, você ainda nem se mexeu! Não vai tomar banho? Bota a camisa azul que eu te dei. Você fica bem de azul.
Exausto, Válter pensou por um momento em tomar banho, vestir a camisa azul e ir jantar. Mas não! Estava decidido. Não podia voltar atrás. Tinha que interromper a torrente de Diana antes que naufragasse mais uma vez, e nunca mais conseguisse encontrar um porto seguro.
— Diana, preciso falar com você.
— Pode falar, meu bem.
— Não. Falar de verdade. Conversar. Como fazíamos antes.
— Estamos atrasados. Podemos deixar as crianças na casa da sua mãe no domingo e irmos ao cinema para conversar.
Válter gemeu.
— Quem conversa no cinema, Diana?
Mas ela não estava mais ouvindo. Rímel, batom, vestido. Sandálias. Cadê as sandálias pretas novas? Não, essas não. As outras. E a bolsa? Você viu a bolsa, Válter? E o seu banho, amor? Ainda bem que homem é só botar a roupa e pronto. Não tem maquiagem, creme pro rosto, hidratante...
— Diana, pára!
Ela realmente parou. Mais intrigada do que assustada com o grito do marido. Ele nunca gritava. Aliás, ele sempre falava tão pouco.
— Eu preciso falar com você. Pára um segundo, por favor.
Válter aproximou-se da mulher. Segurou-a pelos ombros. Vinte anos juntos. Quinze de casados. Dois filhos. Uma casa. Dois carros. Tudo certo. O que deu errado? Ela ainda tinha o mesmo ar jovial. Olharam-se nos olhos. Longos segundos...
— Seus olhos estão vermelhos, amor. Peraí que vou pegar o colírio.
Válter não esperou o colírio. Na corrida, só conseguiu salvar um CD do Djavan que estava sobre a mesa da sala. Não era seu preferido, mas servia.





Mônica Thaty nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em Brasília desde os seis anos de idade.
É casada, tem um filho de dois anos. É formada em Comunicação pela UnB e trabalha como jornalista da Câmara dos Deputados há nove anos.
Escreve “desde que se entende por gente”, mas só teve coragem de começar a mostrar seus contos depois que começou a participar das Oficinas do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural do órgão onde trabalha.
Foi a terceira colocada no Primeiro Desafio aos Contistas do Núcleo de Literatura, realizado pelo Prof. Marco Antunes no segundo semestre de 2007.
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SHIFT-DEL-DEL-DEL



Luci Afonso


As mensagens de desconhecidos ocupam espaço considerável na minha caixa de correio eletrônico.

Claudinha Araripe adora fotos. Mandou-me todo o registro fotográfico da recente viagem à Grécia e à Espanha, onde esteve acompanhada do namorado e de um amigo. Enquanto eu trabalhava, pude ver como os três se divertiam em visita a belas paisagens e monumentos.

Alexandre Maciel comercializa produtos naturais. É muito atencioso. Envia lista diária de preços e benefícios dos produtos, acompanhada de análise minuciosa das doenças em questão. Só utiliza fontes confiáveis, como as revistas IstoÉ e Superinteressante. Ultimamente, tem diversificado as atividades: está vendendo excelentes apartamentos em Águas Claras e procurando gatinhos — animais, presumo — para adoção.

Correspondentes internacionais de diversos continentes me mantêm informada sobre a evolução na pesquisa de drogas para o combate à disfunção erétil. Descrevem também as últimas descobertas científicas no tocante ao aumento e ao alargamento do membro masculino.

Administradores zelosos de várias entidades nacionais me alertam para o cancelamento do CPF, do Título de Eleitor, do e-mail e até da conta bancária, se eu não atualizar meus dados. Advogados conscienciosos me advertem sobre ações judiciais que posso evitar simplesmente pressionando “Clique aqui”.

O setor de serviços tem presença marcante no meu inbox. Ferrareto Serviços Gerais, por exemplo, oferece desinsetização, desratização, desentupimento e descupinização, além de repelir pombos e morcegos sem matá-los, provavelmente espantando-os para os apartamentos vizinhos. O telefone de contato é em São Paulo.

Por curiosidade, leio todos os e-mails indesejados — afinal, toda informação tem alguma serventia. Só depois eu lhes dou, com enorme prazer, o destino merecido.
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sexta-feira, 28 de março de 2008

O segredo do diálogo*


Técnica da conversa ajuda a dar cor e força para a ficção, mas requer cuidados para não se errar o tom

por Geraldo Galvão Ferraz


Pergunte a qualquer escritor. Ele certamente dirá que o diálogo é a alma do texto de ficção. Da mesma forma que as conversas é que dão vida às relações entre as pessoas, no cotidiano. Claro, os personagens agem e essas ações podem ser narradas ou descritas. Mas, com os diálogos, as ações e, por extensão, as tramas em que estão envolvidos ganham brilho, agilidade e uma camada de informações suplementares sobre ele e a situação que está sendo narrada.

Pode até se dizer que não há conto ou romance sem alguma forma de diálogo. Como os escritores consagrados podem confirmar, o bom diálogo é uma das ferramentas literárias mais fáceis de dominar. Afinal, todo mundo fala e se comunica, basta caprichar. Mas é preciso cuidado ao usá-lo. Se um bom diálogo até salva um mau texto de ficção do desastre completo, um diálogo medíocre pode arruinar uma boa história.

Os manuais mostram que há duas formas de expressar a fala dos personagens. Uma é o discurso direto, quando o escritor exibe os personagens dialogando, reproduzindo suas conversas. Outra é o discurso indireto, quando o narrador dá a conhecer, com suas palavras, o que os personagens conversam ou ponderam intimamente.
Aqui um exemplo de discurso direto, de uma crônica de Luis Fernando Veríssimo:
“— Tente relaxar...
— Desculpe. É que tem uma parte de mim que, entende? Fica de fora, distanciada, assistindo a tudo. Uma parte que não consegue se entregar...
— Eu entendo.
— É como se fosse uma terceira pessoa na cama.
— Certo. É o seu superego. O meu também está aqui.
— O seu também?
— Claro. Todo mundo tem um. O negócio é aprender a conviver com ele.
— Se ele ao menos fechasse os olhos!”

Que, em discurso indireto seria algo mais ou menos assim:
Ele sugeriu que ela tentasse relaxar. Ao que ouviu em resposta que havia uma parte dela que ficava de fora, distanciada, assistindo a tudo. E acrescentou, ainda, que era uma parte que não conseguia se entregar...”

Travessões e aspas

Luis Fernando Veríssimo usa travessões para indicar ao leitor que se trata de um diálogo. Há escritores que preferem indicar o diálogo abrindo e fechando aspas. Outros colocam as frases dos personagens no meio do texto, sem alertar o leitor que se trata de diálogo. Veríssimo evita isso, sobretudo porque no seu texto não há possibilidade de confundir-se quem está falando — são só dois os interlocutores, um falando a cada vez, e há o uso de penduricalhos que costumam vir coladinhos aos diálogos, especialmente quando há vários personagens falando. Eles são verbos, como "dizer", "afirmar", "ponderar", "concordar", "acrescentar", entre outros.

"O Jorge falou que vai para Santos", disse ela. Ou "O Carlos também está indo", acrescentamos, numa só voz.

O mais comum é o escritor usar o verbo dizer, com pronome pessoal ou não.

"O Jorge vai para Santos", disse.

Trata-se de uma ajudazinha do escritor para o leitor. E qualquer leitor mediano já está condicionado a passar por esse recurso sem tropeçar nele. O cérebro registra o que o personagem disse, mas praticamente não "vê" o tal do penduricalho. É preciso tomar cuidado para não abusar, pois, se muito repetido em trechos próximos do texto, ele perde a invisibilidade e começa a ficar mais importante que o resto.
Há umas convenções quanto a isso. Por exemplo: "Faça isso", mandou, "pode ser o certo." (Depois do verbo-penduricalho, você continua a frase com letra minúscula. A não ser que haja um substantivo ou nome próprio: "Faça isso", mandou, "João acha que é o certo." Se você, entretanto, quiser destacar a segunda frase, ela começa com maiúscula, graças ao ponto final na primeira: "Faça isso", mandou. "Pode ser o certo".

Seja verossímil

Para ser eficiente, o diálogo tem de ser verossímil, tanto quanto os personagens. Isso quer dizer que, como na vida real, cada pessoa tem um modo de falar. A não ser que seja um personagem disfarçado, um lixeiro não convencerá falando como um físico nuclear. Como um dos papéis do diálogo é proporcionar informações sobre o personagem ou a ação, ele tem de ser adequado. Os personagens também não podem errar o tom. Há situações em que as conversas têm de ser formais e outras em que a informalidade é obrigatória. Da mesma forma, usar gíria exige personagens ou situações que sejam adequados a isso.

Reforce o que não foi dito

Os escritores usam recursos para insinuar o que não está sendo dito, sobretudo para reforçar as emoções dos personagens. Assim, um sujeito raivoso fecha os punhos, aperta os olhos; um nervoso fica andando sem parar, se coça; o mentiroso não encara os outros etc. São recursos, mas devem ser apreciados com moderação. No setor das emoções, é comum ver que, quando o personagem está estressado, em crise, as frases são mais curtas, cheias de verbos vigorosos, parágrafos rápidos e diálogos ágeis. O leitor fareja a tensão e a urgência, até lê mais depressa. Nos momentos de calma e ternura, os personagens falam bastante, discutem consigo mesmos. O texto reduz o ritmo da tensão.

Cuidado ao informar

É preciso ter cuidado ao embutir informações nos diálogos. O recurso tem de ser usado em doses pequenas. Nada mais chato do que ler meia página de informações que vêm da boca de um personagem, narrando fatos do passado ou explicando alguma coisa. Uma situação clichê dessas é a do vilão que, depois de amarrar o herói, explica minuciosamente o seu plano de conquistar o mundo, até que o mocinho consiga livrar-se. Lembra-se de James Bond preso pelo Dr. No ou por Goldfinger?
Na leitura dos livros de 007, isso sempre atrapalha a ação, dá aquela tentação de pular para a frente no livro. É uma coisa que só vale para quadrinhos ou paródias.

Basta pensar um pouco no cotidiano, em que essas informações são brevemente mencionadas, já que elas fazem parte do repertório de quem conversa ou nem são referidas, a não ser que se trate de uma aula ou palestra.

Apure o ouvido

Para ajudar um bom diálogo, é interessante ouvir pessoas de várias origens e modos de vida diferentes, para usar como base. Ler para ver como bons autores trataram dos diálogos é recomendável, mas cuidado. Grandes mestres da literatura, por melhores que sejam, muitas vezes ficaram fora de moda ou datados no jeito que construíram seus diálogos. Machado de Assis, por exemplo, um mestre do diálogo nos seus livros, hoje é um veneno para imitadores. Não tem nada a ver com o jeito de falar atual. A não ser que seu livro aconteça em tempos machadianos. E, mesmo assim, corre o risco de virar paródia.

Sem conversa fiada

Os diálogos não devem ser uma cópia exata das conversas da realidade. O escritor pode usar a vida real como essência, mas terá de filtrar o que seria uma conversa, para obter um diálogo. Usará só o fundamental para o diálogo ser ágil, eficiente e provocar uma empatia do leitor com tal ou tal personagem. No diálogo, em geral, não há espaço para se ficar dizendo abobrinhas ou jogando conversa fora. Sob pena de o leitor jogar o livro fora. É sempre bom lembrar que uma função do diálogo é levar a ação adiante, acrescentar um conflito, mostrar algo de novo sobre um personagem.



*Artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 12, outubro de 2006
(www.revistalingua.com.br)
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Comentário sobre "Velhota, eu?"



Miliane Benício


Minha cara Luci,


Tive o privilégio de vê-la pela primeira vez no lançamento do seu livro “Velhota, eu?” na Feira de Livro de Brasília, no ano passado. De fato, quando cheguei e mostrei-me tão à vontade – mais isso só aparentemente, pois me encontrava tão confortável como um pé tamanho 42 calçando meia soquete, num sapato 38 – na sua e na presença da minha mestre e amiga Maria Alexandra, o que a visão óptica me projetou foi um corpo docemente feminino. A projeção em cores de uma mulher meiga e ingenuamente poética.

Bom, essa foi uma primeira apresentação. Digo isso por que acho que na medida em que convivemos com as pessoas, a cada experiência compartilhada, somos reapresentados. Reapresentados a novos moradores habitantes da mesma casa espiritual e, todos, unidades de uma mesma alma, diversamente complementares de um todo integral e maravilhosamente fascinante.

Então, aconteceu. Fui uma segunda vez apresentada. O diálogo começou de modo inteiramente diferente. Não tinha mais a aparência ou a fragrância do invólucro perfeitamente moldado por tecidos e músculos do chamado sexo frágil que me estendera a mão dizendo, boa noite! com um sorriso entrevido entre finos lábios e um nariz nos moldes da realeza britânica.

A luz óptica da pele alva que transparecia a alma de outrora, agora refletia para minha percepção neuropsíquica, expressa pelas minhas capacidades lingüística e metalingüística, um corpo almagético outro. Mulher forte, sagaz, armada com a espada da ironia fina e da inteligência crítica, equivocadamente entendida como masculina. De onde vinha?

Acho que já podes imaginar! Dizia-me olá a cada crônica que eu lia. Parecera-me estranha a que já me era meio familiar. Por causa dos muitos traços regularmente brasileiros, sabe?! Daquela que conheci no lançamento lá Feira. Mesmo tendo adornos sofisticados de realeza. E essa que conhecia, linha após linha, por vezes me surpreendia: que língua afiada dessa dona, cuja fala nega por completo a imagem sutil da poesia ingênua da sua presença silenciosa. Silenciosa! Pois se abre a boca... é espada a retinlintar trim! Tilim! Tape! Tim! Tilim Na batalha com as palavras. Que coragem tem essa guerreira do dizer! Expõe-se, se opondo.

Foi assim: fui surpreendida, fui tocada, compreendida, irritada – sabe, às vezes certos encontros nos levam a certos desencontros desilusórios interiormente, Freud explica.

A classifico, por isso, como fazedora de arte, pois seus ditos tocam e, de diversos modos!

Surpreendi-me, me diverti, me encontrei, me recuei, me recolhi, me emocionei, me irritei. Enfim, vivi enquanto te li.

Apesar da grande distância temporal real, passível de contagem no nosso sistema de numeração, que transcorreu do dia 06 de outubro de 2007, até o atual tic-tac do meu relógio que marca 23:16h, do dia 07 de março de 2008, creio que não seja deselegante fazer uso do meu tempo-emocional para lhe dizer do meu prazer em conhecê-la e tê-la comigo em meus passeios pela capital do Estado de Goiás. Lá tu também tiveste uma primeira apresentação: e com sucesso! Mérito, principalmente, do Rouxinol, da Pombinha e da Cotovia.


Um grande abraço e continue aguçando o nosso olhar com o teu.

Foi mesmo um grande prazer.





Impressões


Brincos,
De pérolas?
Não sei!
Princesa,
Na rua,
E não no
castelo?
Pele alva
Ou da cor da
negrura?
Sim, dir-te-
ei.
Que te
admiras!?
Realeza hoje
Mora na
elegância
Do simples
Na
sagacidade,
Do olhar que vê e diz os
fatos,
Na pele alva
ironicamente
corada
Expressa nos
textos de
Luci.
De brincos
de pérolas?
Não!
Pérolas de
um brinco
Que vi.
Crônicas que
formam
Uma das
minhas
Conhecidas
Luci.



Miliane Benício é educadora e aprecia a arte da poesia.
(milianenogueira@yahoo.com.br)
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quarta-feira, 26 de março de 2008

1° Encontro Mensal do Ciclo de Leituras no CEFOR

Sexta-Feira, dia 28 de Março de 2008, meio dia e meia!

A partir desta semana, toda última sexta-feira do mês temos um encontro marcado no Auditório do CEFOR. Lá faremos a leitura comentada de textos de nossos autores homenageados, este mês, Machado de Assis e grandes letras de Milton Nascimento.
Sempre escolheremos cinco de nossos autores do Núcleo para nos mostrarem suas produções pessoais.
É muito importante que você, nosso amigo, esteja conosco nestes encontros mais do que especiais.

Nesta sexta teremos:

- Dois textos de Machado de Assis
- Cinco grandes canções de Milton Nascimento projetadas do show “Tambores de Minas”


- Textos de Luci Afonso, Alexandra Rodrigues, Roberto Klotz, Amélia Costa, Isolda Marinho e Marco Antunes






- Lanche logo após:
Puchero de Lentilhas acompanhado de refrigerante e todas as guloseimas que vocês trouxerem para a festa.
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sábado, 15 de março de 2008

Fedor




Meu gosto por flores é antigo. Eu as compro toda semana para minha casa e agora adotara o hábito para a sala que ocupava como diretora. Coloquei-as num vaso de cristal ao lado da porta, para que fossem vistas do corredor. Algumas colegas apreciaram a iniciativa. Outras não lhe deram importância. Uma detestou.

Certa manhã, ela veio correndo à minha sala logo que cheguei:
— Os girassóis estavam um fedor! - disse ela em voz alta, tapando o nariz para enfatizar a mensagem. Notei que alguém havia retirado a água do vaso e colocado toalhas absorventes no fundo.
— Um fedor! - ela repetiu, olhando, com ar de censura, as gérberas que eu trouxera para substituí-los.
— É hora de jogá-los fora - respondi, com calma.
— Um fedor! - ela insistiu, antes de voltar para sua mesa, batendo os tamancos.

Ocupei a sala por pouco tempo. Minha substituta não aprecia flores, mas elas continuam enfeitando minha casa. Os girassóis são círculos de luz sobre a toalha branca. As gérberas são graciosas bailarinas, a strelitzia pede ajuda para mostrar sua beleza e as orquídeas precisam de longo tempo para rebrotar.

Meu assombro com as pessoas é antigo. Eu nos observo todos os dias para tentar nos compreender. Somos alérgicos a nós mesmos, não suportamos mudanças e até sentimos mau cheiro em girassóis. Desconfio que seja recíproco.
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sexta-feira, 14 de março de 2008

Pastiche

Robson Oliveira




Sabe, não tenho nada contra as pessoas que são suscetíveis à moda e se deixam levar pela mídia. Não sou completamente contra a cultura de massa, mas confesso que acho de uma idiotice tremenda viver em função disso como se fosse o mundo real. Comprar revistas que vêm com brindes como um CD de música erudita — diga-se de passagem, muitas vezes essas músicas não vêm completas —, quando não é um pôster de tamanho 420x594, que as pessoas adquirem e ostentam como se fosse um Cézanne ou Monet. Enfim, é algo que procuro sempre sublimar.
Mas, por ironia dessas que só a vida sabe nos pregar, algo me aconteceu no início desse semestre. Ela era linda. Pegava sempre o primeiro ônibus para o Campus. Nesse período, eu já tinha começado a monitoria nas aulas de ética e estava no final de meu curso, filosofia, percebe-se agora por que sou tão crítico! Pois então sempre procurava pegar o mesmo ônibus para vê-la todos os dias. No começo, confesso que não a achei lá essas coisas não; era uma dessas garotas dadas a manias da moda, e a forma como se vestia mostrava que tinha a preocupação de combinar os tênis com as bolsas, o que não deixava de ser interessante, transformando-a no tipo que alguns classificam de fashion. Sua aparência dava a impressão de que tinha acabado de sair da loja, as roupas impecáveis, os cabelos sempre bem tratados, que deixavam sobressair um rosto bonito, mas sem nenhuma maquiagem. Acho que devia ter alguma reação alérgica. Seu perfume era tão agradável, leve, sempre colocado na medida certa para não enjoar.
Sem dúvida, estudava no Campus, mas não tinha idéia que curso fazia. Talvez Direito, pois esse pessoal se preocupa muito com a imagem. Sei que não era Artes Cênicas nem Artes Plásticas, pois esse povo é esculhambado demais.
Como disse, no começo não costumava dar importância a ela, mas não pude deixar de observar que ela estava sempre lendo revistas sobre os lançamentos de filmes. Nas bancas de revistas você encontra mais de sete capas com o mesmo tema, ela devia ter todas. “Especial com o ator de tal filme”, “Entenda tudo sobre o universo tal” e por aí vai. Não sou tão velho, mas tenho certeza de que ela nunca ouvira falar em Alfred Hitchcock. Hoje, por exemplo, o filme era algo sobre magia, está bem em moda atualmente.
Às vezes a surpreendia de longe, dando risadas sozinha quando lia algo que lhe agradava, e a vibração que deixava transparecer dava a impressão de que ela estava assistindo ao Oscar; ao contrário, com um meneio de cabeça desaprovava algo que leu e não gostou. Talvez um dos casamentos que se desfez em Hollywood. Assim a observava, às vezes de longe, às vezes de perto, dependia do local onde me sentava no ônibus. Quando tinha lugar próximo dela vago, não hesitava em sentar. Mas preferia as cadeiras de trás, mas próximo dela, entende? Assim podia observá-la sem que ela percebesse meu interesse.
Muitas vezes me perguntava o que tinha visto nela. Por que tanta atenção numa moça? Só pelo fato de ser bonita? Não, tinha algo mais. Aliás, moças bonitas não faltam por aí. Mas o quê? Hum. Isso será paixão? Amor? Não, definitivamente não! Acho que meu lado filósofo está levantando questões demais. A resposta é simples, estou apenas querendo entender o que leva uma pessoa sem senso crítico sobre si mesma a deixar-se levar por jogadas de marketing. É óbvio que é isso. Claro que é.
Uma vez, ouvi a conversa dela com uma amiga. A propósito, até então nunca tinha ouvido a voz dela, e também nunca tinha visto ela conversando com alguém, estava sempre lendo suas revistinhas. A conversa era sobre direito dos animais. Meu Deus, como são ignorantes! Onde já se viu animais possuírem direitos? O que há é uma extensão do direito humano para a natureza, os animais não protestam porque estão sendo comidos ou porque estão sendo dizimados, para eles tanto faz. Mas, para minha infelicidade, não terminava por aí. O assunto mudou para cinema, até gosto de filmes, há um lançamento nacional que estou louco pra ver, o tema é bem interessante, é uma ficção sobre o futuro do cerrado brasileiro, onde as personagens são um grupo de animais, únicos sobreviventes da destruição do homem. Nesse caso, é uma ficção, e como se trata de uma fábula, estou curioso pra ver a lição de moral que o filme pretende passar. É... Sim, como estava dizendo, o assunto foi para o foco do cinema, começaram a gargalhar sobre a atuação de fulano, que a fala de sicrano estava horrível e que beltrano não servia para o papel por ser um grande canastrão. Hurf! Ainda não entendi o que eu vi nela. Ainda bem que não tardou para o ponto delas chegar.
Um dia, ao ir para o ponto de ônibus, comecei a amadurecer a idéia de me aproximar dela, pra conversar e... quem sabe... mostrar pra ela que o mundo não é só cinema, que há pessoas legais e inteligentes com quem se relacionar e até aprender novas coisas. Concluí que era uma boa idéia.
O ônibus chegou. Entrei no ônibus. Busquei visualizar onde ela estava sentada. O que é aquilo? Ela não estava lendo!? Estava conversando. Não acredito, o que é aquilo? Sentei numa cadeira ao lado, como se nada de estranho estivesse acontecendo. Mantive-me imóvel, olhando pra frente, querendo entender o que ele estava fazendo do lado dela. Até onde sei, ela não era casada, muito menos noiva. Como sabia disso? Ela não usava aliança. Sei que não tinha namorado. Como eu também sabia disso? Ela estava sentada do lado do Anderson, o mago, assim ele se intitula como jogador de RPG. O cara é a figura mais bizarra que há em todo o campus, anda sempre de preto e com a barba por fazer. Sua voz é quase inaudível, a não ser pela sua risada, que igual a dele só conhecia a da Dona Inácia, funcionária da limpeza da faculdade e a do Rabugento, dos clássicos da Hanna Barbera. Não poderia crer que eram namorados, mesmo porque não os vejo agindo como tal. Olha só... estão se respeitando. Ufa! São só amigos, agem como amigos, menos mal.
Depois do susto, no dia seguinte não desisti de minha fantástica idéia de levar a luz para aquela bela, embora oca, criatura. Então, pensei numa estratégia que certamente não falharia. Comprei uma revista dessas que ela vivia lendo. A edição era um especial sobre os filmes chineses, li o suficiente pra ver que nos filmes desse gênero há mais imagens do que assunto. Nesse tipo de filme, só tem “abacaxi”. Nunca vi seres humanos voarem, é muita mentira pra noventa minutos, não sei como tem gente que suporta aquilo.
Entrei no ônibus temeroso com o que ia ver, depois da experiência do dia anterior tinha de estar preparado pra tudo. Lá estava ela. Só ela e sua revista, pra minha felicidade. O lugar ao seu lado está vago, essa é minha chance. Sentei bem devagar segurando o ar em meus pulmões. Estou ao lado dela. Bom, agora, como será minha espetacular iniciativa? A propósito, ela terá uma outra visão da vida depois que conversar comigo e quando me conhecer melhor, certamente nascerá de novo. Suspirei fundo e...
— Oi! Disse eu de forma espontânea, mas contido.
— Olá. Respondeu ela, com um lindo sorriso no rosto e igualmente espontânea.
— O ônibus está mais lento hoje do que de costume, não é verdade? Perguntei para puxar assunto.
— Sim, é verdade. Deve está ficando sem combustível. Disse ela tão segura como se entendesse da mecânica do automóvel.
— É... Talvez seja isso, respondi certo de que ela não entendia nada sobre Termodinâmica. O motor de um veículo tem rendimento padrão enquanto houver combustível em seu tanque. A quantidade nada interferirá em sua velocidade. Mas ignorei o infeliz comentário da moça e me dei por satisfeito por sua beleza.
— Mas espero que tenha o suficiente para chegarmos ao nosso destino. Complementei para não parecer indelicado, mas no íntimo estava sendo irônico.
— É sim. Disse ela.
Não perderei tempo, pois certamente ouvirei algo que não me agradará. Então, vou falar de algo que ela gosta.
— Vejo que você gosta muito de filmes. Sempre que posso, não perco a oportunidade de assistir a um bom filme. Falei olhando para a revista em sua mão.
— Adoro! Procuro estar sempre bem informada. Disse ela sem perder o entusiasmo.
Definitivamente, aquela não era a revista adequada pra quem procura ficar bem informado.
Mas num relance que parece ter ficado parado no tempo, ela toca meu braço com seus esguios dedos. Senti-me aquecido. Lembrei-me do que Einstein havia dito uma vez quando indagado sobre sua teoria: “Para entender a teoria da Relatividade, imagine-se da seguinte forma. Permaneça um minuto sobre uma chapa quente, e esse um minuto parecerá uma hora; mas se passar uma hora com uma bela moça, essa uma hora parecerá um minuto...”
— Que tipo de filme você gosta? Interrompeu ela o meu devaneio. Pena que seu toque foi só para chamar minha atenção.
— Gosto de filmes que abordem algum problema pertinente à sociedade. Disse pra ela com convicção. Não nego que foi uma crítica subliminar ao seu péssimo gosto.
— Que interessante! Disse ela virando-se para mim.
Quando alguém fala olhando diretamente para você, demonstra algo especial que vai além da atenção. Os psicólogos dizem que quando isso acontece, um flerte, a probabilidade de resultar em algo concreto, por exemplo, um namoro, é muito grande.
— Só não gosto desses filmes. Bati com desprezo na revista que tinha comprado pela manhã para ajudar na minha investida.
— Eu gosto tanto dos filmes chineses, acho as roupas tão coloridas, tão alegres, sempre que posso compro algo para mim nesse estilo. Retrucou ela com veemência.
Viu só? Só comprova o que eu imaginava. A bela moça é realmente uma alienada pelo sistema consumista. Agora é minha chance de mostrar pra ela uma visão interessante sobre a vida e quem sabe não a tenho como recompensa.
— Mas a temática desses filmes não tem nada de real. Disse esperando que uma porção racional do seu cérebro começasse a funcionar.
Ela olhou para mim com espanto. Como se o mundo tivesse caído sobre sua linda cabeça. Acho que foi uma revelação e tanto pra ela.
— Sério? Disse ela franzindo a testa.
— Sim. Já parou para pensar? Perguntei.
Agora sim. Sou o dono da situação. Com uma expressão incrédula, ela continuou:
— Você realmente não conhece nada sobre os filmes chineses. Disse ela para meu espanto.
— Mas não precisa saber. É só assistir pra comprovar o que estou falando. Respondi no ato.
Ela começou a coçar a cabeça com impaciência e falou:
— Os filmes desse gênero expressam a poesia chinesa, sem compromisso nenhum com o real. O que se procura passar é a profundeza dos conflitos humanos como as guerras, o amor, e as conquistas, como produto da vaidade e ganância humana. A idéia por trás desses filmes é trabalhar uma filosofia de vida.
Por essa eu não esperava. Preciso sair dessa com classe.
— Mas você não acha preferíveis filmes com um teor mais real e que se preocupem com questões pertinentes à sociedade? Perguntei, apelando para seu suposto senso crítico.
— Sim, gosto muito de documentários também. Disse ela sem vacilar.
Talvez ela não seja tão ingênua quanto imaginei. Tentarei outra investida, dessa vez não aliviarei.
— Eu acho que a indústria cinematográfica não apresenta nada de novo. Tudo que vemos é uma repetição do que já vimos antes, em suma, não se cria nada hoje em dia, tudo se copia. Vivemos numa era de pastiche.
É evidente que ela não terá agora um bom argumento contra o que acabei de falar.
— Não acredito nisso. Disse ela prontamente.
— Não? Perguntei.
Então ela disse.
— Não, porque a arte não é limitada. Há várias formas de se contar a mesma história. Eu acredito sempre numa releitura do que já se produziu, com elementos da época em que se produz, como conseqüência, aprenderemos algo novo. A arte, assim como o homem, é mutante por sua própria natureza. Se pensarmos como você, concluiremos que todos os filmes de psicopatas seriam uma mera repetição de Psicose, só pra citar um exemplo.
Estou me sentindo agora do lado da chapa quente na teoria de Einstein. Ainda por cima, ela mencionou Alfred Hitchcock. Preciso contornar essa situação e sei como. Agora ela não escapa.
— É você tem razão. Toda razão. Que tal irmos ao cinema hoje? Tem uma estréia nacional sobre os animais do cerrado. Parece ser muito bom.
Convidei-a.
— O nome é Fábula de Um Filme Humano, fui eu mesma quem dirigiu.
— Você?
— Sim, sou cineasta. Ah! meu ponto. A propósito. Não vou poder ir com você para a estréia. O Anderson já me convidou para assistirmos ao lançamento juntos, deixa pra próxima. Tchau.
Fiquei perdido em pensamentos, que só foram interrompidos depois de um tempo pelo grito do motorista.
— Desçam, por favor, o carro está sem combustível.


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A escrita de uma crônica*

O gênero ao mesmo tempo jornalístico e literário, baseado na subjetividade e em visão própria do mundo, exige estratégia de estilo para não ser confundido com outras formas de texto.



por Geraldo Galvão Ferraz




O que é uma crônica? Praticamente todos os cronistas já usaram esse tema para fazer uma crônica. Ou até mais de uma. Acho que só perdem para os poetas, que vivem escrevendo poemas para conceituar a poesia. Muita gente acha que escrever uma crônica é coisa fácil, assim como muita gente que vê obras de pintores abstracionistas diz: “Ah! Isso, meu filho (de três anos) faz o tempo todo!”
Mas fazer uma crônica, sobretudo como os cronistas profissionais, que têm de produzir um texto diário ou semanal, com um nível aceitável, que os faça manter seus leitores até o dia ou a semana seguinte, não é nada fácil. Essa sensação de facilidade, em parte, vem das próprias definições dos cronistas. Há uma, de Fernando Sabino, que é bem conhecida: “Algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã”.
Colabora para essa idéia de que é um gênero menor, como querem alguns críticos, a relação incestuosa com o jornalismo, pela sua efemeridade. A crônica é gênero feito para ser publicado em jornal ou revista. Ela só dura quando recolhida em livros. Mas nunca soube de cronista que escrevesse diretamente um livro de crônicas.
O cronista sempre escreve para o jornal ou a revista que lhe reserva um espaço determinado, quase sempre situado no mesmo lugar da publicação. Diz-se que isso provoca uma espécie de empatia, de hábito, com o leitor, que já sabe onde encontrar o cronista, assim como as palavras cruzadas ou os quadrinhos.


(Rubem Braga (à direita) em meio à comissão julgadora de concurso de crônicas e contos em 1968, no Paraná: gênero difícil de definir)


Diversão informativa

A crônica é vista, nos veículos que a publicam, como espaço de entretenimento, em meio ao monte de más notícias de um jornal ou revista. Um gênero jornalístico, mas misturado com literatura. Como o jornalista, o cronista tem como matéria-prima os fatos cotidianos, tendo até um certo dever de cultivar a notícia. A diferença está em que o jornalista vê as coisas com um grau maior ou menor de objetividade e o cronista, pelo contrário, usa a subjetividade, sua visão de mundo, filtrada por uma linguagem que engloba desde humor e ficção até fantasia e crítica.

Antepassados de um gênero

A crônica vem de um modelo francês que começou em 1799, no Journal de Débats parisiense; então, textos comentavam de modo crítico os acontecimentos do dia. Geralmente, as crônicas eram publicadas no rodapé dos jornais e foram assim trazidas para o Brasil do século 19, mas aqui se transformaram, ficaram mais leves no estilo, utilizando recursos expressivos da poesia e da ficção.
Machado de Assis brilhou como cronista, sobretudo usando seu humor acidamente crítico. Mas José de Alencar, Lima Barreto, João do Rio e Antonio de Alcântara Machado não ficaram atrás. Mais recentemente, Rachel de Queiroz, Marques Rebelo, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros foram os destaques do gênero. Hoje, os mais famosos são Luis Fernando Veríssimo, Walcyr Carrasco, Manoel Carlos, Lourenço Diaféria, Ivan Ângelo.
Vale, ainda, mais uma citação de Sabino, numa obra-prima do gênero, que se chama exatamente A Última Crônica, em que ele surge sem ter sobre o que escrever: “Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”.

Os três tipos de crônica

Os estudiosos costumam dividir as crônicas em três tipos. Um deles é o das crônicas líricas ou poéticas, cujo nome maior é Rubem Braga, insuperável para falar da borboleta que pousou na sua cobertura ou do sabiá que ouviu cantar. Mas outros há, como Antonio Maria, Carlos Drummond de Andrade ou Paulo Mendes Campos, que cultivaram esse tipo, assim como Clarice Lispector: “Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda”. É uma crônica linda, em que Clarice imagina uma verde clareira que tem borboletas e um leão, um lugar de felicidade e paz.
O segundo tipo seria a crônica de humor, cujo maior autor foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e hoje tem como nome mais conhecido Luis Fernando Veríssimo.
Uma terceira forma seria a da crônica-ensaio, com conteúdo crítico da realidade cultural, social e ideológica, como a maior parte das crônicas de Arnaldo Jabor, Cony e um naco das de Nelson Rodrigues, que mesclava o ensaio com ficção (veja-se A vida como ela é).

Qualidades da boa crônica

Ela tem de ser curta, geralmente narrada em primeira pessoa, pois devido à tal subjetividade, o cronista bate um papo com o leitor — o crítico Antonio Cândido caracterizou-a como “uma conversa aparentemente banal”.

Agarrar o leitor de cara

O começo da crônica tem de intrigar, surpreender ou divertir. Basta conferir alguns exemplos. Carlos Heitor Cony começa: “Na Academia Brasileira de Letras há um salão muito bonito, mas um pouco sinistro”. Isso para falar do salão dos poetas românticos que, como se sabe, morreram muito cedo. E mais ainda, é de onde sai o enterro dos imortais, “porque a maioria deles não tem onde cair mortos (a piada é de Olavo Bilac)”.
Luís Fernando Veríssimo opta pelo humor, claro: “Nunca tive que passar pelo martírio do vestibular. É uma experiência que jamais vou ver, como a dor do parto”. Ou ainda, Walcyr Carrasco: “Quando estava terminando o segundo grau, eu tinha dificuldade em ficar com alguém. Meus colegas viviam se apaixonando. Eu, sozinho”.

Usar filtro interno

Depois desse cuidado de principiar bem (ou antes mesmo dele), confira se o acontecimento que você selecionou ao ler um jornal ou revista, ao ver a TV ou navegar pela internet, ao sair à rua, conversar com as pessoas, entrar em contato com a realidade que cerca você, avalie bem, antes de escrever, o que a fatia de vida selecionada provoca no seu íntimo, uma sensação de alegria, de tristeza, de entusiasmo, de horror, de indignação ou de felicidade. Aí, você escreverá sobre esse fato de acordo com seu ponto de vista pessoal.
Se você ler um punhado de crônicas de bons autores, verá que esse acontecimento pode ser um evento mínimo, ao qual ninguém prestou atenção, mas em que o cronista descobre singularidades, a beleza, o lirismo. Lembro por exemplo, de uma grande crônica de Rubem Braga, que tratava da perda de um caderninho. Mais uma vez Fernando Sabino: a crônica é “a perseguição do acidental”.



*Condensado de artigo publicado na Revista Língua Portuguesa n° 20, junho de 2007.
(www.revistalingua.com.br)


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quinta-feira, 13 de março de 2008

Sarau Mulher Poesia

O Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados — CEFOR convida para o Sarau Mulher Poesia, no dia 17 de março, segunda-feira, às 19 horas, no auditório da nova sede do Centro.
Textos de Cecília Meireles, Cora Coralina, Adélia Prado e Clarice Lispector, de poetisas da Casa e participação de cantoras convidadas.
O prédio do CEFOR fica na Coordenação de Transportes, Setor de Garagens Ministerial Norte, ao lado da Gráfica da Câmara dos Deputados(http://cefor.mapa.googlepages.com/).
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sábado, 8 de março de 2008

Quanto mais dor, melhor!






— Dói?
— Dói.
— E aqui?
— Também.
— Muito ou pouco?
— Muito!
— Quanto mais dor, melhor!
Eu conhecera Nalva numa festa de aniversário, na qual recebi a primeira massagem tão logo ela tomou conhecimento do meu problema: bursite no ombro direito, que já comprometia o movimento dos membros — a mão inchara e perdera a força, enquanto os dedos do pé travavam a cada vinte passos, obrigando-me a mancar o restante do trajeto. Quando ficava nervosa, o lado direito do corpo tremia incontrolavelmente, dando a impressão de um ataque epiléptico.
Além de massagista, Nalva era cabeleireira, depiladora, manicure, pedicure e artesã. Havia sido também guardete e telefonista. Carregava uma bolsa enorme, dessas que estavam na moda, com os apetrechos necessários a suas atividades, e se deslocava a vários pontos do DF. Levava sempre um livro sobre do-in para estudar no ônibus, pacotes de ervas para revender e uma Bíblia.
Nas quartas à noite, inscrevia o nome das clientes na lista de orações da igreja e pedia a bênção do pastor para os casos mais difíceis, como o meu.
— Essa doença não é sua - ela dizia com convicção, enquanto massageava o pé torto ou a mão inchada. — Ela agora é de Jesus!
— Ai! Amém! - eu respondia, sob o ataque da mão forte, quase masculina.
Ao descobrir um ponto mais dolorido, ela insistia nele com o dedão enquanto explicava:
— São as espasmas.
Por recomendação de Nalva, comecei a tomar um chá emagrecedor 30 ervas e a usar uma loção nocauteadora sempre que tinha dor. Depois de um mês, estava mais magra e menos dolorida. Foi quando ela decidiu:
— Agora já podemos começar a drenagem enfática.
Tomadas as medidas de busto, cintura e quadril, ela deu início à ofensiva contra a gordura acumulada durante anos de sedentarismo.
— Você vai desinchar rapidinho - ela previu, socando minha barriga como uma massa de pão.
De fato, após algumas sessões, uma nova medição constatou a perda de 2 cm de circunferência. Nalva sorriu, vitoriosa:
— Na próxima vez, atacamos o rosto.
Vigorosas massagens na papada, máscaras de limão com mel, esfoliação com açúcar cristal e minha expressão rejuvenesceu alguns anos.
Com o tempo, a combinação de do-in, drenagem enfática e limpeza facial mostrou-se um sucesso. Não sinto mais dores, não manco nem tremo quando estou nervosa. Desinchei completamente, a pele está fresca, os olhos, brilhantes. Nalva é que não está muito bem: o excesso de trabalho lhe causou um problema de ciática.
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Alencar em Brasília, I e II*



Ana Miranda





“A crônica é a apropriação literária de um instinto humano. O de comentar a vida.”



Um leitor perguntou a um cronista se a crônica estava acabando — como o livro está acabando, dizem as más línguas, como o romantismo está acabando, como a história, o amor, o pão-de-ló, a família, a honestidade, a infância, o machismo, a preguiça, o salário, a ideologia, a intimidade, o passeio noturno. O cronista respondeu que, por enquanto, ainda nem conseguiram definir o que é a crônica.


Em sua nobre missão de sistematizar os equívocos, diz o antigo dicionário: “História ou narração dos fatos, segundo a ordem dos tempos”. Sim, antes de José de Alencar a crônica era a narração dos principais acontecimentos. Mas os principais acontecimentos podem ser: um par de luvas pretas esquecidas numa casa, uma amendoeira que perde suas folhas, os trovões de antigamente, o triste destino de Copacabana ou o poema que não foi aprovado, segundo Rubem Braga e Machado de Assis, dois cronistas que o tempo preservou.


Machado dizia ser o “triste escriba das cousas miúdas”. Affonso Romano de Sant’Anna disse que o cronista é o jornalista que escreve na primeira pessoa. Zuenir Ventura reafirmou que o cronista é um escritor míope, olha as coisas mais próximas.


O pai da crônica brasileira talvez seja Gregório de Matos. Nas suas sátiras, anotou os costumes no nosso período colonial. Para Machado de Assis, a crônica nasceu não se sabe a data, mas certamente com as primeiras duas vizinhas que “entre o jantar e a merenda sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia”. Percepção brilhante: a crônica é a apropriação literária de um instinto humano. O de comentar a vida. (...)


Rio de Janeiro, setembro de 1854. Dois homens, em seus fraques de lã negra, cartolas e bengalas, caminham no Passeio Público, enquanto conversam. Um deles, o mais velho e mais alto, é Francisco Otaviano, grande jornalista, homem culto, sensível, observador. O outro é o advogado recém-formado José de Alencar. Otaviano convida Alencar para substituí-lo no jornal, como folhetinista.


O folhetinista, segundo Machado de Assis, era a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo. O folhetim era uma forma de jornalismo, essencialmente informativo e muitas vezes crítico, onde o folhetinista comentava os acontecimentos da semana, tanto políticos e econômicos quanto sociais ou artísticos. Um dos temas prediletos eram os brilhantes discursos proferidos no Senado e na Câmara dos Deputados. Foi o folhetim que deu origem à crônica, como gênero literário brasileiro.


José de Alencar aceita o convite e passa a escrever os folhetins Ao correr da pena. Dá notícias do Paraguai, da programação do teatro lírico, escreve sobre a arte de chorar, a missa do galo, o asseio da cidade, fala sobre a diferença entre o sorrir e o rir, ensina como se escreve sem tinta...
A coluna de José de Alencar obtém grande sucesso. Dois anos depois ele é chamado a dirigir um jornal e passa a escrever os assuntos “sérios” nos editoriais. Sua coluna, agora, chama-se Folhas soltas. Ali ele escreve as primeiras crônicas, como as conhecemos hoje, com licença para o lirismo, a poesia, o devaneio, sem a necessidade de comentar os acontecimentos semanais.


Agora, Alencar passeia em Brasília. Está feliz, pois nesta cidade parece se realizar um sonho seu, de integração cultural. Os extremos em Brasília se cruzam, a cidade se irradia para todas as regiões do Brasil. Pena que não há mais, no Congresso, aqueles discursos de brilhantes senadores e deputados, que tanto animavam a antiga capital, todos os dias. Mas o folhetinista continua a ter muito assunto para seus devaneios.




*Texto condensado das crônicas publicadas no jornal Correio Braziliense, Caderno C, em 20/08/06 e 10.09.06
(http://www.correioweb.com.br/)
(http://www.anamirandaliteratura.hpgvip.com.br/)
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Memórias de madame

Robson Oliveira








Que casa linda! É o que dizem quando me vêem.
Mas houve um tempo — e que tempo bom aquele — em que meus salões eram fartos com convivas de todas as partes, gargalhadas de moças formosas misturavam-se a fumaças de cigarrilhas e ao odor volátil das bebidas, a vitrola... ah... ela enchia o ar com polcas alegres e dançantes, que tranqüilizavam e alegravam a todos. Toda minha opulência agradava aos poderosos da sociedade, não só pelo luxo, mas aqui eles se libertavam do pesado emaranhado de fios dos bons costumes, dando vazão aos desatinos da luxúria.
Casa da madame Bordeaux, assim todos me conheciam, em função da fama da própria madame Zuleide. O Bordeaux ela adicionou para dar um ar sofisticado ao seu nome.
Madame estava sempre bela mesmo quando não era hora de ofício. Fazia questão de eu estar igualmente como ela, glamourosa! Ela radiante com suas jóias e ornamentos pelos cabelos, eu com meus castiçais e candelabros luminosos; minha fachada é seu rosto, dizia ela, por isso as janelas eram exaustivamente limpas, para que brilhassem tanto quanto seus olhos.
Escutávamos toda sorte de segredos. Nossas camas eram como confessionários, por meio delas sabíamos com antecedência das medidas políticas, manobras militares e até finais das novelas de rádio. Nós sempre estivemos atentas a tudo isso, pois um dia, quem sabe, nos seria útil. Como vocês verão que foi!
Certo dia, depois de muitos anos, quando não tínhamos mais a beleza radiante de antes e a idade de madame refletia nas mãos trêmulas, enquanto minhas pilastras rangiam sob o peso do tempo, e nossa fachada demonstrava apenas uma lembrança da bela arquitetura de outrora, chegou uma mensagem que mudaria as coisas:
— A senhora é Dona Zuleide BOR-DE-AUCS?
— É Bordô! Por acaso você fala Brigitte BORDEAUCS? E o que deseja?
— Telegrama do IPHAN para a senhora.
O telegrama dizia que todas as casas do conjunto seriam elevadas a patrimônio arquitetônico. Que maravilha! Pensamos por um instante, bem que merecíamos isso! Até observarmos na linha vermelha com letras maiúsculas. Todas seriam tombadas, exceto eu. Argumentavam que o desejo da sociedade influenciou na decisão; não seria de bom tom tombar um bordel como patrimônio de uma cidade com figuras tão distintas. Ficamos muito irritadas com aquilo. Para os Diabos! Gritou madame, e eu prolonguei o eco de seu brado por todos os cômodos. Depois do momento de fúria, a calmaria foi angustiante para nós. Madame pelos cantos, muito triste e decepcionada com tal decisão, e dentro de minhas entranhas tentei em vão aquecê-la, pois tudo em mim são lembranças de uma época que agora está na parte escura do tempo, e só a saudade consegue iluminar parcamente esses momentos do passado.
Mas, em um de meus cômodos, surge um lampejo de memória, madame se agita e corre de um canto a outro olhando baús velhos em busca de nossas antigas memórias confessadas na presença do sacerdote da libido e do álcool, aliados traiçoeiros dos homens. Esse segredo...hunf! Não será guardado pelos votos de um ofício.
Todos os antigos diários foram reunidos, nos deliciávamos como há muito tempo não fazíamos, confabulamos juntas uma estratégia perfeita, sem falhas e, o melhor, avassaladora! Entramos em contato com um amigo antigo, um dos poucos que nos restavam, o Dr. Dantas, advogado que gosta de estar sempre em evidência, não se contentava com apenas quinze minutos de fama, sagaz como uma raposa nos tempos de juventude, agora, uma raposa velha que não dá ponto sem nó. Explicamos para ele toda a situação e lhe mostramos os velhos diários, o que o fez soltar gargalhadas há muito tempo não ouvidas.
Depois de suas orientações, entramos em contato com os órgãos de imprensa e nos prontificamos a entregar os antigos diários, os quais mencionavam muitos dos ilustres cidadãos de que a cidade tanto se orgulhava, e mais, que muitas decisões de interesse da sociedade brasileira foram tomadas aqui, em nossa presença. Está tudo registrado nos pormenores, na memória da casa de madame Bordeaux.
Feito isso, vimos que as orientações da “velha raposa” surtiram os efeitos que esperávamos, ele sob os fleches da imprensa, e nós com a atenção merecida por parte de todos.
Políticos que se sentiam comprometidos entraram em contato com madame, nenhuma ameaça contra nós adiantaria. O Dr. Dantas providenciara tudo, caso nos acontecesse algo, as memórias viriam à tona. Como a velha raposa não dava ponto sem nó, recebemos outro telegrama.
— A senhora é dona Zuleide Bor...
— Esquece! O que deseja?
— Telegrama do IPHAN.
Nesse telegrama vinha escrito que o Conselho do Patrimônio Histórico tinha reconsiderado a decisão do tombamento e uma verba seria liberada para a minha revitalização. Assim, ganhei título de nobre e de casa, passei a ser chamada de Casarão, está lá! No Livro do Tombo.
Madame e eu vivemos felizes por mais alguns anos. Essa felicidade era expressa pelos nossos rostos maquiados e pelo sentimento mútuo de admiração uma pela outra. Somos uma só, temos o mesmo nome. Cheguei a essa conclusão numa manhã em que estávamos geladas e o tempo pareceu fechar-se para nós; o silêncio imperava e de casarão passei a mausoléu.
Madame estava linda sobre sua cama, cabelos de algodão, detalhes de mãos serenas que não tremeriam mais. Desde que os olhos de madame perderam os brilhos, minhas janelas ficaram opacas, minhas fundações não vibram mais sob seus passos. O que me restou foram as memórias, que me tornam um casarão com alma de madame.


(Imagem: "Madame X", John Singer Sargent, 1883-84)
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quarta-feira, 5 de março de 2008

As lições de outros escritores*


As manhas, as espertezas, os pulos-do-gato estão nas páginas dos grandes livros

por Geraldo Galvão Ferraz



Pode parecer um lugar-comum, mas é verdade verdadeira: a única arma que se pode usar para aprender a escrever é ler, ler muito. As lições que se tiram dos textos dos escritores que vieram antes de nós são inúmeras e valem a pena.


O escritor iniciante, por mais talento que tenha, se depara com obstáculos que parecem intransponíveis. Até mais do que no futebol, a inexperiência torna os movimentos desarticulados, faz o praticante gastar esforços inúteis, deixa-o sem ação diante dos problemas. Muito disso pode ser evitado com o uso recorrente da leitura. Aprende-se como tal diálogo foi resolvido, como uma seqüência de ações chega a um final satisfatório, como a mocinha faz para escapar do vilão e cair nos braços do seu amado heróico. Ler, ler muito, ensina alguns truques do ofício de escritor. Por isso é que todo escritor profissional já revelou que lê muito. Claro, há aqueles que querem apenas ver como anda a concorrência...


Num mundo marcado pela correria, algumas pessoas acham que a leitura é uma ocupação ultrapassada, que demanda tempo demais. É besteira, claro. Ainda mais para você que deseja escrever para ser lido.


E, acredite, as manhas, as espertezas, os pulos-do-gato estão nas páginas dos livros. Os mistérios da escrita foram, são e serão enfrentados por todos os autores, de sucesso ou não, Prêmio Nobel ou não. A primeira pergunta que se faz é: tudo bem, vou ler, mas o quê? A resposta é fácil: leia o que você gosta. Deixe de lado os livros que podem chatear, por importantes que sejam. Se você já tem um gênero planejado, melhor ainda. Digamos que você quer escrever romances de fundo social. Leia, então, livros do gênero que pretende explorar e veja neles o que funciona e o que não funciona. Analise o autor, a forma com que ele escreve, como ele desenvolve a ação, constrói os personagens, arma os diálogos, usa o cenário e o tempo, sobretudo como ele transmite sua mensagem.


Todo mundo precisa ler, mas os escritores devem ler. Sobretudo os livros certos. Se um livro é muito chato, e você pena para ultrapassar o primeiro e o segundo capítulo, deixe-o de lado e comece outro, sem a menor culpa. O enfrentamento e a absorção de um livro são coisas extremamente subjetivas. Assim, se um amigo lhe recomendou determinado romance que, além de tudo, está nas listas de best-sellers, talvez seja muito chato para você. Da mesma forma, se um clássico como Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, se impõe à sua leitura como um clássico unânime, você pode achar impossível se interessar por esse mundo e por esses personagens. Não se envergonhe. Deixe-o de lado e parta para outro livro. Algum dia você descobrirá os encantos de Guimarães Rosa. E nem sempre o que é clássico incontestável é o livro indicado para você no momento. Pode acontecer também que você descubra, meio por acaso, outro clássico: começa a ler e se empolga, descobrindo o prazer que há em avançar por ele, um livro que você nunca abordou, porque era venerado pela crítica e o deixava um tanto receoso de enfrentá-lo.


É simples. Siga a maneira recomendada pelo humorista americano James Thurber: “Sempre começo pela esquerda, com a palavra inicial da frase, leio na direção da direita e recomendo este método”.


Como escritor em processo, você tem de ler de um modo diferente. Há quem goste de sublinhar frases ou trechos significativos.


É útil também para destacar metáforas ou comparações espertas. Ou ainda para realçar idéias que você admirou, detestou ou imagina que merecem uma reflexão posterior. Como artesão da escrita, procure sempre no dicionário uma palavra que você não conhece e a incorpore a seu repertório. Afinal, você não está só lendo um texto como um leitor comum; você quer entender como o escritor fez aquilo. Às vezes, apenas sublinhar não basta. Escreva o comentário que surgiu na sua mente, para não esquecer essa primeira impressão.


Se o texto o impressionou e se ele se ajusta ao que você pretende escrever, faça mais um esforço. Leia de novo, depois de saber o que vai acontecer na ação ou quais idéias serão discutidas. Você perceberá com mais clareza os métodos do escritor e, se for o caso, entenderá melhor o que ficou confuso na primeira leitura. Na ficção, você ainda pode ver melhor nessa segunda leitura se o personagem tem coerência, ou se poderia ser dispensado da trama.


A leitura estimula o seu pensamento e pode tornar você mais sensível ao que vai escrever. Com seu primeiro rascunho pronto, você vai começar a editar. Ou seja, vai ler e reler cada palavra e ver se ela está se encaixando no todo, se foi a melhor escolha, até mesmo se está escrita corretamente. Você começa a encarar seu texto como se fosse escrito por outra pessoa. E se você tiver dificuldades em entender alguma coisa ou em achar lógico um ou outro desenvolvimento do texto, lembre-se de que outras pessoas — os seus leitores — também terão.


Portanto, leia, leia muito. Já no século 18, o escritor inglês Samuel Johnson recomendava: “A maior parte do tempo de um escritor é gasta lendo, a fim de escrever; um homem pode levar meia biblioteca para fazer um livro”.



*Artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 28, março de 2008
(www.revistalingua.com.br)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira