domingo, 20 de abril de 2014

Manicada


 

Luci Afonso


Minha paixão por gatos tem apresentado sintomas alarmantes: às vezes me pergunto se estou ficando, como se diz lá em Minas, manicada.

Tudo começou, é claro, com a adoção de um gato, depois de outro e mais outro um macho e duas fêmeas, felizmente, todos castrados. Eles ocupam todos os cantos do apartamento. Sobem e descem da cama a qualquer hora, sem pedir permissão. Deitam-se de lado, de comprido, no meio, no travesseiro, o que for mais confortável. Com pena de acordá-los (quem já observou o sono sagrado dos felinos entenderá por quê), nos encolhemos no espaço restante.

Contratamos um fotógrafo profissional para clicar nossos pets o dia inteiro. Escolhidas as melhores poses, cada um ganhou um porta-retrato que faz parte das fotos de família exibidas na estante da sala.

O chaveiro da porta principal é uma gatinha prateada com gotas de strass; o da porta da cozinha, um minigatinho branco de pelúcia; o da caixa de correio, o Garfield; o do carro, uma gata estilizada com a inicial “L”.

Sei que não sou mais adolescente, mas enfeito meus cadernos com adesivos de gatos em várias cores e posições: em pé, deitados, casais, sozinhos. Eles também servem para marcar datas especiais na agenda de estampa felina.

O gato de porcelana branca, comprei na lojinha esotérica da quadra. Os gatinhos japoneses da sorte, também. Os dez. As esculturas de gatos egípcios protegem a entrada da casa. Blusa de gato, pijama de gato, nécessaire de gato, pingente de gato, livro sobre gato. O novo símbolo do meu blog é um gato preto.

Comecei mesmo a perder o controle quando adquiri o primeiro gato de pano xadrez cor-de-rosa na lojinha de presentes.

— É pra sua netinha? — perguntou a vendedora, com o olhar maldoso, enquanto fazia o embrulho.

— Não, é pra mim mesminha — respondi, devolvendo a malícia.

No dia seguinte, vi um gato igual na vitrine. Passei algumas vezes em frente à loja pra checar se a vendedora era a mesma. Era. Eu tinha todo o tempo do mundo. Sentei-me no café do outro lado da rua, pedi um expresso e fingi ler o menu. Daí a pouco a moça saiu com um bolo de papéis, em direção à lotérica. Entrei correndo na loja, comprei o gatinho e pedi à dona que colocasse numa sacola comum. Ela comentou:

— Vendemos um igualzinho ontem. É pra sua netinha?

— Não, é pra sua vovozinha — pensei em dizer, mas o sorriso simpático me deteve. Não sou tão insensível a ponto de ignorar um sorriso desses.

Agora eu tinha dois gatos de pano xadrez cor-de-rosa na prateleira acima da cama. Coloquei um em cada ponta, mas eles pareciam tão... sozinhos! Lembrei de uma amiga que fazia trabalhos manuais e perguntei-lhe se fazia gatos. Ela se dispôs a tentar. Fez diversos: estampa de cupcakes, de corações, branco de bolinhas vermelhas, vermelho de bolinhas pretas, sentados, deitados sobre as patas. Teve de interromper a produção devido à alta demanda por coelhos de Páscoa.

 Ouvi dizer que na Feira da Torre há uma artesã especialista em corujas, girafas e tartarugas de feltro. Quem sabe não a convenço a experimentar algo diferente? Como diz Tia Afonsina, quem não mia não mama. 
 
(Arte: Kelly Souto)

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira