sábado, 22 de maio de 2010

Ter ou não ter

Luci Afonso


O povo dinamarquês é o mais feliz do mundo. Ouvi isso deitada no sofá, numa tarde desocupada e sonolenta, em que zapeava os canais da TV a cabo à procura de diversão ou de cochilo, o que chegasse primeiro. Os bocejos foram se intensificando até que a reportagem no show da Oprah me despertou a atenção.

A Dinamarca sempre me lembrara Hamlet e Babette, personagens da literatura e do cinema. Naquela matéria, fiquei sabendo que os dinamarqueses de carne e osso moram em espaços pequenos, têm poucas coisas, aproveitam ao máximo o que possuem e são felizes. Também confiam uns nos outros: durante o dia, os bebês dormem tranquilamente em seus carrinhos à porta de casa.

O assunto me voltou à mente quando, há dois meses, precisei mudar de apartamento. De um confortável e amplo três quartos, dois banheiros, garagem e DCE, passei para um de um quarto e meio, sem garagem, um minibanheiro e um vaso sanitário para a empregada. Despachei grande parte da mobília e outros objetos para a chácara de uma tia e, provavelmente, nunca mais os verei; troquei a cama de casal por uma de solteiro, que coubesse no meio quarto, e arrumei o quarto inteiro para meu filho, com o computador, que ele adora, a escrivaninha, que ele detesta, e Patinha, o gato.

Acredito que todo conhecimento pode ser aproveitado, com ou sem adaptações: não existe cultura inútil. No momento, estou tentando praticar o desapego dinamarquês. A cama de casal não faz falta, porque durmo sozinha mesmo. O tamanho do banheiro tampouco é problema, pois até emagreci um pouco para entrar mais facilmente no box. Garagem para quê, se não tenho carro? E o que seria mais inútil que uma DCE, se despedi a empregada e contratei minha mãe como diarista (50 reais mais passagem, duas vezes por semana, sem carteira assinada)? Na sala cabia a mesa ou o sofá. Escolhemos o sofá, já que só comemos assistindo à TV.

Apenas uma coisa incomoda: o sol à tarde. Contornei o problema usando a rede de balanço como cortina até poder comprar uma — o tecido grosso protege bem da claridade intensa e do calor insuportável. O antigo apartamento, voltado para o nascente, tinha uma vista magnífica do lago, especialmente nas noites de lua cheia. O atual compõe um quadrado com os outros prédios, circundando um miolo de área verde. Não se vê o lago, mas sem querer já avistei alguns vizinhos trocando de roupa em frente à janela e estou procurando os binóculos para ver melhor.

Tenho aprendido que menos é menos, mas tudo bem: meu filho, Patinha e eu nunca estivemos tão próximos. Compartilhamos tudo no espaço reduzido, exceto as necessidades íntimas, por enquanto. Ainda temos muito a evoluir.
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Mulheres de Papel





O Programa Prosa e Verso, apresentado semanalmente por Marco Antunes e Tuka Villa-Lobos na Rádio Senado, comemorou os 50 anos de Brasília entrevistando e apresentando a obra de seis escritoras da cidade: Alexandra Rodrigues, Amneres Santiago, Cinthia Kriemler, Francinne Amarante, Isolda Marinho e Raquel Melo.
Os programas comporão dois CDs a serem lançados no próximo ano.
É puro encantamento ouvir vozes tão sensíveis e tão queridas.
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sábado, 8 de maio de 2010

A testemunha


Luci Afonso

Bancos vazios conversam sob a cumplicidade das árvores, e o chão se cobre de flores trêmulas. Crianças brincam no piso fresco do pilotis. Gatos e velhos fazem a sesta em quartos estreitos, enquanto passantes silenciosos decifram o alfabeto inscrito nas fachadas antigas: B de bênção, D de desejo, O de oração...

A parada de ônibus espera a jovem que atravessa a cidade a passos leves. O balanço de madeira aguarda a brisa que soprará assim que o sol atingir o topo do ipê-rosa no gramado em frente. A relva seca pede chuva — nem enchente, nem dilúvio, apenas algumas gotas que amenizem a sede das frágeis raízes.

A fiel testemunha registra as surpresas e confirmações diárias da paisagem. Recolhe os desejos, bênçãos e orações dos edifícios; refresca as crianças cobertas de suor; sorri aos velhos e gatos que se espreguiçam nas janelas.

Os pés descalços são fecundados pela seiva das flores ainda úmidas, e os olhos enormes são banhados pelo chuvisco que fertiliza o solo.

O balanço e a brisa se amam sem culpa.

Brasília entardece.


(Foto: Usha Velasco)
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma outra Brasília (a minha)


(Clique na imagem para ampliá-la.)
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domingo, 2 de maio de 2010

Cordel para Luci Afonso


Gustavo Dourado


Luci reluz verso e prosa:
Mineira de Araxá...
Cronista de alto quilate:
Às margens do Paranoá...
Sua arte é cristalina:
Canta aqui...Encanta lá...

Ano 1971:
No Distrito Federal...
Taguatinga no caminho:
Barro Branco essencial...
Ave Branca planaltina:
Brasília piramidal...

Luci em Taguatinga:
Reunião familiar...
Sempre observadora:
A crônica sabe narrar...
Pioneira no caminho:
Na estrada a divagar...

Estudou e progrediu:
Por luta e merecimento...
Mulher de fibra e arte:
Criativa no talento...
Expressa com alegria:
As luzes do sentimento...

Fez Letras na UnB:
Bom gosto pela leitura...
De Machado a Clarice:
Dádiva da literatura...
Tem o dom do visual:
Que realça na pintura...

Ano 1985:
Servidora concursada...
A sua vida melhorou:
Deu uma boa mudada...
Teve acesso a muita coisa:
Que não tinha na jornada...

Literatura que pulsa:
Ao som de Fernando Sabino...
Rubem Braga está presente:
Na arte do seu destino...
Drummond, Caio e Adélia:
E Barros diamantino...

Luci Afonso de Oliveira:
Da notícia personagem...
Clodoaldo Pernambuco:
Muitos carros fez lavagem...
Criadora e criatura:
Produtores da mensagem...

Clodoaldo José Paulino:
Seu Pernambuco, conhecido...
Personifica a crônica:
Que muita gente tem lido...
No real e na internet:
Tem o fato acontecido...

Luci escrevive, voa:
Pra se sentir equilibrada...
Equilivre circunavega:
No sonho da madrugada...
Relata a sua vivência:
Nos tempos da Esplanada...

Luci expõe o invisível:
Aquilo que não se vê...
Ela expressa essa gente:
Que nem sequer sabe lê...
O povo que ninguém sente:
Que não passa na tevê...

Escreveu Velhota, eu?:
Que é seu livro primeiro...
Vivência do cotidiano...
Desse sonho passageiro...
Luci reflete o real:
O seu amor por inteiro...

Na Câmara dos Deputados:
Taquigrafou a história...
Discursos, fatos, momentos:
A vida na trajetória...
Projetos de todo tipo:
Dessa vida giratória...

Espaço Zumbi dos Palmares:
Núcleo de Literatura...
Marco Antunes orienta:
Teatro e boa leitura...
Luci capricha no texto:
Mistura dor e ternura...

Destaque nos recitais:
Sua crônica é primorosa...
Romanceia com as letras:
Revisa sem polvorosa...
No Grande Sertão: Veredas:
Na travessia de Rosa...

Luci é luz que irradia:
Arte...Criatividade...
É um encanto de pessoa:
Cultiva a vivacidade...
Mulher de fibra e talento:
Ave da fraternidade...


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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira