sábado, 29 de novembro de 2008

29º Sarau da Câmara dos Deputados



O Núcleo de Literatura convida para o último sarau do ano, que será a festa de encerramento das atividades em 2008 e noite da entrega dos 8 prêmios do 2º Desafio aos Escritores, que serão conhecidos durante o sarau.
Haverá apresentação do Coral da Serenata de Natal da UnB e do cantor Alirio Netto.

Os mais belos poemas de temática natalina serão lembrados nesta noite mais do que especial.

Coquetel: Ceia literária

Venha, convide seus amigos, participe!

8 de dezembro
20 h
Teatro SESC Garagem - 913 Sul

Entrada franca

#Compartilhe:

Morzinho



Luci Afonso

9h
— Bom dia, morzinho!
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Acho que sim. Não lembro.
— Já tomou o seu todinho?
— Ainda não.
— Pede à Dôra para fazer bem quentinho.
— Tá.
— Já começou a tarefinha?
— É.
— Então, começa e pega firme. Depois eu ligo de novo. Um beijo e um abraço.

10h30
— Oi, morzinho!
— Oi.
— Terminou a tarefinha?
— Sim.
— Fez direitinho?
— É.
— Então, descansa um pouquinho até o almoço. Enche a barriguinha, viu? Um beijo e um abraço.

13h
— E aí, morzinho, já está prontinho?
— Tô.
— Escovou os dentinhos?
— É.
— Penteou o cabelinho?
— Sim.
— Tá cheirosinho?
— Acho que sim.
— Pede à Dôra o dinheirinho do lanche, viu? Cuidado no elevador.
— Tá.
— Vai com Deus. Boa aulinha. Um beijo e um abraço.

18h
— Oi, morzinho!
— Oi.
— Tá cansadinho?
— Sim.
— Foi boa a aulinha?
— É.
— Tá com saudade de mim?
—Tô.
— Me dá um beijo e um abraço. Hum! Te amo, filhinho.
— Eu também, mãe.


#Compartilhe:

O que vejo


Isolda Marinho


Quando olho quase tudo e nada vejo
Apenas fito leves riscos de lampejo
Não vislumbro o horizonte que almejo

Contemplo o sonho invisível que não olho
sob a luz indivisível do meu olho
Miro enfim o que aparece, não escolho

Quando observo as tantas curvas que tracejo
Prevejo até além das linhas de minha palma
É que atingi o ritual do meu cortejo
Então me vejo com o olhar da minha alma



#Compartilhe:

sábado, 22 de novembro de 2008

Sonho bom



Luci Afonso


...Segunda-feira
Grande festa com crianças. Coloco broche de borboleta na minha roupa. Rapaz me convida para olhar estrelas e depois namorar.

Terça-feira
Um homem de uma tribo me põe vários colares e pulseiras. Dois cômodos grandes são meu ateliê. Adoto menina que é menino.

Quarta-feira
Encontro jóias pelo chão. Balanço bem alto. Pessoas gostam de mim.

Quinta-feira
Todos estão com o cabelo mais bonito. Homem com filho pequeno se interessa por mim. Dou meu livro ao Presidente Lula.

Sexta-feira
Príncipe me convida para ir na carruagem com ele no dia da coroação. Homem bonito me ajuda a mudar a casa.

Sábado
Rapaz toca violoncelo para mim numa plantação de morangos. Passo mel nas coisas. Seguro menininha preocupada numa biblioteca.

Domingo...
Rapaz me leva para a casa dele por um caminho de cetim. Homem tatua poema da paciência no meu braço.
#Compartilhe:

Poética


Isolda Marinho

A poesia em mim se infiltra,
penetra, invade, adentra, habita.
Quando faço verso bom,
sou Drummond.
Quando crio rima boa,
sou Pessoa.
Musicando os ideais,
vem Vinícius de Morais.
Quando a carne se desnuda,
Neruda.
Se aos 80, sou menina,
quero Cora Coralina.
Se escrevo até sem eira,
por que não ser o Bandeira?
E na arte de rimar
como é bom o meu Gullar!
Se na métrica sou a tal,
quero ser João Cabral.
Se um poema não me engana
posso ser Mário Quintana.
Versifico o que é belo,
sou Tiago, o de Melo.
Nas Vertentes de Jovina,
minha palavra se anima.
E se escrevo para o céu...
são Tremores de Emanuel.
Tremo, vibro, queimo e ardo
num poema de Abelardo.
Poetando a vida infinda
vem Elisa, a Lucinda.
No Rubi de Amneres,
sou Cecília "Meio reles".
No meu verso submerso,
eis aí meu universo.
#Compartilhe:

28º Sarau da Câmara dos Deputados

O Sarau da Consciência Negra trará os cantores Angela Regina e Wilson Bebel e os atores PC Sanvaz e Vanessa di Farias, entre outros, interpretando textos de Castro Alves, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Luiz Gama e Marthin Luther King.

Participação especialíssima de Máximo Mansur & Jorge Amâncio.

Coquetel com pratos da culinária de origem africana.

Entrada franca.
#Compartilhe:

sábado, 15 de novembro de 2008

Rouxinol, Pombinha e Cotovia


Luci Afonso

Olhou para os quatro cantos do teto, como sempre fazia ao acordar. Fez o sinal-da-cruz da direita para a esquerda, depois ao contrário. Recitou a Oração da Serenidade em voz baixa. Era tarde, o dia já clareava.
— MEU BEM, ESTOU COM SAUDADE. VAMOS NOS VER HOJE? ROUXINOL. - Selecionou os dois números.

Alongou-se, fez a ginástica dos safenados, passou um fax para o Fernando Henrique.

Inclinava a cabeça bem para trás para tomar os remédios dispostos em ordem alfabética no criado-mudo. Guardou o pijama preferido, que sua filha lhe dera de aniversário há 20 anos. Só dormia bem quando o vestia e calçava meias, costume herdado da tia Albertina. Conferiu o cabelo no espelho do banheiro e decidiu que não caíra nenhum fio desde o dia anterior. Ajeitou os poucos que restavam.
— PRECISO DE VOCÊ. ESTOU COM MUITO T... BJS. - Enviou para ambas. Estava a perigo, não conseguiria passar a noite sozinho.

Duas bananas, uma lima-da-pérsia, um iogurte de morango, que ele tomava aos goles, movendo a cabeça rápido como um pombo. Alguém tinha comido o seu queijo.

No elevador, olhou de novo para os cantos do teto. Contou as marquises — oito, como sempre. Em frente à Igrejinha, parou o carro e rezou, de olhos fechados, duas ave‑marias. Só depois se sentiu pronto para começar o dia.

Conferiu a agenda: fazer depósitos, levar o relógio para consertar, buscar o carro do neto na Cidade dos Automóveis. Por último, se desse tempo, passar na sala dos aposentados para saber as novidades sobre as ações na Justiça. Ah, seria bom prevenir uma caixa de chocolates para a noite, ou melhor, duas: licor e menta.

Ao meio-dia, passou na Santo Antônio para chupar um picolé de coco. Teve uma idéia:
— ESTOU DOIDO PRA FAZER AQUILO QUE VC ADORA E QUE EU TB GOSTO. - Ele conseguia levá-las muito além do ponto G, e elas sabiam disso.

Almoçaria em casa, pois sobrara muita comida do domingo. O que não comesse, daria ao porteiro. Aproveitaria para lembrá-lo dos dez reais que lhe devia.

Pôs o jornal em ordem antes de ler. Procurou notícias sobre a Amazônia: por que nenhum avião havia sido derrubado após a Lei do Abate? Estavam escondendo os fatos — escreveria à Presidência da República a respeito.

Antes de cochilar, encostou a vassoura na parede do corredor, para que ninguém o surpreendesse. Os netos lhe davam cada susto! Desligou os telefones, pôs o aviso na porta: “Não perturbe”, tomou meio Lexotan e se preparou para a sesta. Quando acordasse, certamente teria recebido resposta.

Não tinha. Apelou para o último recurso, pois eram quase 5 horas:
— MEU BEM, HOJE É LUA CHEIA. - Ele ficava particularmente inspirado nesses dias.

Nunca falhava. O celular acusou, imediatamente, duas mensagens recebidas:
— ROUXINOL, ESTOU DOIDA PARA VC FAZER AQUILO QUE EU ADORO E QUE VC TB GOSTA, MAS HOJE NÃO POSSO. AMANHÃ AINDA É LUA CHEIA? COTOVIA.
— AMORZÃO, TE ESPERO ÀS 7. ESTOU LOUCA PRA... POMBINHA.

Foi se arrumar, feliz. Pegou os bombons... de menta e apagou todas as luzes antes de sair. Parou um momento na porta, com a sensação de ter esquecido alguma coisa. Provavelmente não era importante... A noite com Pombinha seria ótima! Amanhã cuidaria de Cotovia.

A noite foi um fiasco. Na pressa, esquecera-se de tomar o Viagra.
#Compartilhe:

Cigarras



Isolda Marinho


Cigarras soturnas
sibilam
cintilam
simulam
sob sol setembro

Cigarras singelas
solenes
sozinhas
silenciam
sob céu cidade

Cigarras sinceras
se soltam
soletram
suspiram

Cigarras são seres
sinistros
sensatos
sedentos

cigarras sonoras
sossegam
sussurram
saciam

cigarras são santas
sinais
silentes
silvestres
cigarras sinfônicas
seus essessssszzzzzzzzzz
#Compartilhe:

sábado, 8 de novembro de 2008

Pesadelo


De: luci.afonso@terra.com.br
Enviada em: segunda-feira, 3 de novembro de 2008 10:52
Para: elza.sobrinho@uol.com.br
Assunto: Lista

Querida Elza,

Aqui vai a lista que você pediu para analisarmos na próxima sessão. Ela se refere ao mês de outubro. Tentei organizar por assunto, para facilitar. Bj

Ataques

Atacada por um tarado de toalha.
Um poeta louco me atacava.
Monstros atacavam a cidade.

Animais

Cachorro nos mantinha em cima de uma cerca.
Tentando escapar de cidade escura. Galo queria me bicar.
Um lobo atacava a casa e eu o dominava pelo pescoço.
Lindo pássaro assassino.

Corpo

Limpando meus dentes removíveis.
Pernas não conseguiam subir escada.
Batendo em mulher que tinha queimado meu olho.

Sexo

Sexo selvagem com surfista prateado.
Ex-alcoólatra com tendências suicidas queria me namorar, mas a mãe dele exigia caução em dez vezes.

Culpa

Arrumando coisas para ir para a cadeia, mas era perdoada.

Violência

Mulheres invadiam festa, torturavam e matavam.
Parque de horrores.
Fugindo da guerra.
Brigando numa festa.
Presa num acampamento palestino.
Eu era uma psicopata.
Pesadelo sanguinolento.”

De: elza.sobrinho@uol.com.br
Enviada em: segunda-feira, 3 de novembro de 2008 16:23
Para: luci.afonso@terra.com.br
Re: Lista

Querida Luci,

Dei uma olhada inicial e acho que não há com o que se preocupar. Você está fazendo progressos importantes. Te vejo na sexta. Bjs
#Compartilhe:

Poeta com P







Isolda Marinho





Poeta com P
pisa no palco
pede a palavra
e propõe poesia.

Pincela um poema
promete o perfeito
produz paraíso
projeta no peito
o ponto preciso

Poeta com P
parece Picasso
pinta palhaço
pulsa, pranteia
na praia passeia

Poeta com P
primeiro procura
a página pura
prepara o pincel
pega na pena
perturba o papel

Poeta
percebe
permite
proclama
persiste

pinça princípios
preenche a penumbra

Poeta com P
é profeta
pressente o perigo
passa, tem pressa

Poeta com P
parte prá Passárgada

Poeta com P
é porreta
provoca
publica
protesta
propaga
pratica

Poeta é
presente
propala o
perfume
prateia o
pretume

Poeta
professa
protege
penetra
perfaz

Poeta com P
pretende
Paz





Isolda Marinho é alagoana que chegou a Brasília ainda menina. Formou-se no Curso de Letras da Universidade de Brasília e foi professora da Fundação Educacional do Distrito Federal. Poetisa desde os 14 anos, recebeu premiações em vários concursos literários. Publicou "Sementes de Amora", em 2000, e "Viço do Verso", em 2004. Alguns de seus poemas foram musicados. É presença marcante em saraus e eventos culturais. Seu nome consta no "Dicionário de Escritores Brasilienses".
#Compartilhe:

Cordel das Festas Populares



Gustavo Dourado


A Ciência do Folclore:
Aprendi com o Cascudo...
Patativa deu o mote:
Ariano conteúdo...
Vitalino esculpiu:
Cartola nos disse tudo...
Baião de dois:Farinhada
A sagrada rapadura
Bebo uma talagada
Gole de cachaça pura
Para cantar o Brasil:
E os festejos da cultura...

São muitos ciclos festivos:
Ano-Novo...Carnaval...
Ciclo das Águas e do Divino:
Sacro ciclo quaresmal...
Ciclo junino e julino:
Papai Noel no Natal...

As doze noites festivas:
Iniciam-se no Natal...
O culto ao Sol Invictus:
Antigo e tradicional...
Vai até 6 de janeiro:
Reis Magos universal...

Diversas festividades:
Festas do Cristianismo...
Divindades, santos, santas:
Eclético ecumenismo...
Nosso Senhor, Nossa Senhora:
Procissões do sincretismo...

Folguedos, bailes e cultos:
Práticas devocionais...
Os índios também celebram:
Fazem os seus festivais...
Tropos, autos, malhações:
Votos sobrenaturais...

Mani.fest.ações de rua:
O Galo da Madrugada...
Trio Elétrico da Bahia:
No Cerrado a cavalhada...
Catira...Coco... Cordel:
Cateretê e congada...

Juninas festas julinas:
Sobressai o São-João...
Quadrilhas, arrasta-pé:
Fogos, fogueira, balão...
Pamonha e milho assado:
Festa boa é no Sertão...

Crisma, batismo de fogo:
Dançar e pular fogueira...
Baião de Luiz Gonzaga:
Com forró a noite inteira...
Quentão, pinga, cantoria:
Pra curar a pasmaceira...

Música, teatro, dança:
Sinônimo de alegria
Uma lona colorida
O palhaço que arrelia...
Desde Maximus em Roma:
O circo nos fantasia...

Sociedade do Espetaculo:
Des.Ilusão, malabar...
Platéia - arqui.bancada:
Gol na festa popular...
Futebol circo moderno:
A multidão a sonhar...

Garrincha,alegria do povo:
Fez a massa delirar...
Driblava Zé e João:
Era festa popular...
O anjo das pernas tortas:
Soube carnavalizar...

Bailes em todo o Brasil
Centro, Sul, Sudeste, Norte
O Nordeste pega fogo
Alma em teletransporte
Carnaval é poesia:
A vida ilude a morte...

Abre Alas com Chiquinha
No entrudo, teve origem
Cordões pelas avenidas
Balanço que dá vertigem
A multidão se sacode:
Manda embora a fuligem...

Noel, Ary, Pixinguinha
Jacob com seu bandolim
Trio elétrico na folia
Armandinho, serafim
Dodô e Osmar no ritmo:
Salve o Senhor do Bonfim...

Carmen Miranda, Tropicália:
Bumba-Meu-Boi sedutor...
Maxixe, afoxé...lundu...
O samba interlocutor...
Todo mundo na folia:
Ritmos de paz e amor...

Sortes e adivinhas:
Simpatia e acalanto...
Pai-Nosso, Salve-Rainha:
A festa é um encanto...
Santo de cabeça pra baixo:
Atrás da porta no canto...

Dancei no Boi do Teodoro:
Desfilei no Pacotão...
Charles Preto na surdina:
Perfilou na contra-mão...
Cassetete da Polícia:
Abaixo a Repressão...

Cantigas...Contos... Brinquedos:
Nos sonhos do dia-a-dia:
Oktoberfest, micarê...
Máscaras da fantasia:
Joãozinho Trinta - Jamelão:
Nossas festas têm magia...

Amazonas Parintins:
Caprichoso e Garantido:
Cunhã Poranga e Pajé:
Saci e boto atrevido...
Gigante Juma - Curupira:
Boitatá bem sacudido...

Bumbódromo tupiniquim
ilha Tupinambarana:
Mapinguari e Mãe-Dágua:
A floresta nos irmana...
Açai...Cupuaçú:
Ecos da sussuarana...

Dança a Mula-sem-cabeça
Mãe-de-ouro na folia...
Corpo-Seco, Pisadeira:
Destranca a rua, Maria:
Com as sete chaves da vida:
Consagrada epifania...

Nosso Senhor dos Navegantes:
Linda Conceição da Praia...
Fui à Pesca do Xaréu:
No mar se via arraia...
Na Festa de Iemanjá:
Capoeira, mini-saia...

Nossa Senhora do Rosário:
Pirenópolis-Catalão...
Goiás Velho e Trindade:
Juazeiro no Sertão:
Lampião e Padim Ciço:
Reza de Frei Damião...

Raízes culturais do Brasil:
Questão de identidade...
Círio e Aparecida:
Interior e cidade...
Procissão do Fogaréu:
Festa...Multiplicidade...

Candomblé Umbandaum:
No Pelô o saravá...
Mãe Menininha, a bênção:
Iluminou Gantoá...
Os orixás da Prainha:
No Lago Paranoá...

No ritmo do improviso:
Inácio da Catingueira...
Cego Aderaldo na rima:
Desafia Zé Limeira...
Festa em Campina Grande:
Xaxado...Mulher Rendeira...

Repercutem os tambores:
Oferenda a Iemanjá...
Oxum, Xangô,Iansã:
Oxóssi, Ogum, Oxalá...
Macumbanda...Candomblé:
Iaô...Ylê...Iaiá...

Cristão e mouros em luta:
A famosa cavalhada...
Pastoril e seus cordões:
Sebastião na congada...
Zabumbas e maracás:
Sacodem a caboclada...

Nossa Senhora Aparecida:
Festa da Boa Viagem...
Santos Reis, São Benedito:
Chegança...Camaradagem...
Pajelança...Uca-Uca:
Nossos ritos de passagem...

O Brasil se sassarica:
Se sacode na noitada...
Pula, dança e festeja:
Pagode e marujada:
Xoxoteia xaxaxando:
Se remexe na lambada...

Nas festas de hoje em dia:
Tudo está muito mudado...
Tem show e tecnologia:
Se perdeu o rebolado...
Saudade do forrobodó:
No terreiro e no roçado...

Nas noites de minha infância:
Não tinha eletricidade...
A luz era à luz da lua...
Tinha estrelicidade...
Dos festejos de menino:
Lembro e morro de saudade...

Nosso povo é sonhador:
Deseja o essencial...
Terra, amor, casa, comida:
Trabalho, vida normal ...
Quer a paz e equilíbrio
E festejar o Carnaval...

Valorização da Arte
É ação de resistência
A cultura é vital
Pra nossa sobrevivência
Livros, arroz e feijão
Na festa da consciência.

Pra você tudo de bom:
Saúde...Fraternidade
Um Natal de harmonia:
Luz...Solidariedade...
Paz...Amor e Alegria:
Sucesso e Felicidade...

Um Ano-Novo de glórias:
Sua estrela vai brilhar...
Que tudo se concretize:
Possa a vitória alcançar
Universe a fantasia:
Numa Festa Popular...


#Compartilhe:

sábado, 1 de novembro de 2008

Meninas gordinhas



Luci Afonso


Sempre fui perseguida por meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.

A da escola primária nunca me deixava entrar na roda do recreio:
— Ela, não!

As colegas obedeciam com medo do punho forte, que derrubava até meninos. Eu me sentava na escada do pátio e comia o lanche. A gordinha, com ar de triunfo, não tirava os olhos de mim. Terminado o primário, ela se mudou da cidade.

A da adolescência tinha uma bunda enorme, que fazia sucesso entre os rapazes. — Fala “chuchu”! - Ela provocava, imitando o biquinho que eu fazia ao pronunciar essa palavra. Todos achavam muita graça. Depois do ginásio, nunca mais tive notícias dela.

Encontrei a terceira gordinha na Comunhão Espírita, onde trabalhávamos como voluntárias. Na primeira vez em que conversamos, ela abriu um meio sorriso e comentou: — Você parece uma freira! - juntando as mãos, como numa prece. Sempre que nos víamos, ela repetia o gesto. Algum tempo depois, ela deixou a Comunhão e nunca mais a vi.

Sempre amei meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.
#Compartilhe:

Fiapo d’água




Antônio Cardoso Neto

Não muito longe do mar, o fiapo d’água desembrenha-se da rocha nua no pé da serra para mais adiante emendar-se com outras águas, mudando inúmeras vezes de nome e de dono como um cão vadio. Logo mais, passa a chamar-se Tietê.

Ao contrário das corredeiras que se desgarram das encostas escarpadas da serra e se lançam no vazio buscando o mar desesperadas, o rio recém-nascido inicia sua sina cabocla de costas para o Atlântico, levando na corrente mansa quem ou o quê se destine ao interior. Antes, passa pela urbe desmesurada, onde recebe mais detrito que qualquer outro rio do universo. Torna-se uma gosma que a perpassa lentamente e empesta o ar, devolvendo-lhe os insultos. Só muito depois é que reaparecem alguns lambaris e lambe-pedras. Não recupera mais a transparência.

Depois de cruzar cafezais e pastagens, se enfia pela vastidão pálida e vulgar dos canaviais. Acolhe o Piracicaba, intumesce o ventre em Itapuí, encontra o Paraná e se embaralha a outros nomes tupis vindos como flechas de ambas as margens: Sucuriú, Aguapeí, Taquaruçu, Paranapanema, Amambaí, Ivaí, Piquiri.

As águas se alargam, diminuem o passo e escorrem vagarosas sobre o sudário lacustre que cobre as sete quedas de Guaíra. Escorregam pelo cimento, desabam espremidas entre as paredes de aço, se arrebentam nas turbinas e, em meio à espuma, unem-se às do Iguaçu, que despencam de um precipício perto dali.

***

Margeada por palmeiras e araucárias estrangeiras, a correnteza segue seu curso até juntar-se ao Paraguai que traz no rastro a lama das torrentes pantaneiras e as areias quíchuas do Pilcumayo. O caudal prossegue indiferente às canhoneiras de Mitre e às fragatas de Tamandaré, envoltas pelo lodo escuro das profundezas. É aí, entre a esquadra inteira de Solano López ancorada no negrume do fundo do rio, que habita escondido o coração guarani.

A corrente circunda a Mesopotâmia Austral e fende-se em veredas líquidas que se derramam na boca do rio dos pássaros pintados. O que são a tesoura das Parcas e o alfanje do arcanjo negro para todo sangue é o tridente de Netuno para essas águas todas. O deflúvio agoniza no leito de prata.

Ao lado da cidade colossal que se lhe apresenta como aquela da infância de suas águas, chega o Tietê ao destino que pensava ter evitado quando era um fiapo d’água no pé da serra.

e não fosse sua teimosia em contrariar o senso lusitano e fugir do mar, talvez bandeirantes e emboabas não tivessem se animado a subir corredeira à cata de bugre e pedra na fundura das matas. Aí, mais dia, menos dia, genocidas iguais a eles teriam surgido do poente, falando castelhano. E então, quem sabe, ao Brasil não restasse mais que ser uma tripa litorânea do Pará à bela Meiembipe. Um enorme Chile oriental.

***

#Compartilhe:

Breakfast



Marco Antunes


Calling you

(Bob Telson)

A desert road from vegas to nowhere
some place better than where you've been
A coffee machine that needs some fixing
In a little cafe just around the bend
I am calling you
Can't you hear me
I am calling you



Era uma estrada deserta entre Vegas e nenhum lugar que me pareceu merecer um nome — e talvez Mojave haveria de ser o sobrenome de qualquer ponto no mapa — se houvesse a possibilidade de encontrar algum no porta-luvas abarrotado de papéis sem ordem (ou motivo de arquivo) sobre trastes com aspiração a lembranças.

Parado no acostamento com os dedos queimados pelo copo de café desproporcional, eu olhava a mulher recostada em meu carro com seu jeans imundo e me perguntava em que limite da solidão eu começaria a usar de algum critério para não dormir sozinho.

O vento empoeirado da estrada sugeria aflito um rumo para os lados da Califórnia, mas a possibilidade de chegar sem mim a algum destino, impressão que oceanos sempre me causam, aconselhava mais vagar.

Um lagarto espreitava a manhã com fome paciente e um caminhão saía do posto tomando ridículo cuidado antes de entrar na via.

Na janela do carona, um menino sonolento colava o rosto contra o vidro, curioso de nós ali parados e pode ser que o pai apertasse a aba do boné a significar uma saudação aos estranhos no acostamento.

Solidão mais silenciosa depois.

O velho frentista guardou o pano no bolso do macacão puído e entrou porta a dentro.

Então, éramos, de novo, eu a mulher cujo nome, se soube alguma vez, me faltava agora, o lagarto e a estrada.

O olhar dela, emoldurado em rugas, não se animava a me indagar de seqüências, mas tampouco parecia conformado ao silêncio de minha vontade.

O lagarto desistiu de nós ou da manhã e sumiu atrás de uma duna.

O café chegava ao fim e a mulher desenhou com o pé um arco na areia.

Agora o sol estava autorizado a queimar forte e começava a trabalhar com diligência.

— O que tem pra lá? – Eu disse apontando a margem esquerda da estrada.
— Cold Creek – Disse a vagabunda sem me olhar diretamente.
— Onde quer ficar?
— Se for voltar a Vegas, me deixe em Big Plantation; se resolver seguir, fico em Indian Spring, a 3 milhas daqui, pode ser?
— Na boa! – Respondi pela metade ignorando a pergunta intrínseca: “O que vai ser?”

Olhei o bustiê nojento que, de noite, cheguei a tirar com os dentes e cuspi para o lado a borra de café com essa lembrança.

O corpo era disforme, desproporcional: ancas enormes, barriga flácida e seios tão exageradamente falsos que me deu vergonha de ter chupado.

O dia seguinte de todas as minhas escolhas tinha sempre a mesma náusea e arrependimento inútil. A dura verdade é que, se quisesse ir a algum lugar, estaria fora de rumo e provavelmente atrasado.

Ter saído do motel sem banho era o remorso mais imediato, porque subia um vapor quente de minha virilha enquanto urinava na areia e, injustamente, me deu ganas de espancar a vadia. “Mulher porca!”, pensei, mas já sabendo que iniquamente.

De cabeça, fiz as contas e parei em cinco mil pilas, que era o fôlego ainda no bolso para essa viagem sem roteiro.

Ela me olhou menos tolerante: queria saber uma direção...

Olhei os dois destinos prováveis e escolhi a solidão mais imediata.
— Vou te deixar em Indian Spring!

Ela balançou a cabeça e entrou no carro. Fingi precisar qualquer coisa na mala e me demorei um pouco mais olhando o letreiro em néon do Bagdá Café, ainda aceso mas onde há muito devia estar queimado o “B”.

Me perguntei se era ali o lugar que inspirou o filme e bati a tampa da mala com força desproporcional e tola, porque, depois de ouvir o barulho, ficou bem claro que não dizia o que eu estava pensando,e, se dissesse, aquela mulher não entenderia...nem a estrada.

Entrei rendido no carro, mas foi então que me surpreendeu uma certa inocência azul de olhos que, se mais nada explicava ou inspirava, contavam um pouco da noite por trás da bebedeira e o mundo pareceu menos mal.
#Compartilhe:

Sarau Festas do Povo




O Espaço Cultural e o Cefor convidam para o Sarau Festas do Povo, que celebra as raízes culturais brasileiras e está entre as comemorações do Dia do Servidor.

As manifestações culturais de um povo são as raízes de uma nação, a sua "marca" e trazem consigo as histórias e as lendas do seu passado, conscientizando as pessoas do caminho traçado até chegarmos aos dias atuais. Um povo que preserva sua cultura sabe direcionar o rumo a ser seguido e possui identidade própria.

Cacuriá, Folia de Reis, Viola Caipira, Catira são alguns exemplos destas manifestações que serão apresentadas no evento.

Venha participar desta festa!

Programação

19h Recepção – Cia. Mambembrincantes
Hall de entrada
19:30h Catira e Folia de Reis – Grupo Irmãos Vieira
Hall do auditório

Cuitelinho (Paulo Vanzolini) – Marcos Mesquita, viola caipira
Saudades da minha terra (Goiá) – Marcos Mesquita
O Lema do Nordestino (Amigão – Alberto R. da Silva) – Anabe Lopes
Carnaval em Pirapora (Adilson Cordeiro) – Isolda Marinho

Prenda minha (domínio público) – Marcos Mesquita
Ensaboa (Cartola) - Marcos Mesquita
Vertentes (Adilson Cordeiro) – Roberto Klotz
Procissão do Fogaréu (Cinthia Kriemler) – Cinthia Kriemler
Abre-asas-da-mata (Robson Corrêa de Araújo) – Mathias Moeller
A entrada da prostituta no céu (J.Borges) – Grupo APA - Companhia de Comédia
Cordel das Festas Populares (Gustavo Dourado) – Gustavo Dourado

Churrasquinho (Adilson Cordeiro) – Liana Ferreira
Romaria (Carlos Drummond de Andrade) – Marco Antunes
Profundamente (Manuel Bandeira) – Marco Antunes
Forró é pra todo mundo (Adilson Cordeiro) – Arlete Sylvia
Círio de Nazaré (Goya e Ubiratan Aguiar) – Goya
Cacuriá

Coquetel: Comidas típicas

Patrocínio:
Sindilegis

Auditório do Cefor - Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3 Coordenação de Transportes da Câmara dos Deputados (atrás dos anexos dos Ministérios)

3 de novembro (segunda-feira) às 19h
ENTRADA FRANCA

#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira