sexta-feira, 23 de abril de 2010

Brasília em cordel


Gustavo Dourado: três meses para a produção do livro sobre a cidade



"Brasília tem todo um processo histórico, mitológico, onírico". É o que o autor do livro Brasília 5.0 - antologia de cordel, Gustavo Dourado, destaca sobre o cinquentenário da capital federal, celebrado em cordéis de sua autoria, que contam a história de artistas, pensadores e jornalistas apaixonados pela cidade. Defini-la a partir das experiências de gente profundamente envolvida com Brasília custou a Dourado dias de muito trabalho. "Fiquei escrevendo de manhã, de tarde e à noite durante três meses. Passava pra cada um, que dizia, 'tira isso, inclui isso'. Tem caráter biográfico e de pesquisa", explica o escritor sobre a composição dos textos.

O livro será lançado hoje, a partir das 19h, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília (ao lado da Rodoviária). Cinquenta nomes da cultura local, entre eles Vladimir Carvalho, Reynaldo Jardim e Paulo Tovar, sintetizam o legado imaterial da ainda jovem capital brasileira.

Baiano de Ibititá, região da Chapada Diamantina, o escritor de 49 anos soma 13 livros publicados, considerando Brasília 5.0, e disponibiliza toda a sua produção literária para download gratuito na internet, em www.gustavodourado.com.br. Além dos volumes, mais de mil cordéis estão disponíveis para leitura.

Gustavo Dourado foi alfabetizado aos 3 anos, por meio de cordéis e da Bíblia. Ele se recorda com carinho do primeiro cordel lido, Juvenal e o dragão, de Leandro Gomes de Barros. Ainda criança, antes de completar 15 anos e se mudar para Brasília, ele também escrevia cartas para pessoas analfabetas. "Aquilo que é visto em Central do Brasil aconteceu comigo", destaca. Na escrita dos textos do novo livro, procurou mesclar poesia popular e erudita. "Considero esse cordel, apesar da influência nordestina, um cordel brasiliense. Pego coisas de Goiás, Minas, da Tropicália, dos modernistas, dos concretistas", comenta.

Em vez de celebrar a arquitetura, tema recorrente nas homenagens, o cordelista usou arte popular para resumir um pouco da sua experiência com a cidade e biografar figuras importantes que participaram da edificação cultural de Brasília. Estudante da UnB nos anos 1970, Dourado diz que ajudou a criar o Centro Acadêmico do curso de Letras e participou da acolhida às bandas de rock no início dos anos 1980.

 
Capa de Toninho de Souza
 
Participantes: Vladimir Carvalho, Neusa França, Reynaldo Jardim, Stella Rodopoulos, Antônio Miranda, Dad Squarisi, José Santiago Naud, Toninho de Souza, Meireluce Fernandes, Elias Daher/Sindescritores, Emanuel Medeiros Vieira, Adison do Amaral, Áureo Mello, Sérgio Waldeck de Carvalho, Áurea Portilho, Terezy Godoi, Palmerinda Donato, Maria Félix, Isolda Marinho, Roberto Klotz, Pinheirinho, Serra Azul, Vânia Diniz, Rômulo Marinho, Dinorá Couto,Leon Szklarowsky, Carlos Porfírio, Jorge Amâncio, Antônio Temóteo, Eileen Guedes, Clotilde Chaparro, Gilma Limongi, Jupyra Ghedini, Márcia Oliveira, Eliana Alves de Campos, Luiz Dias Bahia, Nina Tubino, Madellon, Maria de Lourdes Torres de Almeida Fonseca, Shirlene Morais Rodopoulos,Nestor Kirjner/Coral Alegria, João Ferreira, Ronaldo Mousinho/ALT, José Carlos Ferreira Brito, Luci Afonso, Roberley Antônio, Ildefonso Sambaíba, Roberley Antônio,Anabe Lopes, Nazareth Tunholi, Paccelli Zahler e Luiz Martins*.E em memória de Cassiano Nunes, Ernesto Silva, Oliveira Bastos e Paulo Tovar.

Auditório da Biblioteca Nacional de Brasília
A partir das 19h
23 de abril de 2010
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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Errata


Luis Fernando Veríssimo



Na página 12, linha 16, onde está “Beije-me, desgraçado” leia-se “Deixe-me, desgraçado”.

Na página 13, linha 39, onde está “...da tia de Heidegger” leia-se “...da teoria de Heidegger”.

Na página 28, o trecho que começa com a frase “Na água-furtada da mansão” e termina em “riso incontrolável” está completamente truncado. A segunda linha do trecho — “quando Melissa e Rudy surpreenderam Athos abrindo a barriga do gato” — deve ser a quarta. A quarta linha — “não posso, não posso me controlar! Quando a lua entra no quarto crescente eu começo a minguar e...” — deve ser a terceira. E a terceira — “uma linha de lanceiros se estendia por todo o horizonte” — deve ser de outro livro. No mesmo trecho, onde está “açude” leia-se “açoite” e onde está “reumatismo” leia-se “pragmatismo”. O autor não pode garantir que a ortografia da palavra em sânscrito esteja exata. E o ponto e vírgula depois de “bolor dos séculos”, claro, é ridículo.

Página 111, terceira linha: onde está “com pé lindo” leia-se “compelindo”.

Página 118. O autor não conseguiu localizar exatamente onde está o erro, mas é evidente que ele existe. O Dr. Robão não poderia ter participado do encontro com os conspiradores já que — como o leitor mais atento certamente percebeu — o Dr. Robão morreu de uma embolia no terceiro capítulo. É melhor pular esta parte.

Página 200, da linha 20 até o fim da página. Totalmente ininteligível. Num esforço de memória (pois nem os originais tinha à mão, visto terem sido perdidos — ou jogados fora? — pelo revisor...) o autor conseguiu repor alguma ordem na narrativa. Ludmila não aceita a proposta do príncipe. Declara que prefere morrer a trair seu marido (e não “prefiro Momo a traíra do mar”, como saiu). Expulsa o príncipe da sua cama e o chama de ignóbil (em vez, é claro, de “Igor”). Nas linhas seguintes, como saiu, o leitor terá a impressão de que o príncipe tropeça num anão e cai de ponta-cabeça, pela janela, num canteiro, onde passa a ser cheirado, com interesse, por um unicórnio. Nada disso — desnecessário dizê-lo — acontece. O príncipe veste-se com calma dignidade, acena com a mão e sai (pela porta!) para o corredor, e só então começa a ser cheirado, com interesse, por um unicórnio. Pelo menos, o autor acha que é isto. Aquela frase no final do parágrafo — “Zé, telefona para o Duda” — não tem nada a ver com a história e deve ter sido acrescentada pelo revisor, Deus sabe em que circunstâncias.

Página 301, linhas 3, 12 e 29. Onde está “babalu” leia-se “cabelo”. Onde está “lontra maluca” leia-se “lenta meleca” — quer dizer, até o autor já está fícando confuso, “lentamente” — e onde está “despiu-se alegremente no hall” leia-se “despediu-se alegremente no hall”.

Página 324, da linha 4 até o fim. É Ludmila e não, como parece, o Dr. Robão — que está morto — que diz “O que está em julgamento hoje, senhores, é nada mais, nada menos, do que a tradição moral do Ocidente, a Ética Cristã e a minha massa de empada”. Ela sabe que todos sorrirão, menos o criminoso. Onde saiu “o motor pifou” leia-se “o promotor piscou”. A frase final de Athos, que deveria ser “Eu sou canhoto” — eliminando-o, portanto, como um dos suspeitos — saiu “Eu não sou canhoto”, o que modifica todo o sentido da história. O leitor pode muito bem deduzir que Athos acionou o interruptor, matando Miller e os três cientistas. O que tornará pouco convincente a confissão do príncipe, ainda mais que a sua frase que encerra o livro — “Cavalheiros, fui eu” — saiu “cavalo fuinha”.

No final é ponto e não vírgula.

(A grande mulher nua. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 1999)
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sábado, 10 de abril de 2010

Pequenina crônica para o menino triste


André Giusti

O menino triste que mora em meu prédio está lá embaixo quase todas as vezes em que chego ou saio, sempre levando pela coleira dois ou três cachorros. Não distingo as raças, de cães entendo apenas de fazer festa nos mais dóceis e manter distância dos mais bravos. Só sei que em cada leva que vai para o passeio, são diferentes os bichos. A mãe do menino triste tem 14 cachorros dentro de um apartamento, para a revolta e incômodo dos vizinhos. É do tipo que acha que cachorro é mais importante do que gente, do que criança, que é a melhor espécie de gente. Respeito os bichos, mas ainda penso que as pessoas, apesar de todos os problemas que trazem, são mais importantes.

Morando em um “canil”, é compreensível que o menino viva lá embaixo, invariavelmente com duas ou três coleiras na mão. Passa ao largo das outras crianças do prédio, desvia das correrias. Quando está longe — e quase sempre está — arrisca olhar as brincadeiras, e em meio a cocô, xixi e latidos, parece dar como justo e normal que ser criança não é aventura que ele mereça. Atrás de bola nunca o vi, tampouco sentado no selim forçando as pernas curtas contra os pedais de uma bicicleta. Cercado de quatro, oito, doze patas, segue sua vida de menino sem meninice.

Eu não o cumprimentava. Injustamente, estendia ao garoto o silêncio dispensado à mãe, sem raciocinar que a culpa de se criarem 14 cachorros em um apartamento não é da criança. Aliás, as culpas pelas imbecilidades do mundo nunca são das crianças.

Igualmente errados, os outros vizinhos dispensam ao menino nada além do olhar frio e acusatório que nasce das querelas adultas. Sabedor disso, o menino não foge apenas dos de sua idade. Toma distância também dos grandes, desses mais ainda, pois podem condená-lo pelo erro do qual ele compactua porque é menino, porque menino não tem muito direito de querer ou não. Mantém-se isolado, na companhia de cachorros, falando com cachorros.

Até que outro dia, um dos cães que ele levava latiu para uma de minhas filhas. Nervoso, temendo que o litígio com a vizinhança explodisse ali, tratou de dizer “Calma, ele não vai te morder, ele ‘tá é com medo de você”. E a frase foi seguida de um sorriso trêmulo, tímido, doce. Como eram doces a voz afobada e o sorriso acanhado do menino, que quase pedia permissão para sorrir. Foi a primeira vez que o vi sorrir. Foi a primeira vez que ouvi a voz do menino triste do meu prédio.

Ainda fiquei alguns minutos por ali. E como criança não tem mesmo muito assunto que puxar com adulto, repetiu mais um tanto “ele não vai ter morder, não fica com medo”, embora minha filha já até fizesse festa no focinho do bicho.

Desde lá passo e cumprimento o menino triste do meu prédio. Ele responde com a voz doce e afoita, desacostumado que é a receber “olá, como vai”. Às vezes até sorri, da mesma forma cândida, insegura. Mas quando as outras crianças estão por perto, me olha sério, pedinte, como querendo que eu, por um instante, tome conta dos cachorros para que ele vá correndo viver um momento que seja de meninice.

André Giusti é jornalista/radialista da Band FM Brasília.
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Revisar o próprio texto


Repassar o próprio texto, à procura de falhas de concepção e redação, pode salvar o dia

Revise cada escrito, do texto a ser publicado ao e-mail mais despretensioso. Na revisão, é preciso fingir ser o próprio leitor de um texto que você fez, para buscar as questões que o rascunho pode ter deixado de fora. O leitor ou ouvinte não deve passar pelas dificuldades que você passou ao ler o próprio original.

Leitura final

- Tenha em mente o projeto de texto que você se propõe.

- Confira se o texto flui ponto a ponto.

- Verifique se afirmações se antecipam a eventuais indagações do leitor.

- Corte o que for irrelevante.

- Não omita informações; não exagere nos detalhes.

- Não insista em fatos de que o leitor já disponha.

- Disponha de forma linear os elementos da frase.

- Não desvie do assunto.

- Veja se os trechos não devem ser distribuídos noutro ponto do texto.

- Não repita conectores, muitos "que" para iniciar explicações ou restrições a termos já expostos.

- Busque palavras com sentidos apropriados ao tema.

- Evite usar termos como se fossem sinônimos ou antônimos, mas que não têm real relação semântica.

- Faça revisão gramatical do escrito. Três vezes.

- Quanto terminar, pare.


Fonte: Revista Língua Portuguesa nº 51, janeiro de 2010
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sábado, 3 de abril de 2010

Feliz Páscoa


Frei Betto

Feliz Páscoa aos que desdobram a subjetividade, rompendo a casca do ego para deixar renascer a mulher ou o homem novo, e a quem se nutre de TV sem enxergar as maravilhas encerradas no próprio peito.

Feliz Páscoa aos artífices da paz que, entre conflitos, exalam suavidade, não achibatam com a língua a fama alheia, nem naufragam nas próprias feridas. E aos emotivos que deixam escapar das mãos as rédeas da paciência e nunca abandonam as esporas da ansiedade.

Feliz Páscoa aos que tecem com o olhar o perfil da alma e, no silêncio dos toques, curam a pele de toda aspereza. E aos amantes tragados pelo ritmo incessante de trabalho, carentes de carícias, que postergam para o futuro o presente que nunca se dão.

Feliz Páscoa a quem acredita ser o ovo portador de vida, sem que a fé exija que o quebre, e aos incrédulos e a todos que jamais dobraram os joelhos diante do mistério divino.

Feliz Páscoa aos que identificam as trilhas aventurosas da vida mapeadas na geografia de suas rugas e não se envergonham da topografia disforme de seus corpos. E a todos aqueles que, robotizados pela moda, se revestem de estátuas gregas carcomidas pela anorexia, sem se dar conta de que a mente mente.

Feliz Páscoa aos que ousam ser gentis e doces, sem pudor de abraçar o menino que carregam dentro de si. E aos afoitos, competitivos, turbinados e sarados, enamorados da própria vaidade, incapazes de suportar uma fila de espera.

Feliz Páscoa aos que sabem amarrar o seu burrico à sombra da sabedoria e jamais negociam a felicidade em troca de uma arroba de milho que, vista a distância, parece pepita de ouro. E aos idólatras do dinheiro, fiéis devotos dos oráculos do mercado, reféns de pobres desejos que, saciados de supérfluos, nunca alcançam o essencial.

Feliz Páscoa a quem abre caminhos com os próprios passos e cultiva em seus jardins a rosa dos ventos. E aos que colhem borboletas ao alvorecer e sabem que a beleza é filha do silêncio.

Feliz Páscoa aos que garimpam utopias nos campos da miséria e trazem seus corações prenhes de indignação, sem jamais olvidar o próximo como seu semelhante. E aos que, montados na indiferença, atropelam delicadezas, até que a dor lhes abra a porta do amor. Feliz Páscoa aos que nunca fecham a janela ao horizonte, regam suas raízes e não temem pisar descalços a terra em que nasceram. E aos que se embriagam de chuvas, ofertam luas à namorada e fazem da poesia a sua lógica.

Feliz Páscoa aos colecionadores de araucárias, que enfeitam de sonhos suas florestas e, na primavera, colhem frutos de plenitude. E aos que brincam de amarelinha ao entardecer e desconfiam dos adultos exilados da alegria.

Feliz Páscoa aos que se repartem nas esquinas, distribuem aos passantes moedas de sol e, nada tendo, nada temem. E aos que, ao desjejum, abrem sua caixa de mágoas e recontam uma a uma, gravando nos cadernos do afeto dívidas e juros.

Feliz Páscoa aos que caminham sobre tatames e, por terem muita pressa de chegar, jamais correm. E aos navegadores solitários, pilotos cegos e peregrinos mancos, que se arrastam pelas trilhas da desesperança.

Feliz Páscoa aos políticos obrigados a inventar, para os outros, o futuro que não se deram no passado, e estendem sorrisos para mendigar votos. E aos que não se deixam iludir pela insipidez da política e nem atiram seus votos na lixeira do desinteresse, alimentando ratos.

Feliz Páscoa aos trovadores de esperanças, aos fazendeiros do ar e aos banqueiros da generosidade, que sabem tirar água do próprio poço. E aos que mantêm em cada esquina oficinas de conserto do mundo, mas desconhecem as ferramentas que arrancam as dobradiças do egoísmo.

Feliz Páscoa a quem sequestra o melhor de si, escondendo-o nas cavernas de suas mesquinhas ambições, sem coragem de pagar o resgate da humildade. E aos que nunca banem do espírito a presença de Deus e fazem da vida uma or/ação.

Feliz Páscoa às bailarinas fantasiadas de anjos que sobem, na ponta dos pés, a curva policrômica do arco-íris, e aos palhaços ovacionados que, no camarim, se miram tristes no espelho, vazios da euforia que provocam.

Feliz Páscoa aos que descobrem Deus escondido numa compota de figos em calda ou no vaga-lume que risca um ponto de luz na noite desestrelada. E aos que aprendem a morrer, todos os dias, para os apegos de desimportância e, livres e leves, alçam voo rumo ao oceano da transcendência.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira