sábado, 26 de julho de 2014

O gigante americano


Luci Afonso


Desde ontem sinto uma dor dilacerante na base da coluna. Ela começou quando fui tirar o gato de cima da mesa, esquecendo que agora ele pesa quase dez quilos. Abaixei-me de mau jeito e me levantei torta.  

De início, procurei o ortopedista, que me encaminhou ao fisioterapeuta, que depois de vinte sessões me devolveu ao ortopedista, sem melhora nenhuma. Analisando  as opções de tratamento — osteopatia, terapia mecânica, reconstrução músculo-articular, mobilização neural, conduta cinesioterapêutica, quiropraxia —, lembrei-me de uma amiga que há pouco teve um problema semelhante.

— Quiropraxia é bom — diz Isolda ao telefone —, mas dói muito no começo. Depois alivia. O pior é a cadeira. Haja o que houver, não solte o pescoço.

— Por que não?

— Você já viu os filmes do James Bond? Eles quebram o pescoço dos caras com um clique.

Minha experiência com a quiropraxia não é boa. Há muitos anos, fui atendida por um picareta que só levou meu dinheiro. Agora, porém, tenho a indicação de um bom profissional. A advertência da Isolda me assustou um pouco, mas nada pode ser pior que a dor atual.

Primeira consulta. A parede da recepção está cheia de diplomas e a mesa, para variar, coberta pela revista Caras. Espio a fantástica vida dos famosos enquanto espero.

Tudou bem? — deparo-me com um gigante de olhos azuis, barriga avantajada e sorriso bonachão. Deve dar um ótimo Papai Noel. Apesar de estar há doze anos no Brasil, fala um português musical, carregado nos rrs finais e entremeado de pausas e gestos.

Desculparr, não falarr bem ou português. Tentarr. OK.

Ele pede que eu vista a camisola hospitalar, antes de me apalpar com as mãos grandes e pesadas.

Põe ou camisol abertou para trás. Seus nervous durous. Tentarr soltarr. Non deu. Próximou vez. OK.

Em seguida, ele ordena que eu deite de barriga para baixo e pressiona minhas costas até eu ficar sem fôlego.

Coluna tortou. Nervou inflamadou. Vértebrou fora lugarr. Tentarr pôrr lugarr. Non deu. Próximou vez. OK.

O gigante americano alterna toques das mãos imensas com batidas dolorosas de um instrumento que não vejo, mas que parece um martelo. Tento me concentrar no alívio que supostamente virá em seguida.

Quando me deito de lado, o Dr. Robert põe todo o peso do corpo sobre minha perna dobrada e dá um tranco como se eu fosse um carro velho. Ambos aguardamos o clique, mas ele não vem. Ao que parece, a coluna está desalinhada há anos e não vai ceder na primeira sessão.

Sentarr nou cadeira.

Logo descubro por que esta é a pior parte: ele agarra meu pescoço com as duas mãos e o movimenta rapidamente em várias direções, antes de dar o puxão. O receio da Isolda tem fundamento: um pequeno descuido seria fatal.

Pescoçou travadou. Relaxarr. Muitou tensou. Próximou vez. OK.

Estou muito mais dolorida do que quando cheguei. O Dr. Robert adivinha meus pensamentos:

Dorr normal primeirous três sessãos. Agora colocarr gelou. Dez minutous. OK.

Após quatro sessões de trancos, puxões e marteladas, o quiropraxista finalmente conseguiu destravar a cervical, mas forçou tanto meu pescoço que fraturou meu ombro. Não sinto dor: estou engessada da cintura para cima, aguardando o resultado do processo de indenização por erro médico. 

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Grazielli de Moraes Muito Bom...
28 de julho de 2014 às 13:20

Olivia Maria Maia Maia Luci Afonso muito legal sua crônica. Aproveitei, ao passar no blog, li as outras crônicas. Adorei. Sua escrita e seu humor estão cada dia mais refinados. bjs
28 de julho de 2014 às 14:17

Angela Menezes Delgado É por isso que fico nos relaxantes musculares...
29 de julho de 2014 às 09:10 · Descurtir · 1

Carla Moises E pior que é assim que acontece. Rsss. Gostei da crônica. 
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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Olhos negros


Luci Afonso


— Marido? — perguntou a moça na fila da lotérica.

— Tombo — respondi.

A senhora já ouviu falar da Lei Maria da Penha? — indagou um simpático homem de terno na outra fila.

Além de pagar a conta em atraso do telefone, eu precisava sacar 100 reais para acertar as aulas com o personal trainer. Tinha também de passar no Ôba e na farmácia. Estava com muita pressa, porque daí a pouco começaria a partida entre Brasil e Chile.

— A Lei Maria da Penha? Sim, claro — respondi, distraída. 

— As leis existem para serem aplicadas. Leve meu cartão. Sou especialista nesses casos.

Agradeci sem convicção.

Após ser atendido, ele se voltou para mim e recomendou, com veemência:

— Exerça seu direito, minha senhora! Só assim teremos um mundo mais justo.

— O senhor tem toda a razão! — concordei.

Quando entrei no Ôba, todos me olharam. Uma adolescente de lindos olhos azuis desatou a chorar e se agarrou à mãe. Os atendentes cochicharam, apontando em minha direção. Peguei duas bandejas de abacaxi e paguei em dinheiro. A moça do caixa não resistiu em perguntar:

— Marido?

— Tombo — resmunguei.

— Ah! — ela exclamou, incrédula.  

 Corri para a farmácia. Clecivan, o balconista que me atende há anos, soltou um grito:

— Meu Deus! Quem fez isso com a senhora? Marido?

— Tombo, Clecivan. TOMBO!  — gritei.

Há quatro noites, chegando de um lançamento de livro, eu levara um tombo cinematográfico na entrada do prédio. É claro, fui pega de surpresa. Eu vinha andando calmamente quando meu pé virou e bati a face esquerda no chão. Os óculos voaram. Machuquei os joelhos, os cotovelos e quebrei duas unhas.

A dor era insuportável. Um calombo despontou imediatamente acima da sobrancelha esquerda. O pé parecia torcido, e os joelhos sangravam. Ninguém apareceu. O porteiro, que estava na guarita a poucos metros, não viu nada. Levantei-me e fui mancando até o elevador. 

Eu estava sozinha em casa com os gatos, pois meu filho passava férias na casa dos primos. Joguei-me na cama e comecei a chorar. Quem eu poderia procurar àquela hora sem causar susto? Lembrei da minha querida massagista Alda, que tem conhecimentos de enfermagem e que costuma dormir tarde. Por telefone, ela me deu instruções sobre a aplicação de compressas quentes ou frias. Fiz tudo o que ela mandou, tomei analgésicos e soníferos e mergulhei num sono agitado e doído.

Pela manhã, o calombo na testa desinchara, e o pé não dava mostras de torção. A pálpebra superior tinha um pequeno hematoma, que foi aumentando e escurecendo até se transformar num assustador círculo preto. Eu sentia uma dor difusa, como se todo o corpo se ressentisse da queda.

Confesso que sou supersticiosa. Eu atravessava uma fase de azar. Coisas vinham se quebrando ou estragando ao meu redor. Luzes queimavam. Há poucos dias, minha cama quebrara o pé. Tive que tirar os outros pés e colocá-la no chão. Minha gata entrou no cio de repente, e eu tinha que pegá-la a noite inteira para evitar que seus gemidos incomodassem os vizinhos. Estou enfrentando uma crise financeira que ocorre a cada sete anos. O chip do smartphone deu defeito. Para coroar essa fase, veio o tombo.

Alda telefonou para saber como eu estava e aproveitei para lhe pedir que benzesse a casa. Ela veio prontamente, trazendo ervas, sal grosso, velas e rezas aprendidas com a avó curandeira. Sentou-me no centro da sala e fez um longo ritual de purificação do ambiente.

— A energia estava pesada, minha flor — ela disse ao terminar os trabalhos.

— Poxa, Alda, quando isso vai passar?

— Vai ficar tudo bem, minha flor. É bom se acalmar para só atrair bons fluidos. 

Senti-me aliviada. Até a dor pareceu diminuir. Resolvi aceitar o convite de uma amiga para um show de dança flamenca à noite. Estava me arrumando quando o telefone tocou. No caminho para a sala, um vulto passou correndo na minha frente. Era a gata no cio. Tropecei nela e bati a face direita na quina da mesa de vidro. O sangue escorreu pelo vestido, enquanto outro calombo crescia na testa.

Alda garantiu que dentro de um mês os olhos vão clarear e recomendou o uso diário de creme de arnica. Agora só saio com óculos escuros, mesmo à noite. As amigas acham esquisito. Não me importo. Só quero passar despercebida enquanto minha vida retorna à normalidade.

Às vezes, tiro os óculos sem querer e sou flagrada por algum curioso:

— Marido?

— Tombo! TOMBO! TOM-BO!

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Tarlei Martins Nem um pouco bom de viver, mas muito bom de ler... Que tudo isso passe, querida Luci. Lembrando Caetano: "Como é bom poder tocar um instrumento!". E como você toca bem o instrumento da palavra!!! Abs, Tarlei

Luci Afonso Tarlei, metade é invenção, graças a Deus!
14 de julho de 2014 às 12:36

Tarlei Martins Então você é mestra em "confiçções" assim? Bem melhor...
14 de julho de 2014 às 12:37

Tarlei Martins Vou cometer uma inconfidência: tenho desejo de escrever um livro com esse título (conficções)... Mas nele só falaria verdades. Acredita?
14 de julho de 2014 às 12:38

Luci Afonso Acho ótimo o título. Só a verdade... é difícil resistir a inventar alguma coisa.
14 de julho de 2014 às 12:39

Vânia Gomes Ah! Luci!! ADOREI! Humor leve e divertido, apesar das dores... Abração.
14 de julho de 2014 às 14:02


Alexandra Rodrigues Amei! Sua capacidade de transformar dramas em humor é notável! Ok, você deu o TOM ...e a criatividade fez o resto. Um abraço


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sábado, 5 de julho de 2014

Fome de Brigadeiro




Luci Afonso


Um dia a gente pode fazer aula no Olhos Dágua sugeri, enquanto continuávamos a caminhada.

Lá tem aparelhos pra terceira idade? ele perguntou.

— Acho que sim — respondi, magoada.

Dobramos a quadra. O passo era moderado, pois eu já me cansara muito nos alongamentos preliminares. Na camiseta dele, as palavras personal trainer bem grandes, seguidas do número de telefone, chamavam a atenção. Eu tinha vergonha de parecer uma dondoca. Preferia ser um casal de amigos andando juntos, mas a propaganda é importante, e não tive coragem de pedir que usasse uma roupa mais discreta.

Fazíamos aula há cerca de um mês, e nesse prazo tínhamos atingido um estágio razoável de intimidade. Falávamos sobre quase tudo, inclusive nossa vida sentimental.

— Estou pensando em entrar naquele site — eu disse, referindo-me a um site de namoro na Internet, no qual uma amiga tinha conhecido homens interessantes.

— Minha avó procurou namorado na Internet, quando ficou viúva. Arrumou um cara bacana, estão juntos até hoje.

Desta vez, não aguentei:

— Quantos anos tem a sua avó?

— Setenta e cinco.

— E quantos anos você acha que eu tenho?

— Boa pergunta.

— Chuta.

— Uns... quarenta? — ele mentiu.

— Cinquenta e quatro. Eu tenho apenas cinquenta e quatro anos.

— Tá vendo? Eu quase acertei — ele mentiu de novo.

Eu não suportava a ideia de que ele me achasse velha. Ele escolhera uma profissão difícil: além de alongar e fortalecer músculos atrofiados por anos de sedentarismo, tinha que ser bom ouvinte e ótimo conselheiro para administrar a carência afetiva das alunas, em geral, solitárias. Na faixa dos cinquenta anos, é ainda mais complicado. É preciso não ferir sentimentos, alimentar vaidades e encorajar a autoestima.

Meu retorno à atividade física coincidira com o início de uma medicação que tinha, entre outros efeitos colaterais, a exacerbação da libido. Meu companheiro morrera há quatro anos, e só agora eu começava a sentir solidão. Também passei a fazer massagens que incluíam a bambuterapia, conhecida como afrodisíaca. Meu corpo, sem apetite durante longo tempo, agora despertava com uma fome voraz.

O personal trainer fora indicado por uma vizinha. Moreníssimo, sorriso alvíssimo, olhos pretíssimos. Sabe aquela vontade incontrolável de comer brigadeiro? Fiquei encantadíssima com o rapaz de vinte e seis anos, que, além de ser bom professor, era alegre, divertido e boa companhia. Comecei a mostrar meu melhor sorriso, a lançar insinuações e a fazer convites. Ele se esquivou com elegância e, acredito, com algum receio.

Inventei desculpas para mandar-lhe mensagens pelo What’sApp, que ele respondia com gentileza. Na última, me queixei de uma forte dor na coluna depois de um alongamento mais puxado. Ele respondeu que era normal. Quando agradeci a explicação, ele deu o xeque-mate nas minhas intenções: disse que se preocupava igualmente com todos os alunos e aproveitou para mandar uma foto com a namorada: moreníssima, sorriso alvíssimo, olhos pretíssimos. Fiquei decepcionadíssima, mas captei a mensagem.

Na próxima aula, ele chegou com uma surpresa: uma vistosa aliança na mão direita. Guardei meu charme, esqueci a fome de brigadeiro e me concentrei nos alongamentos. Já me cadastrei em dois sites na Internet — meu consolo é que, se a avó dele teve sucesso, pra mim vai ser moleza.  
                                  
                                     (Imagem: www.magiazen.com.br)

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Maria Teresa Valença Adorei, Luci!
7 de julho de 2014 às 04:36


Rose Rocha Pink Hummm


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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Resenha do conto "Entre o sonho e o pesadelo", de Nena Medeiros


 

Luci Afonso

 

Nena Medeiros é conhecida pelas crônicas leves e bem-humoradas, como Ô, coisa boa!, que dá título ao seu terceiro livro. Nena transita com desenvoltura entre o humor, o lirismo, a crítica social e a irreverência. É tão versátil que resolveu uma das mais controversas questões da teoria da literatura a diferença entre os gêneros conto e crônica simplesmente criando um novo termo: o croniconto. Por que ninguém pensou nisso antes?

O conto “Entre o Sonho e o Pesadelo”, porém, nada tem de croniconto. É conto puro, denso, de fundo dramático inequívoco e de desenlace trágico inevitável. A autora abre espaço para a crítica social ao denunciar o abandono a que são relegadas as pessoas à margem da sociedade institucionalizada de consumo. O humor, porém, não tem vez: o texto é sofrimento bruto.

Nena Medeiros cria uma intrincada estória ao estilo da grande Lygia Fagundes Telles: as pistas sutilmente plantadas ao longo do texto não deixam entrever o choque provocado pelo desfecho. Este parece inesperado, embora estivesse determinado desde o começo. Assim é o bom conto de suspense. O leitor ingênuo certamente pensará que poderia ter adivinhado o final, mas se engana, porque foi deliberadamente conduzido na direção oposta. Símbolos aparentemente difíceis de decifrar, uma vez concluída a estória, se revelam com toda a clareza. Isso porque foram usados, com habilidade, por quem domina a multissignificação do texto literário.

Apesar do título, no conto não há espaço para o sonho, nem como esperança, nem como devaneio.  Há, sim, o delírio que toma conta da personagem , que sobrevive entre a crueza da realidade e o pesadelo do  vício. Realidade e delírio são apavorantes: o gato preto, a escuridão, a gargalhada histérica da bruxa em que ela inconscientemente se transformou são prenúncios da tragédia. Os vidros embaçados do hotel, o letreiro com as letras apagadas, a porta de ferro corroída pela maresia são representações da decadência física e moral da personagem. A morte ronda o texto da primeira à última linha: a morte progressiva e dilacerante da lucidez, da alma, do filho.

“Entre o sonho e o pesadelo” narra a impotência humana diante da tragédia, descrevendo os estertores de corpo e alma corrompidos pelo vício. A luta está perdida desde o começo. A esperança é inútil. A vertigem toma conta do leitor no angustiante e inescapável pesadelo. Num falso despertar, ele sonha, por instantes, com um final feliz, mas a realidade logo se impõe: o berço vazio, a densa nuvem de heroína e álcool, a seringa espetada no bracinho mirrado.

Um soco no estômago, um tapa na cara. Esse é o efeito deste excepcional conto de Nena Medeiros. Só recomendo para quem suporta literatura na veia.

(Esta resenha participou do I Concurso de Resenhas do Sindicato dos Escritores do DF 2014.)
                                             (Leia o conto de Nena Medeiros.)
 
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terça-feira, 1 de julho de 2014

Resenha do filme "Poesia", de Lee Chang-Dong


 
 
Luci Afonso
 

Crianças brincam à margem do rio, enquanto a correnteza traz o corpo da jovem Agnes, que se jogou da ponte. Esta é a cena inicial do filme “Poesia”, do diretor sul-coreano Lee Chang-Dong, prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2010.

Em seguida, vemos a elegante Sra. Yang Mija (Yoon Jeong-hee), blusa e saia estampadas, echarpe de renda e chapéu, indo ao hospital por causa de dores no braço e falhas de memória que vêm ocorrendo ultimamente. A personagem cativante e agradável logo conquista a simpatia do espectador. Ela sorri para tudo e para todos. Abraça a vida com paixão e otimismo.

Quando Mija chega ao trabalho, descobrimos que, apesar da elegância, ela é empregada de um rico senhor vítima de derrame. Faz tarefas humildes, como dar banho, vestir e alimentar o cliente, além de cuidar da faxina da casa. Quando lhe perguntam por que se veste daquela forma, ela responde simplesmente: “porque gosto de me arrumar”. Em breve saberemos que a elegância exterior é reflexo do seu caráter.

Na volta para casa, Mija depara-se outra vez com o anúncio de aulas de poesia no centro cultural do bairro, e decide fazer o curso. A quem estranha sua decisão, ela explica que “tem veia de poeta, gosta de flores e diz coisas esquisitas”.
 
 

Começam as aulas. O professor ensina que não é difícil escrever um poema; o difícil é encontrá-lo no coração. Para isso, é preciso “ver”. Ele dá o exemplo de uma maçã. A aprendiz de poesia tenta “ver” uma maçã, apenas para concluir que é melhor comê-la. Caderno e lápis na mão, ela observa árvores, flores e pássaros, em busca da inspiração poética. Faz anotações desconexas, que depois irão compor seu primeiro poema.

“Som de pássaros cantando; o que eles estão cantando?”

“O tempo passa e as flores murcham.”

“Os abricós se lançam ao chão; pisoteados e esmagados, se lançam a outra vida.”
 
 

Ao longo do filme, a personagem fará descobertas assustadoras: seus esquecimentos são sintomas iniciais da doença de Alzheimer; o neto de quem ela cuida, Wook, é um dos responsáveis pelo suicídio da jovem estudante Agnes, que vinha sendo abusada sexualmente por ele e por seus colegas. O caso é abafado por um acordo entre os pais dos rapazes e a mãe da vítima. A avó de Wook participa desse acordo com relutância.

O sorriso de Mija vai sumindo aos poucos, à medida que ela vai tomando conhecimento da realidade. Wook parece indiferente à tragédia da jovem que se matou. Num ato supremo de coragem e dignidade, a avó denuncia o neto à polícia para que ele entenda as consequências do seu ato e se reumanize.

Mija vai esquecendo gradualmente o nome das coisas, “os substantivos primeiro, porque são mais importantes”, mas persevera em busca da poesia. Não a encontra na beleza de uma flor, mas no retrato de Agnes; não a reconhece no canto dos pássaros, mas no lamento da mãe enlutada; não a escuta no vento que sacode as árvores, mas no burburinho da correnteza que levou o corpo da jovem suicida.

Enfim, a dor, e não a beleza, traz a inspiração poética.  A Sra. Yang Mija escreve seu primeiro e talvez o último poema, inicialmente narrado na própria voz da autora, depois, na de Agnes.

“A Canção de Agnes

 
Yang Mija

 
Como são as coisas aí?

É muito solitário?

O poente se tinge de vermelho?

Os pássaros cantam a caminho da floresta?

Pode receber a carta que não ousei enviar?

Pode ouvir a confissão que não ousei fazer?

O tempo vai passar e as rosas vão murchar?

 

É hora de dizer adeus

Como um vento que vai embora

Como uma sombra

Às promessas nunca cumpridas

Ao amor que nunca chegou

 

(VOZ DE AGNES)

 
À grama que beija meus tornozelos cansados

Aos passos leves que me seguem

É hora de dizer adeus

Desce agora a escuridão

Vão acender uma vela?

Fico aqui rezando

Ninguém deve chorar

 

Quero que você saiba

O quanto amei você

A longa espera num dia quente de verão

Uma antiga trilha que lembra o rosto de meu pai

Uma solitária flor do campo que vira o rosto timidamente

Quão profundamente eu amei

Como meu coração se apertou ao ouvir sua canção distante

 

Eu quero abençoar você

Antes de atravessar o rio escuro

Com o último suspiro de minha alma

Estou começando a sonhar

Uma manhã brilhante de sol

Desperto novamente, cega pela luz

E encontro você

Ao meu lado.”

 
Termina o poema. A jovem Agnes, de frente para a ponte, se volta para o espectador com um sorriso puro e feliz. A correnteza segue o curso da vida-morte-poesia.
 
 
(Texto produzido na disciplina Contexto Cultural e Linguagem, do Curso de Licenciatura em Letras-Português da Universidade Católica Virtual de Brasília, para avaliação final no primeiro semestre de 2014. Prof: Andréa Márcia M. M. A. Coutinho.)

 
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira