domingo, 14 de julho de 2013

O romance morreu?





Rubem Fonseca

Muito antes de publicar o meu primeiro livro eu já ouvia dizer que o romance e o conto estavam mortos. Parece que a primeira morte teria sido anunciada ainda em 1880, não obstante, como todos sabem, Emily Dickinson, Tchekov, Proust, Joyce, Kafka, Maupassant, Henry James, o nosso Machado, Eça, Mallarmé, as Bronte, Fernando Pessoa (um pouco mais tarde) estivessem ativos naquela época.
No início do séc. XX, com o lançamento, por Henry Ford, do Ford Model T, um automóvel popular, construído numa linha de montagem, um carro barato que em poucos anos vendeu mais de quinze milhões de unidades, as Cassandras afirmaram que agora a literatura de ficção, na qual se incluía a poesia, estava mesmo com os dias contados. Dentro de pouco tempo todas as pessoas teriam automóvel e usariam o carro para passear, fazer compras, namorar em vez de ficarem em casa lendo. Ou porque não soubessem o que lhes reservava o futuro, ou lá porque fosse, o certo é que muitos escritores, como Yeats, Benavente, Galsworthy, Selma Lagerlof, Rilke, Kavafis, Edna St. Vincent Millay continuaram escrevendo, e talvez até mesmo tivessem um Model T na garagem deles.
Nova anunciação mortal veio logo em seguida, causada pelo cinema, denominado de Sétima Arte. Uma pesquisa da época mostrou que em cada 100 pessoas 80 freqüentavam o cinema e 2 (duas!) liam livros de ficção. Agora mesmo é que a literatura, enfim, havia morrido. Desta vez não tinha salvação. Mas Sinclair Lewis, Thomas Mann, Bunin, Céline, Ana Akhmatova, O’Neill, Pirandello, e muitos outros não sabiam disso. (Os dois últimos são autores de teatro, mas o teatro começou a morrer antes).
Depois nova morte foi profetizada, quando do advento da televisão. Mas William Faulkner, Eliot, Gide, Hesse, Quasimodo, Pasternak, Camus, Hemingway, Beckett, Seferis, Kawabata, Mauriac, Steinbeck e muitos mais não pararam de escrever. Que diabo, esses caras não liam os jornais? Não sabiam que a literatura de ficção havia morrido?
Afinal veio o golpe de misericórdia: o computador e a Internet. Era a pá de cal. Mas o que estava acontecendo? Quem são (ou eram) esses loucos escrevendo poesia e romance – Carlos Drummond de Andrade, Czeslaw Milosz, João Cabral, Pablo Neruda, Montale, Heinrich Böll, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Octavio Paz, Brodsky, García Márquez (“se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto”), Canetti, Günter Grass, Kenzaburo Oe, Saramago, João Ubaldo, Ferreira Gullar e um montão de outros? O que na realidade está acontecendo?
Existem muitos estudos interessantes e extensos sobre o assunto, como o da ensaísta Leila Perrone-Moisés, em seu livro Altas literaturas (Companhia das Letras, 1998). Uma coisa talvez esteja acontecendo: a literatura de ficção não acabou, o que está acabando é o leitor. Poderá vir a ocorrer este paradoxo, o leitor acaba mas não o escritor? Ou seja, a literatura de ficção e a poesia continuam existindo, mesmo que os escritores escrevam apenas para meia dúzia de gatos pingados?
Kafka escrevia para um único leitor: ele mesmo. Recordo Camões. Ele era um arruaceiro, e acabou na prisão, ou por motivos de suas rixas ou por ter se envolvido com a infanta Dona Maria, irmã do rei João III. Para obter o perdão do rei ele propôs-se a servi-lo na Índia, como soldado. Lá ficou 16 anos e, afinal, a bordo de um navio voltou para Portugal, acompanhado de uma jovem indiana, que ele amava, e a quem dedicou o lindo soneto “Alma minha gentil, que te partiste”. O navio naufragou e Camões só pensou, durante o naufrágio, em uma coisa: salvar o manuscrito dos Lusíadas e dos seus poemas. Deixou a mulher amada morrer afogada (confesso que especulo), e perdeu todos os seus bens, mas salvou os seus manuscritos. Para quem ler? Estávamos no século 16 e muita pouca gente em Portugal sabia ler. Mas Camões pensou nesse punhado de leitores, era para eles que Camões escrevia, não importava quantos fossem eles.
Os leitores vão acabar? Talvez. Mas os escritores não. A síndrome de Camões vai continuar. O escritor vai resistir.

Rubem Fonseca. O romance morreu. Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  



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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Não existem trezentos poetas



Rainer Maria Rilke


(...) Estou sentado e leio um poeta. Há muitas pessoas no salão, mas não as notamos. Elas estão nos livros.  Às vezes se movem nas páginas como se estivessem dormindo e se virassem entre dois sonhos. Ah, como é bom estar entre pessoas que leem. Por que não são sempre assim? Você pode se aproximar de uma delas e tocá-la de leve: ela não sente nada. E se, ao levantar, você encosta um pouco em seu vizinho e se desculpa, ele inclina a cabeça para o lado em que ouviu a sua voz, seu rosto se volta na sua direção e não o vê, e seu cabelo é como o cabelo de alguém que dorme. Como isso faz bem. E estou sentado e tenho um poeta. Que sorte. Agora talvez haja trezentas pessoas lendo no salão; mas é impossível que cada uma tenha um poeta. (Sabe Deus o que elas têm.) Não existem trezentos poetas. (...)


Rainer Maria Rilke. Os cadernos de Malte Laurids Brigge. L&PM, Porto Alegre, RS, 2010, p. 32.
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O que é conto e o que é crônica?



Marco Antunes

Quero dirimir um pouco das dúvidas sobre o que é conto e o que é crônica. O assunto é difícil mesmo. A coisa se dá em terreno ambíguo muitas vezes, mas, como sempre digo para meus alunos, nenhum autor está escrevendo e de repente interrompe porque queria escrever uma crônica e lhe saiu um conto. A importância disso é epistemológica somente.
Percebam, conto está centrado na ação, no conflito desenvolvido pela narrativa, preservando quatro unidades, segundo Massaud Moisés: a de espaço (um conto procura situar-se em poucos cenários, feito uma peça de teatro); a de tempo (como o conto é breve por definição, raramente se faz um bom conto com cortes no tempo, dando saltos na história, etc.); a de ação (o conto é avesso a peripécias narrativas, ao vaivém, a saltos, a desmembramentos cronológicos começa e vai até o fim sem desvios) e, por último, a unidade mais importante: a unidade de tom o conto tem que causar uma única impressão, que pode ser de humor, terror, piedade, ironia, drama, tragédia, etc.
É isso, como regra o conto é uma pequena estória com conflito que se resolve impactantemente no final. Mais modernamente se tentam outras soluções, mas o conto clássico é assim.
A dúvida de gênero entre conto e crônica surge porque a narração não é estranha à crônica, pode sim haver, mas é preciso que a intenção de fotografar uma época (sentido original de crônica) se sobreponha à de contar. No conto se conta para fabular ou pelo prazer de contar, mas na crônica se "conta" para fotografar, comentar, registrar, etc. Costumes, facetas humanas, tipos, fatos peculiares são típicos da crônica. No conto, o foco está no conflito, a personagem no conto não é apenas um instrumento de que se vale o escritor, mas o próprio foco de interesse, o indivíduo em si... Na crônica a personagem vale mais pelo que diz do todo, de sua época ou de sua coletividade que por si só. Quando, no entanto a voz autoral dá palpites, emite opiniões, analisa fatos, etc. aí não tem que duvidar, é crônica e fim de papo. Alguns contos flertam demais com a crônica, mesmo narrando depois e contando, afinal, uma estória, perdem a unidade de tom. Não há dúvida se tratar de crônica quando não narra nada, só reflete as opiniões do autor. Portanto, só há a possibilidade de confundir um com o outro quando uma crônica se permite uma narração, quando não, fim de dúvida. É crônica sem apelação.
            Resumindo: crônica e conto são mesmo um território de mútuas invasões. A diferença, por assim dizer, está na intenção do autor: se era narrar, expor uma estória ou parábola, então é conto; se era opinar, ainda que como exemplo conte uma estória, então é crônica. A dúvida está naquela estória leve, simples, que mais parece um instantâneo da vida. Aí o objetivo de fixar um modo especial daquele tempo, daquela cultura, daquele povo está subjacente e predomina. Então, mesmo que o autor nada comente ou opine, está claro, pela ligeireza do fato, a intenção de apenas retratar o tempo; nesse caso, por mais narrativo e contado que pareça, ainda é crônica. O conto pede dilema, conflito, drama!

Marco Antunes é escritor, professor e Coordenador do Núcleo de Literatura do Centro Cultural da Câmara dos Deputados.

(Texto adaptado pela autora do blog.)
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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Vai ficar tudo bem



Luci Afonso

O que impressiona, à primeira vista, é a gentileza espontânea com que acolhe todas, da mais humilde à mais elegante.
— Como vai?— faz questão de levantar-se da sua mesa e de recebê-las na antessala, com o forte aperto de mão e o sorriso aberto. É um especialista famoso, mas mantém uma simplicidade comovente.

Está à vontade entre miomas, cistos e calcificações. Contornos imprecisos não o confundem. Linfonodos patológicos não o assustam. Imagens sólidas hipoecogênicas, ele as decifra sem hesitação. Tumores, ele os encara com a firmeza e a competência de quem sabe removê-los. Seu entusiasmo é reconfortante. Sua confiança é uma manta de lã numa noite fria.
— Não se preocupe, vai ficar tudo bem — ele costuma dizer às pacientes aflitas.
Salvou-me de três diagnósticos errados, que me causaram uma angústia e um desespero intensos. Imagino que, como eu, muitas encontraram nele o alívio da dor que se experimenta ao se confrontar uma doença fatal.
Há muitos anos, o médico nº 1 identificou, levianamente, sinais que apontavam a necessidade de fazer uma punção, palavra temida na época, sinônimo de dor e prelúdio inevitável de sofrimento:
— Se prepare psicologicamente para levar uma agulhada — dissera ele, meio rindo e revirando os olhos, gesto que repetia com frequência e que interpretei como exercício de relaxamento ocular. Depois se descobriu que era louco e nem sequer formado na área.
A possibilidade de ter câncer de mama me abalou profundamente. Conhecia mulheres que enfrentaram o problema e se curaram, mas uma amiga querida não tivera a mesma sorte.
Foi a primeira vez que procurei o especialista.
De início, ele estranhou que eu me consultasse com o médico nº 1, pois já se especulava sobre a sua insanidade. Ao ler o diagnóstico, se indignou com a irresponsabilidade do colega:
 — Discordo. Nada do que ele diz faz sentido. Você não tem nada.
Suas palavras e sua segurança me tranquilizaram.
Anos depois, resolvi engravidar e procurei o médico nº 2. Ele rapidamente chegou a duas conclusões: a) o DIU que havia sido colocado pelo médico louco nº 1 não podia ser tirado porque ele não deixara à mostra o fio para ser puxado; b) eu precisava fazer uma histerectomia urgente, devido à presença de um mioma uterino de grandes dimensões. Só uma mulher pode entender como me senti ao saber que teria de me submeter a um procedimento arriscado e mutilante, que extrairia de mim o símbolo maior da feminilidade e me privaria de realizar o sonho de ser mãe. Recorri novamente ao especialista. 
— Discordo. O mioma é calcificado, basta acompanhar sua evolução. Quanto ao DIU, eu vou tirá-lo pra você.
Com muita habilidade e alguma anestesia, ele remexeu meu útero até encontrar o aparelhinho, já totalmente enferrujado. Pelas suas mãos me senti liberta, pronta para gerar uma nova vida. Daí a alguns meses engravidei e dei à luz um menino, que amamentei principalmente no seio esquerdo. 
Não bastassem os dois alarmes falsos, o terceiro ocorreu há cerca de apenas um mês, quando o médico nº 3, muito simpático e bem-intencionado, classificou como de alto risco alguns nódulos e microcalcificações encontrados na mama esquerda. Passei vários dias com medo de que desta vez, eu poderia, sim, ter um tumor. Cheguei a imaginar como seria para a família, sobretudo para meu filho adolescente, viver sem mim.  Até que ouvi o especialista:
 — Discordo. Esse tipo de nódulo não tem importância. As calcificações também são benignas.
Senti um alívio imediato: há tempo suficiente para criar meu filho, escrever meus livros e plantar palavras.

O que impressiona, à saída, é a gentileza espontânea com que acompanha todas, da mais humilde à mais elegante.
— Prazer em revê-la — faz questão de levantar-se da sua mesa e de levá-las até a antessala, despedindo-se com o forte aperto de mão e o sorriso aberto.  O especialista em curar as dores femininas transita por estágios elevados de humanidade.





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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira