sábado, 28 de junho de 2008

Preciosa



Luci Afonso

Ando assombrada por dúvidas e aflições e procuro uma amiga para desabafar. Atendendo ao pedido de socorro, ela deixa afazeres domésticos e intelectuais e vem ao meu encontro no 10° andar, onde temos ampla visão do horizonte.

— Um café de queimar a língua, por favor, com umas gotinhas de leite - ela diz ao garçom. Eu peço o mesmo.

É manhã de sexta-feira, reservada para a Oficina de Literatura na qual somos colegas de ofício. Faltamos à Oficina, mas a escrita nos acompanha aonde estivermos. Trazemos na bolsa as últimas palavras derramadas no papel, e que a partir de agora seguirão caminhos diferentes. As minhas viajarão pelo imprevisível mundo virtual, enquanto as dela serão lidas ao vivo para uma audiência privilegiada.
Hoje os textos da amiga falam da água, elemento mágico que nós duas amamos. Navegamos rios e mares antes de entrar no assunto que nos trouxe aqui.
— Como está você, mocinha? - ela pergunta .

Sim, sou mocinha diante dessa humanóloga em estágio avançado. Ela ouve com paciência minhas inquietações e as desfaz, uma a uma, mostrando-me seu significado maior. Escuta meus medos e os dilui na certeza de uma mudança benéfica e inadiável. Empurra-me à frente com uma palmadinha, como uma mãe carinhosa faria com uma criança insegura.

— É seu turning point - observa, com delicadeza.

A conversa substitui meses de terapia, mas precisamos nos despedir porque a amiga tem compromisso ao meio-dia.

— Cuide-se bem, mocinha de colarzinho branco. Você é preciosa - ela conclui.

Observo-a se afastar em direção ao carro e tenho vontade de gritar:

— Preciosa é você, mulher de alma azul! Preciosa é você!
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Cida Sepulveda no Programa Leituras – TV Senado




Cida Sepulveda, formada em Letras (UNICAMP), mora em Campinas - SP. Escreve poemas e contos. Publicou Sangue de Romã (2004). Foi finalista do 1o. Concurso Contos do Rio com "O Açougue", promovido pelo Prosa e Verso, do jornal O Globo. Publicou, em 2007, pela Bertrand Brasil, o livro de contos Coração Marginal, sobre o qual o poeta Manoel de Barros fez o seguinte comentário: "... Esse Boca Suja é duro, cruel e seco, mas pela linguagem você o fez atraente e belo. Um estilo! Desesperador. Que zomba das tiranias semânticas. E renova o nosso idioma..." Edita http://www.revistavagalume.com/




Programa Leituras

Apresentado pelo jornalista Maurício Melo Júnior, o programa Leituras é o espaço dedicado à análise e à divulgação da literatura brasileira. Na primeira parte do programa é veiculada uma entrevista com um escritor ou com um especialista, sempre abordando assuntos literários. Com isso, são debatidos os vários aspectos da literatura, abrindo-se espaço para todas as correntes criativas. Em um segundo momento são analisadas obras atuais, procurando formar um juízo de valor que ressalte as qualidades reais e os possíveis equívocos dos textos em questão.
Em uma linguagem ágil e acessível, o Leituras desmitifica a criação literária, destacando-a como uma atividade humana rica e desprovida de mistérios.

O programa irá ao ar nos seguintes dias e horários:

Sábado, 28/06/2008
das 20:00h às 20:30h

Domingo, 29/06/2008
das 8:00h às 8:30h
das 20:30h às 21:00h

Segunda-feira, 30/06/2008
das 7:00h às 7:30h.

TV Aberta - canal 107
Directv - canal 239
Sky - canal 96
TECSAT - canal 17

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A Língua



Eneida Coaracy


Soltei a língua
à cata de palavras
que o coração escondia.

Ela, vadia,
remexeu tudo.
Bateu boca por aí,
linguajou, perturbou.
Desarrumou tudo.
Fez palavras cruzadas,
montou e remontou sílabas.
Aprendeu a deslizar,
não mais sibilou.
Lambeu cicatrizes,
secou lágrimas.
Limpou tudo.

Soltei a língua
à cata de palavras
e disse tudo

Poema classificado em segundo lugar no Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade - Edição 2005.
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Cordel da Tropicália.1968...




Gustavo Dourado



A alegria é a prova dos nove:
Um poeta desfolha a bandeira...
Pindorama, País do Futuro:
Samba...Carnaval...Mangueira...
É a mesma dança meu boi:
Na Geléia Geral brasileira...

Hélio Oiticica precursor:
Criou o Tropicalismo...
Com a obra Tropicália:
O neoantropofagismo...
Fonte: Oswald...Gullar:
Popcreto...Realismo...

Móbiles...Parangolés:
Práxis...Neoconcretismo...
A voz da periferia:
Rosa...Joyce...Modernismo...
Aspiro ao Grande Labirinto:
Hélio fez o Sincretismo...

Mito da Miscigenação:
Busca do Supra-Sensorial...
Favela...Cara de Cavalo:
Balas, capas, bananal...
O folclore brasileiro:
Na raiz do tropical...

III Festival da MPB:
Com arranjos de vanguarda...
Outubro de 67:
TV Record na jornada...
Medaglia, Cozzella, Sandino:
Manifesto na estrada...

Ano 68:A 5 de fevereiro...
Cruzada Tropicalista:
Via Rio de Janeiro....
Nelson Motta, Última Hora:
Acendeu o candeeiro...

Morte de Edson Luís:
Luther King assassinado...
A Noite das Barricadas:
Maio bem movimentado...
Slogans do Anarquismo:
Criticas ao velho Estado...

Bumba-iê-iê-boi...
Cultura e Civilização...
Batmacumbaiêiê...
Iracema...Canecão...
Paródias e ironias:
Orgasmo...Liberação...

Reler Gregório de Matos:
Mestre Antônio Vieira...
Gonçalves Dias... Alencar
Manoel Botelho de Oliveira...
Macunaíma...Cancão:
Sarcasmo e Brincadeira...

Lunik 9...Mallarmé:
Lixeratura...Tendência...
Irene...Araçá Azul:
Novos Baianos...Vivência...
Raul...Chico...Roda Viva:
A tropical sapiência...

Sociedade de Consumo:
Nova Era Industrial...
Sociedade do Espetáculo:
Carnavalização global...
Sátira erótico-política:
Brasília...Planalto Central...

Jovem Guarda...Banda...Bossa...
Bandeira...Cabral...Iaiá...
Garota de Ipanema:
País do toma lá dá cá...
Drummond...Catulo da Paixão:
Camem Miranda dádádá...

Cultura Tropical Brasileira:
A estética do precário...
Literatura do lixo:
Underground visonário...
Op-Pop...Arte Povera:
Marginal...Imaginário...

Jorge Mautner...Jorge Ben:
Nosso País Tropical...
Som Maracatu Atômico:
Sonho existencial...
Caos e Cosmos na Poesia:
Movimento Armorial...

Dionísio...Eros...Narciso:
Uma Nova Consciência...
Me Segura que eu vou dar um Troço:
Waly...Verbociência...
Bondinho e Flor do Mal:
Ecos de clarievidência...

Chacrinha...Buzina...Discoteca:
Maracanã...Futebol...
Morte e Vida Severina:
Pau-Brasil...Caatinga-Sol...
Gilberto Freyre...Darcy:
Feira...Farinha...Farol...

Tropicalismo...Tropicália:
Cultura...Nova Atitude...
Caetano, Gil, Torquato:
Musical sua virtude...
Música Popular Brasileira:
É arte com amplitude...

"Avesso da Bossa Nova":
Na visão de Caetano...
Tropicália, Gal, Tom Zé:
Do Sertão ao oceano...
Beat Boys, guitarelétrica:
Mistura em primeiro plano...

Alegria, Alegria, Caetano:
Domingo no Parque, Gil
Soy Loco Por Ti América:
Geléia Geral Brasil:
Panis et Circensis:
Suberbacana a mil...

Tropicália, Bat Macumba:
Baby...Parque Industrial...
Enquanto Seu Lobo Não Vem:
Baião...Cordel...Carnaval...
Mutantes...2001:
São São Paulo...Musical...

Marginália 2...Lindonéia:
Tom Zé e Nara Leão...
Miserere Nobis, Capinam
Mamãe, Coragem, Lampião...
Torquato Neto...Piauí:
Ecos da Revôolucão...

É Proibido Proibir:
Objeto Não Identificado...
Divino, Maravilhoso:
Saudosismo bem cantado...
Maestro Rogério Duprat:
Ritmo experenciado...

Curso Intensivo de Boas Maneiras:
Vou do Brás a Irará...
Guerrilhas...Espaçonaves:
Cante lá que eu canto cá...
John Lennon e Che Guevara:
Tropicália...Lá lá ia...

Pego um jato, viajo, arreebento:
Bahia...Sampa...Rio de Janeiro...
A Classe Operária vai ao Paraíso:
Terra em Transe no Terreiro...
AI-5..Terror, Ditadura:
O Sonho Acabou...Dinheiro...

Santo Amaro da Purificação:
Juazeiro... Salvador...
João Gilberto e Caymmi:
Dinamismo criador...
Bossa Nova Tropicanto:
Foi o ritmo precursor...

Panamérica...Louvação:
Performance...Maracatu...
Apocalipopótese...Zen:
Banda de Pífaros...Caruaru...
Happening...Casamento-Pop:
Candomblé...Zumbi...Lundu...

Crítica à Cena Cultural:
Raízes do Modernismo...
Mário, Oswald, Villa-Lobos:
Tropiantropofagismo...
Pop-Rock...Ie-Iê-Iê:
Beat...Beatles...Concretismo...

Polêmico desde o início:
Vaia, crítica, confusão...
Movimento Estudantil:
Linha dura em ação...
Alegria, Alegria:
Na raiz da mutação...

Glauber em Terra em Transe:
Zé Celso em Rei da Vela...
Espírito Oswaldiano:
Hélio Oiticica na tela...
Colagem...Alegoria:
Estética na teletela...

Oswald de Andrade, presente:
Modernidade...Oficina...
Conversas e discussões:
O vampiro na esquina...
Hélio Oiticica...Torquato:
Rio...Bahia,,,Teresina...

Abelardo Chacrinha Barbosa:
Deu eco à irreverência...
Em maio de 68:
Tropicália na essência...
Álbum coletivo manifesto:
Revolução...Transcendência...

Crítica à boa aparência:
Cabelo comprido ao vento:
Em roupas extravagantes:
Sem lenço...Sem documento....
Status quo provocado:
Padrões em questionamento...

Geração Hippie em ação:
Vozes da contracultura...
Junho de 68:
USP na Arquitetura...
Torquato, Gil, Caetano:
Nos Campos da Concretura...

Vaias, bombas e bananas:
Gestos de hostilidade...
Décio, Augusto, Haroldo:
Poiesis...Plasticidade...
Um Paideuma na Paidéia:
Debate...Universidade...

Passaeata dos cem mil:
Coro Abaixo a Ditadura...
Busca pela liberdade:
Endurecer com ternura...
O ano que não terminou:
Livro de Zuenir Ventura...

Tanques do Politburo:
Thecoslováquia invadida...
A Primavera de Praga:
Abortada...Reprimida...
Ocupação da UnB:
Juventude agredida...

Conflito USP X Mackenzie:
Congresso Estudantil...
Encontro de Ibiúna:
Com prisão de quase mil...
AI-5 decretado:
Com censura e fuzil...

Protestos...Manifestações:
Conflitos e resistência...
Subversão da velha ordem:
Uma nova experiência...
Viagens interiores:
As luzes da quintessência...

Luta...Organização:
Sonho e perseverança...
Arte...Coletividade:
O desejo de mudança:
O terror da repressão:
Muito medo e esperança...

Guerrilha rural...Urbana:
Greves do operariado...
Alta concentração de renda:
A repressão do Estado...
Espoliação das Massas:
Poder militarizado...

Glauber...Godard...Fellini:
Nova Objetividade...
Morte de Robert Keneddy:
Marxismo...Vivacidade...
Paz...Existencialismo:
Prazer...Multiplicidade...

Corpo, sexo, movimento:
A linguagem da loucura...
Mística Metafísica Dialética:
Arte...Poesia...Leitura...
Teatro...Música...Prazer:
Mudança da estrutura...

Reivindicações...Desbunde:
Dor...Ato Institucional...
O povo amordaçado:
Delírios no Festival...
Polícia na UnB:
E no Congresso Nacional...

Autoritarismo em voga:
Fome, morte, nepotismo...
A voz do povo cassada:
Lucro do capitalismo...
Mais Valia...Opressão:
Tanques do Imperialismo...

Valores, dogmas, costumes:
Tiveram questionamento...
"É Proibido Proibir":
Ecoava pelo vento...
"Pra dizer que não falei das flores":
Tortura, dor, atormento...

Movimento Feminista:
Liberdade Sexual...
O ocaso do machismo:
Uma agenda cultural...
O grito dos excluídos:
Pílula anticoncepcional...

Terra...Meio Ambiente:
Choquelétrico...Ideologia...
Paus-de-arara...Exílios...
Guerras...Vã Filosofia...
TV...Drama...Capoeira:
Inflação e Carestia...

Presença de Sganzerla:
Luís Carlos Maciel...
Mística...Esoterismo:
Nova Torre de Babel...
Apocalipse...Profecia:
Se oriente...Menestrel...

É preciso correr riscos:
Desafinar o coro dos contenetes...
Os Últimos Dias de Paupéria:
Desvenenar as vis serpentes...
Despoluir o Planeta:
Frutificar as sementes...

Experimentalismo estético:
Vanguarda...Eletricidade...
Pop...Folclore...Tradição:
Bolero...Rumba...Saudade...
Dodô e Osmar no Trio:
Frevo e radicalidade...

Tropicalismo solar:
Hélio Oiticica inflama...
Móbiles...Intervenção...
Rio e New York drama...
Morro...Barraco...Terreiro:
Pano, fogo, arte...Flama...

A Imaginação no Poder...
Sonhar com o Impossível...
Sondar o Incomensurável:
Desejar o aprazível...
Perseverança e Luta:
Um novo mundo é possível...

A alegria é a prova dos nove:
Um poeta desfolha a bandeira...
Pindorama, País do Futuro:
Samba... Carnaval... Mangueira...
É a mesma dança meu boi:
Na Geléia Geral brasileira...

Viva a Tropicália...


Gustavo Dourado é professor, poeta, cordelista, ensaísta, articulista, escritor, jornalista e pesquisador. É autor de 11 livros.
http://www.gustavodourado.com.br/
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sábado, 21 de junho de 2008

Sarau da Tropicália




PROGRAMA


1-ABERTURA-GOYA
Tropicália de Caetano Veloso
Os Santos do Pau Oco de Eneida Coaracy

2-UM POETA DESFOLHA A BANDEIRA
-Cordel da Tropicália-Gustavo Dourado
-A Cara do Brasil- Celso Viáfora e Vicente Barreto com Alexandra Rodrigues e Luz Borges
-A Balada do Cachorro Louco de Lenine com Isolda Marinho

2-TUKA VILLALOBOS 1
-Panis Et Circensys de Caetano Veloso e Gilberto Gil
Felipe Barão : Voz e violão e Cristiane Chinchilla : percussão

4-A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE
-Folia no Matagal de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes com Liana Ferreira
-Alô, Alô Marciano de Rita Lee e Roberto de carvalho com Arlete Sylvia
-Tudo Vira Bosta de Moacir Franco e Rita Lee com Leila Portella
-Curso Intensivo de Boas Maneiras de Boas Maneiras de Tom Zé com Luz Borges
-Classe Operária de Tom Zé com André Amaro

5-ROGÉRIO MIDLEJ 1
-Beradero de Chico César

6-PINDORAMA, PAÍS DO FUTURO
-Marginália II de Gilberto Gil e Torquato Neto com Emanuel Mazza
-O Brasileiro Infiel de Marco Antunes com Leila Portella
-Baticum de Chico Buarque e Gilberto Gil com Isolda Marinho
-Lampião Moderno de Carlos Araújo com Cacá

7- TUKA VILLALOBOS 2
-Domingo no Parque de Gilberto Gil
Felipe Barão : Voz e violão e Cristiane Chinchilla : percussão

8-NA GELÉIA GERAL BRASILEIRA
-E Estamos Conversados de Paulo Tatit e Arnaldo Antunes com Francine Figueiredo
-Ode aos Ratos de Edu Lobo e Chico Buarque com Roberto Klotz
-2001 de Rita Lee e Tom Zé com Arlete Sylvia
Budismo Moderno com Marina Andrade
Acrilírico de Caetano Veloso com Luci Afonso

9-ROGÉRIO MIDLEJ 2
-Inclassificáveis de Arnaldo Antunes

10-PEGO UM JATO VIAJO ARREBENTO
-Fora da Ordem de Caetano Veloso com Amélia Costa
-Miséria no Japão com Roberto Klotz
-Século de Marco Antunes com Alexandra Rodrigues e Luz Borges
-Americanos de Caetano Veloso com Amélia Costa

11- TUKA VILLALOBOS 3
- Geléia-Geral de Gilberto Gil e Torquato Neto
Felipe Barão : Voz e violão e Cristiane Chinchilla : percussão

12-É A MESMA DANÇA, MEU BOI
-Perto Demais de Deus de Chico César com Aldemita Portela
-Atendendo A milhares de Pedidos de Marco Antunes com Cinthia Nunan
-Fenatura de Cacá com o Autor
-Tropicalistas ou Destemperados? De Marco Antunes com o autor

14- ROGÉRIO MIDLEJ -ENCERRAMENTO
-Alegria, Alegria de caetano Veloso

COQUETEL

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Nunca mais




Luci Afonso


No aniversário de cinco anos, arrumaram-lhe a roupa e o cabelo e a sentaram na sala. As avós foram as primeiras a chegar. Ansiosa para abrir os presentes, esqueceu-se de agradecê-los. Os pais haviam brigado aquele dia e aproveitaram para desabafar:
— Foi sua mãe que te ensinou a ser mal-educada assim?
— Desse jeito, você parece seu pai!

Saiu correndo da sala e agachou-se no canto do alpendre, emburrada. Esperava que alguém viesse pegá-la no colo e carregá-la de volta à festa. Ninguém veio.

Durante a noite, olhou com inveja as outras crianças, que se divertiam. Os adultos comiam e falavam alto. A mãe preparava bandejas de salgados, enquanto o pai jogava truco na cozinha. Pareciam não sentir sua falta.

Na hora de soprar as velinhas, desejou em silêncio:
— Nunca mais vou ser feliz. Nunca mais! - repetiu, quando elas se reacenderam.
— Para quem é o primeiro pedaço de bolo? - perguntou a mãe, a voz estranhamente suave.
— Para ninguém. Para ninguém! - gritou, antes de correr para o quarto.

Dormiu sem comer nada e sonhou que estava sozinha num bosque de doces pendurados em galhos altos, que ela não alcançava.
— Nunca mais! Para ninguém! - dizia no sono agitado.

Enquanto crescia, achava tristes os dias de festa. Só no último instante levantava-se do canto do alpendre, desamarrotava o vestido, prendia o cabelo e se arriscava no mundo barulhento das pessoas alegres. Provava um ou outro docinho, tomava uns goles de refresco.

Aos vinte anos, percebeu que não havia tempo para nunca mais, nem para ninguém. A cada celebração, comia um pedaço maior de bolo, experimentava sabores desconhecidos e colhia novos fragmentos de riso, enquanto se justificava em voz baixa, para não se assustar:
— Hoje vou ser só um pouco feliz. Só um pouco.

Aos cinqüenta anos, quase adulta, não se contenta com pouco. Nas melhores festas, que agora se chamam saraus, ela devora poemas inteiros, embriaga-se de melodias e anuncia ao microfone, sem medo:
— Alegria, alegria!

Os convidados fazem coro ao pedido nunca mais secreto.
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ONDE ESTÁ WALLY?



Eneida Coaracy


O casal chegou ao ‘resort’ entusiasmado com a beleza das praias ao redor, o tamanho das piscinas e facilidades de lazer oferecidas e, principalmente, com o luxo dos quartos. Sim, certamente seriam dias de relax e conforto, regados a muito sol, camarões apetitosos, cerveja e muita tranqüilidade. O local era tudo que precisavam para descansar e recuperar as forças para tocar o trabalho até o final do ano.

— Olha só o tamanho dessas piscinas, marido!
— E só de pensar que poderemos dispor de tudo isso por um preço tão barato, fico ainda mais feliz, respondeu-lhe este entusiasmadamente. Tudo fica com um sabor melhor ainda, acrescentou.

Logo alugaram um carro para melhor poderem se locomover e conhecer a cidade e praias mais distantes. Também contataram alguns amigos e se aventuraram em passeios pelos arredores. Foram a bares exóticos e comeram em um ótimo restaurante, ao qual voltaram duas vezes pela ótima comida e quantidade de camarões oferecidos nas porções individuais. Realmente, o sabor e qualidade dos pratos saboreados eram inigualáveis. Não se lembravam de jamais haverem comido tão bem e tão fartamente. Levariam o sabor da comida desse restaurante para sempre em suas papilas gustativas. Até hoje, enchem a boca de água quando falam dessas refeições — para depois acrescentarem o número de sais de fruta que tiveram de tomar para digerir o exagero desses jantares.

Dormiam sem o ar-condicionado ligado, somente aconchegados pela brisa marinha suave que soprava através da ampla janela, debruçada por sobre uma varanda maravilhosa, de onde avistavam o mar a se espreguiçar na praia defronte. À esquerda, podiam avistar o enorme parque aquático do hotel, no momento quase vazio devido à época do ano — período chuvoso —, tempo sempre nublado, muitas ventanias. Assim, eram somente eles, o vento e o mar. E muito camarão.

Na manhã do dia 7 de setembro, ela foi acordada por muitas vozes entrecortadas, que vinham de fora, trazidas pelo vento, sempre muito forte. Pareciam sons de crianças brincando, pessoas rindo alto, conversas confusas. Em seguida, o marido dirigiu-se à varanda, abriu a porta e ficou fora algum tempo. Os sons se tornaram mais claros, mais altos, mais conectados. Um verdadeiro murmurinho. Em seguida, percebeu que o marido falava-lhe da varanda, mas não conseguiu entender bem o que dizia. Só conseguiu entender a palavra ‘Wally”, porque fez uma associação com um jogo que gostava de jogar com os filhos quando pequenos. O resto da frase perdera-se ao vento.

Decidiu levantar-se e ver o que estava acontecendo. Foi à varanda do jeito que estava — enrolada num lençol — e parou estupefata na porta ao avistar a cena que se descortinava à sua frente às 9 horas da manhã do dia 7 de setembro de 2007: um parque aquático tomado por uma multidão de turistas que haviam chegado na noite anterior enquanto eles se divertiam com amigos em uma festa. Segundo soube posteriormente, enquanto enfrentavam a fila do café-da-manhã num dos três restaurantes superlotados, haviam chegado 750 hóspedes num pacote de feriado — duas diárias pelo preço de uma e meia com direito a estada livre para crianças menores de 5 anos. O hotel ficaria praticamente lotado por dois dias, com turistas, a maioria recém-casados, em busca de um descanso barato enquanto desfrutavam de alguma tranqüilidade após confiarem seus filhos menores aos cuidados de animadores culturais especialmente contratados pelo hotel para entreter a clientela mirim em tais ocasiões.

— O que você está falando que eu não consegui entender direito, com essa multidão a gritar aí embaixo às 9 da manhã? O que diabos aconteceu neste hotel do dia pra noite e que transformou este oásis num verdadeiro ‘piscinão da praia de Ramos’? Que diabos está acontecendo? - questionou a esposa, atônita com o que via logo abaixo da sua varanda.

— Ora, respondeu o marido, rindo. Agora só nos resta brincar de ‘Onde está o Wally?’ daqui de cima. Olhe bem a multidão e tente descobrir onde está o cara que está cantando esta música brega. Um, dois, três, já! Vamos ver quem é mais rápido? Agora, onde está a professora de hidroginástica? Ganhei! Agora...
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Por que escrevo?*



Ana Maria Machado

Por que escrevo? Porque a linguagem me fascina, me encanta, me intriga. Porque desde criança sempre adorei navegar nos mares das histórias — ouvindo, lendo, inventando. Porque a leitura é para mim um deslumbramento e a escrita é o outro lado das moedas desse tesouro.

Por nenhuma dessas razões apenas, e por todas elas. E muito mais. Sempre gostei de gente, bicho e planta — e um dia percebi que linguagem, histórias e idéias são a marca do humano. E, já que eu não sou capaz de fazer como as árvores e transformar gás carbônico em oxigênio, devia tentar alguma coisa que eu pudesse fazer, para que veneno virasse fonte de vida.

Na hora de escolher profissão, nem pensei que escrever podia entrar nessa categoria. Artista, sim, eu sabia que era, e não tinha jeito. Escrevendo, juntei todos os meus lados e porções, colei meus cacos internos, dei uma certa ordem ao caos interior.

Por que escrevo? Simplesmente porque é da minha natureza, é isso que sei fazer direito. Se fosse árvore, dava oxigênio, fruto, sombra para todo mundo. Mas só consigo mesmo é fazer brotar palavra, história e idéia, para dividir com todos.



*Trechos do ensaio publicado no livro “Texturas”, Editora Nova Fronteira, 2001. Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras.
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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Hipótese diagnóstica




Luci Afonso


Resolvo dedicar a semana antes do Natal a cuidados com a saúde. Primeiro, a consulta com o mastologista, que deveria ter sido em abril. Ele dá uma bronca pelo atraso e faz as perguntas de praxe:
— Ciclo menstrual?
— O último durou 75 dias.
— Não se preocupe, é o climatério. Algum medicamento de uso contínuo?
— Prozac, Lexotan, Tylenol, Buscopan e Dorflex.
— Atividade sexual?
— Moderada.
— Média de orgasmos?
— Um por mês.
— Método contraceptivo?
— Meu parceiro não pode mais ter filhos.
— Vasectomia?
— Idade avançada.
— Atividade física?
— Duas caminhadas este ano.

Ele constata que atingi vergonhosos 86 quilos e me sentencia a perder, pelo menos, dezesseis. Ouço uma extensa lista de doenças causadas pela obesidade: a flebite, por exemplo, dolorosa inflamação das veias que pode levar à paralisia das pernas.

Após o rápido exame de toque e a coleta de material para prevenção, ele me leva até a porta:
— Prazer em revê-la.

À noite, inicio o jejum para o exame de sangue. Não posso experimentar as deliciosas rabanadas que acabaram de sair do forno. Na agradável sala de espera do laboratório, assisto ao depoimento de um casal que engordou 30 quilos — 15 cada um. Graças a Deus, não sou casada!

A simpática enfermeira tem dificuldade em encontrar minha veia e pergunta se a deixei em casa. Finjo achar graça e fecho os olhos para não ver o sangue espirrando. Engulo um cafezinho e um biscoito de queijo e saio correndo para a próxima clínica, no final da Asa Sul.

Dez horas. Mamografia bilateral, suplício inventado para as mulheres que chegam aos 40 anos. A jovem funcionária aprisiona minhas mamas no aparelho de tortura, corre para trás do biombo protetor e ordena:

— Não respire! - Eu obedeço, e, além da respiração, seguro o grito de dor.
— Pode respirar! - A operação é repetida seis vezes, três para cada mama. A moça me dispensa, sorrindo:
— Feliz Natal, senhora! Até o ano que vem. - Daqui a vinte anos, ela estará em meu lugar.

Meio-dia. Ecografia transvaginal. A sala é gelada e a cadeira ginecológica está com defeito: é preciso equilibrar o apoio do pé esquerdo com o calcanhar. Minha perna começa a tremer.
— Não fique nervosa - diz a atenciosa auxiliar.

Sou atendida por uma médica que parece recém‑formada. Após algum esforço, consegue introduzir o aparelho no devido local e visualizar os órgãos do meu aparelho reprodutor. Torço para não precisar repetir o exame.

O retorno ao mastologista é na antevéspera do Ano Novo. Estou otimista: já perdi 200 gramas. Quando a porta do consultório se abre, levanto-me, confiante: qualquer que seja o diagnóstico, eu o enfrentarei como uma mulher madura e equilibrada, que completará 46 anos no mês que vem.
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Olho de Ciclone



Eneida Coaracy


Vejo a veia nervosa
Conectar o céu e a terra.
Vejo grossas lágrimas encharcarem
O solo apavorado cá em baixo.
Vejo o jato irado e molhado
Tombar sobre a vida,
Cair rumo abaixo.

Vejo a queda contorcida.
Vejo nuvens delirarem.
Inchadas, transbordarem.
Telhados, postes, fiação,
Tudo a dançar ao relento
A loucura dos sons do vento.
Vejo o canal lacrimal de Deus
Inchar e chorar
As dores do mundo.

Doido, perdido na
Ventania que assoprou os trastes do homem,
Está o homem nu.
O homem vê uma cicatriz no céu.
O homem vê os nervos de Deus.

Eu, no meu lamento,
Maldigo as cicatrizes da cidade.
Vejo o mundo ao redor de pernas pros ares.
Vejo as veias do firmamento repuxarem nuvens,
Assustarem o solo encolhido cá em baixo.
Vejo a negra vastidão solitária.
Vejo uma cicatriz no céu
Doer no olhar.

Vejo o ciclone chorar

Poema finalista do Prêmio OFF-FLIP de Literatura 2006-2007. A coletânea, publicada em parceria com a Quarto Setor Editorial, será lançada durante a OFF-FLIP 2008, entre 2 e 6 de julho, paralelamente à Festa Literária de Paraty. A autora estará presente.

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O lugar do escritor*



por Eder Chiodetto


(Entrevista com Adélia Prado)


FILHA DE DEUS

“Acho que o livro é sempre melhor que eu. Estou sempre no encalço do meu próprio livro. Se o acho bonito, quero ser bonita. Quero ser boa e perfeita, igual a ele. Aquela harmonia que suponho conseguir é também a busca da minha harmonia pessoal, da minha vida, enquanto cidadã, filha de Deus aí no mundo. Estou buscando aquilo que o livro consegue antes de mim.”

SEMENTES

“Escrevo à mão, em cadernos, não importa em que lugar da casa. Prefiro o lápis à caneta. É o meu kit poesia. Sempre carrego o caderno, mesmo em viagens, para registrar um episódio, um acontecimento que tenha natureza poético-literária. Sei que é a semente do texto. É meu dever registrar aquilo. É um presente divino que preciso guardar. Pode estar ai o embrião de um poema, de uma prosa, de uma novela. Se você tem um dom, a coisa mais agradecida que pode fazer em relação a ele é aceitar, cuidar disso como um operário. Mas quando o livro fica pronto, costumo queimar todos os cadernos de rascunho.”

MOVIMENTO DA VIDA

“Não separo a mãe e a dona de casa da escritora. Sou uma mulher casada, tenho filhos, casa e escrevo. Tudo junto. Por isso o escritório é a minha vida. Se montasse um escritório, ficaria pateta lá dentro, não teria o que fazer. O movimento do cotidiano é mais importante. A vida está pulsando ali. Vejo criação literária e vida pessoal como um tecido único. Não separo. O livro faz parte da casa, da comida, da experiência, da maternidade, do cotidiano. Também não separo a experiência religiosa da experiência poética.”





*Cosac & Naify Editora, 2002. Fotos e entrevistas por Eder Chiodetto.
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sábado, 7 de junho de 2008

Onze anos



Luci Afonso


Veias são... tipo... frágeis? O que é... tipo... licantropia? O que é astrofísica? Por que a minha memória é tão ruim, véi? Como se diz “páia” em inglês?

Tô me sentindo culpado... tipo... por não te deixar usar o computador.

Qual a diferença entre um rio e uma lagoa? Tem limão aí? O que é cul-de-sac? Por que Chicabon é tão páia? Por que inventaram o cigarro, véi? O que é... tipo... próton? Elétron? Nêutron? Íon? Como eles conseguiram chegar a uma fórmula... tipo... tão perfeita... tipo... sem seqüelas?

Vamos ficar o dia todo em casa, véi? Posso pedir lanche do McDonalds? Quando você vai... tipo... consertar o PlayStation?

Por que minha bunda é tão grande, véi?

Tô preocupado com o aquecimento global.

Se uma formiga... tipo... cair de uma montanha, ela morre? O seu cartão já desbloqueou? Por que eu tenho dor de cabeça, véi? É possível cortar ossos?

Tô com medo de encontrar barata na cozinha.

Os humanos evoluíram mesmo dos macacos? Como as arraias podem... tipo... dar ferroada com a cauda? O que é gerenciamento de resíduos? Por que a gente... tipo... se arrepende? Por que meu cabelo é tão páia?

O que são autótrofos? É possível criança... tipo... ter bigode? Por que eu tenho sobrancelha tão grossa, véi? Existe uma doença em que nascem pêlos? Como os lagartos regulam a temperatura do corpo? O que são furúnculos? Cabeça grande é... tipo... sinal de inteligência?

Qual a diferença entre salsicha e lingüiça? Por que eu sou tão baixo, véi? Por que os ursos... tipo... não descem colinas? Focas sentem cócegas?

Você está... tipo... na TPM? Você vai com essa roupa? Precisa me deprimir, véi? Tá brava comigo? Tem certeza? Tem certeza de que tem certeza? Tá o quê comigo?

Boa noite, mãe.
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Intimidade




Eneida Coaracy


Parei de escrever de repente, segurei a velha caneta Bic toda mordida na ponta, e a examinei fixamente. Na realidade, estava dando um tempo para ver se as idéias ficariam mais claras e conseguiria desenvolver o conto que pretendia escrever naquela tarde ensolarada. Descansei a caneta ao lado, peguei um lápis e o analisei com a mesma atenção. Pus os dois na minha frente, em cima do bloco de papel, e fiquei tentando me decidir qual dos dois usaria para escrever naquele momento.

Segurei o lápis, senti a maciez áspera da madeira na mão, escrevinhei alguma coisa e ouvi a grafite arranhar o papel. Observei os dois principais elementos de que dispunha para a minha tarefa literária: a folha de celulose, que um dia fora madeira, que um dia fora árvore, que dera sombra, que dera abrigo, que talvez dera frutos, que fizera parte de um sistema ecológico, que agora se transformara em instrumento de trabalho, que novamente se transformará em um outro elo dessa cadeia transformadora que chamamos vida. Continuei escrevendo. Eram sons aparentemente ásperos, às vezes guturais, mas melodiosos, prolongados por um rastro de madeira seco. Sons que parecia virem do ventre do próprio papel, como se este quisesse participar também do meu processo de criação. Os dois formavam um duo irresistível, melodioso, sincronizado. Onde começava o canto de um ou terminava o do outro? Continuei escrevendo por um longo tempo. Meu texto ainda não tinha forma. Eram reflexões que o lápis dizia para mim à medida que arranhava a folha de celulose com as minhas dores. Ou seriam as dores da grafite que um dia fora mineral, que saíra do ventre da mãe terra para, em co-autoria, escrever as estórias que o âmago do ser lhe ditaria em íntima parceria? Decidi mudar meu instrumento de trabalho. Voltei à caneta Bic.

Segurei-a novamente, senti-a entre os dedos, mordisquei sua ponta levemente, abaixei a mão esquerda e recomecei a escrevinhar. Silêncio total. Só a página a se animar à minha frente com o suave contorno das palavras que a caneta imprimia calada. Fiquei intrigada. Não conseguia sentir a interação desta nova parceria caneta-papel. À medida que continuava escrevendo, observava o rastro colorido que a caneta deixava atrás de si. Era como um rastro de foguete, levemente borrado pela minha mão canhestra que se arrastava por cima das letras impressas no papel pela caneta que seguia à frente, comandando a mão canhota. O resultado era um texto quase sempre levemente borrado, cujos riscos mais grosseiros eu sempre tentava apagar. Trabalho inútil, pois não desconhecia que a caneta surgira para imprimir um sentido de permanência quando se escreve um texto. Sabia que escrita feita à caneta significa decisão, coragem, muita segurança. E cadê a minha segurança, se até agora só havia travado estes diálogos com os meus parceiros de produção? O meu texto ainda continuava sem forma!

Não havia percebido que escolhera uma caneta de tinta vermelha e segui rabiscando idéias na folha de papel, agora pintada de vermelho, transbordando de dor. Seria melhor registrar as minhas dores em vermelho ou em preto? É. A caneta tem certas vantagens. Você pode dar o colorido que quiser ao que escreve. Se forem dores de raiva, o vermelho cai muito bem, se forem dores de luto, o preto vai melhor, se forem dores transformadoras, uma caneta furta-cor é a escolha perfeita. E assim por diante. Senti falta de ouvir o som das palavras sendo impressas no papel, mas gostei da possibilidade de tonalizar o texto de acordo com o assunto.

Após um tempo, larguei estes parceiros e decidi ser infiel desta vez, melhor dizendo, ser inovadora, moderna, atualizada: liguei o computador e continuei a minha busca. Logo fui invadida por uma luz branca e forte, que fazia meus olhos se apertarem. Após alguns minutos, já acostumada a este enfrentamento luminoso, olhei para a tela branca, muda e luminosa, escancarada na minha frente e comecei a digitar idéias no nada branco e profundo da tela calada do monitor. Ouvia o som das teclas gemerem secamente sob a pressão dos meus dedos que as acordavam da mudez plastificada em que as letras haviam sido transformadas. Ao apertá-las, com uma força talvez maior que o necessário, fazia um grande reboliço no meu novo instrumento de trabalho. Tentava me concentrar, mas distraía-me o movimento apressado dos meus dedos, quase que a dançarem sobre o teclado sincopado, fervilhando de letras, números e símbolos. Definitivamente não sou uma exímia digitadora. Olhei para o teclado, como se assim fazendo me sentisse mais segura do que apareceria no branco luminoso a minha frente. Senti um distanciamento entre idéias, movimentos mecânicos, e o resultado visual do que pensava quando escrevia desta forma. Apagava palavras, recuava, mexia e remexia no texto, tudo sem deixar nenhum rastro. O texto, enfim, emergiu imaculado na tela e, ainda por cima na cor que quisesse, com ou sem rastros, dependendo das minhas habilidades em informática.

Parei. Recuei. Olhei para os meus três velhos amigos abandonados frente a mim e refleti: a minha intimidade é segurar um lápis com as minhas próprias mãos e senti-lo arranhar o papel com as minhas dores.





Maria Eneida Soares Coaracy (Eneida Coaracy) gosta de escrevinhar desde menina, quando escrevia estórias infantis sobre reis e fadas, além de um diário, através do qual se correspondia com uma amiga imaginária. Também escreve poesia e contos. Foi classificada em segundo lugar no Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade - Edição 2005, com o poema “A Língua”. Em 2006 classificou-se entre as sete finalistas no Concurso de Poesia OFF-FLIP- Paraty, com o poema “Olho de Ciclone”. NA FLIP 2008, participará do lançamento da Antologia dos Finalistas do Concurso de Poesias 2006/2007. Atualmente, tem se dedicado mais à observação do cotidiano através de pequenas crônicas.


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Entrevista com Marco Antunes*



por Alexandra Rodrigues


É uma hora da tarde de uma sexta-feira de novembro. Marco Antônio Antunes acaba de conduzir o ciclo de poesia, o último dos horários dessa manhã preenchidos com oficinas de conto, poesia e crônica. A despeito da longa manhã literária, mostra-se totalmente disponível e disposto para uma entrevista, na acolhedora sala do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, em Brasília.

1. Com uma identidade inseparável da existência literária, quem é Marco Antunes, poeta e contista? De onde ele vem e qual o seu projeto literário?

Quem eu sou não sei te dizer. Eu não tenho essa consciência que a gente vê em Drummond, que consegue, na primeira página do livro, fazer um projeto literário que irá cumprir até o final da vida, a ponto de chegar em seu último livro, colocar o título de Farewell e ser realmente o último livro. Talvez por isso, ao contrário de Drummond, que conseguiu se resumir de pronto em sete grandes temas, eu tenha feito meu projeto em vinte e um grandes temas, que são as Cartas do meu Tarô Pessoal.

Não sei quem eu sou, mas posso te dar algumas dicas: sou uma cara de 48 anos, que nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, veio para Brasília muito cedo, e, desde o meu primeiro momento de vida consciente, estou ligado ao teatro e à literatura sempre.

2. O que o impulsiona a escrever? Você acredita em musas inspiradoras?

Não, eu não acredito. Essa é uma dificuldade muito grande que eu tenho quando estou fazendo as oficinas, porque insisto que trabalhar é uma prática; e escrever é uma prática. A escrita é uma coisa que você pode e deve planejar e organizar. O meu trabalho é muito racional, eu não tenho nenhuma espécie de superstição para escrever. Só há uma ocasião na vida em que eu me sinto motivado (uma motivação imediata) a escrever: quando escrevo texto políticos ou estou muito revoltado com alguma circunstância política. O resto faz parte de um projeto muito maior e pensado anteriormente. Eu não escrevo no calor da paixão.

3. Como é o seu processo de criação literária em termos físicos, materiais, psicológicos? Como se programa para a escrita ? E quando ela acontece?

Ela acontece todo o dia, em princípio em uma hora programada: escrevo normalmente entre 4:00 da tarde e 8:00 da noite; este é meu melhor horário para escrever. Não sei se é uma questão de biorritmo, se esse é meu ciclo biológico, mas nessa hora minha mente está clara, eu sinto que posso interferir melhor na minha articulação mental e que não sou sujeito a turbulências; não estou nem tão desperto, naquela profusão de idéias, naquela tempestade mental da manhã, nem tão cansado quanto à noite, que é o momento em que vem mais o sonho, a inspiração, a oração (eu oro quase todos os dias). Esse é um horário em que eu fico num meio termo que me agrada, mas sempre a pensar: hoje eu quero escrever um poema sobre esse tema. E então sento... sento é um modo de dizer, porque às vezes eu ando feito um louco de um lado para o outro, até a achar a forma que desejo para esse poema. Na hora em que eu acho o conceito desse poema, ele vem fácil.

4. Marco, que escritores brasileiros se sentam à mesa com você em seus banquetes literários?

Meu prato favorito é Carlos Drummond de Andrade. Sempre foi e vai continuar sendo por muitos anos. Quando eu penso que estou numa fase em que esgoto Drummond, redescubro por outro ângulo que eu ainda não tinha atinado, um sabor novo que ainda não tinha provado. Vinicius de Moraes foi importante em uma determinada época, em especial a poesia mais social, aquela época do Operário em Construção, Desespero da Piedade. Mas eterno, aquele sabor que é o arroz, aquele que não cansa nunca, é Cecília Meireles. Essa está sempre comigo.

O meu biscoito fino no café da tarde é Guimarães Rosa, que eu mais gosto de ler do que de me inspirar para escrever. Eu não diria que ele seria um pai da minha escrita, não tenho aquela verve de criação de palavras nem nada parecido. Agora, quando eu escrevo prosa, o meu sonho é ser Érico Veríssimo.

5. E com que escritores estrangeiros você toma café da manhã?

Vou-te citar dois que realmente resumem a minha paixão: um é Fernando Pessoa, especialmente Álvaro de Campos, mas também o ortônimo, Fernando Pessoa. E Walt Whitman. Aqui e ali eu vou tomar um refresco de Garcia Lorca, de Pablo Neruda. Teve uma época na minha vida que eu li tanto Pablo Neruda que o meu filho se chama Pablo em função dele. Mas uma figura fundamental na minha vida, no meu pensamento, é Brecht.

6. Na qualidade de Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados você desenvolve oficinas de contos, poesia, crônicas, saraus e outras iniciativas. Como é que a literatura invadiu e passou a habitar uma casa política?

Vou-te dar a resposta mais honesta possível: porque eu quis. Eu trabalhava como chefe de assessoria de liderança de um partido político, um trabalho completamente burocrático. E via que a parte das artes plásticas e da música no espaço cultural se desenvolvia. A Casa respirava uma atmosfera de arte, graças a esses dois núcleos. Então um dia eu me apresentei ao André Amaro (diretor do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados), que é um diretor de teatro com quem já tinha trabalhado em oportunidades anteriores, e falei que gostaria de desenvolver um trabalho na área de literatura. Fiz um projeto e ele me trouxe para o Espaço Cultural. Comecei com uma oficina e um ciclo literário que culminava em um sarau literário na Embaixada de Portugal. Já estou no décimo sexto ciclo, dedicado, de dois anos para cá, aos Estados, por ser essa uma Casa que tem representação estadual muito forte. Agora os ciclos vão ser com um autor brasileiro, um compositor e um autor estrangeiro.

7. No programa Prosa e Verso, da Rádio Senado, o ator e professor de literatura transforma-se em produtor e radialista. Qual é a proposta e o conteúdo do programa?

Esse programa é talvez a parte da minha vida de que eu mais gosto neste momento, porque é uma oportunidade que tenho de falar com mais de setecentas cidades em todo o Brasil. Quando penso nesse programa, eu penso no Marco Antônio lá atrás, dando aula no segundo grau, tentando romper uma barreira que os alunos tinham com literatura, por um erro estratégico de, por exemplo, colocar para alunos de segundo grau — preocupados com o que vão vestir no sábado à noite, se vão conseguir dar um beijo na garota ou não — obras como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas; quando o pobre Machado tinha condições de seduzi-los para que mais tarde, em outra fase da vida, eles pudessem fazer uma abordagem consciente dessas obras, uma abordagem real, vivida. Então, eu lá atrás fui um lutador, mas eu lutava de sala em sala.

Aqui, no Prosa e Verso, eu consigo lutar em muitas salas Brasil afora. Eu acho que o programa é um auxiliar dos professores de literatura de segundo e também de primeiro grau, porque ele usa recursos da radiodramaturgia e a interpretação de dois atores, eu e a Tuka Villa-Lobos, para facilitar a compreensão de determinado texto. A gente tem recebido cartas do Brasil inteiro e o meu grande projeto é distribuir, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura, para todas as salas de aula do Brasil, 100 programas que cabem em dois CDs. Já imaginou um professor de literatura lá no Amazonas que, quando vai falar, por exemplo, do quinhentismo na literatura, pode colocar por quinze minutos, ao começar a sua aula, uma interpretação com dois atores falando da carta de Pero Vaz de Caminha ou Pero de Magalhães Gândavo, os cronistas de 1500? E assim nós passamos por todos os estilos, temas, abordagens, o programa é muito variado.

8. Marco, como acontece o escritor, de que maneira você percebe o seu processo de formação desde o berço até à maturidade literária?

Eu não acredito mesmo na palavra talento, me parece meio transcendente, fora da vontade da pessoa. Eu acredito em vontade. Aquela pessoa que quer escrever, que tem esse desejo sincero e que é um bom leitor, em geral se transforma num razoável escritor. Se ele juntar a isso trabalho e a capacidade de livre pensar: isso inclui ter liberdade de pensamento político, não seguir os modismos, ser livre para receber todas as informações que o mundo dá (e o mundo dá muitas). Jamais reduzir literatura a uma coisa tipo gosto, não gosto. Eu provo tudo, não faço cara feia para nada, seja em música, seja em literatura. Tudo me ensina a escrever e também a ensinar. Detesto gente preconceituosa.

Um escritor sem um caldo cultural não é ninguém. Eu acho que uma pessoa que consegue essa liberdade de espírito e tem determinação, em princípio pode aprender a escrever. Aprender a escrever é fácil. Mas o escritor se faz por conta própria.

9. É verdade que o poeta é um fingidor? Como é que se engendra o fingimento poético?

É sempre um fingimento. No momento em que eu estou diante do papel ou do computador, eu estou falando supostamente com uma pessoa que não existe, que é o leitor/ouvinte ideal daquele poema, daquele conto, daquele romance. O que escrevo/falo não é ele que lê/ouve, afinal. Somos todos nós que moram em mim e todos eles que moram nele. E a mensagem será o resultado impossível dessa comunicação quase inviável. Essa é a magia de você poder representar Hamlet mil vezes e mil vezes ser diferente. Os temas são poucos, o resto é a sua capacidade de ver aquela história. Basta dizer que Shakespeare, por exemplo, só escreveu realmente um enredo, Sonhos de uma Noite de Verão. Todos os outros ele se apropriou de enredos pré-existentes. Porque conhecemos Shakespeare? Porque ele conseguiu entranhar melhor o espírito universal dessa personagem.

10. Digamos que ele fingiu mais completamente... Otávio Paz escreveu que as redes de pescar palavras são feitas de palavras. Como você acha que elas conseguem pescar em lugares do indizível?

Eu acho que acreditar na literatura é não acreditar em abstrações. Quando a gente põe em palavras, a gente está tocando, trazendo para o ser humano, dizendo assim: tome, esse é o meu corpo, provai e comei.

Eu acho que cada palavra é como um sabor. Por exemplo, quando era pequeno eu ria muito cada vez que alguém me falava a palavra criatura. Eu achava essa palavra de indescritível graça. Nessa época, na minha terra tinha um coquinho chamado coquinho de catarro. O nome é horrível, mas era um coquinho que você ia roendo e ele ia se transformando num sabor amanteigado muito gostoso. Se eu fechar os olhos aqui, nesse momento, é quase como se me transportasse para as colinas de Petrópolis, onde eu conseguia quebrar o coquinho e comer ainda com as mãos sujas de ter escalado a colina de terra. Aqueles sabores ainda me vêm. Eu acho que com palavras é a mesma coisa: uma palavra puxa outra. Uma sensação logo convida palavras para brincar.

11. Digamos que o poeta vive entre o fingimento, o indizível e a brincadeira...

Eu acho que é só brincadeira. Os verdadeiros escritores e poetas nunca perderam a criança. Quanto ao indizível, é outro conceito que eu tenho dificuldade de absorver. Depois de ter lido Fernando Pessoa e Drummond, eu tenho certeza que tudo pode ser dito, a dificuldade é ser bem dito. Eu preciso, como todo o poeta precisa, achar o sotaque onde eu possa bem dizer.

12. Considerando esse sotaque na literatura brasileira e latino-americana, que percepção você tem acerca dessa literatura no século XXI?

A literatura, especialmente o teatro latino-americano, tem uma força e um vigor monumental. Eu não sei explicar porque é que, em determinados momentos, um gênero floresce; porque é que o teatro americano, no século XX, foi um monumento com Eugene O’Neil, Tennessee Williams, com o monumental Arthur Miller; como em outros momentos foi a poesia na Argentina, a poesia no Brasil nos anos que se seguiram à revolução da Semana de Arte Moderna. Que força foi aquela que agrupou tantos talentos ao redor de uma idéia, como a música popular brasileira no final dos anos 60, início dos anos 70?

Eu acho que o Brasil, nesse momento, vive uma entressafra muito triste. Nada me convence que a poesia brasileira tenha o vigor que teve em meados do século XX. Eu encontro, aqui e ali, expressões monumentais. Encontro aqui e ali um Carpinejar, mas eu não encontro esse movimento em massa, essa desejo cultural que é capaz de mobilizar, de atrair, de ser uma força centrípeta e centrífuga, porque ela precisa reunir escritores e esses escritores projetarem uma nova visão de mundo. Será que é porque a gente está tão desesperançada com a sociedade que está construindo? Ou porque está perdendo a real identidade cultural desse país? Eu não sei, mas adoraria uma segunda semana de Arte Moderna, em que a gente pudesse achar uma rua Líbero Badaró como eles acharam lá em São Paulo e se reunir todas as semanas para pensar, para debater, com espíritos abertos, sem ninguém tentar impor estilo, e repensar o futuro dessa literatura.

13. Para encerrar, uma pergunta acerca de Marco Antunes habitante do mundo: que mundo é esse, que mora em você e você mora nele?

Esse mundo é um contra-senso. Eu vejo o mundo quase tão amargo quanto Brecht viu na sua poesia da década de 40 ou Drummond na Rosa do Povo. Mas, ao mesmo tempo, algo em mim fala de uma incrível esperança no homem. Eu acho que todas as nossas derrotas estão nos ensinando uma vitória muito maior. Quando a gente finalmente aprender que se pode morrer e renascer, que sem ideologias e religiões o mundo vai melhorar... não é sem fé, nem sem ideal, mas sem essa coisa cristalizada de ideologia e religião. Quando a gente conseguir um outro ser humano com menos mentira, com menos conceitos, com menos roupas — não as que ele usa, mas as que nós colocamos — a gente vai fazer estar construindo um mundo melhor. E curiosamente, eu acho que as novas gerações estão aptas a isso.

Eu acho, que, apesar de todos os tropeços, nós estamos construindo um mundo com gente com mais habilidade de dizer mais sim do que não, um mundo com profunda inclusão de todos, em que a gente possa profundamente abraçar sem roupas, sem cristais, sem idéias prontas. E eu percebo nas novas gerações essa vontade. Talvez elas não tenham uma palavra de ordem com a gente já teve um dia. Talvez não ter essa palavra de ordem, não precisar de uma liderança, seja a grande invenção. Eu não gosto de utopias, os seus criadores acabam sacrificando as pessoas reais (escrevi até um poema sobre isso) para que elas possam ir vivendo as suas utopias. O mal das utopias é que você não consegue homens utópicos para viver nelas, mas homens reais. Quando a gente puder aceitar o homem real como ele é, estará construindo um mundo melhor. Paradoxalmente eu acredito que, a passos lentos, a gente está caminhando para um mundo melhor. E vejo o início do século XXI, com toda a tecnologia e todos os problemas ambientais que a gente vai enfrentar, como uma grande oportunidade, porque da crise vai nascer essa sociedade futura. Tomara que a gente saiba aproveitar e que nós, os escritores, saibamos traduzir e convocar os operários da construção dessa realidade não utópica.

*Entrevista publicada na Revista Vagalume em junho de 2008.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira