sábado, 30 de agosto de 2008

27ª Feira do Livro de Brasília (I)




A Thesaurus Editora promove no seu estande o tradicional Bate-Papo com o Escritor.
Alexandra Rodrigues e eu lá estaremos nos dias e horários abaixo, divulgando nossos livros "Minha avó botou um ovo" e "Velhota, eu?".
Quem ainda não leu o nosso trabalho, terá a chance de fazê-lo.
Quem já o conhece, desfrutará igualmente de um agradável bate-papo com as "crônicas e agudas", segundo definição do escritor e professor Marco Antunes, do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados.



Dia 05/09, sexta-feira, das 14h30 às 16h30
Dia 06/09, sábado, das 20h às 22h
Pátio Brasil Shopping
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27ª Feira do Livro de Brasília (II)




O SINDILEGIS conquista estande próprio na Feira do Livro, após seis anos de política cultural que incentiva a produção literária dos servidores da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e do Tribunal de Contas da União.

Além de "Velhota, eu?", estão à venda livros de André Amaro, Isolda Marinho e Emanuel Mazza, entre muitos outros.

Pátio Brasil Shopping, de 29 de agosto a 7 de setembro.


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Papai Sacanoel




Luci Afonso



As luzes de Natal já brilhavam no prédio. Cumprimentou o porteiro com os olhos baixos. Achou-se feia no espelho do elevador.

A secretária a olhou com um sorriso indefinível.
— O doutor já está terminando. Água ou cafezinho? Fique à vontade, vou dar uma descidinha para lanchar.

Teve de esperar um pouco até sair a outra cliente. Estava nervosa, pois não o via há um mês. Ele viajara em férias com a família.

Quando entrou no consultório, ele ordenou, da poltrona:— Tire a roupa e deite-se na mesa. - Sempre começavam assim. Observou-a enquanto se despia e ia se aproximar quando o telefone o interrompeu. Era a esposa.— Oi, querida. Já pegou o carro novo? Estou atendendo a uma emergência. Te ligo quando acabar - desligou, apressado.

— Faz aquela cara safada que eu gosto!
— Esqueci como é - mentiu ela.
— Vou te ajudar a lembrar. Abre a perna. Mais... mais...

Ela estava quase se lembrando: ele segurava seus braços e sussurrava os nomes que ela adorava ouvir, enquanto fazia tremer a mesa com movimentos bruscos.
Ouviu-se uma musiquinha natalina — era o novo toque do celular dele. Uma cliente, aos prantos, queria antecipar o horário de qualquer jeito. Foi pegar a agenda na pasta:
— Hoje não dá, estou cheio! Pode ser amanhã, às 19 horas. Está tomando o remédio? Fique tranqüila.

Sua consulta era às quintas. Queria vê-lo mais vezes, mas ele argumentava:
— Vamos vivenciar a realidade, bem? - Na hora do almoço, ele ligava e pedia que se trancasse no quarto. Nas viagens a trabalho, telefonava de madrugada do hotel, e gostava que ela atendesse nua.

Deitaram-se no divã. A luz batia forte nos olhos dela, a sala sem ar-condicionado estava muito quente. Só restavam 30 minutos.
— Já mandei fazer cara de puta. - Ela fez. Mordeu-lhe a nuca com força, deixando uma marca dolorida que a faria lembrar-se dele até o próximo encontro. Tapou-lhe a boca para que não gritasse. Rolaram, enlouquecidos, para o chão.

Foi quando ouviram a campainha. Esperaram, quietos. Aparentemente, a secretária não voltara do lanche. Depois de alguns minutos, alguém enfiou um papel debaixo da porta. Ele se levantou para ver o que era: convocação de assembléia extraordinária do condomínio.

Faltavam 10 minutos. Atracaram-se no banheiro escuro, e, quando terminou o tempo, vestiram-se depressa. Ele lhe comprara um presente:
— Feliz Natal!
— Você vai passar comigo? - arriscou-se ela.
— Vamos vivenciar a realidade, bem? Abra.

Ela obedeceu, desanimada. Numa caixa de veludo vermelho, embrulhado em papel de seda, um vibrador modelo Ultra Satisfaction, tamanho G, movido a pilha, três velocidades.
— Vamos estrear amanhã quando eu te ligar - disse ele, a voz rouca.

A secretária despediu-se dela com outro sorriso enigmático:— Até quinta.

Não conseguiu se olhar no espelho do elevador nem se despedir do porteiro. Deu a caixa vermelha a um mendigo desdentado, que lhe pedia moedas, e correu em direção ao carro. As luzes de Natal haviam se apagado no prédio.
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Professor Pelé


Luis Fernando Verissimo


James Joyce dizia que o leitor ideal é o leitor com insônia. O que sugere um paradoxo: não adianta ler a noite toda e ficar inteligente se no dia seguinte você parecerá um zonzo por falta de sono. A regra deveria valer para os leitores dos livros de Joyce. Eu consegui ler todo o “Ulysses” (só não me peça para contar) mas decidi que tinha que escolher entre ler “Finnegans Wake” e viver.

O fato é que já tive muita insônia, e mais tempo do que tenho agora, e por isso li bastante. Hoje me transformei num leitor de trechos, ou de notícias e artigos, que, pensando bem, também são trechos desta grande obra que ninguém sabe como vai terminar, que é a atualidade.

Quando me perguntam sobre literatura brasileira e internacional, novos autores, etcetera, e não quero dizer que não leio mais como lia e por isso sou um abjeto desinformado, digo apenas que tenho dormido melhor, ultimamente. O que talvez explique esta cara de quem lê muito, e as perguntas.

A falta de insônia e de tempo desanima o leitor diante de textos maiores e mais exigentes, mas também condiciona quem escreve: sabemos como um advérbio de modo ou uma firula desnecessária podem atrasar a vida, e procuramos o texto enxuto, a frase três-em-um (a que diz no mínimo três coisas com um verbo só) e a concisão.

Sempre achei que o melhor professor de português do Brasil foi o Pelé. Quem o viu jogar ou hoje vê os seus teipes sabe que o Pelé jamais fez uma jogada que não fosse parte de uma progressão para o gol. O sentimento de tudo que o Pelé escrevia com a bola no campo era o gol. O drible espetacular era apenas circunstancialmente, com perdão do longo advérbio, espetacular, porque ele existia em função do objetivo final.

A lição para escritores é: defina seu gol e tente chegar lá como Pelé chegaria, com poucos mas definitivos toques, sem nunca deixar que os meios desviem do fim. E se, no caminho para o gol, você fizer alguma coisa espetacular, esforce-se para dar a impressão de que foi apenas por obrigação.
Fonte: O Globo, 2 de outubro de 2002, p. 7

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domingo, 24 de agosto de 2008

Probleminha



Luci Afonso



— O seu texto está bom... - ele começou, olhando o relógio.

— Ufa! Ainda bem. O senhor não sabe como precisei criar coragem para vir aqui hoje. Lembrei que era dia de atendimento aos alunos e pensei: “Vou dar uma passadinha lá, não custa nada, ele não morde...” Quando fico nervosa, meu cérebro entra em hiperventilação. Quase desmaio no elevador...

— Desculpe-me, esqueci seu nome...
— Pode me chamar de Jô.
— Pois é, Rô...
— Jô.
— Pois é, Jô, como eu dizia, está bom, só tem um probleminha...
— Deve ser porque não escrevo faz muito tempo. É uma concordância, uma conjugação? Os verbos dão tanto trabalho!
— Trabalho quem vai me dar é você - pensou ele, com um falso meio sorriso.

Ele voltara à sala apenas para pegar a carteira. Tinha um encontro com uma loira maravilhosa no bar de um famoso hotel da cidade. Era uma turista americana, de passagem por Brasília, e com quem antecipava momentos inesquecíveis. Estava bem-vestido, perfumado e excitadíssimo.

Ia fechando a porta quando apareceu a aluna com olhar suplicante, ansiosa para mostrar-lhe o que escrevera sobre o tema proposto na semana anterior.

— Só um probleminha - ele continuou, levantando-se da poltrona: seu texto é esquizofrênico!
— Como? - ela se espantou.
— Esquizofrênico - ele repetiu, com prazer. - O primeiro parágrafo fala de um assunto; o segundo, de outro; e o terceiro chega a uma conclusão que nada tem a ver com os dois primeiros.
— Eu não percebi - disse Jô, desapontada. — É só esse o problema?
— Só - respondeu ele, de novo com o meio sorriso, e encaminhando-se para a porta.

— Como posso corrigi-lo? - perguntou ela, os olhos cravados no mestre, à espera de ensinamentos.
— Nunca mais escreva - ele pensou, conduzindo-a para fora da sala. Enquanto trancava a porta, porém, assumiu o tom didático e aconselhou: — Desenvolva só um tema de cada vez e chegue a uma conclusão, de preferência, lógica.
— Vou tentar - ela disse, humilde. - Depois trago o resultado. Obrigada, o senhor me ajudou muito.
— Foi um prazer. Boa noite, Rô.
— Jô...

Ele se afastou rapidamente em direção aos elevadores. Estava 20 minutos atrasado. Torceu para que a loira não se aborrecesse com a demora. Imaginou a chegada ao hotel, o vinho antes de subir para o quarto, as preliminares — ele até aprendera uns palavrões eróticos em inglês.
— Professor! - Jô vinha correndo atrás dele, uma folha voando na mão.
Ele apertou o passo e entrou no elevador.
— Desce! - gritou ela, fazendo com que o ascensorista a esperasse.

— Professor, esqueci este outro texto, sobre a morte do meu cachorro, o senhor poderia levar para casa? É muito importan... - Não conseguiu terminar a frase. Seu rosto cobriu-se de suor, a respiração se acelerou e ela caiu, desmaiada, nos braços que tanto desejavam a outra mulher.

Quando o elevador chegou ao térreo, a equipe do Departamento Médico já estava a postos.
— Quem está acompanhando a moça? - perguntou o enfermeiro. Ninguém se manifestou.
Recobrando os sentidos por alguns instantes, ela pediu:
— Professor, leve meu texto...

— O senhor conhece a moça? - indagou o enfermeiro ao homem elegante, que fazia menção de se afastar.
— Só de vista. - Quarenta minutos atrasado. Ainda havia esperança.
— Então, me acompanhe ao DEMED, por favor.
— Mas tenho um compromisso inadiável...
— A moça não pode ficar sozinha. Precisamos do senhor até que ela receba alta.

Ele passou algum tempo ao lado da paciente, enquanto aguardavam a família. Quando finalmente chegou ao hotel, a blonde já se recolhera e deixara aviso na portaria de que não queria ser incomodada.

No caminho para casa, esmurrou o volante e xingou os outros motoristas com os palavrões em inglês. No bolso do paletó, levava a estória sobre a morte do cachorro, que prometera ler.

Enquanto isso, Jô, refeita do mal-estar, começava a revisar o texto “esquizofrênico”, para ter o prazer de mostrá-lo ao professor na próxima aula.

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Mais uma de Helena ou a Pior Idade



Olívia Maia


Ausentei-me da cidade por alguns dias. Renovando a alma e a mente em andanças sem fim. Cheguei com vontade de pegar um cineminha. Sessão da tarde de domingo. Escolhi um filme bem leve — “O último Bandoneon”. Aquele ar gelado da sala não combinou muito bem com o calor amazônico que meu corpo, ainda, sentia. Terminado o filme, fui fazer um lanche. Shopping lembra sanduíches, saladas, sucos... Sentei-me à mesa quando de repente surge Helena, amiga que não via há algum tempo. Convidei-a para se sentar.

— Como estás? - perguntei.
— Estou bem... Não... Não muito... Estou chateada desde ontem. Bom te encontrar, assim, posso desabafar um pouco.

Desabafar! Poxa! Era a última coisa que eu queria ouvir no final de uma tarde de domingo. Depois de um filme cheio de musicalidade, dança e lição de perseverança. Pensei com meus botões: “Deve ser mais uma de suas brigas com o chefe”; coisa muito freqüente no cardápio das narrações lamuriosas de Helena. Enquanto olhava insistentemente para o garçom, verificando se minha salada estava pronta, indaguei:
— Mas que problema é esse que te chateia a ponto de te acompanhar numa tarde de domingo? Não me diga que brigou com o César novamente?
O chefe de Helena era sempre a bola da vez.

Havia esquecido que minha amiga é daquelas conversadoras que amarram um assunto no outro, dando a sensação de que vai perder o ar. Senti que fiz a pergunta errada. Abri a porta. A ladainha se apresentaria, decerto, recheada de detalhes infindos.

— Estou indigNAda! – falou, dando ênfase ao “na”. E continuou: —Estou começando a achar que, nessa era da informática, “futricar” a vida da gente tornou-se natural e legal. - E parou, reticente...
— Como assim? – Provoquei, já que senti que não tinha problemas à vista. No que ela continuou.
— Você imagina que depois que fiz 54 anos começou a chegar e-mail com Propagandas de excursões para pessoa da “Melhor Idade” ou da “Terceira Idade” ou coisa que o valha... Será que essas agências de turismo têm acesso aos Cartórios de Registro de Nascimento?
— Não sei... pode ser que sim... pode ser que não. Mais por que isso te incomoda tanto, a ponto de ficar indignada dessa maneira? - perguntei.
— É que há cinco anos faço terapia. E a questão que mais venho trabalhando é a aceitação da velhice com tranqüilidade e com naturalidade... Falou com ar de bem resolvida
Antes que pudesse comentar que com naturalidade é difícil, já que as idas aos médicos aumentam, a visão começa a “cansar”... Helena continuou.
— Esses folders cheios de eufemismo de Melhor Idade me tiram do sério. - continuou. — Sexta-feira recebi o resultado de uma densiometria óssea feita para averiguar uma dor infernal na coluna, que diagnosticava: “osteoporose densiométrica em L1-L2. Osteopenia densitométrica em L3-L4 e no Fêmur”.

Baixou a cabeça e suspirou profundamente. Ainda bem que minha salada chegou, pois assim pude quebrar um pouco o clima de tensão que se instalava, oferecendo-lhe um pouco da salada fresquinha e colorida. Porém, sem levantar a cabeça, nem mesmo para negar ou agradecer, ela esbravejou:
— Melhor idade é o “cacete”!

Olhei para o lado, verificando se alguém estava a observar o destempero de Helena.
— Meus ossos estão ficando podres, o que me leva a tomar meia hora de sol diariamente, como os bebês. Tive que reduzir as gorduras e as massas por conta do colesterol elevado. Tenho que fazer reposição hormonal para amenizar um calor que parece que estou queimando no fogo do inferno. Para “trepar” tenho que usar a porra de uma reposição hormonal local para evitar um ardor que se assemelha a pimenta malagueta. Pra abaixar tenho que ter cuidado. Pra levantar, a coluna dói!!!! E concluiu, cheia de autoridade:
— Quem chama isso de Melhor Idade não viajou nas asas da imaginação da infância. Não deu beijo no escurinho do cinema, ou atrás do muro, na adolescência. Não contestou, se aventurou, se realizou na fase adulta...

Enquanto Helena falava, pensei em sugerir que assistisse ao filme que eu acabara de ver. Pensei, ainda, em partilhar da minha emoção de ver uma dançarina de tango, do alto dos seus 60 ou 70 anos, sobrevoar os salões com uma leveza tal como a das borboletas de minha imaginação; de ver velhos de 70 e 80 anos dedilhando seus bandoneons com paixão e carinho e com um brilho nos olhos como os de uma criança que acaricia seu presente recebido em noite de natal; do companheirismo, da amizade, da alegria... Dizer-lhe, também, que entendo que todas as idades têm “seus piores e melhores”, mas que certamente, na metade da vida, começamos literalmente a “andar devagar, pois já tivemos pressa”, como disse o poeta, porém...

Helena levantou-se, pegou a bolsa que estava na cadeira ao lado, deu-me um beijo no rosto, e com ar de quem estava realmente na “Pior Idade”, saiu pisando de mansinho, se equilibrando num altíssimo tamanco.

Toc, toc, toc, toc, toc... a idade pedia passagem e se ia.
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Escrever



Clarice Lispector

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.

Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.

Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.

Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.

Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.


(Crônica do livro “A descoberta do mundo”, Ed. Rocco, 1999)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Quinta das Artes - 2º Sarau do TCU




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sábado, 16 de agosto de 2008

Sonho meu



Luci Afonso


Acordo do sono profundo impregnada de lembranças. No diário que guardo há anos na gaveta do criado-mudo, registro os valiosos momentos transcorridos no mundo sem fronteiras. Tenho medo de esquecê-los, pois é neles que sou feliz.

Na mesma gaveta está um antigo “Guia ilustrado dos sonhos e seus significados”, que agora consulto muito pouco, porque passei a entender claramente as mensagens que me envio quando adormeço.

Nos últimos dias, um sonho se repete: sou uma casa enorme em reconstrução num vasto terreno de gramado verde-claro. Tenho vários cômodos, amplos e bem iluminados. Ao mesmo tempo em que os reformo por dentro, estou fora de mim, observando as mudanças feitas toda noite‑dia.

Sem pressa, escolho a cor de cada aposento, a textura de cada parede, o mármore fresco do piso, a madeira nobre das janelas. Defino os cantos em que descansarei à sombra e aqueles onde me aquecerei ao sol.

Não estou sozinha nesse lugar. Meu filho corre na grama, enquanto minha mãe prepara as sementeiras do jardim. Os vizinhos são todos jovens e têm cabelos brancos. Os rostos parecem conhecidos. Ao nascer-pôr‑do-sol, vestimos roupas claras e formamos uma grande roda onde entoamos uma música antiga, que nos revigora numa paz inabalável.

É hora de acordar na realidade imediata. Quando dormir de novo, mergulharei na luz infinita para suavemente morrer um pouco mais.
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Piquenique de gente grande


Olívia Maia

Acordei cedo. Senti que fazia muito frio. O que não esperava era que ao abrir a janela encontrasse uma chuva fina e persistente. E o piquenique? Pensei. Como sonhei com um dia de sol. Em poder tirar os sapatos e andar descalça sentindo o estalar das folhas em meus pés. Minhas lembranças criaram asas e viajaram na imensidão dos tempos vividos.

Três crianças correndo pelo meio da casa em algazarra. Era a hora de preparar o piquenique. Saíamos com uma cesta de palha repleta de sanduíches, sucos e frutas. Parávamos embaixo de uma árvore frondosa e nos púnhamos a brincar. Lanchávamos. Deitávamo-nos a olhar para o céu a ver bichinhos formados pelas nuvens. Olha lá que ovelhinha bonita. E aquele patinho parece que está fazendo quá-quá — sonhar era preciso. Passear na Esplanada, ao entardecer dos domingos, e dar pipocas para os gansos. Ir ao parque. Aos canteiros floridos e perfumados. Se deslumbrar com a natureza. Mas sempre em lugares em que não gastassem dinheiro (já que era muito escasso para aquele casal). A noite chegava e exaustos e felizes agradeciam por tudo que vinham recebendo, principalmente aqueles três filhos maravilhosos.

Senti lágrimas pesadas de saudades escorrerem em meu rosto. Ao tempo em que me animei ante a possibilidade de reviver momentos de alegria. Saí da cama com vontade de apanhar a velha cesta de palha e a toalha xadrez. Pensei: que mico! Esse é um piquenique de gente grande. Pequei algumas frutas, sucos, salgadinhos, coloquei-os em uma sacola de uma loja de “grife” e saí achando aquilo muito sem graça. Na porta lembrei-me da pasta com os Contos. Voltei para buscá-los, quando senti um misto de alegria e excitação. Estava indo a um piquenique ouvir, ler, sorver, absorver — poesias, contos, crônicas, sensibilidade, beleza. Começara a fazer sentido, mesmo com chuva, a ida ao piquenique.

A chuva não cessava. Iam chegando, um, outro, outro e outro. A chuva não permitiu que eu tirasse os sapatos e fosse caminhar no chão de folhas secas.

O grupo formou um círculo em uma sala de janelas altas onde nada se via. Sentia-se, apenas o cheiro da mata molhada. Notei, ao meu lado, uma figura exótica: um misto de guerreiro africano, índio, cabelos longos e trançados, aparentando uns vinte anos. Um riso bonito e uma pergunta inesperada:

— Tu és psicóloga?

— Sim. Sou.

Respondi e saí do assunto com outra pergunta: E tu, com esse sotaque, és nortista?

— Sou nordestino de Recife.

Respondeu com uma voz forte e grave e certo orgulho nos olhos. E concluiu, sacudindo as tranças dos cabelos, com um tom reticente:

— Tu tens uma cara de psicóloga!

Pronto, pensei: revelei-me uma “coisa estranha”. Senti-me vista como se olhasse a partir de uma lente diferente das outras pessoas. Um pequeno incômodo se instalou no meu estado de espírito. Eu sempre me perturbo diante dessas situações.

Comecei a lembrar as freqüentes vezes em que me atordoei ante o ofício que escolhi. Algumas pessoas até acham que a gente lê pensamentos e que tem o poder de desvendar os segredos da alma humana. Umas se afastam, outras se aproximam, e também como uma forma de se afastar, perguntam: então você não acha que...?

Detesto achar alguma coisa... Mesmo quando sou eu e não a psicoterapeuta se manifestando deparo-me, às vezes, com situações inusitadas, tipo: por favor, não me venha com sua psicologia; você como psicóloga deveria ter entendido melhor o fulano; não deveria ter dito tal coisa; não poderia ter se comportado dessa ou daquela maneira. Duro e solitário ofício. Respirei cansada em rememorar tais situações.

Senti que a alegria inundava a sala. Inicialmente tomei um banho com essências femininas, com Adélia Prado e Cecília Meireles. Senti-me literalmente de alma lavada. A harmonia, a calma e a paz foram instaladas. O santuário estava preparado para as pessoas se colocarem, melhor dizendo, colocarem suas obras, suas produções, suas almas.

Alguns começaram timidamente e de repente, como crianças em dia de festa, estavam todos querendo dizer: olhem só como eu também sei fazer coisas bonitas, olhe como o meu balão sobe mais. E foi ficando cada vez melhor – salgadinhos, crônicas, panetone, conto, vinho, poesias, sorrisos, lágrimas, tudo se misturava, dando uma tonicidade única para o momento. O sombreado do dia nublado tornara-se azul.

O guerreiro Negro (como resolvi denominá-lo) abriu seu caderno e começou a declamar suas poesias. Elucubrações estilísticas começaram a se estabelecer. Eu não entendia nada nem do que ele escrevera, nem do que as pessoas diziam. Fiquei quieta sem pronunciar uma só palavra. Costumo fazer isso quando não quero sair do meu estado interno de perceber as coisas e o mundo. Deixei-me ser levada pelas sensações e sentimentos que aquelas poesias, aquela forma de falar, de gesticular, me provocavam. Apreciava apenas a expressão genuína de um Ser querer, e poder ser, ao seu modo, corajoso, ousado, contestador, fazendo da força da idade sua combustão para se colocar no mundo.

Nesse momento, percebi que o oficio que escolhi deixava marcas profundas. Estava ali a reconhecer a emoção, as palavras vibrantes, que eram expressas cheias de significado (mesmo que apenas para ele). Porém não me sentia uma “coisa estranha”, uma “lente ambulante”, pois estava desprovida de qualquer conhecimento ou julgamento. Minhas mãos estavam vazias para acolher toda e qualquer manifestação de um Ser.

O piquenique acabou em clima de encantamento. Saí vagarosamente com os pedaços dos diversos Seres, das diversas expressões. Sentindo uma sensação de leveza. Respirei fundo, sentindo, mais uma vez, o cheiro da mata. Disse baixinho para mim: que bom ser Olívia, simplesmente Olívia, com uma “casca” bem fininha me revestindo.
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Cartas a um jovem poeta (III)




Rainer Maria Rilke


De passagem por Worpswede, perto de Bremen, 16 de julho de 1903.

...bem sinto que nenhum homem pode responder às perguntas e aos sentimentos que têm vida própria no âmago de seu ser. Creio, contudo, que o senhor não deixará de encontrar uma solução, se se agarrar a coisas que se assemelham a si. Se se agarrar à natureza, ao que ela tem de simples, à miudeza que quase ninguém vê e que tão inesperadamente se pode tornar grande e incomensurável; se possuir este amor ao insignificante, então tudo se lhe há de tornar fácil, harmonioso, e por assim dizer, reconciliador.

O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar que lhe rogo ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração. Viva por enquanto as perguntas. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar, como uma maneira de ser particularmente feliz e pura. Não se deixe enganar pela superfície: nas profundidades tudo se torna lei.

Tudo isto que talvez um dia seja possível a muitos, o solitário pode prepará-lo desde já, e construí-lo com suas mãos, que erram menos. Por isso, caro senhor, ame a sua solidão. Diz que os que sente próximos estão longe. Isto mostra que começa a fazer-se espaço em redor de si. Se o próximo lhe parece longe, os seus longes alcançam as estrelas. A sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos.

Todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo.

Seu


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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

2º Desafio aos Escritores



O Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, da Câmara dos Deputados, tem vagas para 30 concorrentes que aceitem o desafio de produzir um texto por semana, sempre a partir de um tema proposto na semana anterior.

Todos os trabalhos serão, oportunamente, publicados em site próprio do concurso e talvez, em edição gráfica, os melhores contos. O site fará ampla divulgação dos trabalhos desses 30 autores.

O 1º Desafio aos Contistas, realizado em 2007, foi um enorme sucesso e revelou grandes talentos. Os textos se encontram no site do Núcleo:

O 2º Desafio aos Escritores começa na quinta-feira, dia 21 de agosto, às 10h. Para participar, envie seus dados ao seguinte endereço, sob o assunto “desafio aos escritores”: ecult.mesa@camara.gov.br

Mais informações:

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sábado, 9 de agosto de 2008

71º Sarau da Tribo das Artes



Terça-feira, 12 de agosto, 20h30
Botiquim Blues, Praça do DI, Taguatinga
Ingressos:: R$5,00

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T-Bom




Luci Afonso


O palco é um estrado coberto por um carpete cinza, que também compõe o cenário. No último minuto, alguém se lembra de pendurar o banner do patrocinador, uma megaempresa do petróleo. Mais ao fundo, um balcão de carnes, farofas e temperos. Ao lado, freezers com cervejinhas a 2 reais e, bem atrás, fogões rústicos onde se cozinham os caldos de frango e de carne seca com abóbora, vendidos a preços populares, sem pimenta.


Um grande toldo foi aberto até a lateral da rua, e debaixo dele as mesas e cadeiras de bar disputam espaço com carros, motos, bicicletas e cachorros. A loja à direita fechou no horário comercial; a da esquerda é uma farmácia movimentadíssima, como se a esta hora todos tivessem ficado doentes.


Chego às 20h, como pedia o convite. Bastou-me atravessar a rua, pois moro na quadra ao lado. Se todo deslocamento fosse assim tão fácil! Nada de dirigir, acelerar, frear, trocar marchas! Nada de estacionar! Nada de manobras!


Como dizia, chego cedo e encontro os primeiros convidados armados de crônicas e poemas. O público já é grande e muita gente ficou de pé. Os dois escritores são logo chamados e assumem o modesto tablado. À primeira palavra que recitam em prosa ou verso, porém, agiganta-se o palco, transforma-se o cenário. A confusão em volta passa a transcorrer em câmera lenta: todos, homens, meio homens, bichos e meio bichos se aquietam, respeitosos à arte que se encena naquele instante.


Seguem-se músicos, poetas, músicos, poetas. O tempo é pouco para esses talentos nascidos em frestas de paredes úmidas, como aquelas florzinhas amarelas que quase ninguém vê. Entre os artistas circulam catadores de latinha, crianças pedintes, bêbados e cachorros sujos. Cultura e miséria convivem em harmonia esta noite e ambas transcendem pequenos espaços.


Terminado o encontro, faço uma trouxinha de tudo o que vi e ouvi e retorno saciada para casa. Sempre que faltar esperança, basta dar alguns passos, atravessar a rua e me curar com poesia.
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"Não matarás" — que mandamento é esse?



Olívia Maia



Era domingo. Estávamos, eu e um casal de amigos, em Pirenópolis. Ainda sentia o delicioso sabor da pamonha. Gargalhávamos muito sobre os planos que eu acabara de traçar para um futuro muito próximo. O de alugar uma casa naquela cidade.

Durante o passeio pelas ruas simples e acolhedoras... Ia mostrando como ela deveria ser... Numa rua arborizada... Próxima a uma praça... Com portas e janelas azuis... Que tivesse “batentes” para que no final de tardes, eu pudesse sentar para prosear com as vizinhas. Tomando cafezinho... Comendo biscoitos. Onde pudesse, ainda, ler e ouvir música com as portas abertas, e sempre responder a um bom dia, boa tarde ou boa noite de um passante... Doce vida sossegada... Exclamava eu a cada casa que imaginava como o meu futuro lar.

Sentamos no saguão do hotel enquanto aguardávamos taças para saborear um bom vinho que havíamos comprado para celebrar a minha mais nova decisão.

A televisão estava ligada na TV Globo onde passava o Fantástico. De repente o apresentador com uma voz grave, e uma expressão para a qual estão bastante treinados, anunciou a morte de uma criança de 5 anos, em São Paulo, ocorrida no dia anterior — sábado, dia 29 de março. Não prestamos muita atenção; afinal, seria mais uma morte dentre tantas. E as versões começaram... Eram tantas... Tão confusas... Tão dramatizadas, tão traumatizantes que resolvemos desligar a televisão e continuar conversando.

Achei que acabara ali... “tá lá um corpo estendido no chão...” Mas no dia seguinte, qual não foi minha surpresa em verificar que todos os canais de TV que eu ligava estavam tratando do fato. E eu... Olhei também o corpo estendido... Olhei o pranto da mãe... Olhei a dor...olhei... Não sei mais o que olhei... Eu também interroguei. “Todos” estavam perguntando — quem fez isso?

E os dias foram passando. As notícias se avolumando... Agora havia suspeitos. O pai e a madrasta foram presos temporariamente. E lá estávamos participando em coro de mais um capítulo do grande show da vida: assassinos... Foram eles... Monstros... Foi ... Não foi.

Percebi, após uma semana, que mesmo tentando me isentar e não querendo ser contaminada pela comoção que se instalara, meu coração estava inquieto. Procurei ouvi-lo... A saudade da minha casinha em Pirenópolis se fez presente. O desejo de uma vida calma e simples longe de violências tomou todo o meu Ser. Aquietei-me. Queria ouvi-lo direito. Quando me agito não compreendo muito bem o que meu coração põe-se a dizer. Pensei por alguns segundos no que leva uma pessoa “normal” a cometer determinados atos. Fiquei com essa sensação. Com esse medo da loucura.

Sentindo que ia para de ouvir a voz do meu coração, fui até o micro. Escrever é uma das formas que encontrei de dar passagem às minhas emoções, sentimentos, percepções. Resolvi escrever não sobre o assunto já tão escrito... Reescrito...dito... Desdito... Maldito. Mas sobre “todos” que se envolveram. E eu nesse “todo” pensando sempre... O que leva...por que leva...onde leva... Não leva... Alguém a praticar determinados atos.

De repente... Bum... Um barulho surdo veio da minha varanda. Levantei apressada. Olhei para um lado, para o outro e nada. Quando percebi um pássaro no cantinho, abrindo e fechando o bico.

“Oh! Seu destrambelhado, não viu um vidro aí bem a sua frente?" Perguntei em voz alta e firme.

O pássaro apenas me olhou com o seu biquinho abrindo e fechando. Só então fui me acalmando, e percebendo que eu estava com muito medo de pegar aquele passarinho. Que ele não suportasse a trombada e morresse. Sempre tive horror da morte. E a dita cuja estava lá bem na espreita.

“Vou cuidar de você, mas da próxima vez ver se presta mais atenção”. Resmunguei. E antes de pegar uma bacia com água fria para tentar examinar os machucados, fui tomada de um susto.

“Destrambelhado! Atenção! com quem você pensa que está falando? Com um pássaro paspalho que aprendeu a voar ontem?” Retrucou. Seus olhos se tornaram brilhantes e seu bico parou de abrir e fechar.

Meio envergonhada com minha atitude, peguei aquele pequeno serzinho em minhas mãos, e antes que pudesse me desculpar pela tremenda falta de jeito, ouvi:

“Destrambelhados, malucos, adoidados são vocês humanos que saem colocando tudo no lugar errado, janelas, telas, vidro inclusive, para impedirem nosso vôo”. Abriu e fechou o biquinho. Virou o pescoço para o lado. Parou de mexer-se.

Fiquei ali petrificada com aquele pássaro inerte em minha mão. Se já não sabia cuidar de um pássaro agonizante, agora é que a situação se complicara. Como seria fazer um enterro de um passarinho? Onde jogaria aquela morte que eu tanto temera?

Coloquei o passarinho embaixo de uma árvore. A imagem de uma menina rouxinol ou uma beija-flor voando pra morte veio à minha mente.

Entrei, desliguei o micro. Não conseguia terminar o que começara a escrever. Fui para a cama e chorei. Meu medo inconsciente de me identificar com a loucura foi tomando forma... Vi-me caminhando nas ruas de paralelepípedos...comendo pamonhas... Conversando com as vizinhas... Deixando as portas e janelas abertas, sem telas, para que jamais nenhum passarinho pudesse trombar e morrer.
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Cartas a um jovem poeta (II)




Rainer Maria Rilke

“Viareggio perto de Pisa (Itália),


23 de abril de 1903.


...As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas. É sempre a si mesmo e a seu sentimento que deve dar razão contra toda explanação, comentário ou introdução dessa espécie. Mesmo que se engane, o desenvolvimento natural de sua vida interior há de conduzi-lo devagar, e com o tempo, a outra compreensão. Deixe a seus julgamentos sua própria e silenciosa evolução sem a perturbar; como qualquer progresso, ela deve vir do âmago do seu ser e não pode ser reprimida ou acelerada por coisa alguma.


Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isto é viver artisticamente na compreensão e na criação.


Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar... Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo...”



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sábado, 2 de agosto de 2008

Balizas e crônicas



Luci Afonso


Chegamos cedo ao local e procuramos vaga para estacionar. Encontramos uma em que caberia um caminhão, mas sou péssima em manobras. Felizmente, estou acompanhada de uma exímia motorista em diversos continentes, que se oferece para me orientar.
Minha falha se deve ao fato de que, no meu tempo de auto-escola, não se ensinava a baliza lateral, e ao longo dos anos fui me acostumando a procurar vagas em que caberiam, pelo menos, dois carros, e nas quais eu pudesse entrar de frente. Caso contrário, eu voltava depois.

A amiga me ensina, pacientemente, a fazer e a desfazer o volante, ao mesmo tempo me instruindo quanto ao momento certo de movimentar ou parar o carro. Sou boa aluna, e o resultado é perfeito: correto alinhamento ao meio-fio e igual distância entre os veículos da frente e de trás.

Subimos tranqüilamente a rampa até o edifício-sede. Observo que, bem em frente à entrada, há vagas enormes e vazias. Indago ao segurança se são permitidas a visitantes.
— Só para deficientes e idosos - responde ele.
Como sou quase ambos, em breve poderei parar ali.

O evento está curiosamente marcado para as 17h15. Entregamos nossos livros à moça responsável pelas vendas e nos sentamos no auditório para ensaiar os textos. O homenageado da noite é Castro Alves, e a música negra tem forte presença na programação. Escolho uma de minhas crônicas “bem líricas” — como um dia as definiu o professor —, enquanto minha amiga opta por “Atabaques” e desce ao palco para pedir a um dos músicos que acompanhe a leitura com seu instrumento.

Alguém tem a idéia de colocar quitutes na mesa à entrada do auditório. Só depois de retirada a comida é que participantes e convidados, de barriga cheia, voltam aos seus lugares.

Às 19h30min, surge a nossa hostess, com celular, programa e microfone na mão. Enquanto é feito o pronunciamento inicial, ela troca de roupa nos bastidores e faz as últimas ligações.

— Primeiro, quero avisar que nosso programa é totalmente flexível - ela esclarece. Antes de convidar o primeiro grupo de funk, ela faz uma pequena digressão para distinguir o genuíno “fank” do “funk” (pronunciado com “u”). Ninguém entende nada, mas todos se empolgam com a música.
— Agora, é um prazer chamar o poeta..., que vai ler um poema de sua autoria.
O convidado é pego de surpresa, pois seria o último no programa:
— Eu sou é contista. Não escrevo poemas. - E lê seu texto, contrariado. (Palmas.)

— Desculpem a confusão - diz a apresentadora.
— Bem, agora, a poetisa..., cujo livro “Versos da Vida” está esgotado.
A poetisa emenda:
— Meu livro “Versos da Vida” não está esgotado, porque eu escrevi foi “Vida em Versos”. - E recita seus poemas interativos, em que a platéia completa a última palavra de cada estrofe. Como sempre, faz muito sucesso.

Eu seria a próxima a me apresentar, mas tenho de aguardar dois grupos musicais, duas revelações da Casa e um número surpresa de uma cantora que precisa ir embora para cuidar da mãe inválida.

Quando finalmente é minha vez, estou frustrada com a demora.
— Nossa colega vai falar um pouco sobre o livro “Velhota, eu?”, uma produção independente, na verdade, dependente (riso).

Essa observação absolutamente incompreensível me confunde ainda mais. Explico à platéia que meus textos são de humor, mas que lidos por mim não ficam engraçados — introdução totalmente desnecessária; que minha maior intérprete está presente (refiro-me à poetisa interativa, que esconde o rosto com medo de ser chamada a ler “Velhota, eu?” pela centésima vez); e que por isso vou ler uma crônica poética.

Ao final do texto, emociono-me. Era de se esperar, pois ultimamente tenho crises de choro ao ver uma simples fatia de tomate ou ao ouvir as primeiras notas de uma música sertaneja. Mudança na medicação, explicou-me a médica. O problema é que essas crises duram em torno de 24 horas e necessitam de repouso absoluto para serem superadas — alguns Lexotans também ajudam.

A apresentadora percebe minha emoção e tenta, indiretamente, me consolar:
— Às vezes, as coisas estão pretas... (protesto da platéia 80% negra)... quer dizer, difíceis, mas amanhã é um novo dia. Vamos ouvir, agora, nossa outra cronista.

Controlo-me o tempo suficiente para usufruir os atabaques escritos e reais, que ressoam com ritmo e eloqüência. Depois, resolvo ir embora e minha amiga, solidária, me acompanha. Deixamos o auditório ao som do hit “Sarará criolo”.

Última surpresa da noite: o veículo estacionado à nossa frente foi substituído por uma caminhonete que praticamente engoliu o meu carro.
— Nunca sairemos daqui - penso, desesperada.
Ela adivinha meu pensamento:
— Não se preocupe, isso é muito comum nas ruas estreitas de Lisboa. Apesar de não parecer, há suficiente margem de manobra.

Tenho cega confiança em bons motoristas, mesmo que sejam mulheres. Esqueço o choro, afivelo o cinto e concentro-me de corpo e alma nas instruções precisas que partem do banco ao lado. Faço, desfaço, paro, vou à frente, vou atrás, e em poucos minutos estamos fora da vaga, sem nenhum arranhão em qualquer dos carros envolvidos.

Minha apresentação pode ter sido um fiasco, mas as manobras automobilísticas foram obras-primas. Agradeço efusivamente à amiga e lhe ofereço carona para o próximo evento.
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“...Nem Sansão, nem Dalila, apenas dúvidas, feridas”




Olívia Maia


Sebastian estava há tempo parado próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro acordava com o barulho de fogos em homenagem ao seu Santo Padroeiro. Era 20 de Janeiro.

— Esse Santo nunca me deu sossego. Resmungou. Santo feio e sofredor. Se ao menos fosse Jorge. Santo guerreiro que segurou a lança e matou o dragão. Mas Sebastião... Tenha Paciência!

Em passos seguros aproximou-se ainda mais da lagoa. A mão arrumava os cabelos bem tratados, lavados e perfumados. A água turva da lagoa não refletira sua imagem. O barulho dos fogos insistia em acordar a cidade e suas memórias.

— Tião é a puta que te pariu, ou a puta que me pariu. Seu semblante foi tomado por uma expressão de raiva profunda, ante a lembrança do pátio da escola. A algazarra das crianças gritando: Tião peidão, cara de Japão! Que direito tinha minha mãe de fazer esse pacto? Essa maldita promessa? Sebastião... Santo sofredor, feio e sem graça. Vai ver que quis imitar as passagens bíblicas “o anjo do Senhor apareceu aos pais para exortar sua mãe a que se consagrasse ao Senhor e que o filho fosse dedicado ao Senhor como nazireu pela vida inteira. O Espírito do Senhor entrou nele e agiu nele.” Espírito de santo nenhum entrou em mim. Sou Sebastian... Apenas Sebastian.

A brisa que vinha da Lagoa sacudiu seus cabelos. Um rapaz de porte atlético, mulato bonito, bronzeado, com pernas bem torneadas, de mais ou menos uns 25 anos, correndo, afastou-o das lembranças.


— Bonito assim deve ser muito bom de cama. Suspirou.

O rapaz sumiu na curva do caminho quando ele lembrou que antes das 10 horas teria que estar na escola para assinar a demissão.

— Adeus pó de giz, adeus sirene estridente, adeus mães chatas... Aula de anatomia. Manipulando aquele pênis enorme de borracha. Sentiu-se excitado. O barulho dos fogos intensificou-se. Explosão... Orgasmo... Bum...bum... hum... huuuuummm.

Se até o “prometido do Senhor” rebelou-se, pensou com certa irritação, quanto mais eu, prometido de um santo... “foi a Gaza e viu ali uma prostituta e coabitou com ela. Depois disto, aconteceu que se afeiçoou a uma mulher do vale de Soreque”.

— Fodam-se todos: os santos, os anjos e os arcanjos, resmungou com uma voz firme e rouca.

Às 14 horas deveria estar na agência de turismo para desmarcar o Cruzeiro agendado para as Ilhas Gregas, em julho. Pensou: Ah! Doces ondas. Corpos quentes parecendo banquete de carne cheirosa... muitos...vários...diversos... saborosamente gostosos. Sexo com tempero de maresia...

— Nostalgia! Exclamou... Não. Não é... é um gosto de quero mais...ou de não quero mais.

Olhou para a barriga. Comprimiu-a como num reflexo. Olhou para as mãos e percebeu pequenas sardas. Sujeira da idade. Aproximou-se da Lagoa como tentando ver seu rosto. Nada. Apenas leves movimentos dos cabelos.

— Bicha velha... Jamais! Veado que não corre não tem graça. Quem olhará para esse amontoado de músculos caídos? carne velha...40 anos. Nostalgia... não. Não é. É um gosto de ... não quero mais.

Enfiou a mão no bolso à procura de um papel. Sentiu que o dia estava passando muito rápido. Já eram 8 horas. Teria que registrar um tanto de coisas a serem feitas antes de a noite chegar. Já com o papel e a caneta na mão anotou — às 16 horas, visita ao psiquiatra. Soltou uma risada debochada.

— Falta uma caixa de Lexotan. Olhou para os lados conferindo se havia alguém.

Com a intensidade do passar das horas, seus pensamentos ficaram acelerados. Encostou-se em uma barra de ginástica aquecida pelo calor do sol, e prosseguiu:

— Aquele babaca não me tomará muito tempo... chegarei com a depressão aumentada. Não posso esquecer de fazer um pequeno treino antes de encontrar a figura... expressão... postura... tom de voz. Hoje não lhe darei tempo para falar de Freud. Falar do meu tipo (como diz ele) narcísico de ser: arrogante e com fantasias magníficas sobre mim mesmo. No último encontro veio com uma história de que meu problema, visto de uma perspectiva psicológica, estaria ligado à etapa do desenvolvimento no qual, enquanto criança, fiz do próprio eu o objeto principal de meu amor. Palavras jogadas ao vento... Estufou o peito e balançando os cabelos esbravejou:

— Dane-se Freud, Dane-se psicologia. Danem-se problemas. Problemas dever ter a mãe dele. Velha mal comida, que não deve ter conhecido suruba, ou que não deu um beijo na boca de uma mulher. Só deve ter feito ‘papai e mamãe’ pra parir um desse... Quero mais é ficar assentado em meu trono despreocupado de tudo mais na vida.

Uma voz mansa e sensual ecoou em seu ouvido.

— Bom dia, gostoso! Quanto tempo!? ... E aí? O que fazes? Digo, o que farás? Disse, num tom de insinuação.

Era Raffa, um freqüentador da academia de ginástica. O impacto da visão monumental daquele homem lhe tirou o fôlego. Não se ateve à voz, mas aquele corpo... Cheiro de demônio. Pensou em abrir um espaço na sua agenda. Não. Até a noite daria tempo? ... Quem sabe... Um pouco antes... Ou quem sabe durante. Baixou a cabeça enquanto Raffa afastava-se com um sorriso malicioso. A lembrança do psiquiatra voltou-lhe à mente, e falando para as águas da lagoa, continuou:

— Idiota. Será que não percebera que eu estava a fim de comê-lo e não de entender da minha vontade de matar meu pai para ficar com minha mãe? Foda-se Édipo.

— Será que minha mãe me amaldiçoou por não aceitar o Santo? A despeito de todo o meu sucesso, minha beleza, a maldição dela se abatera sobre mim? Dane-se o outro.

Sentiu que a agenda estava praticamente cumprida. Ir para casa? Andar mais um pouco? Não. Nada estava fazendo sentido, a não ser esperar a noite chegar. Esperar pelo momento... Quando pensou: quem sabe ir à Academia. Não. Isso lhe daria a sensação de quero mais. Relutou. Mas quase que mecanicamente se viu em um aparelho de ginástica.

A academia estava mais cheia que o normal. Notou que estava usando uma blusa larga para encobrir a barriga. Ao olhar para o lado viu Raffa vestido em uma camiseta regata que mostrava seus músculos avantajados. Sorriu-lhe. Um riso convidativo que foi compreendido rapidamente por Raffa como aceitação do convite. Novamente o pensamento varreu-lhe a mente e de súbito disse: — Basta!... Eu não quero mais!

Raffa, intrigado, perguntou-lhe: — Porque não pára?

Com um olhar duro e seco saiu. Somente na rua tomou consciência que malhara como se fosse a última... São Sebastião de certo dormira, já que os fiéis resolveram silenciar o foguetório. Parou em uma confeitaria, comprou uma torta de morango. Comprou, ainda, uma vela grande e grossa.

Chegou em casa e ao abrir a porta sentiu como se fosse a última... Resolveu tomar um banho antes da chegada de Raffa. A banheira foi se enchendo vagarosamente como se fosse a última... A torta de morango colocada sobre a mesa, com a vela grande e grossa ao lado aguçava suas fantasias. Saiu do banho. Preparou-se pra “dormir”. Um sono longo e eterno, apenas de cuecas. A não-chegada de Raffa lhe deixou um gosto de quero mais...Torta, morango, sexo, vela, sexo, morango, torta, vela, sexo... Ou de não quero mais.

Já tinha tomado a segunda caixa de Lexotan quando colocou uma música. O momento era propício... Tudo conspirava. Os sentidos... Primeiramente, o tato. Já não sentia o seu corpo sobre a cama. Na terceira caixa a visão ficou turva. Viu uma mulher de nome Morte com uma enorme tesoura na mão. Com golpes rápidos cortou seus cabelos. Sua força foi sendo retirada... Mais e mais. A música de Cazuza tomou conta do quarto:



Nem Sansão, nem Dalila
Apenas dúvidas, feridas
Você me corta, trai e atrai
Mas é a vida, querida
”.

Olívia Maia nasceu em Rio Branco (AC), onde passou sua infância entre quintais sem cercas, rios e igarapés. Formada em Sociologia (UNB) e Psicologia (CEUB). Tem especialização na Abordagem Jungiana e é pós-graduada em Recursos Humanos (USP). Escreve contos e crônicas. Seu estilo literário tem influências de suas formações acadêmicas e de suas raízes nortistas. Sente-se um Ser sempre em construção e encontra na escrita uma forma de se re-escrever e de se re-construir. Participa das Oficinas de Literatura (Contos e Crônicas) da Câmara dos Deputados.

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Cartas a um jovem poeta



Rainer Maria Rilke


(Entre 1903 e 1908, o poeta austríaco Rainer Maria Rilke dirigiu uma série de cartas ao jovem Franz Xaver Kappus, que lhe pedia conselhos literários. Transcreveremos alguns trechos dessas cartas.)

“Paris, 17 de fevereiro de 1903.

Prezadíssimo Senhor,

... (o senhor) pergunta se os seus versos são bons. Peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.

Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde, o que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.

Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons.

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério — o único existente.

Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou...

Com todo o devotamento e toda a simpatia,
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira