domingo, 27 de fevereiro de 2011

Em defesa dos adjetivos



Adam Zagajewski
Ditadores e generais costumam dispensar tudo o que não seja verbo e substantivo
Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo. A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil.

Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. Vejo uma pilha de melões na bancada de uma quitanda. Para um adversário dos adjetivos, não há dificuldade: Melões estão empilhados na bancada da quitanda. Todavia, um dos melões é pálido como a tez de Talleyrand quando discursou no Congresso de Viena; outro é verde, imaturo, cheio de arrogância juvenil; outro ainda tem faces encovadas e está perdido num silêncio profundo e fúnebre, como se não suportasse a saudade dos campos da Provença. Não há dois melões iguais. Uns são ovais, outros são bojudos. Duros ou macios. Têm cheiro do campo, do pôr do sol, ou estão secos, resignados, exauridos pela viagem, pela chuva, pelo contato das mãos de estranhos, pelos céus cinzentos de um subúrbio parisiense.
O adjetivo está para a língua assim como a cor para a pintura. O senhor do meu lado no metrô: uma lista inteira de adjetivos. Está fingindo que cochila, mas por entre as pálpebras semicerradas observa os colegas passageiros. De vez em quando, o sorrisinho arqueado nos seus lábios vira uma torção irônica. Não sei se o que há nele é desespero calmo, fadiga ou um paciente senso de humor que não se dobra à passagem do tempo.

O exército limita o contingente de adjetivos. Aos seus olhos descoloridos, apenas o adjetivo “mesmo” tem alguma graça. Os mesmos uniformes, os mesmos fuzis. Qualquer um que, voltando de exercícios militares e já à paisana, saia pela primeira vez para dar uma volta numa cidade de civis, há de se lembrar da inacreditável explosão de adjetivos, cores, matizes, formas e diferenças com que foi saudado por um cosmos repleto de diferentes individualidades.

Vida longa ao adjetivo! Pequeno ou grande, esquecido ou corrente. Precisamos de você, esbelto e maleável adjetivo, que repousa delicadamente sobre coisas e pessoas e cuida para que elas não percam o gosto revigorante da individualidade. Cidades e ruas sombrias se banham de um sol pálido e cruel. Nuvens cor de asa de pombo, nuvens negras, nuvens enormes e cheias de fúria, o que seria de vocês sem a retaguarda dos voláteis adjetivos?
A ética também não sobreviveria um dia sem adjetivos. Bom, mau, sagaz, generoso, vingativo, apaixonado, nobre — essas palavras cintilam como guilhotinas afiadas.
E também não existiriam as lembranças não fosse pelo adjetivo. A memória é feita de adjetivos. Uma rua comprida, um dia abrasador de agosto, o portão rangente que dá para um jardim e ali, em meio aos pés de groselha cobertos pelo pó do verão, os teus dedos despachados... (tudo bem, teus é pronome possessivo).
Revista Piauí nº 52, janeiro de 2011
(Texto recebido, por e-mail, do jornalista Marcelo Abreu.)
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Anita e a mulher dos sapatos vermelhos


Nilto Maciel
Conversava com minha pupila Anita Sabóia, na sala de minha casa, quando o carteiro gritou meu nome. Sempre faz isso, apesar de haver uma campainha acoplada ao muro. Apressei o passo (ele não anda, vive a correr, sacola repleta de cartas, embrulhos, cobranças), para não deixá-lo esgoelar-se. A caminho de Anita, rasgava o invólucro. Ao chegar ao pé dela, o livro de Carlos Herculano Lopes se mostrou em toda a sua beleza: A mulher dos sapatos vermelhos. Na capa, além das pernas, dos sapatos, do chão e do título, o selo “Geração Editorial”. Abanei as orelhas e fui direto à folha dos dados de catalogação: Crônicas brasileiras, 2010.
Você gosta de crônicas? Não muito. Prefere que gênero? Conto. São muito semelhantes. E me pus a dizer tolices: Hoje o conto curto e a crônica são como irmãos gêmeos. Ela sorriu e tomou a palavra: Já namorei um gêmeo, que mandava o outro me testar. Conseguia enganá-la? Muitas vezes. Retomei a posição de falante: Existe até um híbrido de conto curto e crônica, ora chamado de conto, ora de crônica. Vejamos como é este nosso Herculano lá das Minas Gerais. E li, em voz alta, a primeira peça: “Um drinque na noite”. Gostou? Parece-me um conto engraçado. Percebeu a ausência de nome do protagonista, o homem que saiu de casa só e foi a um bar? No entanto, a coprotagonista tem nome: Cris. Em poucas palavras, o narrador descreve o personagem: solidão, vida de negócios, falta de tempo para se divertir, separado havia quase três anos, busca de novo amor. E é só isso a história.
Embora tivesse interesse em ler logo o livro todo, a minha condição de escritor e macho me fez deixar Herculano de lado e me voltar para aquela criaturinha encantatória, olhos claros, cabelos bem cuidados, lábios carnudos, gengivas vermelhas (adoro gengivas vermelhas, que me lembram carne crua ainda ensanguentada), pernas grossas, mãos aveludadas. Uma tentação dos diabos! E me deixei a falar desordenadamente: Há algum tempo, no Brasil, tem vingado um tipo de monocultura: a história engraçadinha. Não sei se vem dos tempos de nossos grandes cronistas. E citei alguns nomes, para demonstrar erudição: Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz. Ela se mostrou interessada no assunto. Quem são eles? Foram jornalistas que escreviam todo dia ou semanalmente para jornais e revistas. Depois vieram Luiz Fernando Veríssimo, Ana Miranda e muitos outros.
Como se não estivesse atraída pela História da Crônica, a pequena e esperta Anita pediu para ler mais uma crônica de Herculano. E leu “Até quando?” Confesso meu segundo pecado da tarde: mais ouvi a voz dela que o verbo do cronista. Parecia-me ouvir o piar de passarinha em voo altissonante, para além dos horizontes de minha insensatez. Ou em busca de ninho onde pudesse pousar suas plumas e cantar o prazer. Nesta o protagonista tem nome, embora se inicie assim: “O homem nunca fora de acreditar em amor à primeira vista”. Mais adiante se revela: primeiro Rogério, depois Antônio Rogério. Gostou do tema? Sim, o mesmo tema da solidão do homem urbano e a busca de uma companheira. Como os passarinhos? Ela me contemplou com olhos de incredulidade. Aproveitei o instante da plenitude de sedução e disparei mais umas frases a respeito do gênero crônica.
Como na cultura do arroz, do feijão, do milho e outras, há diversos tipos de conto e crônica. Há, por exemplo, a chamada crônica de umbigo. Muito comum em nossos escritores. Carlos Herculano não está neste rol. Como não estão Rachel e Ana Miranda. A pequena me observou com curiosidade: O que vem a ser isso? A doença se chama umbiguismo, praga que assola a lavoura nacional há muito tempo. Entretanto, o cultivo do umbigo tem rendido bons frutos, safras excelentes, tanto para consumo interno como para exportação. O pior desse fruto é o sabor ora amargo, ora azedo, muito usado para temperar o nosso baião-de-dois nordestino, a feijoada carioca, o arroz do centro-oeste acompanhado de feijão tropeiro, o churrasco do Sul, alguns pratos dos paulistas.
Anita pareceu se aborrecer com minhas disquisições e se dispôs a ler outra crônica. Pode ser “A mulher e o passarinho”. Não, deixemos esta para o anoitecer. Ela riu (não sei se entendeu minha insinuação) e partiu para outra página. E leu “Como o diabo gosta”. Concluída a leitura, voltou ao início da composição: “desiludida com a vida”. Nesta a protagonista é mulher. E se chama Débora, vive só e tem 40 anos. Parece conto? Sim, parece conto.
Retomei minha condição de mestre e dei mais uma aula: Essas crônicas a que me referi podem ser gostosas, bem elaboradas e conter literariedade, como as de Rachel. Há, porém, umas bem amargas ao paladar humano, ou bem azedas, a lembrar limão. Falta-lhes o trato da mão do agricultor, isto é, do cronista. Ou o uso excessivo de agrotóxico. Em alguns casos, a culpa pode vir da chuva, que alguns atribuem a São Pedro.
Anita Sabóia se mostrou insatisfeita com minha prédica de pedante e quis ler a peça que dá título à coleção. Antes, perguntou se eu conhecia Herculano. Sim, desde 1987, quando publicou o romance A dança dos cabelos. Deve ser bom escritor. Quer levar o livro para ler em casa? (Vocês devem imaginar as minhas intenções ou o meu plano diabólico para fazer com que ela voltasse.) Quantos livros ele publicou? Uns cem ou mais. (Eu queria falar de idade avançada, para que ela não se interessasse por Herculano.) Então ele deve ser bem velho, não é? Sim, muito velho. Ela riu: Nasceu em 1956. Não é tão velho assim. Muito mais novo do que o senhor. Tive ímpetos de lhe tomar o livro das mãos.
Fortaleza, 15 de fevereiro de 2011.

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Noiva


Luci Afonso

Eu a avistei assim que cruzou o portão de madeira. O vestido comprido a fazia levitar. Era alta e esguia como um pé de eucalipto, e os longos cachos morenos estavam a ponto de explodir como a inflorescência vermelha do flamboiã.
— A casa será ali — disse ela, apontando para o canto oposto ao qual eu me encontrava.
Escolheu um pequeno seixo e o enterrou no futuro local da construção.
— Está lançada a pedra fundamental — ela proclamou, sorrindo. (Foi impressão, ou nessa hora o sol brilhou mais forte?)
Tirou as sandálias e atravessou o riacho, molhando os pés e a barra do vestido na água fresca. Depois, veio até a mata e abençoou cada árvore, tal qual madrinha dadivosa. Chegou perto de mim.
— Que espécie é essa? — perguntou.
— Não sei — respondeu o homem que a acompanhava. — Está quase morta, nem flores produz mais. Podemos cortá-la, se a senhora quiser.
Ela acariciou meu corpo ressequido e meus braços suplicantes.
— Não, eu quero revivê-la — e me enlaçou com carinho. (Foi ilusão, ou nesse momento a seiva me percorreu com mais vigor?)
 Minhas raízes tremeram de medo e prazer. O homem tinha razão: eu havia desistido de florir. Gerava alguns fetos pálidos uma única época do ano, que às vezes desfaleciam em horas, sem ter recebido sequer um olhar.
Nos meses seguintes, sempre que visitava a obra, Ísis vinha até mim, recostava-se em meu tronco e entoava numa língua extinta a canção do renascimento, que aprendera em outras vidas e que espalhava pelo mundo desde o começo dos séculos. Eu protegia sua pele macia com a pequena sombra das folhas que começavam a brotar, enquanto se restaurava em mim o desejo de florescer.
Veio a seca, cantaram as cigarras, caíram as chuvas. Quando a casa ficou pronta, senti que havia chegado o instante tão ansiado. Nesse dia, ela vestiu-se de branco.  Aproximou-se devagar, abraçou-me e pediu:
— Quer casar comigo?
Reunindo a seiva guardada durante anos, rebentei em botões de seda que desabrochavam sem medo, tecendo um véu reluzente para minha noiva.
— Quero — respondi em flores.

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Tio Céu


Luci Afonso 

— Mãe, é Deus no telefone! — grita meu filho, assustado e curioso.
— Alô! Aqui é Deus! Quem está falando? — pergunta a voz brincalhona, que reconheço de imediato.
— Sou eu, tio!
— Eu quem? — ele insiste, como se eu ainda fosse criança.
— Eu, uai! — respondo, imitando o forte sotaque perdido em terras candangas.
— Vou apostar o número do seu telefone na Megassena da virada.
— Por quê?
— Uai, liguei mil e duzentas e quarenta e uma vezes enquanto estive em Brasília, e dava sempre ocupado ou desligado. Então, como se diz, larguei de lado — ele gosta de exagerar, adora a expressão “como se diz” e tem a mania de inventar números quebrados.
— Desculpe, é que às vezes desligo mesmo.
— Pra quê, Sá? Telefone é pra ficar ligado!
Tento explicar minha rotina: durante a sesta diária, se estou sozinha, desconecto o aparelho fixo para não ter de me levantar e ir até a sala; o celular funciona normalmente. Quando meu filho está em casa, ele atende o fixo, com instruções para me acordar somente em casos de extrema urgência; o celular fica na secretária eletrônica. Estamos treinando o gato para telefonista, mas, por enquanto, ele só aprendeu a discar o 193. Nos fins de semana...
— Que trem complicado, Sô! Melhor, como se diz, mandar telegrama.
— Tem razão, tio — concordo, quase certa de que não existe mais esse antigo recurso usado para transmitir más notícias: “FULANO MORREU PT ENTERRO AMANHÃ PT” ou “CASA PEGOU FOGO VG VENHA RÁPIDO PT”.
Puxo outro assunto:
— O senhor tem escrito?
— Aqui e ali, umas coisinhas... — Especialista em acrósticos, ele se inspira em familiares e amigos para fazer poemas que geralmente trazem uma mensagem de cunho espiritual. Todo ano é premiado em concursos de talentos da maturidade. Também costuma redigir cartas a alguém que esteja em dificuldades (tenho uma que recebi há vinte anos e que ainda me serve de alento). Quem já o viu escrevendo jura que é psicografia: os imensos olhos azuis quase se fecham, enquanto a mão humilde rabisca o papel.
— Vamos publicar? — Faz tempo venho sugerindo uma edição dos manuscritos, que ele guarda com zelo.
— Me deixa passar a limpo — ele novamente desconversa.
Na família grande, mas desunida, meu tio é o único que faz questão de ligar para os parentes em datas especiais ou situações críticas. Quando atravessei momentos de desamparo, foi a voz caridosa que me socorreu. Em ocasiões tristes, como o Natal, é a lembrança generosa que me consola. Dele ouvi as primeiras palavras gentis sobre meu pai:
— Cicinho era muito alegre. Bom cunhado, bom pai — e passou a narrar estórias de como se divertiam juntos.
Hoje meu tio tem muitos telefonemas pela frente.
— Como se diz, estou ligando para desejar feliz Natal.
— Para o senhor também, para a Luiza, o Daniel...
— Eles foram ontem para São Paulo, só voltam dia 2. Vão ficar lá dez dias, quatro horas e trinta minutos. Por falar nisso, preciso desligar: já estamos falando há cinco minutos, quinze segundos e doze milésimos.
— Mas o senhor vai passar o Natal sozinho?
— Sozinho, não. Com Deus. Tchau-tchau.
Sempre desconfiei de onde vinha a voz do tio Célio.
Volto ao meu cochilo: Deus está em boa companhia.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira