sábado, 25 de setembro de 2010

Exposição de Motivos




Luci Afonso


Sr. Diretor,

Venho respeitosamente solicitar a transferência dos servidores relacionados em anexo, pelos motivos que exponho a seguir.

Esclareço que a principal razão deste pedido é a contínua insubordinação da referida equipe às determinações desta gerência, bem como o inaceitável descumprimento do horário por nós estabelecido.

Destaco, entre outros, os procedimentos que considero inadmissíveis:

- a equipe costuma trabalhar a portas fechadas, sempre às gargalhadas — suspeita-se do uso de alguma substância ilícita;

- os servidores foram surpreendidos fazendo brincadeiras absurdas, como a alegada “dança das cadeiras”, supostamente destinada ao relaxamento e à descontração;

- ditos servidores perdem muito tempo em atividades inúteis, como soltar bolhas de sabão, argumentando que tal exercício favoreceria o espírito criativo — não apenas soltaram as bolhas, mas pularam, dançaram, fotografaram e escreveram sobre o assunto;

- são adeptos da moda hippie, chegando ao cúmulo de tirar os sapatos para trabalhar — mais grave ainda, um ou outro traje sensual feminino chegou a suscitar quebra de decoro;

- têm o estranho hábito de usar roupa da mesma cor em determinados dias e de ostentar acessórios esdrúxulos, como chapéus e óculos coloridos;

- comem muito e consomem cafeína em excesso durante o expediente;

- deixam a sala vazia das 12 às 14 horas, devido ao péssimo hábito de sair para almoçar juntos;

- tratam com excessiva consideração os funcionários mais humildes, dando a estes a falsa impressão de serem tão importantes quanto os demais servidores (chegaram ao ponto de publicar no boletim um cordel do encarregado da limpeza!);

- em vez de atender estritamente às demandas institucionais, produzem textos eróticos, escatológicos ou que afrontam a moral e os bons costumes da sociedade cristã;

- têm a irritante mania de ter ideias.

Em suma, esta gerência avalia que os supracitados indivíduos criativos, autênticos e independentes não contribuem para a implementação das diretrizes acordadas no programa de gestão estratégica da instituição. Sendo assim, em consonância com as habilidades de relacionamento adquiridas no exercício desta função gerencial, rogo pela imediata remoção dos referidos elementos para bem longe da minha visão sistêmica.

Nestes termos, peço deferimento.
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O livro de Olivia




Mario Pontes


Neste livro de estreia, Em rio que menino nada raia não ferra, Olivia Maria Maia reconstitui, com notável força poética, paisagens e figuras humanas do início de sua vida em meio às terras, florestas, águas, dias e noites do Acre. Por vários motivos, a ficção de Olivia atrai o interesse do leitor. Primeiro, pelo modo firme como suas narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior. Finalmente, porque ela capta os movimentos da existência no âmbito do próprio ato de viver, levando suas criaturas a entrar e sair vivas das histórias, e não apenas a circular sem propósito no interior de cada página.



O cearense Mario Pontes é jornalista e escritor. Publicou diversos livros de ficção e ensaios. Traduziu 25 livros, entre os quais “O saber grego”.

(O livro de Olivia também está disponível na Livraria Hildebrando, na UnB, fone 3307-1333.)

(Veja fotos do lançamento no fotolog à direita.)
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domingo, 19 de setembro de 2010

Escrevo porque...




Gabriel Marinho

Escrevo para exorcizar fantasmas. São muitos e alguns se esquivam. Escrevo para espantar e trazer meus sentimentos à tona, sendo louco e, ao mesmo tempo, curando a minha loucura. Escrevo por destinação, vício, doença, patologia. Escrevo para justificar uma vida que eu não gostaria que fosse minha.

Imagino e idealizo sempre. Todos os defeitos são louváveis perto dos meus. Cada vida sofrida e amaldiçoada é a dádiva que anseio. Toda família desajustada e cada má influência são o âmago de um lar que jamais tive.

Dos meus mundos, apenas quem surge na minha imaginação participa. Cada derrocada, irregularidade, queda, quebra, choro e dor são perfeitamente dinamizados para me causar admiração e inveja, atingindo a beleza que os meus problemas jamais revelam.

Escrever é uma dádiva e uma maldição. Às vezes, mais um do que outro.

Muito suor e sangue nos dedos. Uma centrífuga acende na cabeça. Está bom? Está horrível? Nunca estará como eu pretendo.

O escritor é um guerreiro indômito nos dias de hoje. Há quem se cansa dessa batalha. No meu caso, persisto com os ossos quebrados e o orgulho intacto.

Em época e país errados, a dádiva e a maldição abrem chagas. Que arderão até que os que maldisseram minha escolha se calem e vejam. Relembrando Luci Afonso:

Um ser humano venceu. O ser humano venceu”.

Espero...

Gabriel Marinho é autor dos romances O mundo depois do fim (2009) e Breve Sonho de Esperança (2010), ambos aprovados pelo FAC/DF.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira