Boneca Melindrosa



O telefone tocou cedo no sábado de carnaval.

— Adivinhe em quanto está o meu PSA? - perguntou Boneca, entusiasmado.
— Quanto? - quis saber Isolda.
— 1,8! E a glicose?
...
— 100! E o HDL?
...
— 50!
— Parabéns! Os meus...
Bertoni e Nilson — Boneca e Isolda, na intimidade — conheciam-se há 40 anos, desde a transferência para Brasília. A amizade instantânea se consolidara com o tempo, apesar das diferenças de temperamento entre o boêmio inveterado e o camisolão. Quando jovens, trocavam diariamente confidências eróticas. Agora, porém, ambos apresentavam problemas de saúde e compartilhavam por telefone os resultados dos freqüentes exames de laboratório.
Boneca desligou antes que Isolda entrasse em detalhes infindáveis e preparou-se para sair. Acendeu lentamente o primeiro cigarro do dia e aplicou a insulina que se esquecera de usar no dia anterior. Pediu ao caseiro que preparasse o carro e, amparado pela esposa, entrou devagar no veículo adaptado para deficientes.
Sobrevivera a dois acidentes graves. No primeiro, embriagado, bateu a Kombi de frente com um caminhão e quase morreu. No segundo, ficou meses imobilizado e precisou implantar parafusos nas pernas que retardavam seus movimentos, mas não o impediam de visitar todo dia o Bar do Pavão, onde tinha mesa cativa e foto pendurada na parede principal, por ocasião da outorga do título de Cidadão Honorário de Brasília pela Assembléia Legislativa.
Os amigos o aguardavam para acertar os últimos detalhes da saída das Melindrosas de Sobradinho, bloco que ajudara a fundar. Hoje tomaria uma cerveja extra para comemorar os índices positivos.
Deixou instruções ao caseiro de que sob hipótese alguma apanhasse as jabuticabas que Isolda vinha buscar. Este é que deveria apanhá-las, para ter o prazer de subir na árvore e saborear a fruta no pé. Sempre fazia essa recomendação quando era época de jabuticaba, manga, jambo ou goiaba, que o amigo levava aos baldes para não precisar comprar. Também lhe fornecia o almoço de sábado e um queijo por semana, que ele carregava intacto depois de se fartar do que era servido à mesa.
Isolda passou pela chácara ao meio-dia, como de costume. Almoçou, espichou-se na rede e depois da sesta apanhou as jabuticabas que pôde carregar. Agradeceu pelo queijo e deixou recado ao amigo para que ligasse quando possível.
O telefone voltou a tocar cedo no domingo.
A esposa de Boneca, apavorada, dizia que ele estava nas últimas. Passara a noite bebendo e, de manhã, a aplicação da insulina baixara a pressão e acelerara o batimento cardíaco. Isolda chamou imediatamente o SAMU, que era gratuito, e correu para acudir o amigo. Chegou bem antes da ambulância e constatou que ele estava mesmo muito mal.
Diagnosticado o coma alcoólico, Boneca foi colocado à força na maca. Tinha pavor de hospital e sempre arrumava uma desculpa para adiar a visita ao médico:
— Hoje não estou me sentindo muito bem. Deixa pra outro dia.
Isolda seguiu na ambulância com o amigo, que não era de se preocupar à toa, mas que hoje tinha um mau pressentimento.
— A turma do Pavão... As Melindrosas... Meus filhos... quero ver todos... A Carminha, você avisa pra mim? A Bia... Eu queria tanto que tivesse sido diferente! - Lágrimas escorriam pelo rosto gordo e pálido.
— Pode deixar, aviso todas - prometeu Isolda, sem controlar a emoção. Passou as mãos pelos cabelos ralos do amigo e pensou como seria difícil viver sem ele. Não pelo almoço, pelas frutas ou pelo queijo, mas pela figura incomparável do antigo companheiro.
Chegando ao hospital, continuou ao seu lado enquanto fazia os exames de emergência. O médico comunicou à esposa a necessidade de internação imediata e recomendou também que avisasse a família, pois o caso era grave.
Durante a madrugada, amigos e parentes se sucederam na despedida. A turma do bar chegou por volta de meia-noite e quis puxar um samba em homenagem ao doente, mas foi impedida pelo segurança. Isolda ficou o quanto pôde, e ao amanhecer foi em casa tomar banho e descansar um pouco. Antes, olhou Boneca, agora inconsciente, pela última vez. Comovido, beijou a testa do velho amigo, enquanto os momentos passados juntos desfilavam diante de seus olhos úmidos.
— Daqui a pouco eu volto - disse à quase-viúva, apertando-lhe as mãos.
Não voltou. Depois do banho morno, deitou-se e acabou pegando no sono pesado. Sonhou que corria com Boneca num campo florido atrás de borboletas gigantes. Ia pegar uma quando o telefone o acordou.
Boneca tivera uma melhora súbita, despedira-se das enfermeiras gostosas e, no caminho para a chácara, pedira à esposa que o deixasse no Bar do Pavão. Ligara para avisar o amigo que estava tudo bem:
— Adivinha onde estou? - A voz era quase inaudível em meio ao grito de carnaval das Melindrosas de Sobradinho.



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