sábado, 17 de setembro de 2011

Mão de sopa




Luci Afonso

Além de estar temporariamente surda e afônica devido à forte gripe, ela já não enxergava bem. Por isso, escrevi em letras bem grandes: QUER SOPA? Seus olhos brilharam e o polegar levantou-se, com entusiasmo. Minha sopa era inigualável. As tias de Minas, grandes cozinheiras de forno e fogão, diziam que eu havia sido abençoada com mãos de sopa — minha única habilidade culinária.
FRANGO OU COSTELA? Ela simulou um movimento curto de asas, indicando a primeira opção. Depois, juntou as mãos no formato de um pão e o cortou com uma faca imaginária, lembrando que ela não dispensava o acompanhamento.
PIMENTA? O polegar e o indicador se aproximaram, indicando “só um pouquinho”.
Ela fechou os olhos. Precisávamos nos comunicar por escrito porque ela se recuperava da infecção de ouvido que causara a perfuração do tímpano. Antes, ela ainda escutava um pouco se gritássemos. Porém, recusava o aparelho com medo de que caísse dentro da orelha.
Era avessa a médicos, mas há cerca de uma semana, chorando de dor, me pedira que a levasse ao hospital. Segurou minha mão enquanto tomava duas injeções, uma na veia, outra no bumbum. A contragosto, aceitou ficar no meu apartamento, que era mais próximo. Gostava mesmo era da chácara, onde mexia com a terra o dia inteiro, só parando para almoçar e assistir à Sky de noite.
QUER VER TELEVISÃO? Aceno negativo.
ESTÁ COM FRIO? Aceno afirmativo, enquanto se agasalhava debaixo do edredom azul que eu lhe trouxera. Encolhida como um animalzinho, logo adormeceu.
— Ela vai ficar no meu quarto? — perguntou o neto, contrariado.
— Sim.
— Mas e o computador, vou ter que jogar no escuro?
— É por poucos dias.
Shit!
Juntei o macarrão aos legumes, feijão e frango do almoço e acrescentei o tempero. Logo fui cutucada pela figura desgrenhada e impaciente: ESTÁ PRONTA? Respondi que não e, encostando as mãos em concha no rosto, mandei que ela se deitasse.
Em alguns minutos, o cheiro bom invadia o apartamento e impregnava as casas vizinhas.
 — Pode chamar a vovó! — gritei em direção ao quarto.
— Ela não está dormindo, está sentada, com o olho fechado.
— Então, podem vir.
Sentamo-nos à mesa da cozinha. Um, dois, três pratos cada, e fomos para a varanda fazer a digestão. O gato aninhou-se no colo do meu filho. Ficamos os quatro em silêncio.
ESTÁ COM SONO? Amassei o comprimido que ela não conseguia engolir, dissolvi num pouco dágua e dei-lhe uma balinha para tirar o gosto ruim. Depois de pingar as gotinhas no seu ouvido, aconcheguei-a sob o edredom e apontei o dedo para cima: DURMA COM DEUS.
Fiz carinho no menino e no gato acomodados no sofá, verifiquei as portas e diminuí as luzes. Dormi em paz na casa silenciosa, ainda cheirando a sopa e a infância.
                                                          

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Canto das Letras




Realização: Espaço Cultural Zumbi dos Palmares
Produção: Isolda Marinho

(Leia textos de Emanuel Mazza neste blog, no respectivo marcador à direita.)
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Constelação de um céu nublado



O jovem escritor brasiliense Gabriel Marinho, que sonha viver da sua arte como cineasta e escritor, criou um blog para divulgar seu quinto romance, Constelação de um céu nublado.


Sinopse

  Como qualquer intercambista, André imagina o mundo de experiências e aprendizados que todos repetem e vendem. Recém-formado em cinema, ele ganha uma bolsa na renomada escola cinematográfica de Londres, cidade onde inúmeras culturas e diversidades se encontram. Mas as coisas não saem do jeito que ele imagina logo no primeiro dia.
   Ao conhecer duas mulheres antagônicas, ele percebe que diferenças e variedades não se resumem ao lugar de onde veio. Enrica, sua colega no curso, chama a atenção por uma beleza que lhe é extremamente familiar e o motiva a investir numa conquista a qualquer preço. Por outro lado, temos Lilian, brasileira com dupla cidadania e filha "postiça" da dona da casa onde ele se estabeleceu, que lhe instiga por um comportamento pouco usual. Enquanto Enrica investe numa vida devassa, regada à agitadíssima noite da capital britânica, seus cantos e pessoas escusas, Lilian se esforça para esconder suas fraquezas e defeitos, acovardando-se toda vez que é provocada.
  Das duas, André extrai histórias e pontos de vista que divergem do senso comum; percebe-se errado diante de milhares de julgamentos nos quais foi educado a acreditar e, finalmente, conhece a fundo um universo que só tinha experimentado a distância.

(Leia sobre Gabriel Marinho neste blog, no respectivo marcador à direita.)

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Cores do Cerrado ao vivo



          Para comemorar o Dia do Cerrado, 11 de setembro, o artista plástico André Cerino abre exposição na Galeria do Templo da Boa Vontade e faz performance artística, criando quadros de sua coleção Cores do Cerrado.
          Cerino alcançou sucesso ao divulgar pelo Facebook, Twitter e Orkut seus trabalhos performáticos de pintura ao vivo. Os mais de 10 mil internautas que acessaram os vídeos puderam conferir o momento de criação de oito telas. Agora os brasilienses têm a chance de presenciar novas performances artísticas na exposição que se inaugura no dia 10 de setembro na Galeria do Templo da Boa Vontade, 915 Sul.
          A mostra contempla cerca de 60 telas em acrílico e será acrescida dos quadros que Cerino vai produzir ao longo do tempo que durar a exposição. O público poderá ver Cerino pintando uma nova tela neste sábado, 17 de setembro, às 19h30, na Galeria. O evento terá a participação de Maria Amélia Elói ao piano. A criação dos trabalhos também será divulgada pela Internet. 
           A exposição Cores do Cerrado será levada a outras capitais brasileiras em 2012.

Mais informações: (61) 3344-0330
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira