quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mãe Mar


 Luci Afonso

Andamos lado a lado na praia vazia, catando as raras, minúsculas conchas trazidas pelo mar. Hoje faço cinquenta anos. Ela tem setenta e ainda cuida de mim:

— Movimenta o braço! Pisa na água! Cadê a bolinha?

Ela insistiu muito para que eu viesse nesta viagem. Providenciou reservas, passagens, estada. Andou de avião pela primeira vez, para que pudéssemos ficar vinte dias em Guarapari, conhecida pelas propriedades medicinais das areias monazíticas. O atual nome da cidade, que significa “armadilha de pássaro”, e o antigo, “garça manca”, são adequados à minha situação.

— Você precisa se mexer, sair do lugar! — ela incentiva.

Estas férias são minha última esperança de retomar a vida normal. Após o diagnóstico, sinto muito desânimo e saio pouco. Não dirijo mais, só ando de táxi ou carona. Não me adaptei aos remédios, não comecei a fisioterapia, não estou fazendo atividade física, que supostamente me traria bem-estar. Não, não, não. Continuo me perguntando: por que eu?

— Cansou? Senta aí na água e enfia a mão na areia. Vou buscar uma água de coco.
           
Os turistas começam a chegar, entre eles, minha irmã mais nova, seus filhos e o meu, os três adolescentes. Trazem barracas, cadeiras, caixas de isopor. Os ambulantes já circulam, oferecendo produtos inimagináveis.

— Olha que linda a tatuagem! Você vai no caiaque ou no banana boat primeiro? Espera que eu vou tirar sua foto.

Vejo um casal de velhinhos se preparando para o banana e me arrisco a acompanhá-los. (Ouço a mulher dizer ao companheiro: quero experimentar tuuudo!) Somos rebocados até a lancha, que vai atingindo velocidade à medida que se distancia. Os velhinhos riem alto enquanto somos sacudidos pelas ondas. Esqueço por um instante minhas preocupações e descubro que estou viva. O vento, a água, o sal, o sol... viva!
           
A silhueta esguia me acena da praia. Na volta, ando de caiaque, faço uma meia-lua de henna no tornozelo e enfeito o cabelo com trancinhas de tererê. Provo também o espetinho de peroá e o pastel de bacalhau. Estou... viva. Quero... tudo.
          
— Você vai ficar boa — ela garante, depois de massagear meus pés à noite. (Te amo, mãe. Eu também, filha, pensamos.) Ela ajeita a coberta e apaga a luz, acariciando o ventre morno que ainda me abriga. Amanhã caminharemos de novo na areia aquecida pelo primeiro sol. Não desisto. Quero voar.

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nova edição do Projeto Quinta Crônica



Arte: Márcia Bandeira
         
          O Projeto Quinta Crônica, aprovado no Edital de Cultura 2010 do Sindilegis, realiza a última edição do semestre, com o apoio do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares e da TV Câmara. Iniciado em 2008, no auditório do Cefor, o projeto já trouxe, em dez edições, os escritores Jean Wyllys, Sérgio Maggio, Cinthia Kriemler e Olivia Maria Maia, e homenageou grandes compositores como Djavan, Renato Russo, Vinicius de Moraes e o brasiliense Renato Matos.
          Os escritores Marco Antunes e Maria Amélia Elói e o músico Zazo são os convidados da 11ª edição do Quinta Crônica, que acontece na próxima quinta-feira, dia 7 de julho, às 19 horas, no auditório da TV Câmara. Em formato de talk-show, o programa alia música e literatura. O ator e diretor de teatro J. Abreu, num bate-papo informal, em que a plateia também pode participar, faz a leitura dramatizada de obras dos convidados e conversa sobre carreira e processo de criação.

Os convidados

         
          Marco Antunes é professor de Literatura, escritor e ator. Funcionário da Câmara dos Deputados desde 1991, há oito anos coordena o Núcleo de Literatura no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, onde ministra diversos cursos e oficinas e organiza os concorridos saraus da Câmara dos Deputados. Sua obra poética deverá ser composta dos 22 Arcanos de um Tarô Pessoal, cujos cinco primeiros já são conhecidos. Escreve também contos, peças de teatro e crítica literária. 


          Maria Amélia Elói atualmente trabalha na TV Câmara e foi, por quatro anos, editora do site Plenarinho.  É formada em Letras/Português pelo UniCeub e em Jornalismo pela UnB, onde fez mestrado em Teoria da Literatura. Venceu o 3º Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, com o livro de poemas “Poesia Torta” (no prelo). Também foi vencedora do 5º Desafio dos Escritores do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara, na categoria Crônica.


Eleazar Araújo da Silva, o Zazo, nasceu em abril de 1960, no Rio de Janeiro. Criado em ambiente musical, aos dezesseis anos interessou-se pelo violão. Veio para Brasília em 1980, como militar, profissão que deixou em 1987. Como compositor e cantor, juntou-se à banda de MPB “Cântaro”, com a qual chegou a gravar o LP “Princípio”. Em 1992, ingressou na Câmara dos Deputados. Formou, com amigos, o grupo vocal “Céu na Boca”, gravando os álbuns “Coisas de Amigo” e “Velas ao Vento”. Boa parte de suas canções relaciona-se à sua fé cristã.

Serviço

Quinta Crônica
Apresentação: J. Abreu
Textos: Marco Antunes e Maria Amélia Elói
Música: Zazo
7 de julho de 2011
19h
Auditório da TV Câmara - Edifício Principal
Entrada franca

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira