domingo, 19 de dezembro de 2010

Quanto fazer!


Luci Afonso

Terminado o exaustivo trabalho da Criação, Deus se espichou na rede para tirar um cochilo.

Ligou o rádio para se distrair um pouco: “Açaí, guardiã, zum de besouro...”

Trocou a emissora. Não suportava letras sem sentido.

Açaí, guardiã, zum...”

Passou para AM: “Açaí, guardiã...” Desligou o aparelho. O jabá do cara era forte.

Resolveu descansar sem música mesmo. Não conseguia relaxar. Será que agira certo ao juntar uma serpente, um homem e uma mulher desocupados e um fruto proibido? Em retrospectiva, parecia uma mistura explosiva.

E era. Teve a confirmação quando pegou no sono e anteviu, em pesadelo, a confusão em que o mundo iria se meter, da primeira à última mordida. Como corrigir a besteira que havia começado se ele mesmo, ao criar Eva, apaixonara-se desesperadamente e não conseguia afastar os pensamentos libidinosos?

Enquanto Deus remexia-se na rede, um enorme besouro aterrissou no nariz do velho e começou a cantar: “Estaí, guardiã...”

— Uma guardiã! — ele finalmente entendeu, antes de acordar no chão. — Uma guardiã da humanidade! Mas será que ela dará conta da missão?

Nesse momento, o rádio misteriosamente ligou-se sozinho: “Para ser o serviçal de um samurai...” Desta vez, captou a mensagem de primeira: — Um ajudante, é claro! Basta criar uma guardiã e dar-lhe um auxiliar para juntos socorrerem os bobos que “comerem a maçã” — não pôde evitar um risinho malicioso.

Satisfeito com a solução encontrada, só restava formatar as criaturas. A guardiã seria mulher, é claro, pois desde o início já se sabia que era o sexo forte. Combativa, incansável, colérica, se necessário, e amorosa ao extremo. Mas e o ajudante? Outra mulher? Deus sentiu um arrepio ao imaginar duas Evas juntas, mas controlou-se. Não podia correr o risco.

Um anjo era uma boa alternativa. Ou uma criança. Melhor ainda, um anjo-criança! Exausto, Deus começou a delirar: — Terá o poder da telecinese, da telepatia, da invisibilidade, a força do Hulk, as garras do Wolverine...

Ao perceber o exagero, resumiu: — Falará até sem palavras e abençoará com a simples presença todo lugar onde estiver.

Dizendo isso, deu a tarefa por terminada, tomou meio Lexotan e desabou na rede.

Aaaaaiii, quanto fazer, mas eu tô tão feliz! — cantarolou antes de mergulhar no sono.


(Esta crônica foi escrita para presentear Isolda Marinho, minha "amiga oculta" deste ano.)
#Compartilhe:

Mensagem


 Cida Sepulveda


Queridas e queridos

A chuva me põe melancólica. A chuva que nos abençoa desde sempre. Mensagens de Feliz Natal e Ano Novo pipocam aos olhos, à cabeça, aos ouvidos. A gente se enche de presentes e promessas. Mas, lá na favela, as meninas cujo pai, condenado e preso por molestá-las sexualmente ganhou a liberdade (elas ouviram falar) muito antes de cumprir os 22 anos de cela, elas, quatro lindas garotas, se amontoam junto à mãe e o irmão (que já começa a agredi-las), em dois cômodos abarrotados de coisas, desejos, infortúnios, tédio, medo, solidão, falta... A falta que Manoel de Barros sempre aponta em meus textos: “o amor de alguma falta”.

“O amor de alguma falta” que me move; que me vitaliza: usar a palavra para contar a história dos que estão amarrados à condição menor, humilhante, incapacitante, através da poesia, a que não exclui ninguém, muito embora, alguns espíritos doentios costumem dizer que a grande arte é para poucos. Há tanta poesia nessas meninas que visitei hoje, sábado, 18 de dezembro de 2010, tarde chuvosa, inocente e bela como os olhos cintilantes de jovens que brotam da terra invadida.

#Compartilhe:

E por vezes




David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

(Poema recitado no Sarau de Portugal.)
#Compartilhe:

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sarau de Portugal

Tuka Villa-Lobos canta Amália Rodrigues, Madredeus, Dulce Pontes e Mariza

Poemas de

Camões
Almada Negreiros
António Gedeão
José Régio
Raul Solnado
Florbela Espanca
Antero de Quental
Mário Sá Carneiro
Miguel Torga
Antunes da Silva
Fernando Pessoa

No sarau serão revelados os vencedores nas 10 categorias do 6º Desafio dos Escritores.

Sarau de Portugal

16 de dezembro
Instituto Cervantes - 707/907 SUL
20h
Coquetel: bacalhau, vinho e sobremesas conventuais
Entrada franca
#Compartilhe:

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quinta Crônica Especial


Ligados pelas palavras


Sérgio Maggio

Com entrada franca, Quinta Crônica reúne a poeta Isolda Marinho e o cronista e romancista Gabriel Marinho, em noite com canções de Djavan.

Eles adoram brincar com as palavras. Fazem delas companheiras de todas as horas. De vocábulos, Isolda constrói poemas, e Gabriel, crônicas e romances. Mãe e filho, de sobrenome Marinho, dialogam com a língua portuguesa para expressar sentimentos e inquietudes. Na quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h30, com entrada franca, eles se encontram no Quinta Crônica para falar de aproximações e diferenças. No palco do Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados), o ator e diretor J. Abreu dramatiza os textos dos Marinho, enquanto o músico Alex Souza interpreta canções de Djavan, numa espécie de talk-show ao vivo. "O bacana é reunir duas gerações de literatura da mesma família. Ele traz a juventude . Ela, a experiência. Acredito que será rico e produtivo", observa J. Abreu.

Em cena, Isolda e Gabriel Marinho vão falar de processo de criação, influências e histórias de vida. Autora de Sementes de amora, Viço do verso e Beijo de tangerina, Isolda iniciou-se na poesia ainda menina de 14 anos. "Ainda guardo até hoje cadernos e folhas avulsas de meus escritos daquela época. Descobri na poesia uma forte aliada, uma amiga companheira, mãe e irmã", conta a mãe de Gabriel que, aos 17 anos, escreveu o romance O mundo depois do fim. "Dizem que herdei dela a veia poética para escrever, com muitas metáforas. Acredito que, nesse aspecto, a única diferença seja o discurso", aponta o filho.

Na ocasião, os autores vão autografar seus livros.

A venda do livro Beijo de Tangerina vai para a Campanha Natal sem Fome

Será servido coquetel.

Quinta Crônica

Dia 9 de dezembro (quinta-feira)
19h30
Auditório do Cefor (Via N3 - Setor de Garagens Ministeriais Norte - Complexo Avançado da Câmara dos Deputados - Bloco B).
Contato 3216-1816, pela manhã, ou 8153-8707.
Entrada franca.
Classificação indicativa livre.

(Vejam Fotos/Eventos à direita.)
#Compartilhe:

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Aos Amantes da Cultura



Nestor Kirjner


Caros amigos e amigas, Amantes da Cultura,


Quero fazer um convite especial a todos vocês, Amantes da Cultura. Em sua terceira montagem teatral, a Cia. de Teatro Bazáridas ousa novamente, e apresenta-nos um texto de Shakespeare, que é sempre uma prova de fogo para qualquer grupo de teatro que se preze. Depois do sucesso da montagem anterior (uma adaptação de "Dom Quixote", de Cervantes), agora a Bazáridas nos traz uma adaptação de uma das mais polêmicas peças do bardo genial, "O Mercador de Veneza".

Todo mundo sabe o quanto é penoso fazer teatro no Brasil. Por isso, é sem nenhum constrangimento que peço a todos os Amantes da Cultura que prestigiem essa montagem e divulguem-na entre seus amigos motivados pela arte ou pela admiração ao teatro.

Com certeza, não convidaremos dona Bárbara Heliodora para enxergar defeitos e cair de pau nos detalhes da montagem. Mas convidaremos você a avaliar e talvez valorizar esse esforço de um grupo de jovens visionários, que, ao invés de dedicar-se a um projeto mais rentável e de fácil apelo popular, prefere reavivar um dos maiores autores de todos os tempos, num texto que propõe polêmica e reflexão.

Ora, direis, ouvir fofocas! E as fofocas dirão que estou apenas tomado por uma crise de corujice explícita! Talvez! A diretora é minha nora, meu filho é um dos protagonistas, e minha filha pertence ao elenco de apoio. Mais nepotismo, é impossível!!! Mas também sou um espectador privilegiado do sacrifício e do idealismo dos Bazáridas, para que essa montagem saísse do papel e se transformasse em realidade.

Axé! Saravá! Amém! Que todos os santos e orixás se unam para proteger o trabalho dessa garotada. Aí, nos porões da arte, habita a verdadeira nação. E, num Natal em que estaremos motivados pelo início tardio, mas eficaz, da guerra ao narcotráfico, vou ver a peça dos meninos com outros olhos. Olhos mais brasileiros, talvez! E olhos de quem ama a busca da Arte,com A maiúsculo, como uma verdadeira obsessão! Que os santos e orixás, aproveitando o embalo, protejam a nós, espectadores, da massificação e da mediocridade.

Ave, Bazáridas! Boa sorte!

Um abraço do Nestor Kirjner. (nestorkirjner@terra.com.br)

Serviço

Local: Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul.
Data e horário: sábado, dia 4/12, às 21 horas;
                        domingo, dia 5/12, às 20 horas.
Ingressos: 20,00 (inteira) e 10,00 (meia).
Quem paga meia: Crianças, idosos, professores da fundação, estudantes com carteirinha e doadores de um quite escolar (caderno, lápis, apontador e borracha).
#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira