quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A visita


Não vejo o Sr. José Maria há alguns dias e não consigo esquecê-lo. Em algum ponto do trajeto entre casa e trabalho, certamente à vista de algum ipê amarelo úmido de chuva, os desejos do meu taxista de confiança se misturaram aos meus.
Decido visitá-lo à noite no ponto-casa. Encontro-o sentado num banco de madeira, assistindo à TV. Ele se espanta com meu vulto vermelho emergindo do escuro — estou de vestido vermelho, salto alto, brincos de argola e pulseira. Ele está à vontade, de chinelos. Não sei qual de nós está mais surpreso com a improvável visita.
Ele se levanta para me cumprimentar e pela primeira vez o vejo de pé. Meu amigo é de uma feiúra cativante: magro, um pouco mais baixo que eu, rosto pequeno, olhos pretos minúsculos, nariz grande, orelhas enormes. As mãos rústicas e miúdas parecem gravetos. Os dentes que não perdeu estão escurecidos.
Ele me indica o banco, pega uma cadeira e começamos a conversar. Observo à minha volta: os sapatos debaixo do banco, algumas camisas em cabides pendurados numa corda, o colchão enrolado numa cama improvisada. Uma televisão e uma cômoda velhas. Tento justificar minha presença no ponto de táxi malcuidado: vou comprar uma torta de frango na Torteria di Lorenza, ali do lado, estacionei dentro da quadra porque na comercial não tinha vaga, avistei seu carro e resolvi dar um “alô”.
Entrego-lhe a última crônica que escrevi baseada em seus relatos, ele a guarda junto às outras numa pasta para ler depois. Fico sabendo que já foi personagem de outro cronista, um cliente admirador que teve o texto publicado no Correio. Na parede ainda há a marca do durex que segurava o recorte de jornal, que lhe trouxe fama durante algum tempo e causou muita inveja entre os colegas. A irmã tem a matéria, e ele vai me trazer uma cópia.
O celular toca ao som da marcha nupcial. Ele responde que já vai, mas se senta novamente e retomamos a prosa. De repente, estamos na varanda da sua casa no sítio. É fim de tarde. A velha empregada passa o café cheiroso em coador de pano e o serve em copinhos de alumínio esmaltados. Saboreamos o café enquanto ouvimos a chuva no telhado e o grito das araras nas mangueiras carregadas de frutos.
Ele me conta que o dentista o está enrolando no tratamento. Eu lhe confidencio que estou trocando de carro e vou fazer uma surpresa ao meu filho. Trocamos detalhes sobre os dois assuntos, inventamos outros. Ele me convida para o churrasco de inauguração do sítio, ainda sem data marcada — antes é preciso construir a casa e comprar o boi; eu o chamo para um cafezinho em meu apartamento.
Os cabides balançam na corda como galhos ao vento. Estamos agora debaixo de um carvalho antiqüíssimo iluminado por vaga-lumes. O Sr. José Maria é o duende-chefe da floresta nevoenta. Tem uma barba comprida, usa um gorro verde e fuma cachimbo enquanto me conta os segredos de todas as criaturas. Promete me transformar numa fada se eu me casar com ele.
De novo a marcha nupcial. A cliente está aflita pelo táxi, ele diz, sem entrar em detalhes. Talvez vá seguir o marido, talvez vá procurar companhia para a noite ou, simplesmente, precise ir para casa. O Sr. José Maria se torna sério, diferente do motorista tagarela que me conduziu por uma semana e coloriu minha rotina nos primeiros dias de primavera.
É hora de nos despedirmos. Tenho vontade de envolvê-lo num abraço quente e apertado, mas me limito a dar-lhe boa noite. Sinto-me absurdamente feliz pela invasão nos seus domínios e anseio a próxima visita para roubar sem piedade os tesouros ocultos na boca sem dentes.
#Compartilhe:

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Dente de Coelho









— Quando a senhora se sentir apta a tratar os dentes, me procure. - O endodontista bateu o telefone. Por que estava com raiva? Ela só desmarcara três consultas, e por um bom motivo: estava no auge da TPM. Enfrentar o motorzinho nessas condições seria tortura. Magoada, não o procurou novamente.
Próximo na lista: Dr. Teógino, cirurgião-dentista indicado por uma amiga, que abrira bem a boca para lhe mostrar o trabalho que ele fizera. Parecia bom. Marcou e foi.
— Tenho um medo de dentista! - Ela disse, tentando sorrir. Sempre os alertava.
O Dr. Teógino pareceu não ouvir:
— Seus dentes estão péssimos! Preciso refazer tudo - Ele já calculava, mentalmente, quanto poderia cobrar. Estava num aperto danado.
Sentiu pena dele: era quase um anão, a voz desproporcionalmente grossa. Tinha barba de bode. Deixara aberto na mesa um antigo livro ilustrado de dentística para impressioná-la.
— Então, está disposta? - indagou, esperançoso. Precisava retomar a clientela, pois abandonara a profissão por vários meses, depois de ser traído pela esposa com o protético. A mulher lhe arrancara a casa, os bens e os filhos. Ele decidira se aventurar no comércio, mas não levava jeito. Trocara o empreendimento falido por um lote num condomínio distante, onde reconstruía a vida com a segunda esposa, bem mais jovem, e o filho que acabara de nascer.
Ele repetiu a pergunta. Cansada de peregrinar por tantos consultórios, ela resolveu apostar na indicação da amiga. Deixou as radiografias e marcou a primeira consulta. Ele lhe pediu uns cheques adiantados, para trocar no factoring.
Por medida de economia, o Dr. Teógino aproveitava a nova esposa como assistente. Só havia um problema: ela não suportava ver sangue. Por isso, segurava com força o sugador e fechava bem os olhos. Não tinha paciência para ficar sentada muito tempo e, sempre que podia, dava uma desculpa para ir conversar com as moças da portaria: — Vou lá embaixo buscar os moldes, meu bem. Volto já. - Ele continuava o trabalho sozinho, resmungando.
— Não dou sorte mesmo!
Enquanto esperava secar a resina, olhava pela janela e contava sua infância triste no interior. Muito pobre, se formara com sacrifício e guardava grandes mágoas daquele tempo. Ele se emocionava, os olhos ficavam úmidos.
— Aquelas ladeiras! Tem coisa que a gente nunca esquece... - Ela concordava, balançando a cabeça.
Nas primeiras consultas, tudo transcorreu bem, apesar do nervosismo dos três. Ela saía aliviada, pensando que agora fizera a escolha certa.
Na quarta vez, o Dr. Teógino chegou abatido: passara a noite em claro, com a espingarda em punho, à espreita de um mucura que atacava seu galinheiro em busca de ovos. Não conseguira pegar o bicho. A esposa também não dormira bem. Estavam atrasados e se ajeitaram às pressas para o atendimento.
Anestesia aplicada, sugador posicionado com firmeza, motorzinho à máxima potência, ele se lembrou, com raiva, do mucura e dos tempos de menino. Distraiu-se por um momento com suas recordações, esqueceu o que estava fazendo e deixou escorregar a broca. Seus óculos se cobriram de vermelho.
Ela gritou, assustada: o aparelho lhe fizera um corte profundo na língua. A assistente saiu correndo da sala, enquanto o dentista, tentando manter a calma, lhe enchia a boca de gaze para estancar o sangue.
— Não se preocupe, isso acontece. Esta região é muito rica em vasos. - Com três pontos na boca, ela ficou dias sem poder falar nem comer direito. Não voltou mais, apesar da insistência dele, e sustou os cheques.
Depois de algumas semanas, deparou com um anúncio: Dra. Clélia, especialista em dentística e hipnodontia — pesquisou esta palavra na Internet e ficou animada com o que descobriu. Quem sabe era melhor procurar uma mulher? A mão, pelo menos, seria mais leve, e o tratamento sob hipnose, certamente, mais fácil. Imaginou-se flutuando, inconsciente, sem medo nem dor, enquanto uma mão delicada e maternal cuidava de seus dentes. Acordaria de um sono repousante e não se lembraria de nada.
Simpatizaram-se de imediato. Depois de uma sessão de relaxamento na poltrona magnética e de uma deliciosa massagem nos músculos faciais, abriu a boca, confiante. Há muito tempo não se sentia tão bem. Ao fundo, a música tranqüila da Enya, combinada com uma essência calmante de flor de laranjeira. Dormiu profundamente, sonhou que era criança e que brincava de roda no sol morno do fim de tarde.
— Pode acordar agora, querida! - Uma voz suave a chamava, de longe. Ela despertou aos poucos, espreguiçou-se e pegou o espelho que a Dra. Clélia lhe dava, sorrindo. — Veja como ficou bonito!
Ela olhou, curiosa, e sentiu um arrepio de horror: no lugar dos incisivos, estavam implantados dois enormes dentes de coelho.
— Feliz Páscoa! - gritou a hipnodontista, às gargalhadas. Ela achou graça e começou a rir também. As duas se deram as mãos e giraram pela sala, cada vez mais rápido, rindo e cantando alto, até que ela acordou, desta vez de verdade.
De manhã consultaria novamente a lista.
#Compartilhe:

Poema em flor maior

Anabe Lopes


O amarelo do ipê sobre o chão vermelho do cerrado
Prenuncia o fim da aridez na alma da cidade
Enfim, hão de vir as primeiras chuvas...
Águas coloridas e perfumadas de primavera
Reverdecerão os gramados do plano alto de Brasília

Caem as últimas flores do ipê,
Cessam os ventos e os dias são mais quentes,
Adormeço a espera da primavera que virá...
Sonho a umidade do beijo da chuva...
Rociando humanidades em gotas pelo ar.

Vivas flores de vivas cores de manhãs de primavera
Correm vera no meu sangue.
O cheiro da terra molhada, e o sol nascente
Faz germinar a poesia e a semente
E revela a beleza da espera

Delonix regia, vem re-velar o mistério inexplorado,
Escondido nas entrequadras dos nossos desejos.
Em cada flor revela e oculta um beijo...
E há tantas flores...

Incandescentes olores
Ainda flamejam nos olhares...
A divina flor do paraíso!
Dá a cor e tira o siso.

Flamejante volto à infância, onde flamejam as últimas flores da estação...
Espadas pendem dos galhos e flores forram o chão
Em guarda, a criança luta contra a força da suavidade da beleza da flor vermelha encantada,
Delonix regia, é preciso seguir a estrada...
ficar parada a olhar as flores...
As flores caem e a vida segue...

Entre flores, amores e dores...
janeiro virá.

Todos os meus sentidos, sentidos, habitam entre flores
Almas flutuantes na copa de amores do velho flamboyant...

– Hei de amar pra sempre a flor de Madagascar.

Mas ainda sonho a primavera...
As flores ensaiam perfume e cores
Os pássaros realizam seus amores
E fazem a harmonia do jardim de Alá.
#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira