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Amor encontrado

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  Luci Afonso   Tenho escrito tanto sobre o amor perdido que esqueço de falar do amor encontrado. O pé de camélia me oferece uma flor todo dia. Eu a recolho da grama e a coloco em oferenda ao Buda na entrada da casa. Os pés de jabuticaba e de romã estão cheios de brotos.   Eu os visito pela manhã e à noitinha. A bela jovem me tira para dançar no baile de carnaval. A pureza do gesto me comove. A adolescente me abraça e alisa meu cabelo. Como minha avó fazia. As crianças, os velhos e os gatos me ensinam a viver. Eu aprendo. A mãe planta ipês e damas-da-noite no jardim. Eu os vejo brotar e crescer, como tenho feito em sessenta anos de vida. O vento sacode meus colares pendurados nas árvores. O reflexo das miçangas enfeita as paredes. O sol atravessa as lantejoulas e ilumina o quintal. A dança das luzes me energiza. A água refresca as plantas. Sacio minha sede junto com elas. A lua cheia promete momentos felizes.   Há muito tempo não observamos ...

Improviso para Carlos

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    Luci Afonso   É brincadeira de Deus a vida passar tão rápido. Faz vinte anos que nos falamos, trinta anos que nos vimos, quarenta anos que nos amamos. Eu não lembrava dessa foto, da sua mão no meu ombro, do seu sorriso feliz em me abraçar, da minha confiança em ser amada. Você é mais alto que eu — eu não lembrava disso, e sempre gostei de homens mais altos Quando você se formou e voltou para sua cidade, sem nunca ter me convidado a ir com você, eu achei natural. Afinal, a vida estava começando, e tínhamos muito tempo. Procurei caminhos diferentes dos que faríamos juntos. Quando se é jovem, não se sabe medir o alcance de uma separação. Quando se amadurece, isso fica claro nos dias que não voltam, na fotografia guardada num livro empoeirado, na memória de vozes, risos e carícias. Tenho 60 anos. Você, 50 e tantos. Depois de muitos meses de pandemia, de medo do que pudesse acontecer, de afastamento de outros seres humanos e de nós próprios, você manda uma foto...

A última pétala

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Luci Afonso Hoje caiu a última pétala da orquídea branca. Ela se agarrou muitos dias ao caule numa morte lenta e digna. O amor da mesma forma se entranha em meu peito e insiste em não morrer. Estou esperando que ele caia murcho e seco para que eu possa me replantar em algum terreno fértil.