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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Querido Fred


                                                                                                     Luci Afonso

Olhou bem a sua volta, para certificar-se de que não era seguida. Apesar do sol forte, vestia moletom com capuz e óculos escuros enormes, que comprara na Feira dos Importados. Viu-se refletida numa vitrine e concluiu que estava mesmo irreconhecível. Deu duas voltas no prédio antes de descer o lance de escadas para o subsolo mal iluminado.
Eram quatro horas da tarde. Ninguém à vista. As poucas lojas pareciam vazias, inclusive a lojinha do canto, a que se destinava.  Tinha cronometrado toda a operação, sem possibilidade de erro. Virou-se à esquerda e entrou. Uma jovem punk veio atendê-la com um sorriso de fazer inveja:
— Pois não, senhora. Posso ajudá-la?
Nas outras tentativas, tinha chegado até este ponto e recuado, com a desculpa de que se enganara de loja. Hoje, porém, tomou coragem e respondeu:
— Sim, querida.
— Acho que sei o que a senhora deseja. Me acompanhe, por favor.
Foi levada a outra sala, repleta do produto que desejava.
— A senhora tem alguma preferência?
 Olhou as paredes em volta. Tanta variedade que era impossível escolher. Ela só queria sair o mais rápido dali, antes que chegasse alguém.
— Posso dar uma sugestão? — perguntou a vendedora, com uma naturalidade desconcertante.
— Sim, por favor.
Ela escolheu um objeto da vitrine e explicou: — Este é o ideal para quem está começando. É anatômico e usa pilhas AA, fáceis de trocar...
— Quanto? — ela sussurrou.
— Oitenta e quatro reais, incluídas as pilhas. Garantia de um ano.
— Tem desconto no dinheiro?
— Cinco por cento. Sai por apenas 79,80.
— Você tem algum de até 60 reais? É o que tenho na bolsa.
— Tem este, de 59,90 — ela mostrou o produto —, mas sem pilhas. Requer operação manual.
— Vou levar.
— Com ou sem bolas?

— É o mesmo preço? — a vendedora balançou afirmativamente a cabeça e acrescentou:
— É uma boa opção. Este modelo tem muita saída.
— Embrulhe bem, por favor.
— É para presente?
— Não... sim.
— CPF na nota?
— Não precisa.
— Dotz?
— Não.
Saiu da loja com uma sacola preta discreta, sem identificação. Ao entrar em casa, foi direto para o quarto, escondeu a sacola numa gaveta secreta do guarda-roupa e a chave numa gaveta secreta do criado-mudo. 
Esperou todos dormirem para desembrulhá-lo. Era imponente. Na sua base se lia “made in China”. Onde teriam os chineses arranjado o molde?
O anterior, comprado pela Internet, custara apenas 29,90. Tinha pilhas, mas era tão pequeno que o apelidara de Barney. Um dia, esqueceu-o debaixo do travesseiro e a empregada o jogou no lixo, pensando se tratar de uma embalagem vazia. Estava decidido: o novo se chamaria Fred. Tirou o pijama, apagou a luz e se preparou para a estreia. Nesse exato instante, a porta do quarto se abriu: esquecera-se de trancá-la. Felizmente, não era seu filho. Era Hannah, a gatinha branca que sempre dormia com ela. Deixou que se acomodasse e foi trancar a porta. Sempre esquecia o quanto Hannah era curiosa. Quando voltou, a gata já se escondera no forro da cama e mordia Fred com raiva. Indignada, expulsou-a do quarto, desta vez lembrando de trancar a porta.
Partiu para a segunda tentativa. Calçou as meias-ligas de renda preta, passou o batom vermelho paixão e deitou-se na penumbra. As carícias apenas começavam quando ouviu um batido leve na porta. Agora era seu filho, reclamando que a merda da Internet estava fora do ar. Depois de uma eternidade ao telefone com a merda do suporte técnico, descobriram que o problema era a merda de um fio mal conectado ao modem. Resolvido o problema, abraçou o filho e desejou-lhe boa noite.
— Durma com Deus, meu filho.
— Tá.
Agora tinha que dar certo. Deitou-se, relaxou e pensou no namorado, no sexo ardente que faziam, nas fantasias que só ele sabia realizar. Mas ele estava a 500 quilômetros de distância. Tinha de se contentar com Fred. Pegou-o debaixo do travesseiro e ia começar a usá-lo quando se ouviu um estrondo e um gemido. Pôs o roupão e foi verificar do que se tratava.
A mãe idosa caíra da cama e gemia, segurando a perna direita. Era quase surda e tinha perdido metade da visão devido a uma catarata que ela teimava em não operar. Queixava-se de uma forte dor na perna e não conseguia se levantar. O SAMU foi chamado e constatou a fratura no fêmur direito. Levada ao hospital, foi engessada e ficou em observação durante horas, sendo liberada quando o dia já clareava.
Ela acomodou a mãe, deu-lhe os remédios e voltou para a cama para dormir um pouco, pois começava às 8h no trabalho. Na confusão, esquecera-se de Fred. Lembrava-se vagamente de tê-lo guardado, mas estava com muito sono para abrir as gavetas secretas. Hannah dormia espichada na cama.
Dormiu umas duas horas, arrumou-se e foi trabalhar. Passou o dia numa espécie de sonho, em que apareciam o namorado, Fred, Hannah e a mãe engessada. Voltou mais cedo, cuidou da mãe, do filho e da gata, e se trancou de novo no quarto.
Pegou a chave secreta no criado-mudo e abriu a gaveta secreta do guarda-roupa. Fred não estava lá. Vasculhou o quarto e só então prestou atenção na gata. Levantou-a e descobriu que seu querido Fred estava em pedaços. Hannah acordou por um breve instante, mudou de posição e continuou a dormir o sono justo dos gatos.


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sábado, 27 de agosto de 2016

A banca exterminadora


Luci Afonso

Apoiei-me bem no tampo da mesa, dei um grito e levantei-me, ignorando a dor dilacerante nas coxas. Abaixo da cintura, tudo doía. Era preciso enorme esforço para levantar da cadeira ou da cama. O ortopedista diagnosticara inflamação no ciático. Isso porque, nos últimos três meses, eu passara horas incontáveis ao computador, escrevendo meu Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar da idade, era a primeira vez que eu fazia o TCC. Quando mais jovem, eu começara a faculdade quatro vezes sem terminá-la. Sempre a mesma história: eu passava no vestibular, iniciava o semestre, ia desanimando, começava a faltar e acabava deixando o curso.
Desta vez, pretendia me formar. O fluxo curricular se invertera, porque eu havia abandonado o Estágio Supervisionado II por medo dos alunos. Agora, ao TCC se seguiriam dois semestres de estágio obrigatório, mas eu só conseguia pensar num problema de cada vez. Terminada a Licenciatura, planejava fazer uma breve pausa, e logo depois uma pós-graduação. Tinha inveja quando alguém me dizia: “estou fazendo uma pós”.
Eu escrevera 51 páginas, 15.397 palavras, 82.971 caracteres sem espaço, 98.205 caracteres com espaço, 401 parágrafos e 1.688 linhas. Consultei vinte livros, 17 artigos acadêmicos, 4 teses de mestrado, uma de doutorado, dicionários diversos. Dediquei especial atenção ao aporte teórico. A orientadora estava satisfeita com o resultado. Senti-me confiante.
Chegou o dia da apresentação. Arrumei cabelo e unhas, vesti uma roupa social. Contratei o serviço do UberBlack e convoquei meu filho a me acompanhar, depois de convencê-lo a tomar banho e a trocar de roupa. Saímos com bastante antecedência, porque a universidade era longe. Eu fazia o curso a distância. Esse seria meu primeiro contato com os professores.
Encontrei a orientadora bem antes do horário agendado, para fazermos os acertos finais. Ela estava aflita porque o PowerPoint ficara muito extenso e ela precisara cortar dezessete slides. Sem problema, eu disse. Meu filho se encarregaria da projeção.
A examinadora chegou um pouco atrasada por causa do trânsito. Era a única na plateia, o que me deixou nervosa: não havia mais ninguém para eu olhar. Aplicando os conhecimentos adquiridos na Oficina de Retórica feita há uns dez anos, adotei o olhar de paisagem, que não se fixa em nenhum ponto específico. Isso me ajudou a suportar os longos quinze minutos da apresentação.
Terminada a defesa da monografia, sentei-me para ouvir as considerações da mestra. O trabalho estava muito bom, ela disse, exceto pelo aporte teórico: eu confundira a análise de discurso de linha francesa com a análise de discurso de linha inglesa. São teorias opostas.
Ela havia lido as 51 páginas no fim de semana e fez questão de explicar cada anotação. Minha confiança foi diminuindo aos poucos. Uma lágrima ameaçou despontar no olho direito. Mantive-me firme enquanto pude, para não causar nenhum trauma ao meu filho, mas desabei quando ela disse que eu havia apenas tangenciado o aporte teórico.  Levantei-me com um grito de dor e pretendia sair correndo da sala, mas elas me abraçaram e me fizeram sentar novamente, enquanto uma delas buscava um copo d’água.
— Não estressa, mãe — disse meu filho, segurando meu ombro.
— Não fique assim, isso é comum — informou a orientadora.
A linguagem acadêmica é muito diferente da literária. Se eu fosse escrever uma crônica, também teria dificuldade — completou a examinadora
À medida que eu me acalmava, elas discutiam uma forma de me ajudar. Decidiram que eu receberia a nota mínima, sob condição de refazer o trabalho em trinta dias, e que conforme o resultado minha nota poderia aumentar. Aceitei.
Enquanto aguardo novas instruções, faço fisioterapia motora para coluna lombar, coxas, joelhos e mãos. Tudo continua doendo, mas estou tranquila: entre mim e o diploma, apenas dois semestres de estágio com alunos da rede pública de ensino. O que pode dar errado? Tenho certeza de que me formarei até os sessenta anos. Depois, vou parar de estudar. Pensando bem, pós-graduação para quê?


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terça-feira, 26 de julho de 2016

Alice pegou o seio


Luci Afonso
Eu brincava de luzes na sala, quando Dôra apareceu na porta da cozinha:
Alice pegou o seio! ela disse, radiante. A segunda neta levara doze horas para nascer e, passados três dias, ainda não pegara o seio materno, que explodia em leite.
A notícia me encheu de esperança. Eu brincava de luzes quando estava triste. Pegava duas ou três pulseirinhas coloridas e transparentes, colocava no braço esquerdo e o movimentava ao sol. De preferência, às dez da manhã, por causa da inclinação da luz. Me sentava perto da janela e observava o reflexo estendendo-se pela sala e criando um círculo ao meu redor. Sempre gostei de reflexos. Parecem carinhos.
Além de brincar de luzes, nos dias mais difíceis segunda, quarta, sexta e domingo eu fazia uma festa de mentirinha. Ligava o rádio bem alto, tirava os chinelos e girava descalça pela casa. Parecia louca, mas estava só triste. A gatinha me concedia a dança a contragosto, e meu filho servia de parceiro relutante, mas gentil.
O melhor mesmo para vencer a tristeza em diferentes graus e latitudes era saber que alguém estava feliz. Alice, por exemplo. Parto difícil, nascera frágil demais para sugar o leite. A mãe se desesperava e a avó permanecia atenta ao celular, até que chegou a novidade.
Ao longo do dia, recebemos boletins frequentes:
Não quer largar mais! Dôra comemorou.
Está mamando feito uma bezerrinha!
Arrotou!
Chorou quando a enfermeira tirou o seio!
Sorriu quando estava mamando!

Alice pegou o seio. Imagino os dedos miúdos acariciando a pele da mãe, enquanto os olhos arregalados acompanham os reflexos do sol na janela. Hoje não seria mais preciso brincar de luzes, nem fazer festa de mentirinha. Alguém estava feliz de verdade.                                                                                                                                                         


Comentários no Facebook

Tarlei Martins  Tão lindo, tão vivo! E tudo colhido no altar do cotidiano. Obrigado por compartilhar! 26 de julho às 10:39

Maria Célia Morici Corrêa   Que delícia de crônica! 26 de julho às 12:50
                                                                                       
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira