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Postagens

Beautiful

Luci Afonso
Nove de janeiro de 2018. Noite de gala no Teatro Majestic, Broadway, Nova Iorque. Casais elegantes descem de carros luxuosos: os homens de smoking, as mulheres de longos pretos, realçados por colares de pérolas enormes e, com certeza, autênticas. Os casacos de peles finalizam o visual requintado. Sinto-me como num filme de Hollywood. Meu vestido é branco e, meu casaco, vermelho. Pareço uma Branca de Neve madura ou uma Chapeuzinho Vermelho que cresceu de repente. Sou também uma linda mulher, uma bonequinha de luxo, uma noiva em fuga. Sou todas as personagens que posso lembrar. Posso ter todos os finais felizes que desejar. Hoje é meu aniversário de 58 anos. Faz 10 graus negativos, e se espera uma tempestade de neve na madrugada. O clima não importa. O tempo parou: era meu sonho estar em Nova Iorque neste dia e assistir ao musical “O Fantasma da Ópera”, em cartaz há quase trinta anos. Aqui estou, em meio a gente do mundo inteiro, aguardando para desfrutar a beleza do espetácul…
Postagens recentes

Escritos da Casaberta

Imagem: Márcia Bandeira

Esta é uma data importante para mim. Depois de quase três anos sem escrever, consegui finalizar a crônica Beautiful, que dá início à série Escritos da Casaberta. São textos de alguma forma inspirados nos encontros do grupo Casaberta, idealizado pela designer Márcia Bandeira, e que reúne artistas de várias áreas, entre eles, Lelo, Patricia Meschick, Claudia Schirmbeck, Márcia Roth, Lynn Carone.
Acompanhem os Escritos da Casaberta. Inscrevam-se. Sigam. Conheçam minha escrita amadurecida após um longo recesso.

Beautiful, a seguir.

O Desaparecido

Rubem Braga
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desapare…

Filhos de mil pais

“... todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”

(Trecho do romance O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe. São Paulo: Cosac Naify,2012.)
 Imagem: Aldeia, Marina Heingantz 

Ponto de tecer poesia

Todo amor é um vestido que parece ser bordado com ponto de alinhavo. Todo amor rasga à toa. Todo fiapo avoa como pena de passarinho. Ai, meu vestido de linho,ai, meu vestido de renda, ai, meu vestido rasgado... Será que você remenda este vestido tão branco, de noivado?

Sylvia Orthof. Ponto de tecer poesia. Ilustrações: Tatiana Paiva.São Paulo: FTD. 2010





(Áudio também disponível na página "Texto e Voz".)                    





A leitura, o colesterol e o teto seguro, segundo Valter Hugo Mãe

“Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia-se a tomar conta do corpo, como …

Poesia, preservação da infância

Henriqueta Lisboa
Sem desconhecer a aspereza dos nossos tempos, a poesia permanece no campo do existir como fenômeno de equilíbrio, compensação e recompensa, com a faculdade de preservar a infância. Eventualmente, a poesia pode inspirar-se em tom menor — por que não? — e revestir-se de ternura. É através da imaginação que se atinge, muitas vezes, a etapa da lucidez. Assim, dar asas à imaginação não é fechar os olhos a verdades patentes, mas abri-los para o mundo subjetivo, sempre mais vasto, profundo e sutil, capaz de enfrentar, interpretar, compreender, remover e reformular circunstâncias exteriores. Em meio a tantas mutações sociais e revoluções tecnológicas, o homem, natureza perene, tanto mais consciente de seu destino humano e de sua vocação integral, resguarda e restaura (pelo menos tem a possibilidade de fazê-lo) os dons essenciais do sentimento e da sensibilidade, sempre susceptíveis de aperfeiçoamento. Por isso, a devoção às letras de um poeta como Bartolomeu Campos Queirós, edu…