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As palavras

Luci Afonso
O primeiro canto da cigarra este ano foi em 19 de setembro, às 17 horas e 50 minutos. Desta vez, não me trouxe alento. Durante toda a minha vida adulta, esse canto inicial me dava coragem. Hoje ele não é suficiente: quero também a chuva para dormir; a voz da mãe para acalentar; o riso do filho para valer a pena; as pessoas para me cuidarem; as palavras para me ressuscitarem. Eu e as palavras é uma longa história. Não sei quando começou, nem quando vai acabar. Andam magoadas comigo, porque eu lhes disse que não as amava mais. Menti para que não sofrêssemos. Não nos encontramos há meses. Eu as julgava perdidas, mas, de repente, me vi pensando nelas, nos momentos que passamos juntas sem sentir as horas, sem nos importar se era dia ou noite, sem precisar de ninguém. As palavras poucas e belas. As tranquilas, as nervosas, as instigantes. Puras ou não, fortes, sempre fortes, segurando-me as mãos. Com elas aprendi o amor incondicional. A recompensa da espera. O afeto recíproco. Mande…
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Pele Neve

Luci Afonso

Desde muito jovem assisto a filmes que se passam em Nova York. Eu sonhava conhecer a cidade, e o fiz no mesmo ano em que realizei outro sonho, o de me formar na faculdade. Como presente de aniversário, me dei oito dias na Big Apple. Era inverno. Em 9 de janeiro, eu caminhava pela deslumbrante Times Square quando minha idade chegou em flocos de neve e se colou à minha pele com delicadeza e carinho. Em vez de sentir frio, tive o corpo invadido por uma onda de calor – não o do sol abrasador de uma praia, mas o das chamas que se extinguem aos poucos numa lareira no alto da serra. Estava protegida, inteira, confortável. Então, isso eram os 60? — me perguntei. Ninguém me falara dessa plenitude, desse pertencimento, dessa certeza de quem sou e do que estou fazendo no mundo. Enfrentar 10 graus negativos num país estrangeiro era uma grande aventura. Senti-me em casa. O frio intenso era quase palpável e compartilhado por milhares de moradores e visitantes agasalhados contra a neve que…

Meio brilho

Luci Afonso
Minha alegria, em geral, é pouca. Sorriso de lábios fechados, olhos a meio brilho, esperança discreta. Sem risadas inconvenientes. Sem pulos de contentamento. Corpo contraído, voz cuidadosa para não soar alta demais. Pés grudados no chão, braços relutantes em alçar voo. Mas, às vezes, meus olhos brilham inteiros, meus lábios se abrem num riso incontrolável, minha voz atravessa as paredes e chega aos ouvidos do último morador da Terra. Arrisco um voo rasante sobre as paisagens do mundo. Sou pássaro em busca de asa. Em geral, não dou conta de muito amor. Tem que ser comedido, não ultrapassar os limites da minha segurança. Não pode invadir espaços trancados por longo tempo. Não pode ser o principal alimento em todas as refeições. Não pode ser tudo. Mas, às vezes, envolvo a pessoa amada numa fina teia de seda, que vou espalhando para abrigar o sentimento de todos os seres. Não tenho chaves para abrir ou trancar portas. Estas se tornaram vórtices azulados que me arrastam ao fundo …

Pré-idosa, eu?

Luci Afonso
Minha agenda está cheia: consultas, exames, psicoterapia, acupuntura, ioga, massagem, caminhada. Adotei uma política de comparecimento a todos os compromissos e, para dar conta de tudo, matriculei-me num curso para redução do estresse. Manhã de segunda: endócrino. Faz muito calor. Visto uma superpantalona estampada em tons de rosa, uma regata dry fit e um chapéu de tecido rosa. O jovem médico não é de muita conversa. Ele me cumprimenta e estranha minha roupa: — A senhora é hippie? — ele brinca. — Não, eu sou é empoderada. — Empoeirada? — ele dá um risinho. — Empoderada: independente, resolvida. Faço o que eu quero, visto o que eu quero, não ligo para a opinião dos outros. — Ah! Ele começa a analisar o resultado dos exames no computador, enquanto eu observo a vista do décimo andar. — A senhora trouxe um livro... — ele pergunta, de repente. — O senhor sabe que eu sou escritora? — ...pra ler enquanto vejo os exames? Pode demorar um pouco. — Demorado é que é bom — digo sem pensar. Meu r…

Beautiful

Luci Afonso
Nove de janeiro de 2018. Noite de gala no Teatro Majestic, Broadway, Nova Iorque. Casais elegantes descem de carros luxuosos: os homens de smoking, as mulheres de longos pretos, realçados por colares de pérolas enormes e, com certeza, autênticas. Os casacos de peles finalizam o visual requintado. Sinto-me como num filme de Hollywood. Meu vestido é branco e, meu casaco, vermelho. Pareço uma Branca de Neve madura ou uma Chapeuzinho Vermelho que cresceu de repente. Sou também uma linda mulher, uma bonequinha de luxo, uma noiva em fuga. Sou todas as personagens que posso lembrar. Posso ter todos os finais felizes que desejar. Hoje é meu aniversário de 58 anos. Faz 10 graus negativos, e se espera uma tempestade de neve na madrugada. O clima não importa. O tempo parou: era meu sonho estar em Nova Iorque neste dia e assistir ao musical “O Fantasma da Ópera”, em cartaz há quase trinta anos. Aqui estou, em meio a gente do mundo inteiro, aguardando para desfrutar a beleza do espetácul…

Escritos da Casaberta

Imagem: Márcia Bandeira

Esta é uma data importante para mim. Depois de quase três anos sem escrever, consegui finalizar a crônica Beautiful, que dá início à série Escritos da Casaberta. São textos de alguma forma inspirados nos encontros do grupo Casaberta, idealizado pela designer Márcia Bandeira, e que reúne artistas de várias áreas, entre eles, Lelo, Patricia Meschick, Claudia Schirmbeck, Márcia Roth, Lynn Carone.
Acompanhem os Escritos da Casaberta. Inscrevam-se. Sigam. Conheçam minha escrita amadurecida após um longo recesso.

Beautiful, a seguir.

O Desaparecido

Rubem Braga
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desapare…