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Sabiazinho

Luci Afonso
Saio mais uma vez para caminhar, diluindo a ansiedade em passadas curtas e firmes. A chuva lavou o céu e as nuvens até chegarem a um tom puríssimo de azul e branco. Toda manhã sinto o abraço do sol e o carinho das árvores. Conheço cada uma em meu trajeto. Sei a que floriu ontem, a que perdeu folhas ou ganhou brotos. Elas me acenam e me lançam flores. Há alguns dias, sou atacada por um pássaro que voa rente à minha nuca e faz um ruído assustador. Pela violência do ataque, poderia ser uma ave de rapina. Hoje ele atacou uma vez e pousou no chão do prédio; atacou de novo e pousou num galho. Descubro que é apenas um sabiazinho cinza-escuro, não sei se macho ou fêmea, provavelmente defendendo seus filhotes. Começa uma chuva fina e refrescante. Acelero o passo e chego em casa a tempo de ver meu filho saindo para a faculdade. Ele está fazendo um enorme esforço para retomar os estudos. — Hoje nem consigo existir — ele costuma dizer, meio brincadeira, meio verdade. — Será o caos, mãe? …
Postagens recentes

Pequena grande vida

Luci Afonso


Mais uma vez visito Araxá, Minas Gerais. A vida na cidade pequena se resume ao essencial: comer, dormir, amar, conversar. Não há distrações como na cidade grande. Um shopping, por exemplo, é absolutamente desnecessário. Indispensável mesmo é a cadeira na calçada ou na varanda para observar o movimento e cumprimentar quem passa. O tempo anda mais lento. Ninguém tem pressa. Os amigos param e batem papo no trânsito sem ouvir buzinas. Todos se conhecem. A maioria nunca viajou e não sente falta disso. Alguns já foram a lugares distantes a cem e até a duzentos quilômetros. As pessoas são mais satisfeitas, mais contentes. O dia transcorre calmo, tudo na sua hora, com intervalo para a sesta do almoço. É possível chegar a pé à avenida principal, onde fica o comércio. Que, aliás, fecha ao meio-dia de sábado e só reabre na segunda-feira. A maior distração são os encontros de família ou de amigos. Quem não tem nenhum dos dois corre o risco de se sentir só. Sem a opção de andar no shoppi…

Amabilidade reduzida

Luci Afonso
Na semana passada, houve a formatura de um sobrinho num elegante clube de Brasília. Chegamos em cima da hora, o salão lotado. As cadeiras vazias estavam “marcadas” por bolsas e casacos, como é o costume brasileiro. Depois de procurar inutilmente por dois lugares, decidi recorrer ao meu direito de Pessoa com Mobilidade Reduzida de ocupar poltronas preferenciais, junto com um cuidador. É claro que enfrentamos olhares reprovadores. Na plateia, vi pessoas que não haviam utilizado o seu direito, entre elas, um homem com um tremor visível e um rapaz em cadeira de rodas, espremidos entre os convidados, quando poderiam estar sentados à frente, com mais espaço e conforto. A lei brasileira equipara os direitos das pessoas com deficiência aos das pessoas com mobilidade reduzida e garante a ambos os grupos o atendimento prioritário. Nesse caso específico, os seguranças foram acolhedores e simpáticos, mas, como me lembrou hoje uma amiga, eles poderiam ter perguntado: — Onde está es…

O prazer de ler

Palestra "O prazer de ler" na Escola Municipal Profa. Auxiliadora Paiva, Araxá, MG
Mais fotos:
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Um domingo

“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente — como em dores de parto — e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heroica. Sem menina dentro de mim."
(Clarice Lispector, A descoberta do mundo)
(Imagem:  https://br.pinterest.com/pin/222365300335887830/?lp=true )

Tamo sempre junto

Luci Afonso
Tamo sempre junto, dizia o bilhete no buquê de rosas vermelhas sobre a mesa da sala.
Quando recebi a notícia, peguei a bolsa e saí correndo para a rodoviária, sem levar uma mala sequer. Passei muito tempo sem perceber a loucura do meu gesto. O trajeto até Araxá era de nove horas. Fazia frio, mas eu também esquecera o agasalho. Só conseguia pensar no meu primo. Nossos nomes eram parecidos, não por coincidência. Foi um gesto dos nossos pais para selar o afeto mútuo. Nasci primeiro e, apenas dois meses depois, aquele que seria o grande amor da minha vida. Foi um acontecimento cósmico: dois seres destinados um ao outro se reencontravam. Pelo menos, era nisso que eu acreditava. Logo que desci do táxi, avistei-o no fundo do salão. Eu viajara a noite inteira para estar ao seu lado naquele momento. Ele não chorava como os outros; ria e falava alto, como se estivesse em choque. No prazo de um ano, ele perdera a mãe, debilitada pela longa doença, a esposa, por um câncer descoberto em …

Sujou, lavou

Luci Afonso
Ele chegou ao meio-dia, como de costume, para fazer o almoço. Daí a instantes, me chamou: — Tenho uma surpresa pra você — ele disse com calma. — Aqui na cozinha. Levantei-me depressa e corri para ver o que era. — Ali no chão — ele mostrou. Ele colocara uma pilha de louça para lavar dentro de um balde. — Você sabe a regra: sujou, lavou. Eu não faço almoço com a pia suja.
Eu me apaixonara por meu primo numa madrugada fria de Ano Novo. Estávamos sentados debaixo da Árvore dos Enforcados, um ponto alto de onde se avistava a cidade adormecida. A neblina ofuscava as luzes lá embaixo, tornando o momento mágico. A árvore, ponto turístico muito visitado, morreu e foi cortada ano passado. Nada resta do lamento dos escravos que, segundo a lenda, eram enforcados nos galhos grossos e nus. Eu também morri nos três anos que se seguiram. Meu corpo engordou, meu cabelo secou, meu sorriso adoeceu. Não escrevi uma palavra sequer. Não procurei nenhum amigo. Em busca da paixão que, eu acreditava, tra…