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O que é conto e o que é crônica?

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Marco Antunes Quero dirimir um pouco das dúvidas sobre o que é conto e o que é crônica. O assunto é difícil mesmo. A coisa se dá em terreno ambíguo muitas vezes, mas, como sempre digo para meus alunos, nenhum autor está escrevendo e de repente interrompe porque queria escrever uma crônica e lhe saiu um conto. A importância disso é epistemológica somente. Percebam, conto está centrado na ação, no conflito desenvolvido pela narrativa, preservando quatro unidades, segundo Massaud Moisés: a de espaço (um conto procura situar-se em poucos cenários, feito uma peça de teatro); a de tempo (como o conto é breve por definição, raramente se faz um bom conto com cortes no tempo, dando saltos na história, etc.); a de ação (o conto é avesso a peripécias narrativas, ao vaivém, a saltos, a desmembramentos cronológicos — começa e vai até o fim sem desvios) e, por último, a unidade mais importante: a unidade de tom — o conto tem que causar uma única impressão, que pode ser de humor, terror...

A "inspiração" não vem para todos

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Rachel de Queiroz A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de "inspiração". O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças ‘aquele’ dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido – e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico –, que se assemelha terrivelmente a uma gestação, cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos. Começa você sentindo vagamente que tem umas coisas para dizer ou uma história para contar. Ou, às vezes, ambas. Fi...

O que é conto?

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Nilto Maciel Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos. Se todos os contistas assim elaborassem contos, há muito teríamos deixado de lado esse gênero cada vez mais rico, por se empobrecer, se uniformizar. Pois não é difícil escrever conto com obediência ao enunciado nos manuais. Os próp...

O Cronista é um Escritor Crônico

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Affonso Romano de Sant'Anna O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico. O que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São...

Em defesa dos adjetivos

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Adam Zagajewski Ditadores e generais costumam dispensar tudo o que não seja verbo e substantivo Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo. A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil. Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. Vejo uma pilha de melões na bancada de uma quitanda. Para um adversário dos adjetivos, não há dificuldade: Melões estão empilhados na bancada da quitanda. Todavia, um dos melões é pálido como a tez de Talleyrand quando discursou no Congresso de Viena; outro é verde, imaturo, cheio de arrogância juvenil; outro ainda tem faces encovadas e está perdido num silên...

O gigolô das palavras

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Luis Fernando Veríssimo Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão!", "Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente. Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada ex...

Revisar o próprio texto

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Repassar o próprio texto, à procura de falhas de concepção e redação, pode salvar o dia Revise cada escrito, do texto a ser publicado ao e-mail mais despretensioso. Na revisão, é preciso fingir ser o próprio leitor de um texto que você fez, para buscar as questões que o rascunho pode ter deixado de fora. O leitor ou ouvinte não deve passar pelas dificuldades que você passou ao ler o próprio original. Leitura final - Tenha em mente o projeto de texto que você se propõe. - Confira se o texto flui ponto a ponto. - Verifique se afirmações se antecipam a eventuais indagações do leitor. - Corte o que for irrelevante. - Não omita informações; não exagere nos detalhes. - Não insista em fatos de que o leitor já disponha. - Disponha de forma linear os elementos da frase. - Não desvie do assunto. - Veja se os trechos não devem ser distribuídos noutro ponto do texto. - Não repita conectores, muitos "que" para iniciar explicações ou restrições a termos já expostos. - Busque ...

As marcas do clichê

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Frases e expressões sedimentadas podem facilitar a comunicação, mas não contribuem para a renovação do idioma. Braulio Tavares Nos cursos de jornalismo, professores mandam a turma redigir um trabalho qualquer e depois vão anotando os clichês que aparecem: "Ferragens retorcidas... os bravos soldados do fogo... tórrido romance... corpo escultural... posição privilegiada...". São clichês, lugares-comuns, junções de substantivos e adjetivos que um dia, quando foram usadas pela primeiríssima vez, provocaram no leitor um agradável susto-de-novidade. Hoje, após milhões de repetições, são indício de preguiça mental. Os clichês são invisíveis e onipresentes e só damos pela sua existência quando estamos à sua procura. Basta escrevermos pensando apenas no assunto, e não na linguagem, para que eles desabrochem. Não os vemos porque eles fazem parte da paisagem, como os semáforos e os orelhões. São expressões prontas, "prêt-à-porter", que nos dispensam de pensar. Exemplo Por exem...

O lugar do lugar-comum

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Em O Pai dos Burros, o jornalista e escritor Humberto Werneck reúne frases feitas que um dia já foram "novidade" Edgard Murano Tão involuntário quanto o uso de uma expressão clichê foi o nascimento de O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial), coletânea feita por Humberto Werneck (do excelente O Santo Sujo , Cosac Naify, 2008). A obra surgiu da preocupação do jornalista com expressões que, de tão usadas, perdem a força, como "beleza efêmera", "mistura explosiva" e "sonora vaia". Cliché é termo de origem francesa para a chapa metálica usada na impressão gráfica. Na literatura, é o estereótipo, o chavão. A ideia de produzir sua própria coletânea do gênero é dos anos 70, quando Werneck partilhava, no Jornal da Tarde , dos preceitos do "jornalismo literário", que evitava a todo custo expressões batidas. — Por volta de 1972, comecei a anotar lugares-comuns, além de provérbios e expressões idiomáticas muito chapadas. Virou brincadeira, da qua...

A era do miniconto

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Dos contos tradicionais aos concursos de textos em uma linha, histórias enxutas brincam com a imaginação do leitor Braulio Tavares Que tamanho deve ter um conto? Os critérios editoriais definem a extensão de um texto pelo número de caracteres ou palavras. O mercado literário norte-americano, mais industrializado e preciso do que o nosso, define quatro faixas de extensão: conto, até 7.500 palavras; noveleta, de 7.500 a 17.500; novela, de 17.500 a 40 mil; romance, de 40 mil em diante. Edgar Allan Poe definiu o conto, de maneira pragmática e intuitiva, como " narrativa curta, cuja leitura atenta requer de meia hora a uma ou duas horas ". Tinha em vista o que ele chamava de unidade de efeito. O conto deveria ser curto para não ser interrompido. Ser uma experiência mental única, contínua, do começo até o fim, para que não se diluíssem as tensões, e o desfecho tivesse toda a carga emocional preparada pelo autor. Curiosamente, a duração que ele preconizava para o conto é a que tem u...