sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Os tormentos da página em branco*


Dicas que os escritores costumam seguir para contornar o bloqueio criativo que volta e meia os ataca


por Geraldo Galvão Ferraz


Você e a página em branco. Ela até parece aumentar, esperando as palavras que você colocará nela. Mas, como acontece com muita gente, você pensa, pensa e nada. A página continua branca. Você tem mais ou menos a idéia, digamos, de um conto, mas como começar?

Principiar um texto pode ser, às vezes, um tormento. As palavras parece que não vêm, os pensamentos se misturam na cabeça e nada faz sentido. E a página, lá, branquinha. Esperando.

O escritor que trava para começar seu texto, sobretudo o de ficção, não tem, é bom que se diga de cara, uma solução fácil para o problema. Cada escritor tem seu jeito próprio de lidar com esses demônios, que podem ser causados pelo cansaço físico ou mental, pelo ambiente que o cerca (se você não teve a experiência de tentar escrever ficção num lugar cheio de crianças gritando e chorando, não a queira ter).

O que fazer? Bem, de início você não precisa ser muito ambicioso. Não queira escrever um texto final, levando algumas horas de começo, meio e fim.

Insistência

Se você tiver mais rascunhos ou tentativas falhadas do que textos que considera satisfatórios, insista um pouco, remoendo o mantra de William Faulkner, de que a literatura é feita de 90 por cento de transpiração e só de 10 por cento de inspiração.

Mas, depois disso, o melhor é adiar a tarefa, tomar um banho, dar comida para o gato, comprar pão, colocar a roupa suja na máquina de lavar, essas coisas que nada têm a ver com essas fugidias palavras.

No caso de você ser teimoso, resolva fazer um primeiro rascunho. Ele certamente não será o texto que você escolherá no final. Vá escrevendo frases que lhe venham à mente, elas poderão surgir depois como um caminho no qual você andou apenas uns poucos passos. Se você tem o hábito de escrever em pequenos parágrafos, tente-os encompridar. O resultado pode ser exatamente o que você está querendo, apenas pela quebra de um hábito. Falando em hábito, qualquer escritor lhe falará que é muito importante que escreva todo dia, fim de semana inclusive, nem que seja apenas alguns parágrafos. Seu texto e seus futuros leitores agradecerão por essa persistência.

Relendo o que você escreveu, certamente quererá escrever mais, retocar e, de repente, a página em branco não será mais um tormento. E saberá então que a regra se confirma: bons textos não são abundantes. Claro, eles podem acontecer em 20 minutos de escrita ou em horas e horas.

Mão e computador

Experimente — às vezes dá certo — escrever à mão e depois copie tudo ao computador. Escrever na tela tende a nos levar a uma superestima do texto. Num velho caderno, você pode rabiscar seu texto, o que muitas vezes leva a novas idéias ou formas. Além de ser bem mais portátil e prático que um PC ou mesmo um notebook.

Se você sair de casa, pode ser recompensado também por distrações que amenizam os redemoinhos na sua cabeça.

Uma boa ajuda para preencher decentemente páginas em branco é ficar longe de telefones, e-mails e internet. Até você ter escrito sua cota diária. Escrever pela manhã, se possível, período do dia em que os problemas do dia o atingirão menos e também porque você estará mais próximo do estado de sonho e da inconsciência. É o que o bom senso chama de “cabeça fresca”.

Se estiver escrevendo um conto, tenha planejado uma linha mestra para a história e não se esqueça de que, numa ficção curta, o desenlace é mais importante que o começo. Já o romance não precisa de uma “grande história” no começo. Você terá bastante cenário, personagens e conflitos para ir acertando isso. Pense quantos livros de que você gostou e retratam uma festa, uma pequena batalha, um namoro, uma obsessão. Um desses últimos é um livro que começa apenas por uma pequena frase que nem chama a atenção: “Chamem-me Ishmael”. No entanto, é uma das mais famosas primeiras frases da literatura e é da obra-prima de Herman Melville, Moby Dick.

Autoconfiança

Boa parte do bloqueio da página branca inicial vem da autoconfiança. Você tem de escrever com certeza. Não espere a inspiração ser trazida por uma musa, que isso não acontece. Algumas pessoas muito criativas parecem ter facilidade para jorrar idéias. Mas pode haver variantes por aí. Há escritores que só funcionam a todo vapor quando recebem elogios constantes. Uma crítica mais azeda e eles ficam imobilizados, incapazes.


Diante de um bloqueio criativo, não ajuda nada ficar se comparando a outros escritores, como Franz Kafka.

Ficar se comparando com outros escritores é bobagem. Você olha a sua primeira linha e enxerga Franz Kafka escrevendo a primeira linha de A Metamorfose: “Quando Gregor Samsa acordou, certa manhã, de sonhos perturbadores, ele se viu transformado, na sua cama, em um inseto gigantesco."


Aí, nada de pensar: eu nunca vou escrever uma primeira linha dessas. É o caminho mais curto para sair do mundo dos escritores.

Todo mundo, Kafka inclusive, teve seus problemas para escrever. E ele até quis que seu amigo Max Brod pusesse fogo naquilo que considerava uma obra falhada.

Cutucar o leitor

O primeiro parágrafo ideal tem de cutucar o leitor. Pense nisso quando for escrevê-lo. Um bom truque é usar as perguntas clássicas do lead (a abertura de um texto) jornalístico. Sem pensar numa ordem rígida, o primeiro parágrafo, em geral, deve criar uma situação de estranheza para quem lê. Ele vai querer saber quem são os personagens, suas motivações, ter informações sobre o ambiente e o tempo em que aquilo está acontecendo e as razões subjacentes à ação.

Há quem diga que a mente é como qualquer músculo: precisa ser exercitada. Assim, um aquecimento ajuda. Segundo essa tese, é bom escrever alguma coisa como um e-mail, tomar umas notas sobre o que você irá produzir, arranque-se da contemplação da página branca e tente criar um formato novo de texto usando as ferramentas do micro, ouça uma música que você ache estimulante, até mesmo um trecho de DVD. Algo que espicace você, mas não o distraia do que está no primeiro plano: escrever.

Afinal, você tem de encher todo aquele espaço em branco com exemplos de primeiras frases como “Um grito atravessou o céu”, de Thomas Pynchon, em Gravity's Rainbow, ou “A tristeza, a incompreensão e a desigualdade de nível mental do meu núcleo familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de inteligência”, de Lima Barreto, em Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

*Artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 17, março de 2007
(www.revistalingua.com.br)
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Ligeira, sim; superficial, não*




Pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, gênero merecia maior reconhecimento

por Luiz Ruffato

Ainda hoje há certa resistência em compreender a crônica como gênero literário específico. Esse equívoco talvez possa estar assentado num preconceito e num estereótipo. O preconceito advém de sua dupla origem plebéia: nascida nas páginas dos jornais, veículo utilitário e descartável, é cultivada em troca de um salário no final do mês. Nada mais abominável para aqueles que imaginam um ofício aristocrático para as letras... Já o estereótipo é aquele que reduz a crônica a “um comentário ligeiro a respeito de assuntos cotidianos, vazado numa linguagem simples e direta”, como se “ligeiro” fosse sinônimo de “superficial”, “assuntos cotidianos” fossem “irrelevantes” e “linguagem simples e direta” equivalesse a “linguagem pobre e reducionista”.

No entanto, pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, que em seus melhores cultores alcança excelência de estilo e força de transcendência, deveria ser-lhe assegurado um lugar mais digno nos compêndios de literatura brasileira, já que, quando estudada, encontra-se relegada a rodapés ou apêndices secundários. Isso acaba criando situações extravagantes, como os casos de Rubem Braga e Fernando Sabino, entre outros, contrabandeados ambos como ficcionistas menores, quando são de fato cronistas maiores. Essa camisa-de-força teórica deveria ser encarada pelos críticos como um desafio.


Talvez a razão esteja, mais uma vez, com os leitores que, ignorando essas questões, mantêm uma relação apaixonada com os cronistas — basta acompanhar o fenômeno em que se transformou Luis Fernando Veríssimo, cujas recolhas de crônicas sempre alcançam o topo dos livros mais vendidos. Também se pode auscultar o movimento editorial, que cada vez mais tem cedido espaço aos livros de crônicas — a Editora Global, por exemplo, mantém, desde 2003, uma coleção exclusivamente dedicada ao gênero, hoje com 17 autores, que vão desde campeões de venda, como José de Alencar, Machado de Assis, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, até autores como Roberto Drummond, conhecido como cronista apenas no âmbito de Minas Gerais. Ou pode-se ainda observar a permanência dos eternos best-sellers, além de Braga e Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Raquel de Queiroz.


Historicamente, a crônica brasileira estabeleceu-se no momento em que os jornais adquiriram caráter de empresa industrial, em meados do século XIX, portanto em plena vigência do romantismo. Afrânio Coutinho afirma que a nossa descende diretamente do personal ou familiar essay inglês, inicialmente denominada “folhetim” — palavra que mais tarde iria designar um gênero específico de ficção, publicada em fragmentos periódicos. O hibridismo da crônica, que dialoga ao mesmo tempo com o jornalismo, com a prosa de ficção e com a poesia, é o que dá a nota original ao gênero — sua riqueza ou sua deficiência, dependendo de quem a maneja.

Interessante é que a crônica não conhece exatamente uma evolução, pois os pressupostos do gênero já se encontram nos primeiros escritores que a ela se dedicaram, José de Alencar e Machado de Assis, a partir da década de 50 do século XIX. Eles perceberam de imediato a importância do espaço do jornal como forma de intervenção na sociedade, comentando desde pequenos incidentes cotidianos até os grandes fatos da nação, polêmico o primeiro, sarcástico o outro, nunca descurando ambos da língua. Alencar reuniu os seus escritos em livro, Ao correr da pena, ainda em vida, em 1874. Machado, com sua autocrítica impiedosa, embora tenha escrito perto de 700 textos, reuniu apenas seis no volume Páginas recolhidas, de 1899, além de um “debuxo” autobiográfico, a obra-prima “O velho Senado”. Posteriormente, seus trabalhos foram agrupados em diversos volumes.

Olavo Bilac, mais conhecido como poeta, foi, entretanto, também um badalado cronista no começo do século XX, escolhido para substituir Machado de Assis no prestigioso jornal Gazeta de Notícias. Mas quem forneceu contribuição original ao gênero por essa época foi João do Rio, autor que aos poucos vem sendo resgatado desse cipoal que se convencionou chamar “pré-modernismo” (como no excelente João do Rio, de Renato Cordeiro Gomes). É dele a síntese que melhor caracteriza o gênero — “espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro” — curiosamente seguido à risca por seu desafeto, Lima Barreto (cujas crônicas foram em sua totalidade recentemente reunidas por Beatriz Resende e Rachel Valença). Com o advento do modernismo surge uma geração de ouro na crônica, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rubem Braga, Joel Silveira, Raquel de Queiroz, Eneida, Carlos Drummond de Andrade, sucedida por outra não menos importante, José Carlos de Oliveira, Antônio Maria, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos.

Se não se deve falar em evolução, no sentido qualitativo e cumulativo, como exposto acima, a crônica, entretanto, desinibiu-se, ao longo do tempo, assumindo cada vez mais sua aspiração à permanência. Sendo ainda hoje possível ler com prazer as crônicas de José de Alencar, as de Machado de Assis oferecem, além disso, como toda sua obra, uma verdadeira reflexão a respeito dos costumes e hábitos da sociedade brasileira, atravessando praticamente todo o Segundo Império até a proclamação e instalação da República — reavendo assim seu caráter original de “relato dos acontecimentos em ordem cronológica”. O mesmo ocorre com João do Rio e Lima Barreto, tão díspares e tão complementares, em relação à compreensão do Brasil durante a República Velha.

O surgimento de Rubem Braga, na década de 30, dará um novo fôlego e uma nova diretriz à crônica brasileira. Ombreando-se a Machado de Assis, o capixaba introduziu uma voz personalíssima no gênero, transformando toda matéria objetiva em substância para sua imaginação lírica, explicitada numa linguagem límpida e clássica, que injeta um frescor e uma atualidade impressionantes aos seus verdadeiros poemas em prosa. Esta ousadia emularia Carlos Drummond de Andrade, que, estreando um pouco mais tarde, se tornaria voz e consciência de praticamente todo o período moderno da história brasileira, contribuindo para o resgate da crônica em versos — usada antes apenas pontualmente. E emularia também o bem mais jovem Fernando Sabino, que aproximou ainda mais a crônica da narrativa de ficção, de tal maneira que em sua obra se confundem, enriquecendo-se ambas.

E havendo subversão na forma, não poderia deixar de havê-la no conteúdo. O humor foi definitivamente incorporado, com Arthur Azevedo e Barão de Itararé e seus sucessores, Stanislaw Ponte Preta e Carlos Eduardo Novaes; e os temas, ampliados, como o futebol, na obra do genial Nelson Rodrigues, e a política, no inesquecível Carlos Castelo Branco. Hoje, quase todos os jornais e revistas possuem seus cronistas e até mesmo o mundo virtual da internet ensaia os seus — sinal de sua vitalidade.

Assim, se houver uma conclusão possível para este artigo, seria o de que não há “gênero” menor, mas escritores menores. Como em todos os outros gêneros literários.


*Artigo publicado na revista Entrelivros n° 13, maio de 2006, Duetto Editora
(www.revistaentrelivros.com.br)
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Receita






Recolha uma mão cheia de lágrimas e sorrisos frescos. Anote um punhado de pequenas e grandes dores. Registre, em letra miúda, sofrimentos extremos e acrescente uma dose farta de incontroláveis alegrias. Peneire o fermento, misture bem e deixe descansar à sombra.

Junte uma porção de frases inesperadas, como: “Se precisar de mim, não conte comigo”; “Pode ir embora à vontade”; “Como assim, sozinha?”. Adicione uma pitada de sal, outra de açúcar e uma colher de cravos-de-cheiro. Bata até adquirir consistência. Reserve para o recheio.

Apanhe uma série de imagens fugidias. Sugestões: um rapaz de uma perna só, de muletas, que leva uma caixa de engraxate no ombro. Um homem manco que baila na faixa de pedestres. Um velho que se aposentou e passeia sozinho pelo shopping. Uma mulher que perdeu o filho. Um menino que deseja um amigo. Alterne em camadas e cubra com suspiros.

Aqueça vozes solitárias em fogo brando. Pegue uma saudade nunca apaziguada, recorte-a em tiras finas e derrame angústias úmidas em tardes de domingo. Mexa suavemente até o ponto de calda.

Reúna os ingredientes, corte o excesso e leve ao forno preaquecido até dourar. Polvilhe açúcar refinado e decore a gosto. Sirva com delicadeza em porcelana antiga. Rende infinitas porções.
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Dentro do coração selvagem


Robson Oliveira







O fim da tarde chegava e com ela um pôr-do-sol que tingia o horizonte ocidental, com esplendorosas cores em fuga, permitindo ao azul do céu mesclar com o negro da noite, formando um imenso manto azul-celeste, com tímidos pontos cintilantes de estrelas que surgiam ao longe.

Um grupo de viajantes cansados chegou à savana, juntando-se em roda naquele crepúsculo em que a brisa anunciava uma noite agradável depois do escaldante calor do dia.

Eles estavam na aurora dos tempos e a vida continuava a dar seus primeiros passos e havia tanto a ser descoberto, criado e construído. Era inevitável não se deslumbrar com tudo, afinal, tudo era tão grande, assustador e novo. A dimensão colossal do horizonte escondia da vista lugares secretos prontos para serem desbravados. Tão maravilhosas eram as imensas colunas de montanhas ao longe, cobertas por majestosas nuvens brancas, que chegava a assustar os pequenos corações.

Quando do grupo se aproximou e uniu-se a ele o mais velho, e mesmo com passos cansados e aparência frágil, sua presença gerava segurança pelo olhar sereno e pela postura rígida da cabeça que nem o tempo esmoreceu. Qualidades que foram adquiridas com o caminhar de muitas luas.

Todos se sentavam em volta do chefe, como era respeitosamente chamado, e, como de costume, conversavam sobre tudo aquilo. Um dos mais jovens perguntou por que alguns lugares são tão árduos e outros tão aconchegantes; não poderia ser tudo de uma única forma? O velho chefe, mascando algumas raízes, pára por um instante e seu olhar se fixa num ponto distante do horizonte, como se lá procurasse a resposta do pequenino e com olhos ainda distantes respondeu ao jovem que devemos saber sobreviver nos dois tipos de lugares, porque assim teremos força para lidar com as adversidades e a boa-venturança.

Muitas perguntas foram feitas naquela noite iluminada somente pela intensidade do brilho das estrelas e da grandiosa lua que já velava o sono dos mais cansados. Algumas das perguntas eram fáceis e outras difíceis de serem explicadas, enquanto havia também aquelas ainda sem respostas. Com um sorriso perene, que escondia algo misterioso e fabuloso sobre a vida, o ancião olhava para todos, confortando-os até mesmo quando não tinha uma resposta para lhes dar.

Assim eram todas as noites desde o dia em que foram chamados à vida. Os perigos e a tristeza passaram a ser velhos conhecidos, dando a impressão de que nasceram juntamente com aquele vasto mundo.

A busca por alimentos esgotava o grupo e o tornava alvo fácil de criaturas assustadoras que povoavam todas as partes. Sobre cada uma delas havia tanto para se aprender, evitar e temer.

Mesmo assim, o ancião sabia que todas essas criaturas, todas as vidas deviam ser respeitadas, essa era a essência do ensinamento que passava para todos, como regra de vida para garantir segurança e paz.

A noite passou e com ela sonhos se foram e esperanças renovaram-se para mais uma longa jornada no dia seguinte.

A manhã cinzenta, com sol pálido, dá sinal de que água cairá do céu e precisam se preparar. Ao seguir pela grande savana, o ancião continuou a explicar o propósito de cada ser vivo, sem ignorar o incessante esforço dos mais pequeninos e sem menosprezar o lento passo dos grandes paquidermes. Assim, toda sorte de criatura ganhava um sentido e importância. Os jovens do grupo entendiam o que era liberdade ao verem os pássaros no céu; sabiam o que era persistência ao observar a aranha em sua teia e que era preciso renovar para sobreviver, assim como uma serpente troca de pele ou uma lagarta se torna borboleta.

A passos constantes, distâncias eram superadas e novas criaturas eram decifradas: a esperteza da hiena; o oportunismo do chacal e a ferocidade da onça. Cada uma com sua qualidade. Cada uma a sua maneira.

Ao longe, um jovem pergunta ao velho chefe sobre uma criatura que ainda não tinha visto. Pacientemente, o ancião tenta decifrá-la, explicando que se tratava de uma bela criatura cheia de significados e, como poucas, possuía quase todas as qualidades das outras e pela sua majestade era conhecida como o rei dos animais. Possuía a voracidade do fogo e o apaziguado da chuva. Sua alcatéia era inimiga de outras. A comida e os territórios eram alvos de ferrenhas disputas e os mais fortes mantinham o domínio. Mas, explicou, devia ser também respeitada e protegida a qualquer custo, por representar igualmente o prodígio da natureza em relação à vida, sendo, portanto, sagrada.

O ancião contemplou a temível criatura com coração compreensivo, embora temeroso. Depois de muita reflexão suspirou...

Será ele humano? Pergunta-se o velho chefe antílope.


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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Homo Simius

Chego ao restaurante natural um pouco antes do meio-dia. Está vazio e há várias mesas desocupadas. Carrego quatro livros para devolver à Biblioteca e uma pasta cheia de papéis. Escolho um lugar no canto e os deixo lá antes de pegar a fila.

À minha frente, um grupo conversa com entusiasmo, ignorando a recomendação de não falar próximo aos alimentos. Cinco amigos de terno escuro debatem gestão de carreira. Absenteísmo, rotatividade e síndrome da exaustão flutuam cheios de germes sobre a comida.
Depois de pesar o prato, me dirijo à cadeira que escolhi. Para meu espanto, meus objetos foram trocados de mesa. O lugar foi ocupado por um dos cinco amigos, que está de costas para mim. Espero o pedido de licença ou desculpa:
— A senhora se importa em mudar de lugar? Queremos ficar juntos.
Ou:
— Desculpe-me, tomei a liberdade de mudar suas coisas para me sentar junto de meus amigos. A senhora se incomoda? - ao que, provavelmente, eu responderia: — Não, tudo bem. Bom apetite! - E tudo estaria em paz.

O homem não se vira. Os outros parecem ignorar o ocorrido. Penso em lhe dirigir a palavra, mas tenho receio de uma grosseria maior que estrague meu dia, como o gesto indelicado tirou minha fome. Resolvo me calar e engolir o bobó de palmito.

O assunto agora é gestão de pessoas. MBAs e doutorados pairam no ambiente, abafam o som dos talheres e silenciam os temas corriqueiros discutidos nas outras mesas.


Termina o almoço deles — o meu nem começou. Tenho a vaga esperança de ainda testemunhar um ato de arrependimento. Levanto-me e os sigo até a fila do caixa. Carrego os livros e a pasta na altura do peito para mostrar que eram meus. Nenhuma reação. Os homens pagam a conta e compram bananinhas de sobremesa.


Não desisto. Caminho atrás do grupo em direção à esteira rolante. Estão em silêncio, empanturrados, talvez. Dou-lhes mais uma chance: passo por eles bem devagar, olhando cada um nos olhos, a pasta e os livros bem expostos. Dois examinam meu corpo; um palita os dentes; outro me olha, mas não me vê. O principal suspeito observa a pasta, os livros, me encara e diz:
— Com licença...
— Sim? - pergunto, redimida.
— A senhora está atrapalhando a passagem -, e acelera a marcha, seguido pelos colegas.
— Pior que atrapalhar a passagem é mexer em objetos alheios - digo em pensamento, enquanto balbucio um pedido de desculpas que não ouvem, pois já vão longe.

Desnorteada pelos recentes acontecimentos, encosto-me na parede, respiro fundo e me lembro de que é hora do dentista. A chuva engrossou. Saio correndo até o carro e, de longe, avisto um bicho morto pendurado na janela do motorista. É o retrovisor, arrancado com fúria, mas ainda preso aos fios elétricos. Cancelo todos os compromissos e vou me refugiar em casa: o Homo Simius está à solta.
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Meditações sobre Estela

Robson Oliveira







Os primeiros acordes do piano romperam o silêncio da sala, com uma bela melodia que parecia soar das fagulhas da lua, que meu reflexo reproduzia nas paredes como se fossem pirilampos estáticos. Acordando- me de um profundo sono. Uma criança entra na sala com um gato em seu braço e no outro arrastava um cobertor, interrompendo o belo prelúdio com seu dengo. Com voz embargada e olhos marejados, dizia sentir falta da mamãe.
O homem põe a criança no colo, declarando também sentir saudade dela.

Mas o que será saudade? Será que somente humanos sentem saudade? Acredito nunca ter refletido essa tal de saudade.
Confortada nos braços do pai, a criança pergunta-lhe se o gato de sua mãe também sente saudade. O pai, com um sorriso, responde: quando miar, é porque ele também está com saudade.

E como é a saudade? Insiste o garoto, deixando o gato escapar para o corredor. O pai pondera e diz que muitos sentimentos poderiam ser explicados pelas cores: enquanto o verde significa a esperança e o laranja expressa a alegria, o azul seria a saudade que, vasta como o céu, seria impossível ser comprimida. Isso mesmo! Nada de preto nada de branco, somente o azul, essa é a cor da saudade. A criança pareceu entender o seu significado, embora para mim não tenha nenhum sentido.

Chamo-me espelho de Estela, e ao contrário do que pensam sobre nós, espelhos, somos andróginos, não masculinos.

Fico numa parede e reflito um piano e parte de um grande vitral, coberto por uma cortina escarlate com motivos dourados, que quebra algumas vezes a quietude do ambiente com meneios causados pelo toque da brisa. Poucas pessoas entram na sala, em razão do quê grande parte do tempo permaneço como uma peça de ornamento, sem vida nem reflexos. Mas possuo percepção impecável, nada foge à minha vista, nem mesmo os mais sorrateiros ou ínfimos movimentos escapam à minha vigília.

Será que a saudade já passou por aqui e eu não a vi? Impossível! Saberia se passasse.

A faxineira entra na sala para as tarefas pouco costumeiras naquele ambiente, passa um pano em minha face, contemplando seu rosto. Isso é angústia! Olhar distante e pouco atenta ao que faz. Não sei o que será de mim sem esse emprego. Ela me dá as costas, deixando sua dúvida comigo. Roxa. Essa é a cor da angústia.

Não demorou para que outra pessoa entrasse na sala, um senhor, que veio buscar uma pequena mesa de centro e, ao passar diante de mim alisa a barba por fazer. Não acredito que essa casa será vendida. Ele sai rumo ao corredor, deixando sua surpresa comigo. Vendida? Lilás é a surpresa.

Reflito não só um mundo de imagens e representações. Como poucos, sou conhecedor do âmago humano e, quiçá, o mais perspicaz de todos na face da terra, não fosse pela tal da saudade, pois percebo além dos reflexos, seguindo por caminhos miméticos e contemplando o artificial e fantástico mundo dos homens, concebido pelo plano das idéias de seu imaginário. É como você estivesse se vendo, através dos olhos de outra pessoa. Transparente é a perspicácia.

Os dias se passaram e novamente desperto de meu torpor com vozes pela sala. Um casal nos visita e demonstra interesse em comprar a casa. E, como sempre, sou irresistível para mulheres. Espero que esse idiota compre esta casa, é grande o suficiente para eu não ficar próximo a ele o tempo todo. Sentindo seu cheiro insuportável que nem os perfumes mais caros conseguem dissimular. Estou tão linda! É um desperdício, para não dizer um absurdo, uma mulher como eu ser usada por um grosso e nojento. Em compensação, o dono da casa é um charme. Será que é casado? Isso não tem nenhuma importância. Luxúria, a cor escarlate. Ela me dá as costas, enchendo seu marido de beijos dizendo que o amava e que adorou a casa. O homem de meia idade passa a minha frente e percebe que o batom de sua esposa tinha lhe borrado os lábios. Ele se aproxima de minha côncava face sem saber que será revelado, esfregando as costas da mão sobre a boca. Que nojo! Se não fosse pela presidência da empresa não estaria com essa mocréia fazendo seus gostos, e o melhor, não precisaria me encontrar às escondidas com o Roberto. Ele se distancia, dando o braço a mulher, seguindo rumo ao corredor. Hipocrisia, tonalidade indefinida mesclada com a luxúria, resulta na combinação fatal de coloração bordô.

A sala fadada ao vazio de sentimentos novamente cumpre seu papel, quebrado momentaneamente por uma borboleta de coloração vibrante. Há em suas asas muitas cores das emoções humanas, talvez haja também a saudade, voando para fora da janela junto ao fibrilar das asas para estar em muitos lugares, indo e vindo sem convite, mas nunca se aproximando de mim.

Nos dias seguintes, outras pessoas visitaram a casa. Pude refletir infinidades de emoções num variável arco-íris descompassado: o vermelho paixão, a avareza do marrom, a doçura do rosa, a tristeza do preto, o vazio do branco, menos o azul da saudade.

A noite cai, e com ela uma forte dormência, misturada a um desejo forte de cor verde-escuro de conhecer a saudade. Talvez a encontrasse nos sonhos, caso nós espelhos, sonhássemos.

Os primeiros acordes do piano romperam o silêncio da sala, com uma bela melodia que parecia soar das fagulhas da lua, que meu reflexo reproduzia nas paredes, como se fossem pirilampos estáticos. Acordando- me de um profundo sono.

Sobre meu reflexo, a imagem de um homem ao piano transmite em sua música o tom preto da tristeza, em compasso com o vazio do branco. Estela!!! Esse é o nome que vem à sua mente, acompanhado de uma explosão de sentimentos multicores: o cinza da solidão, a lembrança, de tom amarelo- claro fugido com madeixas de um verde esperançoso. Espere... não é dor de cor inconstante ou solidão acinzentada, mas é também dor e solidão misturadas a um frenesi de cores, regidas pela sublime lembrança. Lembranças amiúde corriqueiras, esquecidas pela carruagem cor de prata da morte, que levara Estela para o mundo do branco vazio, deixando apenas um rastro da triste cor. Se dissesse que é uma esperança às avessas, teria entendido melhor.

Uma criança entra na sala com um gato em seu braço e no outro arrastava um cobertor, interrompendo o belo prelúdio com seu dengo. Com voz embargada e olhos marejados, dizia sentir saudade da mamãe e em seguida, o bicho gato miou. Com a leveza de uma brisa, eis que surge uma suave dor nos corações maculados, fazendo aos poucos dissipar as demais cores, permitindo-as apenas que ressoassem como num término de uma orquestra, prevalecendo a lembrança e a esperança, o amarelo e o verde, unindo-se em prol de uma nova cor. Enfim, entendo a saudade, nada de preto, nada de branco. Simplesmente o azul.






Robson Souza de Oliveira, brasiliense Bacharel em História, desenvolve pesquisa relacionada aos mitos e suas influências nas instituições seculares de governo.




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domingo, 17 de fevereiro de 2008

Amém!




Ainda estava escuro quando o grito de mulher acordou a vizinhança. Logo em seguida, as batidas frenéticas na janela do quarto:
— Dona Loíde, corre! É o Menino!
Levantou-se assustada e abriu a janela apesar do vento gelado.
— O que foi, Dona Maria?
A cara preta estava transtornada.
— É o Menino! Quebraram as pernas dele! Ele não anda, coitadinho...
Meio tonta, vestiu um casaco e correu para a casa ao lado. Menino estava quieto, em cima do sofá. Parecia dormir. Dona Maria o pegou no colo e o pôs no chão para que andasse. Ele não se mexeu.
— Vem pra mamãe, vem! - Ela disse, agachando-se, mas não adiantou. Pegou-o de novo, com carinho, e tocou suas pernas finas e moles — pareciam realmente quebradas.
— Vamos para o pronto-socorro - decidiu a vizinha, conhecida pelo coração bondoso e pela calma que sempre mantinha em situações de emergência. Vestiu-se rápido e ligou para o ponto de táxi, mas o Sr. Afonso, único taxista na cidade, não acordou do sono profundo.
— Pega a bicicleta, Dona Maria. A senhora vai na garupa. - Enrolaram o Menino num edredom e desceram a ladeira, ainda no escuro, até o centro da cidade. O plantonista também precisou ser acordado.
— Qual é o plano de saúde? - perguntou, sonolento.
— Plano de saúde? Não tem, não, senhor.
— Cartão, cheque ou dinheiro?
— Uai, precisa pagar?
— É claro, dona. Pensou que fosse de graça?
— Pensei, uai. Como é que eu vou fazer, meu Deus? - Abraçou com mais força o Menino, que continuava de olhos fechados.
— Pode deixar, Dona Maria - interveio a vizinha, com a tranqüilidade habitual. — É cheque, moço. Faça o que for preciso - disse, educadamente, ao rapaz no balcão.
O Menino foi auscultado, radiografado e, finalmente, tomou uma injeção com um potente antiinflamatório.
— O que é que ele tem, doutor? Por que não anda? Ele vai melhorar? - quis saber a mulher.
— É só uma inflamação nas juntas, minha senhora. Precisa de repouso e alimentação. Canja de galinha é bom. Se não melhorar, a senhora volta amanhã.
Já estava claro quando as duas mulheres subiram a ladeira até em casa, uma empurrando a bicicleta, a outra, segurando com cuidado o paciente envolvido no edredom.
— Vou dormir mais um pouco, Dona Maria. Dê notícias mais tarde.
— Deus lhe pague, Dona Loíde.
— Amém.
Dormiu não mais que duas horas, um sono leve e confuso. Sonhou que o Menino morrera e era velado num pequeno caixão no centro da sala da vizinha. Preocupada, resolveu preparar a canja que o médico recomendara. Sabia que a dispensa da amiga estava vazia.
Quando chegou à janela, sentiu-se aliviada ao ver que Dona Maria e o Menino assistiam ao programa da Ana Maria Braga — ela adorava as receitas e, ele, o Louro José.
— Como ele está, Dona Maria?
— Parece que está reagindo, Dona Loíde. Até já abriu os olhos!
— Eu fiz a canja de galinha.
— Deus lhe pague.
— Amém.
Depois do almoço, precisou voltar ao centro para pagar umas contas. Na Boa Vista, encontrou, por acaso, sua comadre e sentou-se com ela numa lanchonete para tomar café e pôr os assuntos em dia. Eram tantos e tão interessantes que ela acabou se demorando mais do que pretendia. Sentiu-se culpada, pois Dona Maria poderia precisar dela.
Quando virou a esquina de casa, percebeu um alvoroço. Apressou o passo, com um mau pressentimento. Ao chegar ao portão, parou: Dona Maria, sentada na porta da sala, a cara preta radiante, observava, com orgulho, o passeio do Menino pelos canteiros de couve.
— Vem pra mamãe, vem! - chamou a mulher. Ele veio, as pernas agora firmes, os olhos miúdos atentos, a crista empinada, metade de uma minhoca no bico. A vizinha correu para abraçá-la:
— Deus lhe pague, Dona Loíde!
— Amém, Dona Maria.
Todos dormiram muito bem aquela noite. Na manhã seguinte, ainda estava escuro quando o grito do Menino acordou a vizinhança.
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Perfídia

Liana Ferreira



Estás a imaginar coisas... Não te dou motivos para não confiares em mim. Não sabes que eu te amo? Por que eu ia perder o meu tempo com envolvimentos sem futuro, se escolhi ficar contigo.

Bentinho, cabisbaixo, apoiava a cabeça com a mão direita, polegar embaixo do queixo e indicador deslizando por sobre os lábios. Sentado na poltrona, permanecia calado, seu olhar perdido no vazio. Não tinha sorte com as mulheres. Fora sempre assim. Capitu não o tinha traído descaradamente com seu melhor amigo? Cresceram juntos, contavam com a guarida de suas famílias, mas a pequena era ardilosa e ele não tivera um só dia de tranqüilidade conjugal. Melhor que tivesse continuado sozinho — pensava ele - mas deixou-se envolver desgraçadamente pela beleza de Luísa.

Minha mãe, D. Glória é que estava certa. Eu deveria ter sido padre!
Casei-me com Capitu e tive que amargar a desventura de criar o filho alheio como se fosse meu, e testemunhar o choro copioso de minha mulher, diante do corpo sem vida do amante, e agora....

Esqueça a Capitu, Bento Santiago! Agora somos nós dois.

Luísa Mendonça Brito de Carvalho ajoelhou-se aos pés de Bento e acariciava-lhe as pernas enquanto falava baixinho:

Meu amor, eu já paguei muito caro pelos meus erros de juventude e aprendi a lição. Se eu traí o Jorge, e realmente o traí, foi somente porque eu era demasiado jovem e ele me deixava por longos períodos sozinha, mergulhada naquele mundo de futilidades. Deus é testemunha do meu arrependimento e você precisa me entender.

Para mim, não é fácil acreditar...

Meu querido, esqueça o que se passou. Minha vida hoje é muito diferente da que eu levava no meu primeiro casamento. És uma pessoa diferente. És inteligente, me cobres de atenções. Sugeres-me boas leituras. Lembre-se de que eu só lia romances açucarados e ficava sonhando pelos cantos desejando ser Margarida Gautier e ter um amor naqueles moldes, achando a minha vida uma sem-gracice.
Se tenho pena do meu antigo marido, tenha mais pena de mim. Tive que suportar tantos tormentos: a vida insossa e invernal da burguesia lisboeta; a humilhante condição de ter que servir como escrava, atendendo aos caprichos desmesurados de uma reles serviçal, e a constatação tardia de ter sido usada por um homem sórdido. Padeci dores cruéis. Dores do corpo e da alma. Não fui capaz de resistir às adversidades e sucumbi, vítima da chantagem e dos maus tratos de uma tirana e do abandono e indiferença do meu astucioso primo.

E não eras apaixonada por ele?

Luísa levantou-se e foi até a janela. Olhou melancolicamente para a lua nova que brilhava no céu e deixou que as lágrimas caíssem fartas sobre sua face. Então falou:

Na verdade, Bentinho, nunca amei verdadeiramente outro homem que não a ti. Casei com Jorge para não ficar solteira, como era costume naquela época e desejo de toda moça. Jorge também estava longe de ser um marido apaixonado. Fez um casamento de conveniências. Resolveu se casar logo após a morte de sua mãe porque sentia-se muito sozinho e com a sua vida desorganizada...

Eu te perguntei sobre o Basílio!!...

Minha infeliz história com o meu primo é uma fantasia sentimental. Não foi amor verdadeiro. Basílio representava para mim o novo, o moderno, o desconhecido que eu imaginava existir para além daquele grupo de medíocres criaturas que povoavam o meu universo. Basílio tinha sempre estórias exóticas para contar e eu me distraía com elas. Tinha a ilusão de estar escapando do tédio que era aquela minha vida de casada. Ele era sedutor e envolvente e, hoje sei, muito vulgar também. Mas naqueles tempos eu não tinha maturidade para estas reflexões. Caí na armadilha que ele tão bem planejou. O que faltava em mim, sobrava nele: malícia. Aliás, sobrava em todos ao meu redor. E como bem sabes, porque não é a primeira vez que te conto esta história, quando poderia ter encerrado aquele relacionamento que nenhum ganho me trazia, já não havia tempo. Estava sob a mira de Juliana, num beco sem saída, paralisada de medo. Sofrendo uma pressão que não fui capaz de suportar. Havia muita inveja naquela criatura odiosa. Feia, virgem, solteirona e bastarda, ela foi uma algoz impiedosa e eu não podia contar com ninguém, nem comigo mesma.

Sentou-se novamente ao pé de Bento Santiago que escutava em silêncio, ensimesmado e triste. Segurou fortemente as mãos dele e falou:

Eu sou feliz contigo e não quero que nada estrague essa felicidade. Quero que entendas que aquela jovem romântica, ingênua e irresponsável não existe mais. Hoje sou uma mulher madura e não cometeria novamente os mesmos enganos.
Precisas controlar este teu ciúme e afastar estas desconfianças que só te fazem mal, e em mim ressuscitam fotografias inquietantes de um passado que quero esquecido.

Bento Santiago levantou-se da poltrona e caminhou até a porta do quarto arrumando o nó da faixa do roupão. Depois virou-se para Luísa e passando as duas mãos pelos cabelos, disse:

Como posso me controlar se te vejo risonha e falante, sempre cercada de pessoas interessantes a te admirar os modos e a beleza?

Luísa sorriu um sorriso amarelo e sem desviar o olhar de Bento, levantou-se dizendo:

Logo se vê que não tens motivos para duvidares da minha fidelidade. Acaso não acreditas que sou outra pessoa? Que mudei muito nestes anos e que não poderia desejar mais da vida do que o que tenho contigo. A teu lado sinto-me completa e segura. Deixa-te de estórias e vamos dormir, que já é tarde. Amanhã trabalhas cedo e eu tenho terapia às 11.

Ao acordar Bento parecia mais calmo e tinha a alma apaziguada. Sua doce Luísa tinha-lhe proporcionado uma inesquecível noite de amor. Era sempre assim depois de algum desentendimento e sobrava nele essa sensação profunda de que precisava travar uma luta interna se quisesse se libertar dessas delírios sistemáticos, dessas desconfianças que não o deixavam relacionar-se bem com mulher alguma.

Já eram quase 13:00h quando o carro parou em frente ao prédio de escritórios. Luísa olhou para o relógio enquanto aguardava o troco. Desceu com passos firmes e olhou para os lados como se procurasse algo. Atravessou a calçada com cuidado para não enfiar os saltos dos sapatos nos buracos abertos, entrou no prédio sem cumprimentar ninguém e parou em frente ao elevador. Enquanto subia até o 5º andar, soltou os cabelos e os arrumou displicentemente usando os óculos escuros como prendedor.

Ao invés de apertar a campainha bateu de leve na porta com os nós dos dedos quatro vezes. A porta se abriu de imediato e Charles Bovary a abraçou e a carregou até a cama de exames. As mãos dele, afoitas, entravam apressadas pela blusa dela em busca dos rosados mamilos e suas línguas descortinavam um mundo já experimentado de delícias.

Era assim que começavam as tardes de terça.
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Promessa


No dia 7 de julho de 2007, após consultar o horóscopo (Capricórnio: Fase propícia para o resgate de emoções contidas. Viagens potencializadas.) e a numerologia (7: número sagrado, simboliza a totalidade, a plenitude, a perfeição.), tomei coragem e adquiri duas passagens de ônibus para minha cidade natal, que eu não visitava há trinta anos. Parte da família já fora de carro e nos aguardava na casa da minha tia para sete dias de férias.

Na rodoferroviária suja, comprei de um suposto surdo-mudo, por 7 reais, uma medalhinha de São Cristóvão para nos proteger na viagem. Segurei-a durante todo o trajeto, enquanto meu filho dormia tranqüilo na poltrona ao lado. Funcionou: chegamos, ao nascer do dia, a salvo de acidentes ou roubos, e fomos recebidos na rodoviária pequena e limpa.

Um breve descanso, um farto café da manhã na mesa da cozinha e dei início à visita ao passado que eu tanto adiara, com medo de confrontar lembranças tão antigas. Sob a escolta do bravo e leal exército reunido na rara confluência planetária — éramos sete —, aventurei-me nos espaços físicos e emocionais que há muito ocupavam um canto esquecido da memória.

Deparei-me, logo na primeira esquina, com a menina quieta, de olhos grandes, cabelo comprido preso com laço de fita, e que comia o mundo como doce de mamão verde. Com ela revi amores de infância, refiz trajetos que me doíam, redesenhei vultos e reescrevi conversas perdidas. Aparei-lhe uma lágrima no rosto miúdo. Com as mãos pequeninas, ela tocou meus lábios e abriu meu sorriso.

Brincamos madrugada adentro, quando todos dormiam. Relembramos cantigas de roda, jogamos cinco marias no chão fresco da sala, ouvimos discos na radiolinha vermelha, presente do nosso pai. Mostrou-me as bonecas, o piano de brinquedo, os primeiros livros. Mostrei-lhe dois filhos: o menino e o livro. Ela os acariciou por longo tempo e me disse ao ouvido: — Somos felizes!

— Quantos anos você tem? - quis perguntar-lhe no último dia, mas não era preciso.

Sete: número sagrado, simboliza a totalidade, a plenitude, a perfeição. São sete os planetas, as fases da lua, as cores do arco-íris. São sete as notas musicais e as artes. Há sete pecados capitais. Foram mapeadas, até agora, sete virtudes humanas. Durante sete dias senti-me inteira, plena, quase perfeita.

Dizem os especialistas em emoções humanas que nunca devemos retornar aos lugares onde fomos felizes, sob pena de sofrermos. Ao contrário, quero visitá-los sempre que possível, para não perder de vista quem sou.

Na chegada a Brasília, encontro debaixo da porta um papel florido com letra de criança: “Promete voltar logo?” Respondo no mesmo papel, com letra adulta: “Prometo”.
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O Quebra-Cabeças



Liana Ferreira



As peças tantas vão-se amontoando em minha frente numa desordem monumental e eu me sinto perdido. Ligeiramente tonto, percebo o tamanho da tarefa que preciso executar. Juntar estas peças todas e organizá-las em um quadro perfeito será minha derradeira ocupação e me dedico a esse trabalho com devotamento.


Pegando em cada pedaço, atentamente, vejo descortinarem-se as histórias que vivi e, perplexo, concluo que na maioria das vezes contentei-me em ser coadjuvante onde teria que ser o ator principal. Custo a reconhecer-me em algumas cenas, desconfio de alguns cenários, duvido de algumas imagens. Elas não parecem reais, recriam a mesma coisa inúmeras vezes sem produzir nada de novo, substancial. Montando o quebra-cabeças, persigo a minha verdade e almejo desnudar as ilusões. Temos sempre tantas ilusões acerca de nossas vidas...


Com indisfarçável inquietação revejo o meu passado: semanas, meses, anos, o tempo implacável desfilando diante de mim, soberano, vitorioso. Tento-me concentrar no futuro, mas parece que não há; tudo é passado e, no presente, apenas este imenso quebra-cabeças e minha incapacidade para montá-lo. Vejo as oportunidades desperdiçadas; tanto lixo acumulado. Tenho medo. Sinto frio. Há um imenso inverno dentro de mim. Procuro agasalhar-me, mas das lembranças vem um sopro gélido que me penetra os ossos. Quero desistir, mas não posso. É preciso ter calma, saber exatamente o que fazer em seguida. Vacilante, fico girando ao redor da mesa. Afasto-me um pouco e deste novo posto de observação percebo que há uma tênue opacidade no canto superior direito da figura. Só consegui arrumar os cantos. Já o centro, que é o que realmente importa, permanece balburdiado. Esforço-me para encontrar algumas peças que estão sumidas e aparecem-me outras que já nem mais supunha que existissem: antigas feridas, velhas cicatrizes, acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, ressentimentos eternos; sombras que correm atrás de mim, incansáveis. Um amontoado de ossos esparrama-se em um canto e seu tilintar agudo fere-me os ouvidos. Martiriza-me porque insiste em me contar todos os meus segredos. Fatos ocultos, tramas, misteriosos enredos tão bem guardados nas gavetas dos meus dias. Tento impedir que minha própria voz se pronuncie e olho ao redor da sala com olhos míopes. Um forte cheiro de mofo invade as minhas narinas. São muitos os cadáveres insepultos, fantasmas que ameaçam me perseguir para sempre. É urgente recolher esses ossos. É urgente que lhes dê uma cova.


Os últimos raios de sol já caíam sobre a tarde e refletiam sua pálida luz nas lápides marmóreas, quando lentamente e em procissão, chegaram todos até a campa aberta. Sem pressa, mas de modo irreversível, os acontecimentos vão-se sucedendo enquanto os ponteiros avançam nos quadrantes do relógio. Até que os coveiros descem o caixão preso por barulhentas correntes e abandonam o morto na mais completa e desoladora solidão.
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sábado, 2 de fevereiro de 2008

Bravo!






— Você gosta de Fernando Pessoa? - perguntou a diretora, na porta da sala.
— Adoro! - ele respondeu, olhando-a bem nos olhos, conforme aprendera no curso de Comunicação Assertiva.
— Então, conto com você no sarau hoje à noite.
— Com prazer. - Ela saiu, satisfeita, para convidar os demais funcionários.
O cargo de Chefe de Recursos Humanos estava em aberto e ele era o mais bem cotado para assumi-lo.

Certificou-se de que a diretora se afastara antes de abrir a Internet. Desanimou com o número de ocorrências para “Fernando Pessoa”: 2.810.000, em várias línguas. Um simples cantor de fados? Acessou a Wikipédia e, para sua surpresa, descobriu que não se tratava de um cantor, e sim de um grande poeta português. Tentou fazer algumas associações: Pedro Álvares Cabral, piadas de português, dentistas brasileiros... Não foi além disso. Imprimiu a página para ler durante o almoço e talvez decorar as informações mais importantes.

Já estava no corredor quando se lembrou da outra palavra que desconhecia. Devia ser importante: 1.110.000 ocorrências para “sarau”. Teria a ver com saúde? Imprimiu o verbete e guardou-o no bolso. Seria preciso abreviar a refeição para conseguir ler tudo. Logo hoje que não comera nada pela manhã! A placa com seu nome na porta da Chefia de Recursos Humanos valia o sacrifício.

Às 19 horas, o novo auditório ainda estava vazio, mas parte do elenco já estava a postos no palco decorado com mesas, velas e um grande retrato que, orgulhoso, reconheceu ser de Fernando Pessoa.

Sentia-se cansado e sonolento. Geralmente, a esta hora já estaria descansando no sofá de casa, enquanto a janta ficava pronta. Hoje, entretanto, precisava não só assistir ao espetáculo, mas também impressionar a diretora. Observou-a tomar assento na primeira fila, correu para sentar-se ao seu lado e tirou discretamente do bolso do paletó as anotações que fizera.

— Obrigado pelo convite - disse-lhe. Adoro saraus!
— É mesmo? Você vai a muitos? - ela quis saber.
— Não perco um, ainda mais agora que estão se proliferando no país inteiro!
— São um alimento para a alma - afirmou ela.
— É verdade. Sabia que o primeiro no Brasil foi realizado em 1750, em Minas Gerais, pela Academia dos Renascidos?
— Eu não sabia! Que nome sugestivo, não?

A conversa foi interrompida por um estrondo: uma das atrizes tropeçara num buraco escondido pelo novo carpete e dera de cara no chão. O tombo não teve conseqüências maiores, apenas o rosto inchado, que exigiu a aplicação de uma bolsa de gelo durante o evento.

— Então, Pessoa ou Camões? - ele disparou, mudando de assunto. Precisava aproveitar bem o tempo.
— Difícil dizer - respondeu ela, agradavelmente surpresa com a cultura demonstrada pelo colega.
— Se tivesse vivido outros 47 anos, hein?
— É mesmo. Imagine o que teria produzido!
— Você acha que a mudança para a África do Sul influenciou sua obra? - indagou ele.
— Claro! Foi onde ele aprendeu a língua inglesa.
— "I know not what tomorrow will bring... " - recitou com a pronúncia caprichada adquirida na Thomas.
Ela o olhou comovida: — A última frase do grande poeta...
As luzes piscaram duas vezes. Precisava se apressar.
— Campos ou Caeiro? - continuou, após consultar as anotações.
— Caeiro, definitivamente.
— Também acho! O guardador de rebanhos...
Antes que pudesse concluir a frase, as luzes se apagaram. Na abertura foi declamado um extenso poema. Notou que uma das atrizes mantinha os olhos fechados, extasiada, o rosto ligeiramente levantado para o lado esquerdo. Ele adotou a mesma postura, aproveitando para cochilar um pouco. Foi despertado com as palmas, às quais juntou as suas, gritando com veemência: — Bravo!
— Este poema sempre me emociona - disse, enxugando os olhos úmidos de sono.
— A mim também - concordou ela.
Poemas e músicas se sucederam sem que ele tivesse tempo de demonstrar outros conhecimentos anotados durante o almoço. Nos textos maiores, fechava os olhos, inclinava ligeiramente o rosto, simulando êxtase, e tirava um breve cochilo, que ninguém notava e do qual sempre era acordado pelas palmas. Por coincidência, o último e longo poema era do heterônimo Alberto Caeiro, sobre o qual copiara uma provocativa observação de um estudioso da obra de Pessoa. Desta vez, cochilou um pouco mais profundamente. Ao sentir um leve toque no ombro, irrompeu em palmas e disse, com um meio sorriso:
— Era preciso mesmo matar Caeiro?!
A faxineira olhou, assustada, aquele homem que aparentemente passara a noite no auditório e acordara dizendo coisas incompreensíveis, a baba escorrendo do canto direito da boca.

Ele correu para o salão, na esperança de ainda encontrar os outros no coquetel. No escuro, prendeu o pé no buraco do carpete e soltou um grito de dor. A perna engessada o impediu de assistir à posse do novo Chefe de Recursos Humanos.

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No Restaurante

Liana Ferreira




São vinte e duas horas e o restaurante tem poucas mesas disponíveis para o jantar. É quarta-feira, o coração da cidade bate acelerado e só um ouvido muito atento conseguiria captar as conversas embaralhadas que se multiplicam no recinto. Algumas palavras aqui e ali, misturadas com as de outras mesas, não fazem o menor sentido. Risadas vindas de trás e cumprimentos à chegada forçam-me a virar para olhar e, então, resolvo mudar de mesa. Escolho uma posicionada estrategicamente para que nada fique fora do alcance dos meus olhos.

Na mesa mais próxima, um casal janta em silêncio. Têm aproximadamente 60 anos e muito dinheiro, a julgar pelo vinho que estão bebendo. Comem como se cumprissem uma tarefa enfadonha. Seus olhares, quando se cruzam, muito rapidamente, não deixam transparecer nenhum clima de romance. Mas são casados. Ostentam com orgulho desmedido um par de grossas alianças compradas nessas lojas de preços obscenos. Comem sem pressa. Trituram o alimento entre os dentes, jogando-o de um lado para o outro, dentro da boca, com a mesma maestria com que lidaram com as suas próprias vidas.

Suponho que tenham vindo de Mato Grosso logo após a inauguração de Brasília. Ele deve ter ganho muito dinheiro com a construção civil, enquanto ela se distraía organizando chás beneficentes e cuidando da educação dos filhos. Não parecem felizes, mas com certeza, se tivessem outra chance, fariam tudo igual novamente. Amanhã, depois de assistir à missa, ela passará horas admirando suas jóias, enquanto ele se distrai num quarto de hotel.

Uma sonora gargalhada desvia a minha atenção para a mesa mais ao fundo: sete homens comem e conversam animadamente. Parece que foram moldados em uma mesma forma e fabricados em série, tal a uniformidade de atitudes. Devem ser paulistanos. Portam-se como se entendessem tudo de todas as coisas e falam de assuntos da República como se íntimos fossem do primeiro escalão. É provável que não tenham a importância que tentam aparentar.

Um garçom passa ao meu lado com um balde de gelo e champanhe Veuve Clicquot. Lanço um olhar por todo o salão tentando descobrir de quem é o pedido . Não é difícil. Embaixo da escada há uma mesa na penumbra onde um casal se olha com tanta paixão e desejo que neles há mais brilho do que na garrafa amarela e dourada. A figura do garçom por si só é capaz de imprimir um caráter de importância àquele momento. Esforça-se para servir o champanhe com solenidade, mas sem demora. Sabe que precisa deixá-los a sós.

O tipo físico da moça — ela tem uns trinta e cinco anos — não me permite arriscar um palpite sobre a sua naturalidade. Por isso mesmo vou dizer que é candanga. Mas seu parceiro, sobre este não tenho a menor dúvida: é sergipano. Há no olhar dos sergipanos um-não-sei-o-quê-de-sem-vergonhice que sou capaz de reconhecer ao longe.

Alheios aos enredos simultâneos que se desenrolam no restaurante, entre goles de bebida e roçar de mãos, arrebatados, percorrem um mesmo caminho misterioso de espantos e deliciosas descobertas — ele de tantos outros amores passados e ela que também já fora feliz alguma vez.

Pago a minha conta e, sem pressa, dirijo-me à porta de saída. Lá fora, uma enorme lua solta ilumina a madrugada melancólica. Entre jaqueiras e ipês vou, aos poucos, deixando para trás tantos personagens e suas histórias — agora livres para viverem as suas verdades.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira