Vaga privativa


O diretor me olha, desconfiado, se inclina um pouco e me diz em voz baixa:
— Quando você terminar, dê uma passadinha na minha sala. Quero dar uma palavrinha com você.
— Comigo?
— É.
— Está bem... - respondo, sem saída.
As palavras se embaralham na tela do computador. Começo a tremer, antecipando a bronca. Só se é chamado à sala do diretor quando se fez algo muito grave. Revejo mentalmente o trabalho da semana. Será que deixei passar um número errado de projeto de lei, uma frase sem sentido ou, pior, um xingamento, quer dizer, uma expressão anti-regimental?
Respiro fundo, tento me imaginar numa praia bem tranqüila com coqueiros, mas não consigo impedir as lágrimas, de início discretas, e logo depois caudalosas. Ainda bem que todos estão muito ocupados com a cota cheia de plenário para notar alguém chorando. Termino mal os discursos que faltam, deixando passar, agora sim, por falta de condições emocionais, números errados, frases sem sentido e expressões anti-regimentais. Devo também ter esquecido alguns itálicos e maiúsculas. Paciência! Esse há de ser o motivo de um futuro “convite”.
Levanto-me, decidida, arregalo os olhos para disfarçar o choro, prendo a respiração e me dirijo ao gabinete. Vou logo explicando:
— Desculpe-me, estou nervosa...
Ele se surpreende com o meu estado:
— Você está com algum problema?
— É que... Quando eu sei que vou receber uma bronca, eu começo a chorar... Não consigo me controlar, sou assim desde criança... - e lhe conto uma parte da minha vida.
Ele ouve, atencioso, mas não se desvia do assunto principal:
— Eu a chamei porque... bem, estou pensando em deixar a Coordenação e... gostaria de convidá-la para me substituir. Você aceita?- Na verdade, como fiquei sabendo depois, eu era a sua última esperança, pois ninguém queria o cargo.
— Eu? - pergunto, surpresa.
— Sim, - ele confirma, calmo, sem deixar transparecer o desespero. E passa a enumerar as vantagens da posição: sala própria, dispensa do ponto, convites para vernissages...
— Mais alguma? - eu o encorajo, enquanto analiso a proposta.
Ele pensa bem e o rosto se ilumina ao completar:
— Ah! E a vaga privativa, é claro.
— Privativa?
— É, só sua, a 100 metros da portaria do Anexo II, e com sombra à tarde. N° 99.
É o que falta para me convencer: não agüento mais esperar uma vaga na longa fila do Anexo IV e andar um quilômetro, ida e volta, de segunda a sexta. Além disso, 9 é o dia do meu aniversário e, por extensão, o meu número da sorte. Em dobro, então!...
— Aceito. - Sorrimos e apertamo-nos as mãos, ambos aliviados.
— Ainda bem que você chegou chorando, mas sai sorrindo! - ele diz, gentilmente.
— É mesmo, - eu concordo, com o pensamento longe, exatamente a 100 metros da portaria do Anexo II.
No dia seguinte, tem início o meu treinamento e, em duas semanas, assumo minha vaga pr..., quero dizer, meu cargo de Diretora de Coordenação.
No dia 1° de março de 2006, ao completar 21 anos de serviço público, é com grande emoção que vejo a cancela do estacionamento se abrir para mim e é com lágrimas de felicidade que estaciono pela primeira vez na minha, na totalmente-minha vaga privativa n° 99!


(Velhota, eu?, Thesaurus Editora, 2007)

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